quarta-feira, 25 de abril de 2012

Balelas de Olavo de Carvalho: árabes, africanos e europeus


         Olavo de Carvalho, “filósofo e jornalista sem diploma”, é uma das maiores celebridades conservadoras da Internet, na qual constantemente se queixa da falta de reconhecimento institucional e produz teorias da conspiração em doses generosas.  Previsivelmente, em boa parte de seus artigos os muçulmanos ocupam o papel de vilões, de ameaça constante à civilização ocidental.  Todavia, no afã de combater o “inimigo”, ele não economiza disparates e juízos de valor que mais caberiam ao chefe de uma torcida organizada. Refratário a Barack Obama, a quem acusa alternadamente de ser muçulmano, comunista e queniano, Olavo emitiu a seguinte pérola em texto de 2008:         


O Islam, religião que ele herdou do pai e da qual obteve sua primeira educação na Indonésia, é a cultura mais escravagista dos últimos dois milênios.

Deixemos Obama em paz para investigar o mérito da questão.  Faço uso das estatísticas mais confiáveis segundo Paul Lovejoy[1], um dos mais categorizados especialistas no que se refere ao tráfico.  Pela soma das tabelas 2.1 e 2.2, temos cerca de 7,22 milhões de escravos africanos enviados para o mundo muçulmano entre 650 e 1600.  Acrescendo a estes números mais 2,2 milhões no período entre 1600 e 1800 (tabela 3.7), os 347 mil levados para Arábia, Pérsia e Índia no século XIX (partindo do duvidoso princípio de que o tráfico para a Índia só envolvia muçulmanos) e admitindo para a região saariana, também no Oitocentos, o 1,2 milhão da tabela 7.1 (mais abaixo), chegaremos a um total próximo a 11 milhões, em aproximadamente 1.250 anos.   
     


Verifiquemos agora as cifras do comércio negreiro empreendido pelos europeus.  O número de africanos que cruzou o Atlântico entre 1500 e 1800 é calculado em 7.766.000.  Nestes trezentos anos, portanto, o total excede o do tráfico muçulmano nos novecentos e cinquenta anos entre 650 e 1600.  Acrescentando a estimativa de 3.466.000 relativa ao século XIX, são mais de 11 milhões, não computando a área periférica das Ilhas Mascarenhas, colonizadas pela França, e o tráfico português do século XV [2].  Na melhor das hipóteses para Olavo de Carvalho, o quadro seria de um tenebroso empate técnico.  Analisando mais friamente, concluiremos que a transferência de mais de 6 milhões de homens e mulheres da África para a América, somente no século XVIII, é um processo sem paralelo na História, que não pode ser minimizado ou justificado.    
  

               Sigamos com os absurdos do exótico guru.  Em setembro de 2009, Olavo de Carvalho denunciava uma hecatombe de enormes proporções:   


Foram os árabes que os destruíram, na sanha de tudo islamizar à força. Boa parte da região que vai desde o Marrocos, a Líbia, a Argélia e o Egito até o Sudão e a Etiópia era cristã até que os muçulmanos chegaram, queimaram as igrejas e venderam os cristãos como escravos.

             Chegando à África do Norte, os árabes conquistaram efetivamente ao Império Bizantino a área que hoje se estende do Egito ao Marrocos. O genocídio generalizado dos cristãos, por sua vez, fica restrito aos delírios de Olavo.  O historiador Albert Hourani (1915-1993), britânico filho de libaneses cristãos, deixa claro não apenas que o domínio bizantino era visto como inconveniente para muitos do que não eram de origem grega, como também que os islâmicos toleraram o culto de “vários grupos cristãos[3]”.  A existência da numerosa minoria copta no Egito contemporâneo, na verdade, já seria suficiente para desacreditar tamanha bobagem.
       Pela leitura de Ricardo da Costa, nota-se que a invasão muçulmana da Península Ibérica, no início do século VIII, contou com o apoio logístico de nobres visigodos insatisfeitos com o resultado das recentes disputas pela sucessão do trono[4].  É inconcebível que o fizessem se o precedente, na vizinha África do Norte, fosse um banho de sangue.

  

       Para arrematar, registro que o historiador português José Hermano Saraiva, prestador de bons serviços ao salazarismo, descreve a dominação islâmica em Portugal como uma época de tolerância religiosa, sem qualquer menção à "queima de igrejas” ou processo semelhante[5]:


          No mesmo texto, Olavo retorna ao tráfico apenas para deixar claro que, quando desconhece um determinado assunto, fabrica dados aleatoriamente:  

se os europeus trouxeram para as Américas algo entre doze e quinze milhões de escravos, os mercadores árabes levaram para os países islâmicos aproximadamente outro tanto, com três diferenças: (1) foram eles que os aprisionaram - coisa que os europeus nunca fizeram, exceto em Angola e por breve tempo –

        Lamento decepcionar as olavetes.  É óbvio que o tráfico "consentido" para o Ocidente superou em muito a captura direta, pois não haveria meios para apanhar mais de 11 milhões de pessoas a laço em menos de quatro séculos.  Porém, o insuspeito Charles Boxer (1904-2000), oficial do serviço secreto britânico, nos ensina que antes da metade do século XV, quando os europeus ainda não haviam chegado a Angola, os portugueses já promoviam razias em busca de escravos na África Ocidental e nas Ilhas Canárias[6]. 





        Quanto ao tráfico islâmico, valem as mesmas afirmativas.  Houve aprisionamento direto, bem como comércio institucionalizado.  Sobre este último, o especialista brasileiro Alberto da Costa e Silva revela que o Egito muçulmano do século VIII era abastecido “pacificamente” de mão de obra cativa pelos Estados cristãos da Núbia, que, formalmente tributários do Islã, não deixavam de ter ganhos com este tipo de transação[7].  Em resumo: para os traficantes, o que importava era arrebatar a “carga” desejada, empregando os métodos que estivessem ao seu alcance.  Tentar hierarquizá-los segundo o credo é completamente ridículo.  


                 Não obstante a ignorância já demonstrada, Olavo até consegue ter razão em uma de suas acusações ao Islã:

(3) continuaram praticando o tráfico de escravos até o século XX.

                    Existem muitas referências à escravidão em terras muçulmanas no século XX.  O que não se compreende é o triunfalismo pró-europeu do veterano reacionário, visto que a França e a Inglaterra, nações listadas no rol das mais civilizadas, toleraram o cativeiro em seus domínios africanos até tempos inimagináveis para a maior parte do público ocidental, conforme dados também expostos por Paul Lovejoy[8].




                     Como o que começa mal tende a terminar ainda pior, Olavo de Carvalho não se esquece de anexar mais um item à conspiração gramsciana mundial: 

O escravagismo árabe foi assunto proibido por muito tempo, mas o tabu pode-se considerar rompido desde que a editora Gallimard, a mais prestigiosa da Franca, consentiu em publicar o excelente estudo do autor africano Tidiane N'Diaye, Le Genocide Voilé (2008), que comentarei outro dia.

                Sou forçado à pergunta: de onde Olavo faz nascerem tantos palpites sem nexo?   Pelas referências contidas nas tabelas aqui exibidas, percebemos que vários autores quantificaram, nas décadas de 1970 e 1980, o tráfico islâmico.  No Brasil, há vinte anos, Alberto da Costa e Silva já descrevia, a partir de seus estudos africanos, muito sobre a escravidão entre os muçulmanos.  Onde existe o tal tabu? Na Virgínia, terra do auto-exílio de Olavo de Carvalho?
                   Olavo pretende ser a grande cabeça pensante da direita brasileira.  Pena que não é.  O socialismo se concretizaria amanhã!      






[1] Ver Paul Lovejoy.  A escravidão na África: uma história de suas transformações.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, pp. 61, 108 e 235.  
[2] Idem, pp. 90 e 217.
[3] Ver Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 40.
[4] Cf. Ricardo da Costa.  A guerra na Idade Média.  Rio de Janeiro: Edições Paratodos, 1998, p. 64.
[5] Ver José Hermano Saraiva.  Breve história de Portugal.  Lisboa: Bertrand, 1989. p. 17.
[6] Ver Charles R. Boxer.  O império marítimo português (1415-1825).  Lisboa: Edições 70, 2001, p. 41.
[7] Cf. Alberto da Costa e Silva.  A enxada e a lança: a África antes dos portugueses.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Edusp, 1992, p. 217.
[8] Cf. Paul Lovejoy.  Op. cit, pp. 366 e 389.



sábado, 21 de abril de 2012

Os quarenta mandamentos do reacionário perfeito



          Esta postagem não contém referências bibliográficas ou links para documentos históricos digitalizados. Atrevo-me hoje a invadir, até certo ponto, o terreno do humor. Ainda que o texto seja integralmente de minha autoria, preciso assinalar que contei com a colaboração involuntária de muitos dos direitistas que já conheci: parentes, vizinhos, colegas de escola e de trabalho, desafetos passageiros. Cada um dos tópicos abaixo foi diretamente inspirado nas falas ou nas atitudes de pessoas de carne e osso. Talvez a lista tenha ficado longa demais, mas fiz questão de reconstituir em boa extensão o programa não-escrito do reacionarismo. Temos, na realidade, um antiprograma: no Brasil, país com índice de Gini acima de 0,50, todos deveriam descumpri-lo por completo e com paixão.

1-Negue sistematicamente a existência de qualquer conflito de classe, gênero, etnia ou origem regional ao seu redor, mesmo que o problema seja evidente até aos olhos do turista mais desatento. Afinal, sempre nos foi ensinado que a sociedade é um todo harmônico.

2-Não sendo possível negar o conflito, pela sua extensão, tente convencer seu interlocutor de que ele é limitado, reduzido a alguns focos ou induzido por estrangeiros perversos, mas que logo tudo voltará à tranquilidade costumeira.

3-Sendo impossível negar que o conflito é vasto e presente em quase toda parte, tome o partido dos mais poderosos. Afinal, eles representam a ordem, que deve ser mantida a qualquer custo.

4- Manifeste sua contrariedade diante de qualquer estatística que aponte para uma tendência de aumento da massa salarial. É inadmissível que os abnegados empreendedores sejam constrangidos a margens de lucro menores.

5-Demonstre contrariedade ainda maior quando notar que filhos de operários, camelôs e empregadas domésticas estão frequentando universidades. Prevalecendo esta aberração, que vai limpar o vaso sanitário para seu filho daqui a vinte anos?

6-Repita mil vezes por dia, para si mesmo e para os outros, que esquerdismo é doença, ainda que faça parte de uma classe média de orçamento curto, mas que, em estranho fenômeno psicológico, se enxerga como parte da melhor aristocracia do planeta.

7-Atribua a culpa pelos altos índices de criminalidade aos migrantes vindos de regiões pobres e imigrantes de países miseráveis. Estas criaturas não conseguem nem reconhecer a generosidade da sociedade que os acolhe.

8-Associe, sempre que possível, o uso de drogas a universitários transgressores e militantes de esquerda, mesmo sabendo que o pó mais puro costuma ser encontrado nas festas da “boa sociedade”. É necessário ampliar ou pelo menos sustentar o nível de reacionarismo da população em geral.

9- Tente revestir seu conservadorismo com uma face humanitária, reivindicando o direito à vida de todos os fetos, ainda que, na prática, vá pagar um aborto caso sua filha fique grávida de um indesejável, e seja favorável ao uso indiscriminado de cassetete e spray de pimenta contra os filhos de indesejáveis já crescidos.

10- Assuma o partido, em qualquer querela, daquele que for mais valorizado socialmente. Não é prudente que os “de baixo” testemunhem quebras de hierarquia, nem nos casos de flagrante injustiça.

11- Tente justificar, em qualquer ocasião, os ataques militares da OTAN contra países da Ásia, África ou da América Latina, mesmo que estes não representem a menor ameaça concreta para os agressores. Pondere que não é fácil carregar o fardo da civilização.

12- Mantenha assinaturas de pelo menos um jornal e uma revista de linha editorial bem reacionária, para usá-las como argumento de autoridade. Quando suas afirmativas forem refutadas, retruque de imediato com a fórmula “eu sei de tudo porque li o ...”.

13-Nunca se esqueça: se um político socialista ou comunista cometer crimes comuns, isto é da essência do esquerdismo; se os crimes forem cometidos por um político de direita, ele é apenas um indivíduo safado que não merece mais o seu voto.

14- Vista-se somente com roupas de grifes caríssimas, não importando o quanto vá se endividar. Sobretudo jamais seja visto sem gravata por pessoas das classes C, D e E.

15- Nunca perca a oportunidade de discursar a favor da pena de morte quando o jornal televisivo noticiar o assassinato de um pequeno burguês por assaltante ou traficante de favela; se, ao contrário, surgir a imagem de algum rico que passou de carro a 200 km/h por cima de pobres, mude de canal, procurando um filme de entretenimento.

16- Quando ouvir narrativas sobre ações violentas de neonazistas e outros militantes de extrema-direita, minimize a questão. Afinal, eles podem ser malucos, mas contrabalançam a ação da esquerda.

17- Reserve pelo menos uma hora, durante as festas de aniversário de seus filhos, para aquela roda em que alguns contam piadas sobre padeiros portugueses burros, negros primitivos, judeus e árabes sovinas, gays escrachados e índios canibais. É necessário, para reforçar a coesão da comunidade burguesa “cristã-velha”!

18- Quando forçado a conversar com pobres, tente parecer um grande doutor, empregando seguidamente expressões estrangeiras; se um subalterno for inconveniente ou falar demais, dispare sem hesitar: “Fermez la bouche!” .

19- Seja sócio de um clube tradicional, ainda que falido, e se possível ocupe uma de suas diretorias, mesmo que totalmente irrelevante. Manifeste-se sempre contra a entrada no quadro social de emergentes sem diploma e outros tipos sem classe.

20- Jamais ande de trem ou de ônibus. É a suprema degradação, comparável somente a ser açougueiro na sociedade absolutista.

21- Obrigue todo empregado doméstico que venha a cair sob suas ordens a comprar uniforme e usá-lo diariamente, impecavelmente lavado e passado. Afinal, para que serve o salário mínimo?

22-Jamais escute música baiana de qualquer vertente, samba, forró ou cantores sertanejos. Uma vez flagrado, sua reputação de homem civilizado estaria arruinada.

23-Pareça o mais alinhado possível com o liberalismo do século XXI. Tendo preguiça de se dedicar a textos complexos, leia pelo menos “Não somos racistas”, de Ali Kamel, e o “Manual do perfeito idiota latino-americano”. Passará como intelectual para pelo menos 90% da juventude de direita.

24- Morra virgem, mas nunca apresente como esposa, noiva ou namorada uma mulher que não caiba no estereótipo da burguesa cosmopolita, porém comportada.

25- Faça eco aos discursos dos octogenários conservadores que constantemente repetem a fórmula “no meu tempo não era assim”, mesmo que saiba sobre inúmeras falcatruas e atrocidades “do tempo deles”. Quanto mais perto do Império e da República Velha, mais longe da contaminação esquerdista!

26- Passe sempre adiante, para parentes, amigos e conhecidos, notícias forjadas na Internet, no estilo “Todas as mulheres de uma cidade do Ceará se recusaram a trabalhar numa fábrica de sapatos, porque já recebiam o bolsa-família”. Não importa se é impossível que qualquer pessoa com mais de quatro neurônios ativos acredite que uma cidade inteira tenha recusado um salário de pelo menos seiscentos reais por achar que vive bem com um auxílio de cento e cinquenta.

27- Repasse, igualmente, juízos de valor negativos sobre personalidades de esquerda, na linha “Michael Moore é mentiroso”, “Chico Buarque é um comunista hipócrita que vive no luxo”, “Dilma foi terrorista”, etc. É preciso dar continuidade à teatral associação entre reacionarismo e moralidade.

28-Diante de qualquer texto ou discurso de esquerda, classifique-o imediatamente como doutrinação barata ou lavagem cerebral. Não importando sua eventual ignorância sobre o tema, é preciso fechar todos os espaços à conspiração gramsciana mundial.

29- Sustente a surrada versão de que “apesar dos erros, os milicos salvaram o Brasil do comunismo em 1964”. Desconverse mais uma vez se alguém perguntar como se chegaria ao comunismo através da provável eleição de Juscelino Kubitschek em 1965.

30- Deprecie ao máximo mexicanos, chilenos, peruanos, paraguaios, bolivianos, colombianos e demais hispânicos como caboclos de cultura atrasada. Abra exceção para argentinos ricos filhos de pais europeus, desde que estes se abstenham de chamá-lo de macaquito.

31- Defenda o caráter sagrado da propriedade rural. Quando alguém recordar que as terras registradas nos cartórios do estado do Pará equivalem a quatro Parás, procure ao menos convencê-lo de que é uma situação atípica.

32- Afirme com veemência que todo posseiro, índio ou quilombola em busca de regularização de terras é vagabundo, mesmo que seus antepassados estejam documentados no local há duzentos anos. Por outro lado, todo latifundiário rico sempre será um proprietário respeitável, ainda que tenha cercado sua fazenda à bala há menos de vinte.

33- Denuncie nas redes sociais os ambientalistas que tentam embargar a construção de fábricas de artefatos de cimento em bairros superpopulosos e de depósitos de gás ao lado de estádios de futebol. Esses idiotas não sabem que nada é mais importante do que o crescimento do PIB?

34- Rejeite toda queixa que ouvir sobre trabalho escravo. É tirania impedir que alguém trabalhe em troca de água, caldo de feijão, laranja mofada e colchão de jornal, se estiver disposto a isto. Deixem a vida social seguir seu curso espontâneo!

35- Quando alguém protestar contra o assassinato de duzentos gays no ano Y, responda que outras quarenta mil pessoas morreram violentamente naquela temporada. Finja que é limítrofe e não entendeu que a cifra se limita aos gays mortos em decorrência desta condição e não aos que tombaram em latrocínios, brigas entre torcidas e disputas armadas por vagas de garagem.

36- Acuse todo movimento constituído contra determinado tipo de opressão de querer promover a opressão com sinal contrário. As feministas, por exemplo, pretendem castrar os machos e colocar-lhes avental para lavar a louça e cuidar de poodles.

37- Enalteça “esportes e diversões” que favorecem o gosto pelo sangue, como arremesso de anões, rinhas de galo, pegas, caçadas em áreas de preservação ambiental, touradas, farras do boi e congêneres. Como já dizia seu patrono oculto Benito Mussolini, “o espírito fascista é emoção, não intelecto”.

38-Procure enxertar referências bíblicas nas suas falas sobre política. Ao defender um oligarca truculento, arremate a obra dizendo algo como “Cristo também jantou na casa do rico Zaqueu”. Tente dar a impressão de que qualquer um que venha a contestá-lo despreza pessoas religiosas.

39-Apresente a todas as crianças que tiver ao seu alcance, antes dos dez anos, o repertório integral de Sylvester Stallone e similares, nos quais o árabe é sempre terrorista, o vietnamita um comunista fanático que jamais tira a farda e o hispano-americano batedor de carteira ou traficante. Tendo a chance, compre também Zulu, para a garotada aprender desde cedo que africanos são selvagens que correm em torno da fogueira sacudindo lanças de madeira.

40- Não permita que a política externa dos Estados Unidos seja criticada impunemente. Nunca se sabe quando o homem de bem precisará de um poder maior e talvez irresistível para defendê-lo do zé povão.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Estado contra o índio: o caso da província de Santa Catarina


         
             As informações que hoje ponho em evidência ferem, em graus variados, três elementos da mitologia sócio-histórica do país: o Império enquanto Idade de Ouro, o brasileiro como homem pacífico ou cordial e a democracia racial.  Vasculhando documentos oficiais da província de Santa Catarina, notamos que ao longo de mais de duas décadas as populações indígenas locais foram sistematicamente representadas, pelos titulares das administrações que se sucediam, como verdadeiros inimigos do Estado.  Esta atitude chega a formar um contraste com o que se verificou em outras regiões do país, nas quais o emprego da violência contra os índios que resistiam à política dos aldeamentos convivia com o apelo à catequese e um discurso voltado para a integração, ainda que através do trabalho subalterno e mal remunerado.  Na escala de valores que emerge dos relatórios catarinenses, o índio não passa de um empecilho à expansão da lavoura.
Presidente de Santa Catarina em 1836, José Mariano de Albuquerque Cavalcanti incumbiu um major da Guarda Nacional de combater os “gentios ferozes” do distrito de Itajaí, missão que acabaria por ser abortada: 
            Sucessor imediato de Albuquerque Cavalcanti, José Joaquim Machado de Oliveira, em seu relatório de 1837, declarou que nada esperava da catequese, diante da natureza dos hipotéticos catecúmenos.  Para os conflitos entre índios e súditos do Império, Oliveira tinha como solução “as correrias contra estas hordas bárbaras”:
            Ocupando a presidência no ano de 1838, o brigadeiro José Carlos Pardal explicitou a orientação estatal de subtrair as terras do sertão “ao domínio inútil de danoso dos selvagens”, entregando-as a lavradores sem terra e colonos imigrados para a província:
            O mesmo Pardal, em 1839, fez menção a um choque entre índios e colonos italianos, se empenhando em apresentar a ação dos primeiros como uma agressão unilateral e covarde.  No mesmo texto, expôs sua intenção de expulsar a população indígena assinalada entre os distritos de Imaruí e Lages.  Sua filosofia era clara: o gentio “infesta”, o colono “povoa”:
            Em 1840, o brigadeiro Francisco Soares de Andréa, que já se distinguira pelas chacinas praticadas na repressão à Cabanagem, na província do Pará, projetava a construção de uma linha de fortificações em Santa Catarina, contra os Botocudos:
            Outro militar, o marechal de campo Antero José Ferreira de Brito, presidente em 1843, festejou a substituição, no vale do rio Itajaí, do “gentio bugre” por colonos que se dedicavam à agricultura:
            No ano seguinte, Brito até admitia a possibilidade de integração do índio à sociedade local, mas sem desprezar a outra alternativa,  a aniquilação:
            Ainda na presidência em 1846, Antero de Brito não escondia que a população indígena era vista pela administração como a principal ameaça à “tranquilidade pública”, e sua eventual invisibilidade um fator de sossego:
            Na temporada de 1847, a Assembleia Provincial tomou ciência de que o destacamento de Pedestres em operação no distrito de Lages continuava a realizar “expedições e picadas com bom resultado”, já que os índios, embora numerosos, não se arriscavam ao enfrentamento com homens munidos de armas de fogo:
            Em 1849, o doutor Severo Amorim do Vale, tendo em vista outros embates entre índios e não-indios, nos quais os primeiros, como de hábito, eram acusados de matar pessoas indefesas de maneira indiscriminada, informou que um tenente-coronel fora escalado para exercer “a vigilância contra os selvagens” em todo o município de São Francisco:
            Quando dissertou, em 1850, sobre as condições em que se encontravam colônias estabelecidas em anos anteriores, João José Coutinho fez registro das reivindicações, por parte dos colonos, de que ali fossem instalados destacamentos, no propósito de repelir os “gentios” ou “bugres”.  Percebe-se, portanto, que, não importando a antiguidade ou a extensão de sua presença, os índios continuavam sendo vistos como invasores.
            Coutinho, ao elaborar um panorama histórico das diversas colônias europeias no relatório de 1851, atribui culpa aos “gentios bravios” pela relutância de algumas famílias alemãs em se estabelecerem nas terras que lhes haviam sido destinadas pelo governo no final da década de 1820:
            Em 1853, o mesmo presidente celebrou o fato de que, sendo a casa do diretor da colônia de Blumenau atacada por índios, estes últimos tivessem fugido sem que houvesse baixas entre os colonos.  A localidade fora guarnecida pela presidência com uma guarda de Pedestres.
            Ainda no cargo em 1856, João Coutinho colocaria outra vez em relevo, como problema de segurança pública, os choques entre indígenas e colonos.  Mantendo conformidade com o padrão deste tipo de narrativa, os “bugres” surgem no relatório, como sempre, matando, fugindo e sendo objeto de buscas pela tropa:
            A partir do final da década de 1850, os índios praticamente desapareceram dos relatórios catarinenses.  Levando em conta a assiduidade das notas anteriores, não creio que o caso seja de negligência.  É bem possível que nas antigas áreas de colonização portuguesa e nos arredores das novas colônias de alemães e italianos tenha ocorrido o processo que em fins do século XX seria denominado “faxina étnica”, com o massacre de uma parte dos povos indígenas e a fuga dos remanescentes para o oeste, ou para as províncias vizinhas do Paraná e do Rio Grande do Sul.
            Com a palavra, os especialistas que queiram se manifestar...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mídia capitalista e direitos indígenas



      Aconteceram no Brasil, nas últimas décadas, contínuos avanços no sentido da regularização das terras sob ocupação indígena.  Sob a influência de profissionais das Ciências Humanas e Naturais, que em vários casos conviveram durante muitos anos com os descendentes das populações pré-colombianas do país, uma parcela expressiva da sociedade deixou de ver o índio como um ser estranho, o selvagem por excelência.  Os múltiplos estilos de vida das comunidades indígenas são hoje reconhecidos como válidos e respeitáveis, ao menos pelas pessoas de orientação progressista.  Não cabem mais, no século XXI, as tradicionais políticas de inclusão forçada via trabalho subalterno, expulsão ou extermínio.
            Todavia, toda aquisição de direitos por segmentos historicamente marginalizados tem como contrapartida, no mínimo, um forte movimento midiático de “denúncia”.  Quando obrigadas pela ação governamental, pela pressão dos movimentos sociais, ou por ambas, a fazer concessões de qualquer natureza, as oligarquias se colocam infalivelmente na posição de vítimas.  Para isto, dispõem da quase totalidade dos meios de comunicação privados existentes no país.
            Considerando a vastidão do tema, me restringirei a uma única situação concreta: a disputa por terras entre índios e fazendeiros do sul do estado da Bahia.  Os porta-vozes destes últimos ostentam na imprensa os títulos de propriedade de seus clientes, nunca colocando em debate, é claro, as circunstâncias em que se produziram tais documentos. Mas não se limitam a isto: uma das estratégias da mídia burguesa contra os índios é a contestação da própria identidade indígena.  Neste campo, variam as linhas argumentativas: às vezes apela-se para os critérios de aparência física; em outros momentos, alega-se que os índios adotam costumes civilizados, sendo assim, na verdade, caboclos. 
            Examinemos dois exemplos: a revista Veja, na edição de 5 de maio de 2010, publicou uma extensa matéria tentando desqualificar por completo o processo de demarcação de terras indígenas e quilombolas.
veja.abril.com.br/050510/farra-antropologia-oportunista-p-154.shtml
Em um dos boxes, sob a foto de um motorista de ônibus com cocar, podemos ler o seguinte trecho:

O baiano José Aílson da Silva é negro e professa o candomblé. Seu cocar é de penas de galinha, como os que se usam no Carnaval. Silva se declarou pataxó, mas os pataxós disseram que era mentira. Reapareceu tupinambá, povo antropófago extinto no século XVII. Ele é irmão do também autodeclarado cacique Babau, que vive em uma área que nunca foi habitada pelos tupinambás. Sua "tribo" é composta de uma maioria de negros e mulatos, mas também tem brancos de cabelos louros.             

            Não temos como averiguar a vida pregressa de José Aílson.  Caso seja realmente mentiroso, está em péssima companhia.  Em 1860, o presidente da Bahia, conselheiro Herculano Ferreira Penna, relacionou os vinte e nove aldeamentos indígenas que existiam na província.  Informando que viviam 5.579 pessoas nestas povoações, Ferreira Penna identificou diversas etnias, entre elas os tupinambás que Veja exterminou no século XVII:
            Como se não bastasse a falta de seriedade no trato com a História, o autor do texto, grosseiramente, quis fazer valer o critério pelo qual só é índio quem guarda perfeita semelhança fenotípica com seus antepassados retratados no início da colonização.  Desta maneira, todo e qualquer cidadão autodeclarado índio poderia ser apontado como impostor, visto não haver notícia de população, em qualquer parte do mundo, que mantenha carga genética idêntica à que possuía há quinhentos anos.  O recurso à imagem do selvagem canibal é simplesmente grotesco.   
            A Época de 27 de novembro de 2009 (revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI105789-15223,00-O+...) não é mais sutil: em reportagem sobre o mesmo tema, fica óbvia a intenção da articulista Mariana Sanches de desqualificar a reivindicação de terras por parte dos tupinambás, apresentando seu líder, o cacique Babau, como um criminoso folclórico.  Com um golpe de sensacionalismo, os índios são transformados em candidatos a latifundiários:

Boa parte dos índios atribui às ações de Babau a finalização, em abril, do relatório da Fundação Nacional do Índio(Funai) que dá aos tupinambás um território de 47.376 hectares. A área se estende da Serra do Padeiro ao litoral baiano e inclui centenas de fazendas, hotéis, cemitério, além de quase metade da Vila de Olivença, uma das primeiras concentrações urbanas do Brasil, em Ilhéus. Se for homologada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que pode acontecer em alguns meses, a reserva indígena dos tupinambás será 43% maior do que a cidade de Belo Horizonte.    

            A redação de Época não ignora, certamente, que 47.376 hectares representam 473,76 km², nem tampouco que números maiores impressionam mais.  É fácil imaginar que alguns desavisados, lendo o trecho destacado, talvez tenham saído pelo mundo afirmando que um punhado de tupinambás receberia uma área maior do que Portugal inteiro.  Mas retornemos aos nossos dados irrefutáveis.  Francisco Xavier Paes Barreto, em sua listagem das aldeias baianas de 1859, faz referência a uma, situada na comarca de Ilhéus, denominada justamente ... Olivença:
            As autoridades competentes devem apurar sempre, obviamente, quantos e quem são os índios, se realmente detêm ou detiveram a posse de todas as áreas reivindicadas, em que condições os demais ocupantes do solo ali se instalaram.  Todavia, tratar a questão como mero processo de apropriação indébita é extremamente desonesto. Para piorar a situação, a grande mídia encontra ressonância em uma verdadeira multidão de blogueiros conservadores, que elegem como seus inimigos todos os movimentos populares.  Na página intitulada Blog do Sarrafo, encontrei esta pavorosa combinação de generalizações absurdas com erros gramaticais primários:

Índios são aqueles que ainda têm seus antecedentes tribais, vivem em aldeias, tem costumes indígenas, vivem do extrativismo, caça, pesca artesanatos. E não falsos índios que moram nas cidades, usam celulares, câmaras digitais, tem costumes civilizados. Esses não são índios, são falsos índios. Índios verdadeiros não invadem e destroem propriedades altamente produtivas, não saquei, não roubam, não mata, não sequestra funcionários públicos federais, e não mantém reféns. Não usa armas de grosso calibre privativa das Forças Armadas. Esses não são índios! São bandidos transvestidos de índios e seu lugar é na cadeia. 

            Caso fosse um pouco mais instruído, o dono do blog, Guy Valério, faria um par perfeito com o conselheiro Joaquim José Pinheiro de Vasconcellos, administrador da Bahia em 1844, que não reconhecia a identidade indígena das pessoas que exibissem, em seus traços fisionômicos, o resultado da mestiçagem biológica.  Para ele, as aldeias ao longo do tempo se convertiam em “povoações de indivíduos de outras castas”:
Felizmente, é possível achar notícias mais fidedignas na própria Internet.  Na Revista de História de 5 de maio de 2010 (www.revistadehistoria.com.br/.../a-parte-que-lhes-cabe-neste-latifund...) foi publicado o parecer da antropóloga Sheila Brasileiro, do Ministério Público, sobre os tupinambás de Olivença:

Eles sabem dizer quando foram expulsos de áreas nas quais não estão hoje. Sabem, por exemplo, nomear árvores frutíferas que foram plantadas por seus avôs. Existe um reconhecimento de que aquela terra já foi do grupo”, garante. Segundo ela, o juiz Pedro Holiday poderia estar agindo sistematicamente a favor dos interesses dos fazendeiros. Ele não reconhece qualquer caso que envolva movimentos sociais e vê a propriedade de terra como algo sagrado; afinal, também tem fazenda no Espírito Santo.                      

            Identificamos na breve narrativa de Sheila a permanência de velhas práticas.  Quando administrava a Bahia, no distante ano de 1847, Antônio Inácio de Azevedo admitiu, fazendo referência a índios há muito aldeados, que “suas terras andam usurpadas pelos poderosos do lugar”. 
            Sucessor imediato de Azevedo, João José de Moura Magalhães observou que os índios sob a tutela da província não recebiam qualquer instrução, dependendo da lavoura de subsistência e de serviços mal pagos prestados a particulares:
            Negligente nas benesses, o Estado imperial nada devia ao republicano no que se refere à repressão.  João Maurício Wanderley, depois barão de Cotegipe, faz jus à sua fama de político dos mais reacionários do período em seu relatório de 1855, no qual mencionou conflitos entre índios e não-índios nas regiões vizinhas aos rios Pardo e Jequitinhonha e à vila de Prado. Wanderley apreciava, então, duas possibilidades de futuro para os indígenas não-integrados: a “domesticação” e a extinção pura e simples:
            Consultando a lista dos aldeamentos de 1879, apresentada por Antônio de Araújo Aragão Bulcão, vemos que quase trinta localidades ainda mantinham aquele status.    Somente nas municipalidades de Porto Seguro e Caravelas havia seis delas, para desgosto dos que acreditam que os pataxós são índios falsos: 
            Outros relatórios nos comprovam que a população indígena externa aos aldeamentos também estava longe de ser estatisticamente desprezível.  Presidente da Bahia em 1856, Álvaro Tibério de Moncorvo e Lima deixou registro de que os índios não-aldeados eram capazes de mobilizar forças consideráveis.  Segundo ele, “300 selvagens”, vindos das “matas do rio do Prado” haviam tomado as plantações do fazendeiro Manoel Caetano de Castro:
            No ano seguinte, João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu promovia negociações para a criação de mais um aldeamento, para os mesmos índios do rio do Prado, que definiu enquanto “uma tribo numerosa”:
            Um segundo indício de que os índios baianos conservavam importância demográfica no conjunto da província é fornecido, em 1866, pelo barão de São Lourenço.  Este presidente considerava a catequese uma política importante para a Bahia, tendo em vista a “necessidade de braços para a lavoura”.  Entretanto, como bom representante da classe senhorial, se dizia favorável à extinção da maioria dos aldeamentos, sob o pretexto de que seus patrimônios eram mal administrados:
            Estive no estado da Bahia uma única vez, em 1986, e nunca pisei em um arquivo baiano.  Coletei as informações aqui expostas em poucos minutos de busca no site da Universidade de Chicago.  Calculo, portanto, com que facilidade um especialista na documentação regional sobre os índios pode destroçar o “conteúdo” das matérias mal construídas que recheiam as publicações superficiais destinadas à classe média conservadora.  É preciso fazê-lo.  Uma tarefa das mais urgentes para a esquerda brasileira é construir uma rede nacional de informações, tão ampla e articulada quanto possível, e eficaz no desmonte da obtusa mídia oligárquica.  Fico aguardando no começo da fila.  




           

sábado, 14 de abril de 2012

Um pouco de geopolítica imperial: os mapas de Samuel Huntington


               Retorno ao livro O choque de civilizações, de Samuel Huntington, e mais precisamente a seus mapas, complementares às posições teóricas defendidas na obra.  Logo abaixo, vemos uma projeção sobre a composição étnica da população norte-americana em 2020, perfeita ilustração da visão etnocêntrica que Huntington não se empenha em esconder.  O contingente branco é ideologicamente oposto não somente aos "estrangeiros" supostamente mal integrados de origem latina e asiática, mas também aos afro-americanos e "nativos-americanos", sem distinções:     



           
           Segundo o autor, os Estados Unidos são ameaçados pelo multiculturalismo, que se caracteriza pela afirmação e valorização, em seu território, de identidades étnicas e culturais não-ocidentais[1].  O principal foco das preocupações de Huntington é a perspectiva, colocada para a primeira metade do século XXI, de uma elevação do percentual de hispânicos na sociedade americana para um patamar próximo de 25%, acompanhada pela redução dos brancos para cerca de 50%.  Diante destes números, ele afirma sem rodeios que

Enquanto os muçulmanos representam o problema imediato para a Europa, os mexicanos representam tal problema para os Estados Unidos[2].         

A apresentação de dois outros mapas, em sequência, sugere uma tentativa de induzir o leitor ocidental (entendendo-se por Ocidente o conjunto formado pela Europa católica e protestante, América Anglo-Saxônica, Austrália e Nova Zelândia) a sentir desconforto diante de uma drástica redução, em apenas quarenta anos, dos espaços pertencentes à sua civilização; na verdade, o que visualizamos são consequências políticas do salutar processo de descolonização da África, da Ásia e das últimas possessões europeias na América.





          
          A imagem “O Mundo da Guerra Fria: 1960” é repleta de contradições reveladoras.  São classificados como parte do Mundo Livre, na Europa, Portugal e Espanha, sujeitos às ditaduras salazarista e franquista, respectivamente.  Ficam de fora dele, aparentemente por não terem aderido à OTAN, Suíça, Áustria, Suécia e Finlândia, nações que superariam a Península Ibérica, sem dúvida, em qualquer quesito dentro do tema liberdade.
   Na América, Belize, Guiana Francesa e Ilhas Malvinas integram o Mundo Livre, talvez pelo mero fato de ainda estar subordinadas diretamente às antigas metrópoles.  Todavia, o Brasil, onde havia eleições multipartidárias desde 1946, é excluído, integrando o imenso e nebuloso bloco de “países não alinhados”, ainda que, desde o governo Dutra (1946-1951), existisse um nítido alinhamento do Estado brasileiro com o mundo capitalista.  O mesmo se verifica em relação a outros países latino-americanos como Chile, Costa Rica, México e Uruguai, nos quais a eleição de governantes pela via direta predominava há várias décadas sobre as tendências ditatoriais.
            O esquema se torna mais incoerente quando voltamos o olhar para a Ásia.  Seríamos forçados a aceitar que o Mundo Livre tinha entre seus membros o truculento regime do xá Reza Pahlavi, no Irã, bem como o Vietnã do Sul, que passara do domínio colonial francês à ditadura de Ngo Dinh Diem.  A Tailândia, sob governo militar que suprimira a Constituição, lhes faria companhia, ao contrário da Índia, na qual se consolidava, apesar dos conflitos étnicos e religiosos, uma democracia parlamentarista.
            Finalmente, numa África em que dezenas de países recém-autônomos estruturavam seus governos, ao passo que os governadores coloniais voltavam para casa, o território da liberdade estaria limitado,  conforme as crenças da geopolítica conservadora, a um grupo muito seleto: Angola e Moçambique, colônias de Portugal, metrópole há décadas sob o autoritarismo de Salazar; Namíbia, sob ocupação militar sul-africana; Lesoto e Suazilândia, reinos interiores cuja economia dependia totalmente do poderoso vizinho; e, obviamente, a própria sede do apartheid: a África do Sul, em que não apenas os negros (mais de 77% da população em 1951), como também os coloureds (6,7%), estavam totalmente privados dos direitos políticos[3].      
            Samuel Philips Huntington teve inserções destacadas, no seu país, em duas gestões democratas: assessor de Lyndon Johnson no final dos anos 60, defendeu os bombardeios contra a população civil vietnamita, como tática para enfraquecer os vietcongs; na presidência de Jimmy Carter, foi diretor de Planejamento de Segurança do Conselho de Segurança Nacional.  Atualmente, entretanto, seu pensamento encontra maior ressonância entre os republicanos.  As teses de Huntington sobre política externa tiveram boa acolhida no governo de George W. Bush.  Seu nativismo WASP não destoa muito, apesar das diferenças de estilo, do movimento Tea Party e do líder ultradireitista Newt Gingrich.
            Não sou fã de Barack Obama e não endossei nenhuma das numerosas campanhas de apoio à sua primeira candidatura à presidência que pude presenciar pela Internet.  Também penso que, ao contrário do que afirmam seus detratores à direita, Obama cumpre com eficiência a agenda imperial, e sem mostrar desconforto.  Contudo, a mera possibilidade de retorno dos republicanos à Casa Branca me embrulha o estômago.
                
                






[1] Ver Huntington, pp.388/389.


[2] Idem, p. 256. 

[3] Ver Elikia M’Bokolo.  As práticas do apartheid.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 546.   

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Estado norte-americano e sua obsessão por Cuba: a consolidação de uma república tutelada (século XX)


     
         Estabelecendo controle militar sobre Cuba após a vitória sobre a Espanha, os americanos mantiveram, no essencial, o antigo status quo.  As autoridades espanholas conservaram seus cargos. Os interlocutores oficiais das tropas de ocupação eram, basicamente, os elementos mais ricos do setor comercial e dos grupos de exilados que retornavam à ilha vindos da Flórida e de Nova York.  Os soldados cubanos que haviam lutado pela independência se viram desprezados, bem como a população negra de modo geral.  Uma das medidas adotadas pela administração americana foi a recriação de uma força paramilitar, a Guarda Rural, que já existira durante o domínio espanhol, estruturando-a segundo critérios segregacionistas: quase todos os oficiais eram brancos[1].
            O presidente McKinley escalou para coordenar o futuro de Cuba seu secretário da Guerra, Elihu Root, a quem cabia facilitar a sonhada anexação.  Root compartilhava com o general Leonard Wood, comandante militar em Havana, a ideia de que pela combinação de um sufrágio limitado com fraudes eleitorais haveria boas possibilidades de sucesso.  Assim, para as eleições que se realizaram em 1900, com vistas ao preenchimento de cargos municipais e à formação de uma Assembleia Constituinte, os americanos impuseram como condições para o voto a alfabetização e a propriedade de bens com valor acima de 250 dólares.  Somente os ex-participantes da luta armada pela descolonização estavam dispensados da cláusula patrimonial[2]. 
            Entretanto, duas das correntes políticas que se apresentaram no processo eleitoral, os republicanos e os nacionalistas (estes apoiados por Máximo Gómez) defendiam a tese da independência imediata, e prevaleceram sobre os unionistas democráticos, que desejavam a anexação.  Apesar da derrota, Elihu Root registrou com satisfação que os negros haviam sido excluídos em larga margem do eleitorado.  Sua visão era semelhante à da direção do jornal New York Times, que publicou na edição de 7 de agosto de 1899 a seguinte manchete:

Cuba pode ser outro Haiti.  O resultado do sufrágio universal seria uma república negra.  Os negros podem ganhar a primeira eleição[3].

            Antes de concederem uma soberania parcial a Cuba, os Estados Unidos pressionaram a Assembleia Constituinte cubana no sentido de referendar a emenda apresentada por Orville Platt no Congresso norte-americano em fevereiro de 1901.  Pela Emenda Platt, que vigorou até 1934, ficava estabelecido que os Estados Unidos teriam as prerrogativas de vetar quaisquer tratados internacionais assinados por Cuba, construir bases militares na ilha, impedir que um terceiro país o fizesse e supervisionar as finanças cubanas, entre outras exigências.  O acordo desigual permitiu a criação da base americana de Guantánamo (ainda hoje em operação) e as intervenções militares ocorridas de 1906 a 1909, em 1912 e de 1917 a 1923[4].
            Tomás Estrada Palma, postulante único e vencedor das eleições de dezembro de 1901, tornou-se presidente de Cuba em 20 de maio de 1902, dia em que recebeu o governo do general Wood.  Bartolomé Masó, um severo crítico da Emenda Platt, chegou a colocar sua candidatura, mas retirou-a depois que Wood nomeou para supervisionar a disputa uma comissão eleitoral composta por adeptos de Estrada Palma.  Este último seria, quatro anos mais tarde, o primeiro governante cubano a solicitar a presença dos marines em seu próprio país.  Diante da evidência de que as fraudes eleitorais assegurariam uma vitória dos republicanos (partidários do presidente, que buscava a reeleição), os liberais, então na oposição, abandonaram o pleito de dezembro de 1905.  Porém, em agosto do ano seguinte, promoveram uma rebelião armada que envolveu cerca de 24 mil homens.  Favoráveis a Estrada Palma, as oligarquias de Havana apelaram à intervenção americana, utilizando mais uma vez o argumento racial, já que os negros eram numerosos nas fileiras inimigas.  Atendendo aos pedidos, Theodore Roosevelt enviou a Cuba, além das tropas, Charles Magoon, advogado de Minnesota que atuaria ao longo de três anos, na prática, como um governador colonial[5].
            Naquele tempo, já vigorava o princípio que ficou conhecido como “corolário Roosevelt da doutrina Monroe”: em discurso de 6 de dezembro de 1904, o presidente americano declarou que os Estados Unidos poderiam recorrer ao “ataque preventivo” contra Estados incapazes de preservar a ordem interna ou de saldar seus compromissos financeiros.  Segundo Roosevelt,

Qualquer país ou povo que se comporte bem, pode contar com nossa amizade cordial.  Se a nação demonstra que ela sabe agir com razoável eficiência e decência nos assuntos sociais e políticos, se ela sabe manter a ordem e paga suas dívidas, ela não precisa ter medo da interferência dos Estados Unidos.  Um mau comportamento crônico, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços de civilidade social podem requerer, na América ou em qualquer outro lugar do mundo, a intervenção de alguma nação civilizada, e no caso do Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos a exercer um poder policial internacional, mesmo que seja relutantemente[6].  
  
            Durante a segunda ocupação, foi organizado um exército cubano e criaram-se novas regras eleitorais, tudo sob a batuta do coronel Enoch Crowder (1859-1932), oficial formado na Academia de West Point que tinha em seu currículo combates contra os chefes indígenas Jerônimo (apache) e Touro Sentado (sioux).  Nas eleições regionais organizadas por Crowder em agosto de 1908, triunfou o Partido Conservador, formado basicamente pelos ex-republicanos de Estrada Palma.  Entretanto, na disputa pela presidência, em novembro do mesmo ano, venceram os liberais, que conduziram ao cargo José Miguel Gómez (1858-1921)[7].  É preciso assinalar que, enquanto quase todos os sobreviventes das guerras pela independência se reuniam no Partido Liberal, os conservadores, vistos com mais simpatia pelos Estados Unidos, agregavam outros interesses, inclusive dos que se mostraram, até o momento derradeiro, ligados à metrópole espanhola[8].
            A desunião dos liberais, em 1912, permitiu aos conservadores a retomada do poder com Mario García Menocal (1866-1941), que foi reeleito e governou até 1920.  A elevação temporária dos preços do açúcar, no decorrer da Primeira Guerra Mundial, favoreceu uma escalada da corrupção entre os dirigentes cubanos. Assumindo a presidência após Menocal, que apoiou sua candidatura, o liberal dissidente Alfredo Zayas (1861-1934) se viu obrigado a enfrentar uma grave crise inflacionária.  Chamado oficialmente para ajudar a debelar os problemas administrativos, Crowder, agora general, retornou a Cuba na qualidade de chefe de uma missão de assessoria.  Como resultado, empresas americanas lograram, nos anos que se sucederam, ampliar a porcentagem que detinham das plantações cubanas[9].
            Nas eleições presidenciais cubanas de 1924, saiu vitorioso o general Gerardo Machado (1871-1939), ex-diretor em Havana da General Electric Company, um liberal que, sendo inicialmente adversário de Zayas, acabou por obter o apoio de seu antecessor[10].  Ex-açougueiro nascido numa família de ladrões de gado e antigo recruta das guerra de independência, Machado, que fora antes prefeito de sua cidade natal, Santa Clara, vice-comandante das Forças Armadas e ministro do Interior, contava com o apoio de seu poderoso patrão nas campanhas eleitorais[11].
                         
                     


[1] Cf. Richard Gott.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, pp. 125 a 127.
[2] Idem, p. 129.
[3] Ibidem, pp. 129/130.
[4] Ibidem, pp. 131 a 133.
[5] Ibidem, pp. 134 a 138.
[6] Ver José Luís Fiori.  O poder global dos Estados Unidos: formação, expansão e limites.  In: O poder americano/org. José Luís Fiori.  Petrópolis: Vozes, 2007, pp. 78/79.
[7] Ver Gott, pp. 138/139.
[8] Ver Tulio Halperin Donghi.  História da América Latina.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975, p. 202.
[9] Idem, p. 203.
[10] Ibidem, p. 203.
[11] Cf. Gott, pp. 152/153.