quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Era uma vez a princesa que nunca teve escravos...


          
        A construção sistemática da imagem de uma Princesa Isabel heroína, em contraposição ao Zumbi dos Palmares cruel, não é exatamente uma estratégia nova dos ideólogos da direita brasileira.  Este discurso serve como poucos à manutenção da premissa de que as conquistas sociais resultam, ou devem resultar, de concessões vindas "do alto" e não das lutas do povo, tido como violento, vingativo e ignorante até dos próprios interesses.  O enaltecimento da Santa Isabel da Lei Áurea, portanto, convém não apenas às seitas cujos membros anseiam pelo improvável dia em que beijarão a mão de um chefe de Estado hereditário e vitalício, como também a alguns liberais sofisticados que muito se divertiriam, na intimidade, com os aspectos caricatos de um Terceiro Reinado.  O processo mencionado assumiu proporções inusitadas nos últimos anos, a partir da difusão da bibliografia dita "politicamente incorreta", que se caracteriza, entre outros defeitos, por uma singular ojeriza aos métodos científicos.  Já vulgares desde a origem, certas teses se desdobram na Internet em vulgarizações ainda piores.   
        As "narlocadas" e "kameladas" dos livros degeneram, por exemplo, em montagens como esta:     




         As mensagens breves e diretas, com forte apelo à emoção e nenhum à razão, deixam claro que se trata de uma ordinária peça de propaganda, de formação de opinião no sentido do conservadorismo.  Apesar de sua puerilidade, talvez em parte por causa dela, o quadro se alastrou com rapidez pela blogosfera e pelas redes sociais, como notamos nos links abaixo, entre grande número de possibilidades:   

http://homemculto.com/tag/princesa-isabel/
http://ferramula3.blogspot.com.br/2013/11/consciencia-lucida.html
http://www.bazingaonline.net/2013/11/uma-verdade-sobre-o-dia-da-consciencia.html
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/11/zumbi-e-o-dia-da-consciencia-negra.html

               
        Neste artigo, me limitarei à afirmativa inicial, a que mais contradiz dados factuais elementares:

[A Princesa Isabel] Nunca possuiu escravos.

      Não há como sustentar uma mistificação tão grosseira, pois qualquer pessoa bem informada sobre o Império do Brasil, ainda que "leiga", sabe que a Casa de Bragança dispôs da força de trabalho de muitos cativos, denominados "escravos da Nação". Assinalo, em antiga obra de um autor confessadamente monarquista e ferrenho entusiasta da figura de D. Pedro II, a seguinte passagem:

Mas a festa maior, esta só aconteceria no dia 10 de outubro, na Fazenda Nacional de Santa Cruz, lugar de concentração do maior dos contingentes de escravos da Nação espalhados pelo Brasil inteiro, ao aparecerem nela a Princesa Isabel e o Conde d'Eu e Rio Branco e todos os seus ministros, a fim de que presentes estivessem no instante em que o seu diretor, o Dr. José Saldanha, dissesse a todos eles:
-Escravos, agora, para vós, esta palavra não mais existe! Livres estão agora todos os escravos da Nação!¹

       Brasil Gérson se referia aos acontecimentos que se seguiram à promulgação da Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871.  Basta ser alfabetizado, então, para compreender que a família imperial ainda era dona de escravos trinta e um anos após a ascensão de Pedro II ao trono, ocorrida em 1840. Desta maneira, tinha o imperador, nascido em fins de 1825, 46 anos incompletos quando abriu mão da propriedade sobre homens.  Uma eventual alegação de que os escravos da Nação serviam ao Estado e não ao monarca desmorona se lembrarmos que a Fazenda de Santa Cruz, situada em freguesia rural, a várias léguas da Corte, constituía uma das residências prediletas da Casa de Bragança. 
     Logo, nem o mais ingênuo dos leitores continuará a crer que Pedro II, Isabel e demais integrantes da dinastia não lidaram com cativos na posição de senhores, em relação sociojurídica idêntica, ou quase, à do plantador escravista mais iletrado e truculento com seus cativos do eito.  A insistência na atitude de compartilhar imagens como a que copiamos será, sem dúvida, uma mentira intencional. Só resta aos cultuadores da Santa Isabel, enfim, insistir na sentença de que a princesa era boazinha e caridosa com os subalternos, hipótese que, se admitida, em nada modificaria o que aponto nesta matéria.  
        Isabel possuiu, sem dúvida, muitos escravos, a não ser que se faça uso de sofismas cretinos baseados no fato de que aquelas pessoas não estavam, provavelmente, "no nome dela".  Compartilhem sem moderação.         
           

        

Nota:
1-Brasil Gérson.  A escravidão no Império.  Rio de Janeiro: Pallas, 1975, p. 234.  

19 comentários:

  1. Excelente. Este blog só deixa clara a falta de caráter da direita tacanha e mimada deste país. Continue neste caminho

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  2. O Narloch deveria ser preso por falsear toda a história, pior é que muitas das pessoas que ler os livros dele acreditam...

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    1. Ele não falseia, exatamente. Ele é ardiloso e manipula as informações sem contextualiza-las ou analisa-las...simplesmente isso. Não há embasamento, simplesmente vomita um fato e, de forma anacrônica, ele ignora qualquer coisa que vá contra aquilo que ele acredita. Ele "pesquisa" apenas as coisas que quer e utiliza o resultado para legitimar sua própria convicção, numa atitude irresponsável e desonesta.

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    2. Exato. Mas Narloch deixou claro no prefácio de seu primeiro livro de que não se tratava de um livro didático, que ele não era um historiador mas um jornalista, e que sua abordagem era tendenciosa mesmo. A intenção de Narloch, conforme ele deixou bem claro no prefácio, era demonstrar como as versões dos fatos podem ser totalmente distintas conforme a abordagem utilizada. Ele fez o mesmo que fizeram os historiadores e os professores esquerdistas, só que com uma abordagem de direita.

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    3. Não há como traçar paralelo entre os livros de Narloch e a bibliografia acadêmica de História. Aliás, ressalto a grave distorção que é pensar que esta seja maciçamente de esquerda. Para apontar uma produção esquerdista tão "tendenciosa" e frágil em termos teóricos-metodológicos quanto os "guias", teremos que recorrer ao "Genocídio Americano" de Chiavenatto, que por sinal não é historiador, e sim outro jornalista. Mesmo assim, será preciso reconhecer neste último uma pesquisa de maior fôlego.

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    4. "Mas Narloch deixou claro no prefácio de seu primeiro livro de que não se tratava de um livro didático, que ele não era um historiador mas um jornalista, e que sua abordagem era tendenciosa mesmo."

      Engraçado é que quando vi o "guia do historicamente incorreto do mundo" no google play a definição era de que "Este livro é um guia contra a doutrinação que muitos brasileiros sofreram na escola", bem estranho esse discurso para algo que supostamente se venderia como tendencioso, Narloch dá a entender que somente a versão dele é a correta.

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    1. A demanda é justa, e será atendida logo que haja tempo.

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  4. Cansei de publicar spams, sobretudo quando não vêm acompanhados de argumentos e não têm conexão com o tema da postagem.

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  5. A cada postagem desse blog, chego a conclusão de que o Instituto Millenium criou uma geração de retardados.

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  6. A princesa Isabel e Zumbi são figuras emblemáticas da luta contra a escravidão, mas cada um foi mistificado de maneira distinta, e o mais importante, essa mistificação foi feita à revelia do personagem real. Eu penso que a função do pesquisador honesto não é sair por aí dizendo que um é bonzinho e o outro malvado, mas remover a mistificação, resgatar o personagem histórico e reposicioná-lo no contexto de sua época.

    Que papel a princesa Isabel e Zumbi dos Palmares tiveram efetivamente na abolição da escravatura?

    No caso da princesa Isabel, sabe-se que ela assinou a lei, mas a real dimensão de seu papel é objeto de controvérsia. Uns afirmam que ela apoiou ostensivamente os abolicionistas e teve atuação decisiva na queda do ministério anterior e sua substituição pelo ministério João Alfredo, que fez a abolição. Outros dizem que a princesa teve um papel meramente formal e decorativo.

    Mas é preciso chamar a atenção para duas coisas, que aliás eu já mencionei aqui antes. Primeiro, a caracterização de Isabel como "a redentora" não foi obra de brancos, mas de negros agradecidos, principalmente José do Patrocínio, que cunhou esse adjetivo. A adoração quase mística dos ex-escravos pela princesa foi criticada por outros militantes, que se viram diminuídos. Segundo, Isabel só assinou a lei porque aconteceu de seu pai, o imperador, estar doente. Não foi uma manobra planejada, mas a visão de uma jovem angelical assinando a lei, ao invés de um velho barbudo, conferiu ao evento a imagem de doçura que efetivamente serviu aos propósitos de quem queria dar a entender que a abolição fora um ato de generosidade das elites.

    Não há certeza de que Zumbi possuía escravos, mas há certeza de que abolir a escravidão nunca esteve entre os projetos deste líder. Note que não estou criticando-o: como eu afirmei acima, os personagens devem ser reposicionados no contexto específico de sua época, e na época de Zumbi praticamente ninguém cogitava que pudesse existir um mundo sem escravos. Se Zumbi, na qualidade de rei de Palmares, possuiu escravos, isso é tão plausível quanto o fato de haver a família imperial brasileira possuído escravos. Se Zumbi foi um "rei cruel" comparado com Isabel, isso também está conforme o contexto da época, pois Zumbi não chefiou uma monarquia constitucional estilo século 19, mas foi um líder tribal, e a liderança tribal é exercida de forma mais ou menos semelhante ao modus operandi dos bandos mafiosos dos dias atuais. Nada de estranho aí.

    A figura de Zumbi foi mistificada a fim de representar uma anti-Isabel, justamente com a finalidade de apagar a imagem de doçura que emana da princesa, e substituí-la pela imagem de altivez que emana de um líder guerreiro. Mas historicamente, Isabel e Zumbi pertencem a contextos tão diferentes que qualquer comparação entre ambos necessariamente descamba para a mistificação.

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    1. Sobre a primeira observação, penso que é desnecessário provar que a postagem não se destina a criar uma imagem depreciativa de Isabel, mas sim a desfazer uma balela rasteira que, no ambiente virtual, pode assumir uma caráter de verdade para muitos, já previamente dispostos a crer, é óbvio. Já discuti em outros textos o papel da princesa, deixando claro que para a dirigente de um regime ferido por crises consecutivas há vinte anos, não havia muito a fazer além de sancionar uma lei apoiada por 90% do Parlamento. Não duvido que ela tenha assinado a lei com gosto. Mas duvido bastante da decantada "paixão emancipatória" quando analiso sua convivência com o gabinete Cotegipe, principalmente no que diz respeito à feroz repressão sofrida pelo movimento abolicionista na Corte. Penso o mesmo ao recordar que, três anos antes da lei Áurea, Pedro II sugeria prudência ao senador Dantas na condução do processo de abolição, sob pena de "segurá-lo pelo casaco". Acredito que para ambos a perpetuação da dinastia vinha muito à frente de qualquer impulso humanitário. Tanto que incentivaram, ou no mínimo permitiram, que logo após a Abolição se formasse uma Guarda Negra que, a pretexto da "gratidão da raça redimida", atacaria os comícios republicanos.
      [continua]

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    2. A menção a Patrocínio é oportuna. Ele se equivocou ao transformar o episódio da Abolição em fonte de culto à princesa e em apoiar a Guarda Negra, que provocou crimes de sangue e atraiu ainda mais a repressão policial contra a população negra do Rio. Não nos esqueçamos, porém, de que um ano e meio depois ele já parecia curado da "febre", e tentava angariar apoio para o novo regime.
      Eu nunca diria que "Zumbi tentou acabar com a escravidão", mas aqui cabem duas notas:
      1)Palmares carecia inteiramente dos meios materiais (controle sobre rotas de tráfico, capital para adquirir escravos, conexão com mercados consumidores) para se constituir como uma sociedade escravista nos moldes da América Portuguesa do século XVII. Ao contrário desta, o quilombo era uma "sociedade que possuía escravos", com a atenuante que, segundo a maioria dos autores, estes ganhavam a liberdade ao participar de assaltos vitoriosos contra as senzalas alagoanas e pernambucanas.
      2)A existência do quilombo, quaisquer que fossem suas leis internas, era vista como uma ameaça para os plantadores escravistas e para as autoridades coloniais, que na prática lidavam com fugas cotidianas e com os ataques dos palmarinos em busca de novas adesões e de suprimentos.
      Fico devendo, a este respeito, o desmonte de outra generalização delirante criada a partir das "narlocadas", a de que Palmares era uma sociedade de pessoas aterrorizadas da qual a maioria dos habitantes gostaria de fugir de volta para os canaviais da costa.

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    3. A discussão sobre crueldade fica sem dúvida fora de contexto quando se compara um homem obrigado a combater, inclusive depois de aleijado por um tiro na perna, durante toda sua vida, com uma princesa que por sua condição de gênero e por outras circunstâncias que a afastavam de situações de conflito físico, teria tudo para jamais usar de métodos políticos "violentos".
      Talvez eu me engane nesta observação, mas penso que você incorre no erro de imaginar Palmares, ao estilo de antigas produções hollywoodianas, como uma aldeia de angolanos pelados que dançavam nus em volta de fogueiras. Porém, caso eu esteja certo, algumas leituras bastam para firmar a ideia de que o quilombo era na verdade uma confederação que incluía elementos não-africanos portadores de saberes diversos, e estabelecia relações econômicas e políticas bastante complexas com a sociedade ao seu redor.
      Por fim, sem negar os prejuízos causados à verdade por todos os processos de construção de heróis, vejo com naturalidade o fato de a figura de Zumbi suplantar em muitas ocasiões a da Princesa Isabel. Ele traz consigo a perspectiva (como aliás aponto no início do texto-"base") de que é possível ao povo tomar para si as definições fundamentais sobre seu próprio destino.

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    4. Caro Gustavo: E antes que comece aqui aquela discussão estéril em torno do fato de que "Zumbi tinha escravos" seria interessante lembrar que o grande problema da escravidão colonial não é o de ser escravidão, mas sim de constituir uma forma de escravidão-mercadoria (chattel slavery, em oposição à servidão como dependência pessoal) diretamente associada no seu desenvolvimento à existência de uma economia mercantil e no limite ao próprio capitalismo...

      Um abraço e boas festas_ Carlos

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  7. Gostei da analise do Sr. Pedro, figuras históricas sempre são mais ou menos sequestradas por grupos ideológicos para seus propósitos. Quantos Tiradentes não conhecemos, já o vi retratado como um bon vivant inconsequente, um austero militar patriota, um rebelde proto socialista , um homem revoltado por ter sido preterido em promoções no meio militar e até uma quase Cristo. Como todos os homens e mulheres era alguém sujeito a grande feitos e baixezas filtradas pela época em que viveu e que observamos a distância em uma realidade diferente. Talvez estudar como essas figuras históricas são usadas por esses diferentes grupos ideológicos seja mais efetivo e interessante que ficar se digladiando inutilmente para achar enfim o herói ou heroína perfeitos aos olhos de hoje. Sobre Narloque e seus livros, publica coisas já discutidas como se fossem novidades, supostos segredos ocultos para tentar chocar os desavisados e criar uma versão mais digamos direitosa da História

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    1. A proposta de desmistificar o uso ideológico das "figuras históricas" é algo que já foi posto em prática muitas vezes. Caso contrário, você não faria alusão ao Tiradentes "quase Cristo", uma criação dos primeiros dirigentes da República que precisavam se desembaraçar dos heróis do Império. Um dos retratos apontados não é tão falso assim: Tiradentes, alguns anos antes da Conjuração Mineira, perdeu o valioso comando de um destacamento instalado na Serra da Mantiqueira, no caminho entre Minas e o Rio. É lícito pensar que o fato resultou na erosão de seu apego à Coroa.

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  8. São Paulo é a terra que mais sofre injustiças. Países com alto índice de desenvolvimento tendem a adotar normas que favorecem o poder autônomo regional, basta ter como exemplos Suíça e Estados Unidos. Como bom bandeirante e paulista, não posso apoiar o separatismo, mas sim o federalismo pleno e consciente, em que cada região teria sua própria constituição. Seria o ato administrativo mais louvável para os paulistas, gaúchos, paranaenses e etc... Toda a arrecadação deveria ficar nos estados ou nas cidades para, doravante, fazer distribuição ou investimentos internos. Federalismo pleno, já!

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