quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Carta ao pós-adolescente coxinha



Jovem criatura,
        Não devo tratá-lo como caro, e penso que nisto concordaremos, e talvez em mais nada.  Tenho o desprazer quase diário de constatar a sua presença próxima desde que me aventurei pela primeira vez na Internet, já estando naquela altura bem acima da sua idade atual.  Gabriel O Pensador, em música de uns dez anos atrás, disse que era mais fácil comprar maconha do que pão.  Esbarrar no seu discurso, entretanto, é mais fácil do que achar maconha OU pão.  
        Às vezes você parece homem, às vezes mulher, o nome também varia muito, o que em regra faz  com que eu simplesmente me esqueça do rótulo vinte minutos depois.  Mas sempre posso localizá-lo, com a cara que assumir na ocasião, naquele fórum em que se fala que é normal chamar pejorativamente de baianos ou paraíbas todos os brasileiros que nasceram ao norte da cidade mineira de Nanuque, visto que a maioria deles têm uma inserção subalterna nas sociedades do Sul e do Sudeste e não se pode reprimir as "atitudes espontâneas" dos indivíduos. Clicando na primeira das páginas afins, verei seu perfil alternativo sustentar com fúria, ao longo de horas, que o idoso gay assassinado ontem pelo garoto de programa que contratou recebeu o que estava procurando, e que a Justiça deve cuidar do caso como assunto trivial, até porque o morto violava as leis da Natureza.  Instalada no tópico logo abaixo, outra parcela de você condenará ao tratamento de cem pilhas de louça a feminista que protestou em frente às câmeras da Globo sacudindo as estatísticas sobre quantas mulheres espancadas pelos maridos foram internadas nos hospitais da sua cidade nos últimos cinco anos.  
        Suas contrapartes blogueiras, em milhares de versões, estarão defendendo o eventual bombardeio da aviação israelense contra algum alvo a quatro mil quilômetros de Tel Aviv onde supostamente existem simpatizantes do Hamas, e condenando a frouxidão do governo Obama nas relações com o Irã;  pregarão quarteladas dirigidas por formandos da Escola das Américas, a favor de latifundiários e banqueiros, em qualquer país centro-americano no qual um partido de esquerda vença as eleições presidenciais e tente aprovar no Congresso tímidas emendas constitucionais a favor dos setores populares; imputarão a negros de todas as partes da América a responsabilidade integral por sua miséria e falta de oportunidades, tentando convencê-los da honra que têm de permanecer na cozinha em uma sociedade gloriosa, quando poderiam viver como selvagens da série Indiana Jones; anunciarão a falência econômica do Brasil (ou a da Argentina, ou a do Uruguai) cada vez que gráficos mostrarem no horário nobre da televisão que a massa salarial cresceu 1% nos últimos doze meses.  
        Sabemos bem que o seu clichê preferido é o de que os "perdedores", ao invés de se esforçar para progredir em condições desfavoráveis (como se a sociedade estivesse de pernas e braços abertos para acolher a todos em seus melhores espaços), se "vitimizam" e depositam as esperanças no socorro do Leviatã malvado. 
      Olhando o quadro de outro ângulo, percebo que  a única vítima imaginária é você mesmo.  Nascido no Brasil que disputava com Honduras, Serra Leoa e Botswana a taça da pior distribuição de renda do planeta, tem nostalgia dos tempos recentes em que pessoas das classes  D e E se sujeitavam às piores condições de trabalho possíveis para lavar os pratos e as privadas da casa dos seus pais em troca de um salário mínimo ainda mais depreciado do que o atual. Sonha ver nos olhos de pobres conformados a mesma admiração desfrutada por seu avô há cinquenta anos por andar limpo, bem vestido e "falar bem". Tem na ponta da língua a ladainha liberaloide de que só no laissez-faire há crescimento (não importando quantos exemplos conheça do contrário), mas está muito mais preocupado com a salvação do seu status meio roto de principezinho de classe média do que com o desempenho macroeconômico do país.  Em resumo, se sente acuado pelas conquistas dos que identifica como inferiores, mesmo que isto não implique em qualquer perda material para você.  
        Sei o quanto me tornarei desagradável pela sentença, mas o fato é que você é um anti cidadão, hostil a qualquer igualdade e, desta forma, constitui mais um tipo de pré-capitalista do que o burguês moderno que busca no espelho enquanto experimenta roupas de grife.  Noto com estarrecimento e certa irritação que seus próprios pais, socializados em contextos  mais adversos a mudanças, nem sempre lhe acompanham no reacionarismo.  O seu melhor dos mundos talvez fosse a vida em um Estado caricato onde todos beijariam a mão de um carrancudo D. Pedro III (legitimando todas as hierarquias de nascimento em efeito cascata) e reviveriam relações sociais da Idade Média sob a batuta de pregadores que proclamariam a excelência moral do projeto, enquanto você  exibiria seu carro novo para os pobres mortais a cada quatro meses.
        É certo que, caso você tenha avançado até este ponto, já estarei associado a todos os espantalhos falecidos que habitualmente são usados pela direita, a cada derrota política sofrida, para anunciar um iminente genocídio.  Porém, bem mais sádico do que o pior deles, não desejo a sua morte ou a sua prisão, tampouco que ganhe uma reles canelada no futebol ou no jiu-jitsu.  Quero apenas ver o seu "programa social" naufragar por completo, que metade dos seus futuros colegas no mestrado ou na direção da empresa sejam ex-cotistas, que ninguém passe a sua roupa  daqui a vinte anos por menos do que a diária praticada em Frankfurt, que seu filho curse uma faculdade de História ao lado do filho do boy que carrega as contas do seu pai para a fila do Bradesco.  Neste cenário talvez você siga o cínico lema de Roberto Campos ("liberalismo, Galeão ou Cumbica") e promova uma boa diversão  para a minha terceira idade, editando de qualquer cidadezinha do Kentucky ou da Nova Escócia uma página lotada de impropérios contra o inferno natal de que "fugiu".
       Para fechar, deixo votos de grande insucesso na campanha que fará em 2014 para os "socialistas fabianos" do PSDB (o "mal menor"), e o meu abraço de urso.                
                                  

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Desagravo a Cléo Tibiriçá, com observações sobre um Torquemada liliputiano


      
     Há cerca de um ano e meio, numa das primeiras matérias do blog, alinhei breves comentários a respeito de uma sombria página virtual, Escola sem Partido, que sob o pretexto da proteção à integridade moral dos jovens  promove a  apologia de projetos políticos dos mais retrógrados.
       Devo acatar os direitos ao exercício da crítica e ao confronto de ideias por parte do fundador do movimento mencionado e dos seus colaboradores, apesar da total divergência que manifesto em relação às suas teses.  Todavia, o Sr. Miguel Nagib, em texto do último dia 22, publicado com a promessa de constituir o início de uma série, incorreu em postura abominável, tentando intimidar uma docente do ensino superior.      
 http://www.escolasempartido.org/universidades/424-doutrinacao-ideologica-na-fatec-de-barueri-1-parte
       O advogado (!) Nagib pretende imputar à professora Cleonildi Tibiriçá, da Faculdade de Tecnologia de São Paulo, uma pecha de criminosa, fazendo ainda comunicação das presumidas transgressões ao coordenador do curso em que a mesma leciona (o de Comércio Exterior da FATEC-Barueri), ao diretor daquela faculdade e ao secretário de Educação do Estado de São Paulo.  O maior delito, nesta perspectiva, foi o de "forçar" os alunos à leitura de autores acadêmicos de variada projeção, como Eric Hobsbawn, Fernando Nogueira da Costa e Marcos Bagno, apresentando ainda artigos impressos, documentários e entrevistas produzidos por personalidades associadas à esquerda.  A lista resulta no total de quatorze itens trabalhados com os discentes.           
       É óbvio que, sob o aspecto institucional, a "denúncia" de Nagib será inócua. Colocar em execução um plano de curso cujos referenciais teóricos se situam à esquerda (ou à direita) só pode constituir figura penal sob uma ótica panfletária, demagógica e própria para mobilizar apenas imbecis incuráveis.  Mesmo que algum dos dirigentes notificados pense por um minuto em compactuar com a iniciativa do "nosso" desastrado censor, nada fará contra Cléo Tibiriçá, pelo mero fato de  valorizar sua carreira e não almejar um título vitalício de ditador, com as justas manifestações de desapreço que viriam a reboque.  É divertido, de certa forma, perceber que Nagib acaba por tecer um excelente elogio involuntário à desafeta que alega ignorar quem seja; ao acusá-la de realizar com êxito tantas "atividades subversivas", precisa ao menos admitir que está diante de uma "doutrinadora" extremamente competente e assídua ao trabalho, sob pena de cair no ridículo.  Mas não escapa do vexame, entretanto, quando sugere que Cléo Tibiriçá impõe uma espécie de "pensamento único" e ao mesmo tempo revela que nas aulas foram debatidos, ou no mínimo apresentados, pensadores marxistas e não marxistas, e que tiveram voz representantes de partidos tão diferenciados quanto o PSB e o PSTU.  Desejo com passionalidade que Miguel Nagib fique bastante irritado ao notar que anunciou para milhares de pessoas os talentos de uma até então desconhecida doutoranda de Barueri.          
        Exponho solidariedade integral à docente atingida pelo ataque despropositado e selvagem.  Mas não quero me limitar a isto.  É preciso, mais uma vez, demonstrar que o atacante é muito melhor como vidraça do que como pedra.   Ao mesmo tempo em que se escandaliza, ou simula estar escandalizado com professores esquerdistas para agradar à plateia, Nagib comprova no texto medíocre seu forte ranço ultradireitista.  Ele atribui à vitoriosa Revolução dos Cravos, que se livrou da decrépita herança colonial e se desdobrou no sistema multipartidário que até hoje permanece em Portugal,  o rótulo simplista de "golpe militar", enquanto o "regime salazarista" curiosamente escapa da merecida classificação de ditadura ou tirania.  Produz, na mesma linha, uma generalização distorcida  e desprovida da mais baixa dose de honestidade intelectual na referência ao livro Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno.  Nagib afirma que para o autor "a norma culta é instrumento de opressão da classe dominante contra os pobres", quando qualquer leitor ponderado perceberia que a indignação de Bagno se volta contra o preconceito sofrido pelos que não dominam a variante culta da língua, e não contra a existência da mesma.  Joga em estilo desprezível para impressionar um certo tipo de reacionário, ao mesmo tempo pedante e mentalmente preguiçoso, dando-lhe a impressão de que Marcos Bagno deseja obrigar todos os brasileiros a referendarem a conjugação cês foi, nós vai, a gente fumo em nome da libertação das classes populares.    
      Temos, desta maneira, o perfil real do homem que pretende pairar acima das doutrinações e se instituir como juiz de presumidos abusos ideológicos.  Rosnando contra o domínio da esquerda sobre o sistema de ensino, o que não passa de falácia repetida à exaustão,  ele deixa claro que gostaria de substituí-lo por um proselitismo de direita cujas matrizes são evidenciadas nos textos acessórios que publica na página do movimento que comanda.  Estes últimos, diga-se de passagem, sempre mais bem escritos do que os assinados pelo dono do site, o que também não considero grande vantagem. Miguel Nagib sequer se esforça um pouco para manter a máscara em seu lugar, quando propõe, como alternativa para os livros didáticos aprovados pelo MEC, a compra dos panfletos inconsistentes intitulados, em esperta manobra midiática, "guias politicamente incorretos".  Não acredito que o Torquemada frustrado enxergue em Cléo Tibiriçá um décimo do perigo que alardeia.  Estou mais propenso a imaginar que seus patrocínios escasseiam, até pela pobreza dos argumentos e pela falta de alcance das ações, e que só alegando duvidosos serviços de combate pode tentar reverter o quadro.  Miguel Nagib, calado, é um poeta dos melhores.         
       

      

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um pouco de Gramsci, "meritocracia" brasileira e cotas




"A questão é complexa.  Decerto, a criança de uma família tradicional de intelectuais supera mais facilmente o processo de adaptação psicofísico; quando entra na sala de aula pela primeira vez, já tem vários pontos de vantagem sobre seus colegas, possui uma orientação já adquirida por hábitos familiares: concentra a atenção com mais facilidade, pois tem o hábito da contenção física, etc.  Do mesmo modo, o filho de um operário urbano sofre menos quando entra na fábrica do que um filho de camponeses ou do que um jovem camponês já desenvolvido para a vida rural.  Também o regime alimentar tem importância, etc., etc.  Eis por que muitas pessoas do povo pensam que, nas dificuldades do estudo, exista um 'truque' contra elas (quando não pensam que são estúpidos por natureza): veem o senhor (e para muitos, no campo, senhor quer dizer intelectual) realizar com desenvoltura e aparente facilidade o trabalho que custa aos seus filhos lágrimas e sangue, e pensam que exista algum 'truque' ".
(Antonio Gramsci.  Cadernos do cárcere, volume 2.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 52)   
       A passagem que transcrevo faz parte do caderno 12 de Gramsci, escrito em 1932, cujo título é Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais.  Somos levados de imediato a traçar linhas paralelas entre a sociedade italiana de oito décadas atrás e o Brasil contemporâneo. Neste, a vitalidade dos mecanismos de concentração de renda e saber, opressivos e onipresentes, nos permite distinguir com exatidão a classe social e o nível de instrução de uma pessoa após breves momentos de observação; em certos casos, sem que o observado tenha sequer a necessidade de abrir a boca.
       Tal como na Itália do Período Entreguerras, a naturalização dos abismos sociais é uma via de mão dupla: por um lado, as parcelas instruídas e endinheiradas da população não esperam que os filhos dos pobres e mal alfabetizados  alcancem mais do que uma alfabetização precária que lhes permita o acesso às mesmas tarefas de baixa qualificação e mal remuneradas exercidas por seus pais; de outro, muitos pobres se resignam à fórmula "filho de peão, peão é".  Veem a escola de seus filhos apenas como um "espaço seguro" onde os deixam durante metade do dia, um local de socialização pouco ou nada vinculado às relações que assumirão posteriormente no mundo da produção.  
       Do alto de uma experiência de quatorze anos na rede estadual e em algumas prefeituras do estado do Rio de Janeiro, eu poderia afirmar, sem dúvida, que conheci um número respeitável de exceções, de crianças, adolescentes e adultos que superando dificuldades estruturais obtiveram uma escolaridade real acima do padrão das comunidades em que vivem.  Entretanto, tais êxitos nem sempre se traduzem em oportunidades econômicas ou na aceitação social por parte de uma classe média com a qual continuam a não compartilhar espaços e de quem raramente  receberão tratamento igualitário.  O projeto de realizar um curso superior que venha a lhes garantir em definitivo a migração do trabalho braçal para o intelectual pode ser abortado de variadas formas, entre elas a mera precariedade do transporte entre as universidades públicas e as favelas e/ou comunidades interioranas.                  
       A leitura de Gramsci, porém, também nos devolve quase obrigatoriamente à discussão sobre cotas no sistema de ensino, em pauta há vários anos no país.  É notório que a maioria dos argumentos dos adversários desta política gira em torno de um determinado conceito de meritocracia. Ouvimos com frequência que cotas "discriminam os mais inteligentes", "estimulam a não estudar" e  "prejudicam quem estudou mais".  Poderíamos, sem grande esforço, encontrar e listar incontáveis variantes do discurso, mas o essencial é que, para os anticotistas, a concessão de qualquer tipo de bônus aos pobres, negros, índios e demais categorias desfavorecidas fere as regras de uma livre competição que deveria prevalecer no ingresso a todas as instituições educacionais de nível médio e superior.  Eventualmente, incorporando o discurso do Estado Mínimo, eles se opõem até mesmo a políticas nada ameaçadoras do status quo como a merenda escolar e o transporte gratuito para estudantes.    
       Mas um olhar superficial é o bastante para tornar risível a mera possibilidade de que exista "competição livre" em qualquer setor da vida brasileira, e em particular no acesso ao ensino médio e superior de qualidade.  Já me referi, na postagem Algumas considerações sobre cotas (http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2012/04/algumas-consideracoes-sobre-cotas.html), ao desequilíbrio extremo que se verifica na oferta de educação básica no país, com evidente prejuízo dos que não têm acesso às escolas particulares de alto ou médio padrão ou às poucas instituições públicas de ponta, o que me leva a considerar, quanto aos exames de tipo vestibular, que as cotas "sociais" seriam mais justas do que as "raciais". 
        Não podendo negar ou minimizar um dado tão evidente, respondem os anticotistas que, ao invés de estabelecer "discriminações invertidas", o Estado deveria promover a excelência educacional em todos os níveis e em todas as partes do território. Simulam ignorar, como igualmente já apontei, que o aprendizado e o desempenho escolar dependem de diversos fatores que ultrapassam os muros das escolas, e que todo e qualquer governo que venha a colocar o atendimento às necessidades básicas da maioria acima das "grandes obras" e do sustento de uma base parlamentar fisiológica será impiedosamente sabotado com todos os meios "legais" e criminosos ao alcance de seus opositores.  
       A resolução efetiva das questões educacionais, bem como a superação das relações discriminatórias que permeiam a sociedade brasileira em todas as atividades e em múltiplas direções, passa pela supressão do capitalismo e pelo estabelecimento de uma democracia popular.
     
          

       

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre a nova direita e o velho fascismo



"O fascismo apresentou-se como o antipartido, abriu as portas para todos os candidatos; e, prometendo a impunidade, permitiu que uma multidão informe cobrisse com um verniz de idealismo político vago e nebuloso o transbordamento selvagem das paixões, dos ódios, dos desejos.  O fascismo tornou-se assim uma expressão de nossos costumes, identificando-se com a psicologia bárbara e antissocial de alguns estratos do povo italiano, ainda não modificados por uma nova tradição, pela escola, pela convivência em um Estado bem organizado e bem administrado.  Para compreender todo o significado destas afirmações, basta recordar que a Itália tinha o primado em homicídios e linchamentos; que a Itália é o país onde as mães educam os filhos com golpes de tamanco na cabeça, o país onde as jovens gerações são menos respeitadas e protegidas; que, em algumas regiões italianas, parecia natural, até poucos anos atrás, por uma focinheira nos vindimeiros para que não comessem as uvas; que em algumas regiões, os proprietários trancavam a chave os seus trabalhadores nos estábulos, quando estes voltavam do trabalho, a fim de impedi-los de reunir-se e de frequentar as escolas noturnas".

       O fragmento de texto que apresento aos leitores foi escrito por Antonio Gramsci (1891-1937) em 26 de abril de 1921, ou seja, cerca de um ano antes da tomada do poder pelos fascistas. Saltam aos olhos mais desatentos as semelhanças entre um país cujas relações sociais eram consideradas bárbaras, brutais, na Europa de quase um século atrás, e o Brasil contemporâneo.  Não temos obrigatoriamente o "primado dos homicídios" no ranking mundial, mas nossos índices apavoram; às mortes resultantes das disputas territoriais entre facções do crime organizado, entre estas e as polícias, aos latrocínios, somam-se milhares de delitos passionais sequer vistos como transgressões por seus autores, que por vezes entendem como justiça o "exercício arbitrário das próprias razões". Os castigos físicos, longe de ficarem limitados a uma esfera doméstica da qual por vezes ocorre a migração  para os jornais televisivos, quando crianças perecem em consequência das pancadas desfechadas por pais, mães, avós ou padrastos, são corriqueiramente empregados por agentes do próprio Estado como instrumento de submissão das classes julgadas perigosas.  Não nos surpreendem, tampouco, as notícias sobre o trabalho em condições análogas à escravidão, com a retenção de agricultores em alojamentos insalubres de fazendas nem sempre distantes dos grandes centros, sob a mira de seguranças armados.  O ensino de adultos, pouco valorizado, não atinge o extremo de motivar episódios de cárcere privado, mas a autorização para frequentá-lo é considerada uma grande concessão por certos empregadores, que veem com maus olhos a possibilidade de dispensar parte da mão de obra enquanto ainda se percebe um pouco de luz solar.
            Os intérpretes destes fenômenos sempre divergiram, segundo suas concepções doutrinárias e filiações partidárias, acerca das origens das mazelas e dos remédios que devem saná-las.  Porém, mesmo os políticos de direita de tipo tradicional, não obstante suas práticas (ou as de seus patronos) no mundo da produção, habitualmente condenam no plano retórico as variadas formas de violência que se exercem "de cima para baixo" em nossa sociedade.  É certo que podemos apanhá-los, no calor de certas discussões, em flagrante contradição, como nos casos em que a tentativa, ou mera sugestão, de desapropriar terras onde foi comprovado o cativeiro de trabalhadores ou o cultivo de maconha se faz acompanhar por furiosa resistência parlamentar.  Contudo, salvo raras exceções, em regra produzidas nos momentos de confrontação ideológica mais exacerbada, havia um certo consenso, até poucos anos atrás, quanto ao espantoso grau de injustiça vigente na sociedade brasileira e à necessidade de  modificar este panorama.  Isto se refletiu, por exemplo, na ampliação de diversos direitos sociais e trabalhistas, com numerosos votos de constituintes conservadores, na Carta de 1988.
        Percebemos na contemporaneidade a consolidação de um novo tipo de direita cujos ídolos, conforme o grau de instrução e as preocupações imediatas de seus componentes, podem ser Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Luiz Carlos Prates, Rachel Scheherazade, Leandro Narloch, o falecido Luiz Carlos Alborghetti ou um pequeno punhado de genéricos mais ou menos anônimos, do gênero celebridades de Internet.  Salvo o próprio Bolsonaro, ainda não contam com uma representação formal no Congresso ou nos governos estaduais e municipais, mas é previsível que em futuro próximo construam o seu Front National*, e as "pérolas do reacionarismo" que por vezes aqui exibo como caricaturas ou celebrações particulares da imbecilidade humana se transformarão em elemento corriqueiro da vida política brasileira.
       Eles não se limitam, como muitos de seus antecessores, a defender a manutenção do capitalismo em sua plenitude e a presumida necessidade da hegemonia político-militar do Estados Unidos no cenário global.  Desenvolvem uma campanha vigorosa contra qualquer alteração do status quo no sentido do avanço das forças populares e da supressão ou amenização das barreiras de classe, gênero e etnia.  Costumeiramente são demagógicos e mergulham na histeria: a regulamentação rotineira de um artigo da legislação trabalhista, ou uma explosão de fúria de três ou quatro militantes durante uma passeata, de súbito são anunciadas em milhares de páginas virtuais como indícios inegáveis da vinda próxima do Leviatã comunista. 
        Os mentores desta nova direita estão cientes, é claro, de que as correlações de força existentes no mundo real passam por linhas bastante diversas daquilo que apregoam: as possibilidades concretas de que as forças de esquerda venham a derrubar o capitalismo, na maioria esmagadora dos países, são quase nulas; apesar dos progressos alcançados pelos movimentos sociais nas últimas décadas, as chances de exercício da cidadania plena e as oportunidades econômicas oferecidas a mulheres, pobres, negros, gays e "dissidentes" da sociedade capitalista permanecem notavelmente inferiores às que se colocam para o "burguês branco heterossexual conservador"; até mesmo a recente ascensão ao poder de partidos formalmente esquerdistas em alguns países da América Latina se faz acompanhar por um elevado grau de compromisso com segmentos do empresariado e políticos de tipo oligárquico "antigo".  
        A apreensão do mundo real, entretanto, pouco importa para as lideranças da nova direita.  Basta que suas distorções do noticiário da grande mídia (comicamente denunciada como esquerdista ou liberal esquerdizante), suas patéticas teorias da conspiração, sirvam para continuar a arregimentar seguidores aterrorizados com a iminência de uma nova ordem dominada por comunistas, terroristas muçulmanos e minorias organizadas que supostamente matarão cem, trezentos ou quinhentos milhões de terráqueos por puro instinto de perversidade. 
        Talvez seja irrelevante debatermos se cabe à nova direita, cujo reduto mais confortável, sem dúvida, ainda é a Internet, o rótulo de fascista.  Inclusive creio que, caso recorramos às definições de fascismo dos melhores especialistas, o diagnóstico será negativo.  Entretanto, seu parentesco com os mussolinianos da década de 1920 torna-se patente na intenção declarada (e permeada pela nostalgia das eras alheias ao sufrágio universal) de salvar uma ordem idealizada como benéfica, apesar das suas anomalias evidentes, da sua irracionalidade gritante.  Seu programa informal, que incentiva ou no mínimo admite as intervenções militares "preventivas" ou punitivas  contra os governos rebeldes à hegemonia ocidental, a prisão arbitrária e a tortura dos indivíduos tidos como social ou politicamente ameaçadores pelos setores dominantes, a conversão ideológica das desigualdades historicamente construídas em elementos "naturais" intrínsecos às sociedades e o exercício da violência verbal e física contra seus contestadores, poderia ser subscrito com tranquilidade pelo falecido Duce.
          Mussolini se apoderou do governo italiano em 1922 chefiando um partido-movimento que dispunha de menos de um décimo dos integrantes do Parlamento.  Não devemos, portanto, subestimar o poder de fogo da nova direita, apesar de sua fachada indiscutivelmente ridícula.  Precisamos multiplicar os espaços de denúncia das suas falácias e mobilizar o maior número possível de pessoas contra os seus propósitos.  
           
        
*Alusão ao partido direitista francês dirigido durante muitos anos por Jean-Marie Le Pen.         
                                    



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Vinte "novas" pérolas do velho reacionarismo





       Retomo hoje o tema de duas séries compostas em abril de 2012, contendo máximas diversificadas do pensamento reacionário, cujos links seguem logo abaixo: 

        A finalidade, mais uma vez, é deixar em evidência o que nos diferencia radicalmente "deles".  Longe de estar superada, a antítese esquerda/direita permanece tão válida quanto  há cem anos atrás, e por trás do discurso civilizatório a direção política conservadora só nos tem a oferecer opressão e alienação, sem excluir a barbárie de tipo fascista em certos momentos entendidos como de crise. 
        As citações que volto a agregar não são baboseiras propagandísticas nos moldes do forjado "Decálogo de Lenin".  Saíram de fato das bocas e das penas de homens tidos como respeitáveis representantes da ordem.  Apesar de cobrirem um intervalo temporal de quase duzentos anos, não me sinto inclinado a crer que seus herdeiros melhoraram significativamente. 
       

1-Evaristo da Veiga (1799-1837), jornalista brasileiro do Primeiro Reinado e do Período Regencial, exprime seu temor diante das reformas sociais propostas pelos "liberais exaltados":


 "Temo mais hoje os cortesãos da gentalha que aqueles que cheiram as capas ao monarca".
Citado em Emília Viotti da Costa.  Da monarquia à república: momentos decisivos.  São Paulo: UNESP, 1999, p. 147.


2-Alexis de Tocqueville (1805-1859) tenta legitimar o imperialismo e dá testemunho involuntário da incompatibilidade entre liberalismo e igualdade: 
Não há utilidade nem obrigação da nossa parte em passar para os nossos súditos muçulmanos ideias exageradas da sua própria importância, e nem persuadi-los de que nós somos obrigados a tratá-los como se fossem nossos concidadãos e nossos iguais.  Eles sabem que na África temos uma posição dominante e esperam que a conservemos.
Citado em Domenico Losurdo.  Contra-história do liberalismo.  Aparecida: Ideias e Letras, 2006, p. 253. 

   
3-Thomas Robert Bugeaud (1784-1849), marechal francês, autor de vários massacres na Argélia e feito duque d'Isly por seus serviços na África, se queixa a Adolphe Thiers, presidente do Conselho, contra a educação do povo:

"A nação só pode viver graças a um trabalho duríssimo que não deixe aos homens campos nem oficinas, e nem tempo livre ou força para o estudo".


(citado em FERRO, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. Sâo Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 105)
4-Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), presidente da Argentina entre 1868 e 1874, se mostra mais um adepto da tese da "multidão-criança":

"Os povos, em sua infância, são umas crianças que nada preveem, que nada conhecem e é preciso que os homens de alta previsão e de alta compreensão lhes sirvam de pai".

Citado em León Pomer (organizador).  D. F. Sarmiento: política.  São Paulo: Ática, 1983. 



5-Antônio José Fernandes, deputado ligado à lavoura do município de Valença, apresenta na Assembleia Legislativa da Província do Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1880 sua concepção sobre o direito dos funcionários públicos à aposentadoria:

"O empregado devia exercer o seu emprego sempre que tivesse forças físicas e morais para desempenhá-lo.  Muito embora tenha 30 ou 40 anos de exercício, logo que esteja no caso de exercer as suas funções não deve ser aposentado".   






6-John Maynard Keynes (1883-1946) revela no texto Am I a Liberal? (1925) qual era a sua pátria: 
Quanto à luta de classes como tal, meu patriotismo local e pessoal, como os de qualquer um, exceto uns poucos desagradáveis entusiastas, liga-me a meu próprio ambiente.  Posso ser influenciado pelo que me parece ser a justiça e o bom senso, mas a guerra de classes vai me encontrar do lado da burguesia educada.
Citado em István Mészáros.  O poder da ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, p. 61.



7-Charles Maurras (1868-1952), dirigente monarquista francês, registra sua versão da meritocracia :

« Ni aujourd'hui ni jamais, la richesse ne suffit à classer un homme, mais aujourd'hui plus que jamais la pauvreté le déclasse.  » 

(Nem hoje nem nunca, a riqueza é o bastante para classificar um homem, mas hoje, mais do que nunca, a pobreza o desclassifica.)
http://www.evene.fr/citations/charles-maurras


8-O filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) faz sua profissão de fé elitista:

Eu disse e continuo crendo, cada dia com mais enérgica convicção, que a sociedade humana é aristocrática sempre, queira ou não, por sua própria essência, até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática, e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize.

http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/rebeliaodasmassas.pdf (A rebelião das massas, p. 21)


9-O embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960), em carta ao presidente Vargas datada de 1937, mistura a paranoia anticomunista ao antissemitismo:  

"Este país, Getúlio, está quase dominado por esta nova maçonaria de fundo liberal, mas, realmente, ao serviço dos ideais extremistas.  À sombra do New Deal estamos vivendo na antessala do comunismo nos Estados Unidos.  Creio que é o judaísmo que criou e mantém este ambiente, capaz de deslocar esta civilização para um abismo. [...] A filantropia americana, esta tendência para uma forma de caridade política e até internacional, se for dominada pelo espírito judaico, arrastará toda esta civilização para um novo regime, similar ao russo".  

Citado em Maria Luiza Tucci Carneiro (org.).  O anti-semitismo nas Américas: memória e história.  São Paulo: Edusp, 2008, p. 388.


10-O economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) conspira alegremente contra o sufrágio universal:

"Observe-se: pouco importa que nós, observadores, consideremos válidos estes motivos ou as normas práticas em razão das quais se excluem do direito [de voto] determinados setores da população; importa que a sociedade em questão os admita.  E não se objete que, aplicável a exclusões justificadas pela incapacidade ("a menoridade"), este critério não pode ser aplicado à exclusão em bloco por razões que não têm nenhuma relação com a capacidade de servir-se de modo inteligente do direito de voto, porque a "capacidade" é questão de opinião e de grau e, para estabelecer sua presença ou ausência, certas normas são necessárias.  Sem cair no absurdo ou na hipocrisia, pode-se dizer que a capacidade é medida pela  possibilidade de prover-se a si mesmo".
Citado em Domenico Losurdo.  Democracia ou bonapartismo: triunfo e decadência do sufrágio universal.  Rio de Janeiro: UFRJ; São Paulo: UNESP, 2004, P. 247.    


11-Roberto Marinho (1904-2003), presidente das Organizações Globo, reafirma seu apoio à ditadura civil-militar em pleno ano de 1984:

Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das lnstituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas antirrevolucionárias, mantivemo-nos firmes em nossa posição. Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura, que se deverá consolidar com a posse do novo presidente.

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-editorial-de-Roberto-Marinho-que-exaltou-a-Ditadura-Militar/4/27682


12-Jânio Quadros, o sr. "Forças Ocultas", vai ao delírio ao tentar aglutinar votos conservadores em torno de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo (setembro de 1985):

“Enfrentamos uma conspiração de comunistas e comunistóides que persistem em desmoralizar militares de alta patente e civis que combatem o comunismo”.

(citado em SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 510)


13-Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador da TFP (Tradição, Família e Propriedade), alia o reacionarismo a um discurso caricato, em entrevista de 10 de abril de 1974 à Folha de São Paulo:

Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe."

14-O embaixador Meira Penna (1917-), em passagem que definitivamente dispensa introdução ou explicação, nos mostra o espírito reacionário em estado puro numa publicação de 1988:
"Gentlemen, até certo ponto, podem ser alguns europeus, às vezes suecos ou holandeses, ou membros da aristocracia daqueles países semibárbaros do "continente" que, pelo fosso esplêndido do estreito de Calais, está isolado do arquipélago britânico. Mas, de qualquer forma, o resto do mundo é sempre de uma maneira ou outra composto de natives ou aliens.  São os elos, os missing-links entre o macaco e o homem, pessoal meio selvagem, gente inferior e vulgar que merece ser tratada humanamente mas com certa distância.  Essa concepção durou até os cataclismas políticos e bélicos do século XX, em consequência dos quais vingou a noção lamentável do homem comum, o homem das massas, o homem coletivo irresponsável".



15-O escritor cubano Carlos Alberto Montaner (1943-) escolhe o adversário ideal, na verdade praticamente um parceiro, para as direitas:

As melhores esquerdas do mundo são aquelas que deixaram de ser esquerdas, como Tony Blair, na Inglaterra. Quando alguém abandona a luta de classes e a mentalidade antimercado e se converte em um amante do estado de direito já não é mais de esquerda.

http://veja.abril.com.br/230800/entrevista.html



16-Jean-Marie Le Pen, celebrado líder xenófobo de parte da direita francesa, revisa com inesperada sinceridade a historiografia da Segunda Guerra Mundial:  

Eu sou forçado a dizer que as câmaras de gás foram um detalhe da história da guerra mundial, o que é uma evidência.
17-Thomas Sowell (1930-), economista americano, nos explica os benefícios da redução dos salários reais:

Havia um salário mínimo, mas, como o valor deste havia sido estipulado em 1938, e estávamos em 1949, seu valor já havia se tornado insignificante em decorrência da inflação.  Por causa desta ausência de um salário mínimo efetivo, o desemprego entre adolescentes negros no ano de 1949, que foi um ano de recessão, era apenas uma fração do que viria a ser até mesmo durante os anos mais prósperos desde a década de 1960 até hoje. À medida que os moralmente ungidos passaram a elevar o salário mínimo, a partir da década de 1950, o desemprego entre os adolescentes negros disparou.  Hoje, já estamos tão acostumados a taxas tragicamente altas de desemprego neste grupo, que várias pessoas não fazem a mais mínima ideia de que as coisas nem sempre foram assim — e muito menos que foram as políticas da esquerda intrometida que geraram tais consequências catastróficas.




18-Leandro Narloch e Duda Teixeira explicitam seu programa "capitulacionista" na introdução do Guia politicamente incorreto da América Latina:
"Não nos sentimos representados por guerrilheiros ou por indignados líderes andinos e suas roupas coloridas.  Não há aqui destaque para veias abertas do continente, mas para feridas devidamente tratadas com a ajuda de grandes potências.  Conhecemos bem as tragédias que nossos antepassados índios e negros sofreram, mas, honestamente, estamos cansados de falar sobre elas". 



19-James Inhofe, senador republicano pelo estado norte-americano do Oklahoma, assim contesta (em março de 2002) o direito dos palestinos aos territórios ocupados e à formação de um Estado independente:

"A Bíblia afirma que Abraão desarmou sua tenda e foi morar na planície de Mambré, que é Hebron, erigindo aí um altar em honra do Senhor.  Hebron encontra-se na Cisjordânia, e foi naquele lugar que Deus apareceu a Abraão e lhe disse: 'Eu te dou esta terra', a Cisjordânia.  Esta batalha não é de modo algum política, é uma controvérsia sobre o fato de a palavra de Deus ser verdadeira ou não.


Citado em Domenico Losurdo.  A linguagem do Império: léxico da ideologia estadunidense.  São Paulo: Boitempo, 2010, p. 55.  


20-Walter Williams (1936-), economista norte-americano, apresenta em dose dupla sua visão de "liberdade":

Primeiro, não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema.
(...)

A Universidade George Manson tem dinheiro público. Portanto, não pode discriminar. Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar.
 



 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Outros cinco mitos sobre a História da África

Troca de presentes entre o presidente francês Valery Giscard D'Estaing, definido como de "centro-direita", e o ditador Jean-Bédel Bokassa, presidente da República Centro-Africana que se proclamou imperador em 1976. 

 

             Retomo a argumentação apresentada inicialmente na matéria http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2013/10/cinco-mitos-sobre-historia-da-africa.html, por considerar que a desmistificação da robusta mitologia depreciativa elaborada a respeito das populações africanas mereceria ao menos mais uma série.  Vou de maneira mais direta, então,  a outros lugares comuns localizados com frequência no mundo virtual e em conversas triviais. 
  
1-Os africanos, abandonados a si mesmos, tendem a perpetuar no poder tiranos corruptos como Mobutu, Idi Amin e Bokassa, e precisam da tutela ocidental para avançar rumo à democracia.

          Sem minimizar a importância dos fatores locais na formação e na continuidade das muitas ditaduras ainda existentes na África, percebe-se facilmente que as repetidas intervenções ocidentais se destinam muito mais à preservação de interesses econômicos e de posições de força no terreno militar do que a qualquer tipo de humanitarismo.  A sistemática violação do direito à autodeterminação política dos povos africanos ocorre no sentido de uma "estabilidade" que não exclui o apoio explícito a ditadores dos mais truculentos, desde que se disponham a combater facções e partidos nacionalistas, socialistas ou islâmicos.  O francês Raphaël Granvaud expõe de forma sucinta e eficiente múltiplos desastres provocados ou favorecidos pela atuação das tropas de seu país no continente africano em passado recente:           

"Ainsi dans les années 1990, les militaires français ont fermé les yeux sur la "sale guerre" menée par l'armée sénégalaise en Casamance ou ont soutenu à plusieurs reprises la politique de répression et de massacre systématique des Afar à Djibouti.  À la même époque, les militaires français ont également assuré la formation de l'armée rwandaise, de la garde présidentielle et même de milices; tout comme ils avaient pris en charge la division spéciale présidentielle du dictateur Mobutu au Zaïre, la garde présidentielle du dictateur Ratsiraka à Madagascar, les miliciens du dictateur Niño Vieira en Guinée-Bissau, les "Ninjas" du dictateur Obiang em Guinée-Équatoriale, les milices du criminel contre l'´humanité Sassou-Nguesso en 1998 après son retour au pouvoir, et ils continuent d'apporter "un soutien aux Forces armées congolaises, tant dans le domaine de la formation que de la dotation".  Après le coup d'État de 1992, des conselleirs militaires français sont restés présents à différents niveaux de la hierárchie militaire algérienne pour l'aider à mettre en oeuvre les méthodes de guerre antisubversive contre sa population".  

Tradução livre:

Durante os anos 1990, os militares franceses fecharam os olhos para a "guerra suja" levada pelo exército senegalês em Casamance, e apoiaram em várias ocasiões a política de repressão e de massacre sistemático dos Afar em Djibuti.  Na mesma época, os militares franceses garantiram igualmente a formação do exército ruandense, da guarda presidencial e mesmo de milícias; tanto quanto tomavam como incumbência a [estruturação da] divisão especial presidencial do ditador Mobutu no Zaire, a guarda presidencial do ditador Ratsiraka em Madagascar, os milicianos do ditador Nino Vieira na Guiné Bissau, os "ninjas" do ditador Obiang na Guiné Equatorial, as milícias do criminoso contra a humanidade Sassou-Nguesso em 1998, após sua volta ao poder, e eles continuam a dar sustentação às forças armadas congolesas tanto no campo da formação quanto da dotação.  Após o golpe de Estado de 1992, conselheiros militares franceses estiveram presentes em diferentes níveis da hierarquia militar argelina para ajudar a colocar em prática os métodos de guerra antissubversiva contra sua população¹.      
     
2-Apesar das atrocidades do colonialismo, os africanos estariam relegados a um padrão tecnológico muito baixo se não tivessem passado pela dominação direta das potências europeias.


Menelik II

           O exemplo do Japão na segunda metade do século XIX deveria bastar para o entendimento de que é possível para um país materialmente "atrasado" ampliar o desenvolvimento de suas forças econômicas sem alienar a soberania.  Voltando o olhar para a própria África, vemos que no Estado que preservou durante mais tempo sua independência política, a Etiópia, também foram postas em prática tentativas de modernização. Durante o reinado de Menelik II, que se estendeu até 1908, surgiram um serviço postal, uma moeda nacional e a imprensa escrita.  Houve igualmente a construção de uma ferrovia.  Quando certo europeu mostrou ao imperador um rifle, explicando que fazia "bum-bum", Menelik II apresentou-lhe seu arsenal, onde estavam guardados mais de cem mil rifles².
   

3-O confisco de terras pertencentes aos descendentes de britânicos no Zimbabwe foi uma expropriação arbitrária de caráter racista contra propriedades legalmente constituídas.




        A extensão do domínio britânico à área entre os rios Limpopo e Zambeze, onde se constituiu a colônia da Rodésia, foi um processo extremamente violento, com prejuízo quase exclusivo para as populações nativas.  O agente imperialista Cecil Rhodes, ajudado pelo governador do Cabo, Hercoles Robinson, e por Sydney Shippard, comissário na Bechuanalândia (hoje Botswana), arrancou do rei Lobenguela, em 1888, um monopólio da exploração dos recursos minerais naquele território.  Com a vinda de estrangeiros para a região, aconteceram divergências entre os recém-chegados e os próprios homens de Rhodes, que já se julgavam donos das terras.  Quando Lobenguela tentou protestar junto à rainha Vitória, seus emissários acabaram assassinados, e novos incidentes resultaram em guerra.  O britânico Jameson, presidente da British South Africa Company, apelidada de Chartered Gang em consequência de seus métodos, valeu-se da superioridade tecnológica para incendiar a aldeia móvel de Lobenguela.  Em 1894, Lord Roseberry, primeiro-ministro do Reino Unido, determinou que todos os antigos domínios do rei africano pertenceriam à companhia³.  
        Algum leitor poderia alegar que, apesar da selvageria dos "pioneiros" de Rhodes e da Chartered Gang, pessoas com três ou quatro gerações de antepassados vivendo em determinado país não devem ser tratadas como invasoras.  Aceito o argumento como princípio genérico, mas não quando se constata que os mencionados colonos, em regra, atuaram durante quase um século como verdadeiros colonizadores, vinculados aos interesses e à ideologia imperialista da metrópole, com fraca ou nenhuma integração com os demais segmentos da população local.  Aliás, entraram em choque com a Inglaterra apenas ao se verem frustrados no intuito de obter apoio para a sobrevivência do apartheid. Neste caso, estamos diante, no que se refere à reforma agrária feita após a independência, da revogação de uma verdadeira apropriação indébita.  Destaco ainda a fatal contradição dos direitistas que, por mera hostilidade ideológica, clamam pela saída dos chineses do Tibete, enquanto gostariam de ver restauradas na África relações criadas pelo imperialismo e fortalecidas pelo apartheid.      

4-Os europeus e americanos, ao comprar escravos na África, apenas faziam uso das reservas de uma "mercadoria" já disponível.

         Diversos episódios comprovam que a presença ocidental na África, a partir da Idade Moderna, não somente incrementou o tráfico como serviu, em algumas situações, para introduzir a escravidão onde ela não existia.  Charles Boxer aponta que a penetração portuguesa no Congo, durante o século XVI, produziu uma dinamização do comércio de escravos que sobressaltou os reis congoleses.  Embora os dois Estados fossem formalmente aliados, traficantes portugueses escravizavam súditos do Congo, e as autoridades de Portugal eram incapazes de controlar sua atividade.  Enquanto a Coroa determinava que os escravos só podiam ser embarcados no porto congolês de Mpinda, os traficantes atuavam na foz do rio Cuanza, em Angola, de onde extraíam a mercadoria humana sem pagar impostos, levando-a para a ilha de São Tomé.  Estendida a influência lusa na zona angolana, cobrava-se dos sobas locais que se submetiam tributo sob a forma de escravos.  Em algumas ocasiões os portugueses também aliciavam jagas (grupos canibais originários da África Central) para fazer a "guerra preta", que resultava em capturas diretas4.        
       Os holandeses que ocupavam o Cabo da Boa Esperança na década de 1650, impedidos pela Companhia das Índias Orientais de escravizar os cóis (hotentotes) que viviam nas proximidades, passaram a importar cativos da África Ocidental, Angola, Índia e Indonésia.  Quando estes últimos escapavam, os holandeses entravam em conflito com os hotentotes, aos quais acusavam de abrigar os fugitivos5.
        As tabelas exibidas por Paul Lovejoy no livro A escravidão na África: uma história de suas transformações (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 51) demonstram que o tráfico atlântico, após subtrair aproximadamente 409.000 pessoas do continente africano entre 1450 e 1600, atingiu as cifras de 1.348.000 no período 1601-1700 e 6.090.000 de 1701 a 1800, somente declinando no século XIX, quando apesar das seguidas medidas abolicionistas em vários países ainda produziu 3.466.000 vítimas.  O autor, que crê numa "relação causal" entre o tráfico atlântico e o subdesenvolvimento africano (p. 20), declara também que a expansão do comércio de escravos em fases sucessivas tornou o escravismo "fundamental para a economia política africana" (p. 29).       

5-O brilho da civilização egípcia resultou exclusivamente da atuação do homem branco. 


Representação do faraó Ramsés III

        Encontramos esta afirmação, com algumas variantes, em vários sites de supremacistas brancos, que chegam a afirmar que na época dos faraós os negros viviam em sua totalidade abaixo do deserto do Saara.  Embora se trate de um embuste grotesco para qualquer estudioso do tema, vale a pena desmistificá-lo.  Alberto da Costa e Silva aponta que em torno de 6.000 a. C. populações negras já estavam instaladas na região da atual Cartum (capital do Sudão).  Parte destes grupos continuou descendo o Nilo até o Alto Egito, miscigenando-se com elementos caucasoides.  Segundo o autor, os "mestiços" foram predominantes na cultura pré-dinástica de Badari, que se desenvolveu na região por volta de 4.000 a. C.6. 
          Vale para a minha geração recordar, neste ponto, os velhos manuais de Primeiro Grau que explicavam que a unificação do Egito se deu a partir da conquista militar do sul, o Alto Egito [onde a "presença negra" certamente estaria mais concentrada], sobre o Baixo Egito, vizinho ao Mediterrâneo.  Não endossarei, é claro, a manipulação ideológica de sinal contrário que se desdobra no esquema "Os negros construíram o Egito- O Egito influenciou Creta- Os cretenses influenciaram a Grécia Clássica- Os negros são os fundadores da civilização ocidental".
          Outros supremacistas, menos primários, investem na versão de que a influência negra no Egito foi expressiva apenas durante a 25a dinastia, nos séculos VIII e VII a. C., quando governaram os faraós núbios ou kushitas Kashta, Piankhy, Shabaka e Taharqa.  Entretanto, são flagrantemente contrariados por numerosas evidências factuais, quando lançamos na busca de imagens do Google os nomes de reis como Khafra (Quéfren), Senusret I e Ramsés III, entre outros.

Representação de Amenemhat III
        


Referências:
1-Raphaël Granvaud.  Que fait l'armée française en Afrique? (Que faz o exército francês na África?)  Marseille: Agone, 2009, p. 91.
2-H. L. Wesseling.  Dividir para dominar: a partilha da África, 1880-1914.  Rio de Janeiro: UFRJ; Revan, 2008, p. 267-268.
3-Marc Ferro. História das colonizações: das conquistas às independências (séculos XIII a XX). São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 108.
4-Charles Boxer.  O império marítimo português, 1415-1825.  Lisboa: Edições 70, 2001, p. 108 a 110.
5-Alberto da Costa e Silva.  A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 766-767.
6-Alberto da Costa e Silva.  A enxada e a lança: a África antes dos portugueses.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: EDUSP, 1992, p. 59

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reacionarismo e machismo tosco: uma conexão óbvia


     Após percorrer as seções brasileiras das redes sociais da Internet, apontei em outras postagens a ligação estreita entre os movimentos que sob o pretexto da celebração das origens europeias abrem espaço para as pregações de membros francamente racistas, e a direita política de tipo mais conservador.  Para minha satisfação, notei também que a atitude dos muitos cidadãos dispostos a denunciá-los costuma resultar na eliminação destas excrescências virtuais pelos administradores das redes, ainda que uma ou outra dê a impressão de possuir certo nível de "blindagem".  
       Percebemos correlação semelhante ao "visitar" as páginas que sob as desculpas da crítica aos supostos excessos do feminismo e do combate a um vago "marxismo cultural" (categoria que pode abranger qualquer coisa que destoe do conservadorismo mais tacanho), terminam por postular o retorno das mulheres ao velho programa "esquente a barriga no fogão para em seguida esfriar no tanque".  Estas comunidades talvez  não sejam mais numerosas do que as racistas, mas sem dúvida concentram muito mais seguidores, o que não é difícil de explicar: se chamar alguém de "crioulo" em contexto depreciativo constitui crime, reivindicar a submissão da mulher (e eventualmente o repúdio pessoal aos gays) é tido pela sociedade apenas como uma perspectiva imbecil, irracional, porém enquadrada nos limites da liberdade de opinião.
       O certo é que, em medida pelo menos igual à dos supremacistas raciais, os machistas pré-históricos se alinham com a direita reacionária de uma forma que podemos qualificar como caricatural.  Parecem todos saídos do mesmo forno e da mesma fornada: cultuam atores norte-americanos belicistas e /ou filiados ao Partido Republicano,  xingam de "putas", "cachorras" e "periguetes" todas as mulheres que não se adequam aos modelos definidos pela moral sexual pequeno-burguesa, apreciam ditadores militares e policiais exterminadores e tentam rotular os que identificam como inimigos da causa com os apelidos de "manginas", "machos betas", "feministas sapatas" e outras pérolas.  
        Extraí com finalidade ilustrativa prints de seis destas comunidades, todas hospedadas no Facebook.  As mensagens são tão diretas que dispensam apresentação.             
                      



       Ao contrário do que fiz em relação às páginas racistas, não sugerirei que se promovam denúncias de qualquer tipo.  Também não direi, é claro, que esta visão de mundo caracteriza todos os políticos e intelectuais direitistas.  Mas caracteriza, em grande proporção, os seus currais eleitorais, aqueles que inúmeras vezes são denominados "povo conservador" ou "maioria silenciosa" (que dificilmente será maioria e, nos últimos tempos, tem abandonado o silêncio com frequência notável).  
       Domenico Losurdo se refere em várias de suas obras à "tripla discriminação" (de classe, gênero e raça) que marca o status quo nas sociedades capitalistas.  Verificamos, com fartura de exemplos, que a "opinião de direita", sobretudo entre os grupos de baixa sofisticação intelectual, consiste basicamente na naturalização dos lugares comuns discriminatórios.  O que proponho em face deles, desta vez, é condescendência zero no ano eleitoral que se aproxima.  Mais do que nunca, não deixem de votar, para todos os cargos e em particular para o Poder Legislativo, em candidatos comprometidos simultaneamente com os direitos dos trabalhadores e com a defesa das "minorias".  Uma mesa de três pernas, tendo cortada apenas uma, não se mantém de pé.  Serremos sempre mais um pouco, então, onde ela mostrar mais vulnerabilidade.