terça-feira, 18 de março de 2014

Um carniceiro confesso: Francisco Franco y Bahamonde


Mapa do antigo protetorado espanhol no norte do Marrocos


      Percorrendo as páginas de A guerra civil espanhola, de Josep M. Buades (São Paulo: Contexto, 2013), soube da existência do livro de memórias Diario de una bandera, escrito por Francisco Franco y Bahamonde (1892-1975)  em 1922.  Segundo o historiador, a obra "detalha as atrocidades da guerra colonial como se fossem atitudes absolutamente normais¹.  Naquela época, o exército espanhol enfrentava a guerrilha liderada por Abd el-Krim, no Marrocos.  Em 1921, as forças coloniais amargaram a derrota na batalha de Annual, perdendo oito mil homens.  Este revés militar era o maior sofrido pela Espanha desde os embates contra os Estados Unidos em 1898².  
      Assaltado pela curiosidade, decidi investigar se havia uma versão virtual do Diario.  Encontrei a digitalização de uma edição de 1956, introduzida por um entusiástico franquista, Manuel Aznar  (ver http://www.geneall.net/H/per_page.php?id=526317), pai do ex-primeiro-ministro José María Aznar.       

http://hvfasgcm.org/Descargas/Diario%20de%20una%20Bandera_libro.pdf

       O futuro ditador, então comandante de infantaria, informa na página 53 que em 15 de agosto de 1921 pediu autorização a seu superior hierárquico para efetuar represálias contra povoados que serviam como ponto de apoio para a guerrilha. Tropas espanholas sob a direção de Franco incendiaram residências, enquanto legionários (membros de um corpo de choque de infantaria) atacavam a população civil.  O texto sugere que, apesar da rígida disciplina imposta aos legionários dentro dos quartéis, o saque (razzia) era uma atitude pelo menos tolerada.  




           Em outubro, quando os legionários estavam acampados na localidade de Segangan, Franco voltou a descrever episódios de razzia (página 76).  Fica claro que os saqueadores contavam com grande complacência, e que não estava descartado o abuso sexual contra as marroquinas que fossem aprisionadas.  O fato não surpreende: a Legião Espanhola, criada por Millán Astray em parceria com Francisco Franco e inspirada na Legião Estrangeira francesa, comportava "desde corajosos soldados movidos pelo patriotismo até criminosos que preferiam servir na legião a enfrentar longas condenações em lúgubres presídios³".     



        
           Menos de dois meses mais tarde, um pretendido "castigo aos aduares (acampamentos de beduínos)" resultou na destruição talvez completa da cabila (espécie de municipalidade, governada por um alcaide) de Beni-bu-Ifrur.  As tropas de Franco novamente recorreram ao expediente de colocar fogo nas casas. 

             
         A mesma truculência seria empregada, na década seguinte, contra os próprios civis espanhóis. Quando mineiros e operários asturianos, ligados ao socialismo ou ao anarquismo, deflagraram um levante revolucionário, em outubro de 1934, Francisco Franco, no posto de general, foi incumbido da repressão ao movimento. Para isto, deslocou para o norte do país tropas vindas do protetorado norte-africano: além dos legionários, regulares (mercenários mouros). A superioridade material do Exército, que contou com o apoio da aviação, levou à rendição sucessiva das cidades e vilarejos ocupados pelos revolucionários.  Em seguida, conforme Josep Buades, "os soldados governamentais fizeram justiça pelas próprias mãos, assassinando a sangue frio uma parte considerável dos prisioneiros, às vezes com doses de crueldade que estarreceram a população local"4.
          Em agosto de 1936, já no decorrer da guerra civil espanhola, Franco voltou a empregar, na tomada da região da Extremadura, legionários e regulares, comandados pelo coronel Yagüe. Durante a batalha pelo controle da cidade de Badajoz, de pouco mais de 40 mil habitantes, os legionários sofreram mais de duzentas baixas, entre mortos e feridos.  Vingaram-se, então, reunindo milhares de pessoas na praça de touros local.  Ali ocorreu uma sessão generalizada de ameaças, torturas e fuzilamentos.  Calcula-se que morreram entre dois e quatro mil dos habitantes de Badajoz5. 
       Esta sequência de atrocidades, à qual poderíamos anexar outros eventos, dificilmente espantará quem estiver um pouco familiarizado com a história do franquismo.  Não obstante, o "Generalíssimo" falecido há quase quatro décadas permanece como uma das figuras mais admiradas pelos direitistas de feitio conservador, tradicionalista e militarista, inclusive no Brasil. Longe de desconhecer os múltiplos antagonismos inevitáveis nas sociedades capitalistas, um número nada desprezível destas pessoas gostaria de solucioná-los dentro do método que já foi denominado "paz de cemitério"; em termos práticos, liquidando fisicamente todos os que se opõem, mesmo que com iniciativas tímidas, ao status quo. Cada brasileiro que sonha com tanques dissolvendo manifestações grevistas, barrando passeatas LGBT ou demolindo acampamentos do MST é um pequeno franquista tardio. 
            No próximo 22 de março, marchemos contra eles!     
               
             
Referências:

1- Buades, p. 120.
2- Idem, p. 20.
3- Ibidem, p. 120.
4- Ibidem, p. 54-55.
5- Ibidem, p. 109 a 111.

2 comentários:

  1. Ei, Gustavo, você viu o especial da Veja sobre o regime militar?

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