sexta-feira, 6 de julho de 2012

Imposturas de Olavo de Carvalho

     
       A direita conservadora, no Brasil e em outros países, vem se empenhando no combate aos movimentos negros, cujas reivindicações tenta desqualificar em todas as ocasiões propícias.  Os episódios mais evidentes de discriminação racial muitas vezes são contestados de maneira cínica.  Não é raro que, após a exposição na mídia de fatos desta natureza, certos comentaristas lancem a culpa sobre os ofendidos.  Com mais frequência, após análises superficiais o racismo é "transformado" em mero preconceito econômico, mesmo que as reais condições econômicas dos envolvidos sejam desconhecidas por completo.
       Hoje de manhã encontrei no Youtube o vídeo Mandela, genocídio, racismo, produzido por Olavo de Carvalho e publicado em fins de 2010.  O "decano" do site Mídia sem Máscara, como de hábito, constrói   em seis minutos uma tosca mistura de acusações estapafúrdias, generalizações grosseiras, distorções factuais e impropérios:
               
http://www.youtube.com/watch?v=hbOcWCgRqzs&feature=related
       
       O trecho abaixo (ver de 2:04 em diante) me despertou a atenção pelo volume de desonestidade intelectual  agregado em apenas duas frases:


"Dívida por dívida, vejam o seguinte: os muçulmanos, entre os quais havia uma quantidade enorme de negros africanos, eles invadiram a Europa e começaram a fazer escravos lá pelo menos oito séculos antes que os europeus se metessem na África.  E a totalidade do tráfico de escravos dentro da Europa para o mundo muçulmano é imensa, algo por baixo, por baixo entre três e cinco milhões de pessoas."

        Olavo de Carvalho, maliciosamente, superestima o número dos negros islamizados que tomaram parte nos ataques dirigidos pelo Islã à Europa na Alta Idade Média.  Pela leitura de Albert Hourani, notamos que a conquista da Península Ibérica pelos muçulmanos coube essencialmente a árabes e berberes norte-africanos.  O autor informa que com a substituição da dinastia dos Omíadas pela dos Abássidas, ainda no século VIII, houve um reforço na ocupação da região por elementos originários da Síria. 
                
Hourani 60

       O povoamento muçulmano da península a partir da África cresceu nos séculos seguintes, mas continuou fortemente associado às migrações dos berberes, mediterrâneos de ancestralidade caucasiana em sua maior parte. Não há qualquer indício de que os negros formassem mais do que uma pequena minoria, e menos ainda de que desfrutassem obrigatoriamente de posições sociais de prestígio.        

Hourani 61

       Pelo contrário: Alberto da Costa e Silva relata que os negros, chegando em maior quantidade a  Al-Andalus a partir da instauração do poder dos califas almorávidas (século XI), muitas vezes o faziam na qualidade de escravos.  Fica claro que atribuir aos povos subsaarianos um protagonismo na escravização de cristãos semelhante ao desempenhado pelos europeus do século XV em diante na África é uma impostura absurda.    

Costa e Silva 133

         A tentativa de culpabilização extra do Islã também é falha.  Os processos de escravização verificados na bacia do Mediterrâneo foram uma via de mão dupla: se milhares de prisioneiros visigóticos, hispano-romanos e de outras etnias do sul da Europa caíram no cativeiro (o que não há como negar), os muçulmanos vencidos nas guerras ibéricas tinham um destino semelhante.  Isto fez com que as áreas que constituem a atual Espanha, nas quais a escravidão era bastante difundida, conhecessem uma organização econômica bem distinta da que prevalecia na França, na Alemanha e nos Países Baixos, por exemplo.       

Anderson 164

             O mesmo se deu em Portugal, reino em que a servidão feudal se atrofiou em consequência da disseminação da mão de obra escrava.  A conquista do Alentejo e do Algarve, províncias do sul, forneceu aos proprietários rurais numerosos cativos islâmicos.  A expressão "trabalhar como um mouro" constitui um reflexo daquele tempo.

Anderson 167

           Sobre a escravidão ibérica, devo também ressaltar que o historiador português José Hermano Saraiva,  insuspeito de qualquer inclinação esquerdista ou terceiro-mundista, afirma que os muçulmanos introduziram em seu país melhoramentos agrícolas que reduziram a necessidade de trabalho compulsório.   

Saraiva 18

                 Portugueses e espanhóis viviam em contato com muçulmanos e eram influenciados por estes, me diria em triunfo um conservador mais afoito.  Este argumento cai com igual facilidade.  A narrativa dos cronistas árabes a respeito da tomada de Jerusalém, no início das Cruzadas, demonstra que os defensores da cidade sabiam que, após a derrota, seriam exterminados ou escravizados  pelos franj (francos), ingleses, franceses e alemães.    

Maalouf 12

         Com a continuidade das Cruzadas, os venezianos assimilaram o cultivo da cana, produzindo açúcar na Ásia Ocidental e mais tarde nas ilhas mediterrâneas de Chipre, Creta, Malta e Sicília.  Esta atividade não dispensou o emprego de outros escravos, talvez majoritariamente muçulmanos, e entre os quais fatalmente haveria alguns negros.   

Costa e Silva 136

       Sobre a atuação dos venezianos como mercadores ou donos de escravos, temos razões para suspeitar de que nada deveram em atrocidades aos senhores mais cruéis da América Portuguesa.  Durante a Baixa Idade Média, os habitantes da Bósnia, para escapar ao controle de Veneza, se lançaram nos braços do Império Otomano, tornando-se muçulmanos.      

Anderson 280/281

        Quanto ao tráfico em direção às Américas, as estatísticas provam que os negros escravizados provinham maciçamente de regiões alheias ao domínio islâmico, como a África Centro-Ocidental e o Golfo da Guiné.  Alegar que os descendentes de súditos do rei do Congo trazidos para o Brasil não podem declarar sua indignação porque marroquinos, egípcios e sudaneses de pele escura possuíram escravos europeus na Idade Média faz tanto sentido quanto exigir desculpas do atual governo austríaco pela ação dos negreiros britânicos.        

Lovejoy 93

            Isto diz respeito, em profundidade, ao Brasil.  Os dados acerca dos desembarques de escravos no Rio de Janeiro, porto mais ativo do continente neste negócio, não deixam dúvidas de que no período entre 1790 e 1830, marcado pela revitalização da agricultura comercial e pela expansão dos cafezais, os trabalhadores das plantações eram importados, em sua maioria esmagadora, de Luanda, Cabinda e Benguela, localizadas na atual Angola, e secundariamente de Moçambique.    

Florentino 234

       Além de inconsistente, a discussão levantada por Olavo de Carvalho é empobrecida.  Ele tenta incutir no público a ideia de que muitos negros pretendem se vingar de todos os brancos, da forma mais ampla ao seu alcance, ou talvez exigir do Estado indenizações pecuniárias que evidentemente jamais poderão ser pagas.  Desvia o foco da questão que realmente tem importância e não deve ser protelada: como construir uma sociedade realmente igualitária, inclusive no aspecto étnico, nos dias de hoje.  O projeto liberal, centrado na mera igualdade jurídica, vem fracassando há quase duzentos anos.    

Referências:

ANDERSON, Perry.  Passagens da Antiguidade ao Feudalismo.  São Paulo: Brasiliense, 1991.
FLORENTINO, Manolo.  Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX.  São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 
HOURANI, Albert.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
LOVEJOY, Paul.  A escravidão na África: uma história de suas transformações.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
MAALOUF, Amin.  As Cruzadas vistas pelos árabes.  São Paulo: Brasiliense, 1988.
SARAIVA, José Hermano.  Breve História de Portugal.  Lisboa: Bertrand Editora, 1989.  
SILVA, Alberto da Costa e.  A manilha e o libambo.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.





quinta-feira, 5 de julho de 2012

O "Mundo Livre" e seus parceiros liberticidas da América Latina


           Tratei, na última postagem, dos pactos assumidos pelas potências ocidentais com os tiranos pró-capitalismo asiáticos e africanos.  Esta tendência, contudo, de forma alguma se limitou às regiões que então saíam da dominação colonial direta.  Coube sobretudo aos Estados Unidos a manutenção do status quo nos países da América Latina, que embora dispusessem de governos autônomos desde o século XIX estavam presumidamente incluídos numa vasta área de influência norte-americana; na verdade, os eventos continentais ligados à Guerra Fria reviveram, mediante outras estratégias, a política do Big Stick, que resultara, na primeira metade do século XX, em invasões pelos marines de nações como Cuba, Haiti e Nicarágua.      
           A bandeira do anticomunismo por vezes serviu de pretexto para legitimar o poder de ditadores truculentos e corruptos, porém comprometidos com os interesses das multinacionais sediadas no "mundo desenvolvido"; em outras ocasiões, como justificativa para a derrubada de governantes democraticamente eleitos, porém portadores de ambições de autonomia tidas como inconvenientes em tempos de Guerra Fria, fossem ou não efetivamente apoiados pelos comunistas.  Limito-me novamente, por questões relacionadas à administração do espaço, a três exemplos.          












           Anastasio Somoza Debayle (1925-1980)

Anastasio Somoza Garcia (1896-1956)
                                                                         
                                                                       Sua obra:


Bruit 93/94

Seus parceiros:

Bruit 94

Peña 316

Fulgencio Batista (1901-1973)

Sua obra:

Gott 174

Gott 180/181

Seus parceiros:

Gott 186
Gott 189/190


Augusto Pinochet (1915-2006)

Sua obra:

Rossi 50
Rossi 55
Rossi 56

Seus parceiros:

Peña 323/324


Referências:

BRUIT, Héctor H.  Revoluções na América Latina.  São Paulo: Atual, 1988.
GOTT, Richard.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 
PEÑA, Paco.  As intervenções norte-americanas na América Latina.  In: O livro negro do capítalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000. 
ROSSI, Clóvis.  A contra-revolução na América Latina.  São Paulo: Atual; Campinas: Unicamp, 1987.

                                                                    Adendo

O poeta uruguaio Mario Benedetti (1920- 2009) expressa seus sentimentos ao saber da morte de Pinochet:

Obituario con hurras 

Vamos a festejarlo
vengan todos
los inocentes
los damnificados los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabó el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabó para siempre
hurra
que vengan todos
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo

todo lo purifica
cualquier día
la muerte
no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que éste
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo
a no volvernos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O "Mundo Livre" e seus parceiros liberticidas


     Este é um tópico dirigido sobretudo aos jovens.  A grande maioria das pessoas de meia idade ou idosas, com mediana ou elevada instrução, certamente se lembra dos personagens hoje exibidos, ao menos nos aspectos mais essenciais.
      Durante os anos da Guerra Fria, forjou-se a expressão Mundo Livre, referente não apenas ao conjunto dos países ocidentais e aliados do Ocidente classificados como desenvolvidos, mas também aos países formalmente autônomos e mesmo aos territórios coloniais em que prevaleciam economias de tipo capitalista.  A propaganda ideológica buscava vincular a pretendida solidariedade entre os integrantes de um bloco tão heterogêneo à defesa global da democracia, supostamente ameaçada pelo crescimento da área de influência da União Soviética.   
         Este processo foi contemporâneo, especialmente nas décadas de 1950 e 1960, da descolonização da Ásia e da África, marcada pelas disputas entre as duas superpotências.  Um exame superficial é suficiente para demonstrar que a interferência dos Estados Unidos, em muitos casos dispondo do auxílio das antigas metrópoles europeias em declínio, pouco ou nada se relacionou à instauração de ideais democráticos.  Já vimos, em postagem recente, a longa tolerância ocidental diante do apartheid e das agressões militares do regime de minoria branca da África do Sul contra várias nações vizinhas.  Quanto aos povos coloniais que ansiavam pela emancipação, a transição para um governo autônomo poderia ser acelerada, se a luta fosse conduzida por segmentos aburguesados ou ex-colaboradores tidos como confiáveis pelos poderes metropolitanos, ou retardada por todos os meios disponíveis, caso houvesse a perspectiva de ascensão de governantes socialistas ou nacionalistas sem maiores compromissos com a ordem capitalista.  Concretizada a última hipótese, recorria-se com frequência a expedientes como o assassinato de lideranças políticas e o financiamento de guerrilhas étnicas aderentes a programas de direita.  
         O tema, como se percebe, é praticamente inesgotável.  Apresento, por enquanto, três dos mais notáveis exemplos de tiranos patrocinados pelo Ocidente em nome da liberdade.  Os breves textos dispensam explicações.  O somatório dos crimes cometidos pelo trio, na verdade, formaria uma enciclopédia.          

Mobutu Sese Seko (1930-1997)

Sua obra:

Ziegler 510

Seus parceiros:

Ziegler 510/511

Hadji Mohamed Suharto (1921-2008)

Sua obra:

Jurquet 182/183

Seus parceiros:

Jurquet 187


Ferdinand Marcos (1917-1989)

Sua obra:

Ziegler 506

Seus parceiros:

Ziegler 503

Ziegler 502

Referências:

JURQUET, Jacques.  Genocídio anticomunista na Indonésia.  In: O livro negro do capitalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000.
ZIEGLER, Jean.  Os banqueiros suíços matam sem metralhadoras.  In: O livro negro do capitalismo. 





segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dez mestres da igualdade


             O blog História & Política, como exponho em sua apresentação, é uma pequena trincheira em favor da igualdade, aqui entendida como superação das hierarquias e respectivas discriminações relacionadas a classe, gênero, etnia, origem regional, nacional ou religiosa, orientação sexual, aparência física.  Muitas pessoas, por puro sentido de justiça, são capazes de realizar avanços nesta direção sem investir em um preparo teórico formal.  Entretanto, se considerarmos o elevadíssimo nível de articulação das forças oligárquicas e a posse, por parte destas, de mecanismos de controle social e de formação de opinião cada vez mais sofisticados, torna-se imprescindível o recurso aos intelectuais que mobilizaram seus melhores neurônios na tarefa de desconstruir o pensamento dominante e apontar caminhos para a construção de uma sociedade igualitária.
            Chamei-os de mestres da igualdade.  Evidentemente, centenas de outros nomes poderiam figurar  com grande mérito nesta galeria, mas sou obrigado, como sempre, a respeitar as limitações da minha biblioteca e as dimensões de texto convenientes à leitura pela Internet.  Dos poucos parágrafos que transcrevo abaixo das imagens de seus autores, podemos extrair um denso programa político, que alguns tacharão, sem dúvida, de utópico, porém excelente para a elaboração de estratégias que conduzirão ao progresso social.  Não tenho a vã ilusão, aos 44 anos, de que ainda verei sociedades sem elitismo, machismo e racismo, onde todos disporiam da formação escolar e profissional que desejassem sendo remunerados na proporção direta do que produzissem.  Como historiador, contudo, avalio que desde o século XVIII, pelo menos, a humanidade se move, entre muitas vitórias e certos recuos tenebrosos, a exemplo da Santa Aliança e do thatcherismo, numa direção igualitária, de deslegitimação lenta mas progressiva da autoridade dos mais fortes, dos mais ricos, dos que sempre foram vistos como superiores.  Sou um entusiasmado partidário desta tendência.
           Nesta postagem, presto um tributo não planejado ao marxismo.  A despeito de todas as cisões doutrinárias entre os seguidores do "Mouro" de Trier e de seus numerosos equívocos no campo da política real, ao longo de mais de um século e meio, desta corrente de pensamento provém o instrumental mais eficaz para a luta pela igualdade.      
                                                    
                                                          Antonio Gramsci (1891-1937)

Os socialistas não devem substituir uma ordem por outra.  Devem instaurar a ordem em si.  A máxima jurídica que eles querem realizar é: possibilidade de realização integral da própria personalidade humana concedida a todos os cidadãos.  Com a concretização dessa máxima, desaparecem todos os privilégios constituídos.  Ela conduz ao máximo de liberdade com o mínimo de coerção.  Pretende que a regra da vida e das tarefas seja a capacidade e a produtividade, fora de qualquer esquema tradicional.  Que a riqueza não seja instrumento de escravidão, mas que, sendo de todos de modo impessoal, dê a cada um os meios para todo o bem-estar possível.

(GRAMSCI, Antonio.  Escritos políticos, vol. 1.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 83)

                                                  Salvador Allende Gossens (1908-1973)

Mas aqui e agora, no Chile e na América Latina, temos a possibilidade e o dever de desencadear as energias criadoras, particularmente da juventude, para missões que possam nos comover mais que qualquer outro empreendimento do passado.  Essa é a esperança de construir um mundo que supere a divisão entre ricos e pobres.  E, em nosso caso, erigir uma sociedade em que seja anulada a guerra de uns contra outros na concorrência econômica; na qual não tenham sentido a luta por privilégios profissionais, nem a indiferença pelo destino alheio, que faz com que os poderosos sejam extorsionários dos fracos.

(In: LÖWY, Michael.  O marxismo na América Latina.  São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 389.

                                                    Nelson Werneck Sodré (1911-1999)

Os pessimistas de hoje, que veem o Brasil "à beira do abismo", os que não acreditam em povo, os que só confiam em elites, em predestinados, em bem-aventurados, os que nos supõem condenados à perdição econômica, os que se desalentam com os "desatinos" do nacionalismo, são herdeiros naturais dos que proclamavam a preguiça do brasileiro, a incapacidade do brasileiro, a cobiça do brasileiro.  Traços de classe, que pretendiam e pretendem generalizar em todo o povo.

(SODRÉ, Nelson Werneck.  A ideologia do colonialismo: seus reflexos no pensamento brasileiro.  Petrópolis: Vozes, 1984, p. 11.

                                                           Amílcar Cabral (1924-1973)

Atualmente, tornou-se um lugar comum afirmar que cada povo tem a sua cultura.  Já lá vai o tempo em que, numa tentativa para perpetuar o domínio dos povos, a cultura era considerada como apanágio de povos ou nações privilegiadas e em que, por ignorância ou má fé, se confundia cultura e tecnicidade, senão mesmo cultura e cor da pele ou forma dos olhos.  O movimento de libertação, representante e defensor da cultura do povo, deve ter consciência do fato que, sejam quais forem as condições materiais da sociedade que representa, esta é portadora e criadora de cultura, e deve, por outro lado, compreender o caráter de massa, o caráter popular da cultura, que não é, nem poderia ser, apanágio de um ou de alguns setores da sociedade.

(In: Amílcar Cabral: a arma da teoria/coord. Carlos Comitini.  Rio de Janeiro: Codecri, 1980, p. 59)

                                                Milton Almeida dos Santos (1926-2001)

As grandes universidades brasileiras são a cada ano mais elitistas, não do ponto de vista intelectual, mas do ponto de vista sócio-econômico.  É inaceitável haver uma educação para um tipo de pessoas e outra para outro tipo de pessoas.  Isto se aplica a toda a sociedade brasileira, particularmente aos negros.  Com a saúde também.  Para ficar doente e ser bem tratado, você precisa ser ministro!  No mundo inteiro você tem políticas compensatórias.  Se são os idosos que têm dificuldades, é importante tratar deles logo.  Ou quando o problema está no subúrbio, na periferia, como ocorre hoje em quase toda a Europa... As políticas compensatórias servem para manter a coesão nacional.

(In: Racismo cordial: a mais completa análise sobre o preconceito de cor no Brasil/org. Cleusa Turra e Gustavo Venturi.  São Paulo: Ática, 1998, p. 61)

                                                           Pierre Bourdieu (1930-2002)

Só uma ação política que leve realmente em conta todos os efeitos de dominação que se exercem através da cumplicidade objetiva entre as estruturas incorporadas (tanto entre as mulheres quanto entre os homens) e as estruturas de grandes instituições em que se realizam e se produzem não só a ordem masculina, mas também toda a ordem social (a começar pelo Estado, estruturado em torno da oposição entre sua "mão direita", masculina, e sua "mão esquerda", feminina, e a Escola, responsável pela reprodução efetiva de todos os princípios de visão e de divisão fundamentais, e organizada também em torno de oposições homólogas) poderá, a longo prazo, sem dúvida, e trabalhando com as contradições inerentes aos diferentes mecanismos ou instituições referidas, contribuir para o desaparecimento progressivo da dominação masculina.

(BOURDIEU, Pierre.  A dominação masculina.  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p. 139)

                                                             István Mészáros (1930-)

Mais uma vez, há, e só pode haver, a esse respeito uma única solução viável e sustentável.  É o socialismo.  O socialismo no sentido que eu mencionei antes: isto é, a eliminação da conformação conflitual/adversa/antagônica ora dada, na qual uma parcela da população- uma minúscula minoria- tem de dominar a maioria esmagadora por uma questão de determinação estrutural intransponível.  Quer dizer, uma forma de dominação que expropria totalmente para si o poder de decisão.  O trabalho como o antagonista do capital não tem absolutamente nenhum poder de decisão; nem mesmo no mais limitado contexto.  Essa é a questão vital e inevitável para o futuro.  E, nesse sentido, estou convencido de que as chances de o movimento socialista mais cedo ou mais tarde revivificar-se são enormes e absolutamente fundamentais.

(MÉSZÁROS, István.  O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo no século XXI.  São Paulo: Boitempo, 2007, p. 77)

                                                           Herbert de Souza (1935-1997)

Os princípios da democracia (igualdade, diversidade e participação) negam o capital na medida em que ele se funda numa relação que nega a igualdade, a diversidade e a participação.  Isto porque o capital sobrevive através da apropriação privada dos meios de produção, da exclusão dos não-proprietários do mundo dos que decidem sobre o quê e como produzir para a sociedade- e principalmente através da expropriação do trabalho do trabalhador.  E, também, da subordinação concreta do trabalhador às condições impostas pelo capital.  No mundo do capital a igualdade só existe (e a diversidade só é possível) entre os detentores do capital de igual poder.  Todos os demais só são iguais enquanto igualdade dominados pelo capital.  A democracia (não é liberalismo) é a negação positiva da relação social, da sociedade capitalista.  Aí reside sua força e sua debilidade.  Sua força está em sua radicalidade: a sociedade democrática extrai sua força do caráter radical de sua proposta igualitária, diversa e participativa, impossível de realizar-se no capitalismo.

(SOUZA, Herbert de. Escritos indignados: democracia x neoliberalismo no Brasil.  Rio de Janeiro: Rio Fundo/IBASE, 1991, p. 61)

                                                       Marilena de Souza Chaui (1941)

Uma das práticas mais importantes da política democrática consiste justamente em propiciar ações capazes de unificar a dispersão e a particularidade das carências em interesses comuns e, graças a essa generalidade, fazê-las alcançar a esfera universal dos direitos.  Em outras palavras, privilégios e carências determinam a desigualdade econômica, social e política, contrariando o princípio democrático da igualdade, de sorte que a passagem das carências dispersas em interesses comuns e destes aos direitos é a luta pela igualdade.  Avaliamos o alcance da cidadania popular quando tem força para desfazer privilégios, seja porque os faz passar a interesses comuns, seja porque os faz perder a legitimidade diante dos direitos e também quando tem força para fazer carências passarem â condição de interesses comuns e, destes, a direitos universais.

(CHAUI, Marilena.  Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas.  São Paulo: Cortez, 2007, p. 353)

                                                        Carlos Nelson Coutinho (1943-)

A democracia de massas, enquanto forma institucional de governo mais adequada à socialização do poder no mundo moderno, reconhece o pluralismo, ou seja, a autonomia e a diversidade dos múltiplos sujeitos coletivos, além de propugnar a divisão do poder por meio da sua descentralização; esse reconhecimento do pluralismo, contudo, não anula- antes impõe- a busca constante da unidade política, da formação de uma vontade geral ou coletiva, hegemônica, a ser construída pela via da negociação e do consenso.

(COUTINHO, Carlos Nelson.  Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo.  São Paulo: Cortez, 2008, p. 38)