Um dos expedientes mais demagógicos, porém exaustivamente empregado pelos publicistas de direita brasileiros, é o de buscar vincular ações e programas das organizações de tendência progressista a patrocinadores e/ou inspiradores ideológicos estrangeiros. Nesta linha, a demarcação de terras e as tentativas de assegurar direitos econômicos às populações indígenas são associadas a uma malévola tramoia internacional cujo objetivo seria cancelar a soberania nacional sobre determinadas fatias do território, notadamente na Amazônia. Tal discurso, com décadas de tradição retórica e nenhuma comprovação no mundo material, vez por outra emerge nos panfletos virtuais como a última descoberta da contra-espionagem contra-revolucionária. A exigência de igualdade de oportunidades por parte dos movimentos negros, a seu turno, é apontada com frequência por militantes conservadores sofrivelmente alfabetizados como uma mera pretensão de copiar as medidas de affirmative action adotadas nos Estados Unidos. Os gurus desta militância, entretanto, sabem que as lutas dos negros brasileiros por tratamento igualitário em suas relações sociais, políticas e econômicas remontam a processos tão distantes no tempo quanto a organização da Guarda Nacional do Império na década de 1830 e a Conjuração Baiana de 1798.
Não me proponho, no momento, à desconstrução detalhada das fraudes indicadas, a despeito da irritação que, admito, me provocam. Prefiro voltar as peças de artilharia para outra direção e, como se diz popularmente, fazer o macaco olhar para o próprio rabo. Mostrar que a nova direita brasileira não apenas carece de originalidade como revela com enorme clareza seu parentesco sempre negado com o velho fascismo. Para isto recorro a um exercício simples e na minha perspectiva até divertido, iniciado pela leitura do projeto político do partido francês Front National, fundado por Jean-Marie Le Pen, que constitui uma das principais forças políticas classificadas como criptofascistas pela imprensa europeia especializada no tema.
Segundo o historiador Robert O. Paxton, os adeptos do Front National, como os de outras organizações de extrema direita do continente, resgatam diversas bandeiras do fascismo clássico: "medo da decadência e do declínio; afirmação da identidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social representada por estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autoridade mais forte para lidar com esses problemas"¹. Vejamos como reuniriam, sem dificuldade, pregadores e seguidores no Brasil:
O Front National defende não apenas a extensão da maioridade penal aos maiores de treze anos, como também a supressão dos benefícios sociais concedidos aos pais dos infratores reincidentes.
Numa hipotética cruzada planetária, os lepenistas certamente contariam com o inflamado Reinaldo Azevedo, ainda que este, numa primeira etapa, talvez se contentasse em enviar aos presídios somente os maiores de dezesseis.
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/maioridade-penal/
Mais ambicioso, talvez pela pouca idade, Carlos Bolsonaro acrescentaria à "maioridade precoce" medidas no sentido de evitar o nascimento de indesejáveis.
http://www.carlosbolsonaro.com.br/perfil.html
Onyx Lorenzoni, parlamentar do DEM, reivindica para si um papel de destaque na questão, desmentindo os que se dizem órfãos de uma direita autêntica no Congresso.
Marine Le Pen, filha e herdeira política do fundador do Front National, se opõe por princípio a qualquer ampliação dos direitos civis dos homossexuais.
Em Brasília ou em Paris, disporia da solidariedade da Juventude Conservadora da UnB, que não se contenta em ser contra o casamento gay. Pretende, apesar de formada por simples graduandos (não necessariamente de Direito), teorizar sobre constitucionalidade.
A caricata aliança logo empolgaria Nivaldo Cordeiro, um incompreendido arauto da tese da conspiração gramsciana contra a família tradicional.
http://www.nivaldocordeiro.net/aloucuradoespirito
Indo mais além, Julio Severo sugere às suas ovelhas até a possibilidade de martírio na defesa dos "valores inegociáveis".
http://juliosevero.blogspot.com.br/2013/02/marina-silva-amarela-em-questao-de.html
Questões como “casamento” gay e aborto são, para os seguidores de Jesus Cristo, inegociáveis. Quer o nazismo ou o comunismo imponham esses valores estatais sobre a sociedade, a defesa do verdadeiro casamento e da vida é missão do cristão. Ele não defenderia o tal “casamento” gay, ou adoção de crianças por duplas gays, ou o aborto nem que isso lhe custasse a vida. Evidentemente, os valores inegociáveis de um militante de ideologia marxista não são os mesmos valores inegociáveis de um seguidor de Jesus Cristo.
Não causará surpresa aos leitores a alternativa plebiscitária entre pena de morte e prisão perpétua inscrita no programa do partido dos Le Pen.
Aqui, ao menos, a direita tupiniquim (sem dúvida bem menos europeia do que gostaria) pode alegar uma certa autonomia. Afinal, no início da década de 1990 uma das criaturas mais abomináveis da então recém-falecida ditadura civil-militar, o deputado federal Amaral Netto (1921-1995), já se batia com ardor pela "causa".
http://penademorteja.wordpress.com/category/pensamento/amaral-netto/
No ano passado, o Grupo Guararapes, integrado por simpatizantes daquele regime, recebeu espaço no blog Libertatum para advogar a pena de morte. Não faço pouco caso da argumentação tosca, ao estilo Alborghetti. Como afirmou Mussolini, "o espírito fascista é emoção, não intelecto".
Naturalmente, Jair Bolsonaro, talvez o maior ídolo dos reacionários de todas as idades, se manifesta em sentido idêntico. Na mesma entrevista, aproveita as chances de defender a tortura contra criminosos comuns e fazer uma apologia da chacina do Carandiru.
Pena de morte é a solução?
Acho que um elemento que pratica um crime premeditado não pode ter direitos humanos. O José Gregori (secretário nacional dos Direitos Humanos) fala em indenizar os familiares dos 111 mortos no Carandiru. E ele não dá uma palavra às viúvas e órfãos que os 111 fizeram em sua vida de marginalidade.
A polícia agiu corretamente no Carandiru?
Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.
Isto inclui tráfico de droga?
Aí é outra história, aí eu defendo a tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém. É um a menos.
Suspendo por aqui a exibição do circo dos horrores. Sei que, com exceção de um punhado de skinheads, nenhum direitista passará recibo de suas afinidades doutrinárias com os fascistas, ainda que diante de milhares de exemplos. Mas ficarei satisfeito se fizer com que algumas centenas de pessoas percebam o quão tênue e imprecisa é a fronteira entre o conservadorismo tradicional, sobretudo em suas visões mais truculentas, e o fascismo.
Nota:
1-A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 304.
Suspendo por aqui a exibição do circo dos horrores. Sei que, com exceção de um punhado de skinheads, nenhum direitista passará recibo de suas afinidades doutrinárias com os fascistas, ainda que diante de milhares de exemplos. Mas ficarei satisfeito se fizer com que algumas centenas de pessoas percebam o quão tênue e imprecisa é a fronteira entre o conservadorismo tradicional, sobretudo em suas visões mais truculentas, e o fascismo.
Nota:
1-A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 304.









































