quarta-feira, 24 de abril de 2013

Neocons brasileiros: nas fronteiras do fascismo

          

         Um dos expedientes mais demagógicos, porém exaustivamente empregado pelos publicistas de direita brasileiros, é o de buscar vincular ações e programas das organizações de tendência progressista a patrocinadores e/ou inspiradores ideológicos estrangeiros.  Nesta linha, a demarcação de terras e as tentativas de assegurar direitos econômicos às populações indígenas são associadas a uma malévola tramoia internacional cujo objetivo seria cancelar a soberania nacional sobre determinadas fatias do território, notadamente na Amazônia.  Tal discurso, com décadas de tradição retórica e nenhuma comprovação no mundo material, vez por outra emerge nos panfletos virtuais como a última descoberta da contra-espionagem contra-revolucionária.  A exigência de igualdade de oportunidades por parte dos movimentos negros, a seu turno, é apontada com frequência por militantes conservadores sofrivelmente alfabetizados como uma mera pretensão de copiar as medidas de affirmative action adotadas nos Estados Unidos.  Os gurus desta militância, entretanto, sabem que as lutas dos negros brasileiros por tratamento igualitário em suas relações sociais, políticas e econômicas remontam a processos tão distantes no tempo quanto a organização da Guarda Nacional do Império na década de 1830 e a Conjuração Baiana de 1798.       
       Não me proponho, no momento, à desconstrução detalhada das fraudes indicadas, a despeito da irritação que, admito, me provocam.  Prefiro voltar as peças de artilharia para outra direção e, como se diz popularmente, fazer o macaco olhar para o próprio rabo.  Mostrar que a nova direita brasileira não apenas carece de originalidade como revela com enorme clareza seu parentesco sempre negado com o velho fascismo.  Para isto recorro a um exercício simples e na minha perspectiva até divertido, iniciado pela leitura do projeto político do partido francês Front National, fundado por Jean-Marie Le Pen, que constitui uma das principais forças políticas classificadas como criptofascistas pela imprensa europeia especializada no tema.  

http://www.frontnational.com/le-projet-de-marine-le-pen/

      Segundo o historiador Robert O. Paxton, os adeptos do Front National, como os de outras organizações de extrema direita do continente, resgatam diversas bandeiras do fascismo clássico: "medo da decadência e do declínio; afirmação da identidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social representada por estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autoridade mais forte para lidar com esses problemas"¹.  Vejamos como reuniriam, sem dificuldade, pregadores e seguidores no Brasil:

O Front National defende não apenas a extensão da maioridade penal aos maiores de treze anos, como também a supressão dos benefícios sociais concedidos aos pais dos infratores reincidentes.   



Numa hipotética cruzada planetária, os lepenistas certamente contariam com o inflamado Reinaldo Azevedo, ainda que este, numa primeira etapa, talvez se contentasse em enviar aos presídios somente os maiores de dezesseis. 

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/maioridade-penal/



Mais ambicioso, talvez pela pouca idade, Carlos Bolsonaro acrescentaria à "maioridade precoce" medidas no sentido de evitar o nascimento de indesejáveis.

http://www.carlosbolsonaro.com.br/perfil.html



Onyx Lorenzoni, parlamentar do DEM, reivindica para si um papel de destaque na questão, desmentindo os que se dizem órfãos de uma direita autêntica no Congresso. 

http://blogdoonyx.wordpress.com/2013/04/17/emancipacao-penal-uma-alternativa-para-menores-assassinos/



Marine Le Pen, filha e herdeira política do fundador do Front National, se opõe por princípio a qualquer ampliação dos direitos civis dos homossexuais.



Em Brasília ou em Paris, disporia da solidariedade da Juventude Conservadora da UnB, que não se contenta em ser contra o casamento gay.  Pretende, apesar de formada por simples graduandos (não necessariamente de Direito), teorizar sobre constitucionalidade.    

http://unbconservadora.blogspot.com.br/search/label/fam%C3%ADlia


A caricata aliança logo empolgaria Nivaldo Cordeiro, um incompreendido arauto da tese da conspiração gramsciana contra a família tradicional. 

http://www.nivaldocordeiro.net/aloucuradoespirito




Indo mais além, Julio Severo sugere às suas ovelhas até a possibilidade de martírio na defesa dos "valores inegociáveis". 


http://juliosevero.blogspot.com.br/2013/02/marina-silva-amarela-em-questao-de.html


Questões como “casamento” gay e aborto são, para os seguidores de Jesus Cristo, inegociáveis. Quer o nazismo ou o comunismo imponham esses valores estatais sobre a sociedade, a defesa do verdadeiro casamento e da vida é missão do cristão. Ele não defenderia o tal “casamento” gay, ou adoção de crianças por duplas gays, ou o aborto nem que isso lhe custasse a vida. Evidentemente, os valores inegociáveis de um militante de ideologia marxista não são os mesmos valores inegociáveis de um seguidor de Jesus Cristo.

Não causará surpresa aos leitores a alternativa plebiscitária entre pena de morte e prisão perpétua inscrita no programa do partido dos Le Pen.


Aqui, ao menos, a direita tupiniquim (sem dúvida bem menos europeia do que gostaria) pode alegar uma certa autonomia.  Afinal, no início da década de 1990 uma das criaturas mais abomináveis da então recém-falecida ditadura civil-militar, o deputado federal Amaral Netto (1921-1995), já se batia com ardor pela "causa".

http://penademorteja.wordpress.com/category/pensamento/amaral-netto/




No ano passado, o Grupo Guararapes, integrado por simpatizantes daquele regime, recebeu espaço no blog Libertatum para advogar a pena de morte.  Não faço pouco caso da argumentação tosca, ao estilo Alborghetti.  Como afirmou Mussolini, "o espírito fascista é emoção, não intelecto".


http://libertatum.blogspot.com.br/2012/08/uma-bandeira-inserida-em-uma-proposta.htm



Naturalmente, Jair Bolsonaro, talvez o maior ídolo dos reacionários de todas as idades, se manifesta em sentido idêntico.  Na mesma entrevista, aproveita as chances de defender a tortura contra criminosos comuns e fazer uma apologia da chacina do Carandiru.  

Pena de morte é a solução?

Acho que um elemento que pratica um crime premeditado não pode ter direitos humanos. O José Gregori (secretário nacional dos Direitos Humanos) fala em indenizar os familiares dos 111 mortos no Carandiru. E ele não dá uma palavra às viúvas e órfãos que os 111 fizeram em sua vida de marginalidade.
A polícia agiu corretamente no Carandiru? 

Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.
Isto inclui tráfico de droga?

Aí é outra história, aí eu defendo a tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém. É um a menos.


Suspendo por aqui a exibição do circo dos horrores.  Sei que, com exceção de um punhado de skinheads, nenhum direitista passará recibo de suas afinidades doutrinárias com os fascistas, ainda que diante de milhares de exemplos.  Mas ficarei satisfeito se fizer com que algumas centenas de pessoas percebam o quão tênue e imprecisa é a fronteira entre o conservadorismo tradicional, sobretudo em suas visões mais truculentas, e o fascismo.    


Nota:

1-A anatomia do fascismo.  São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 304.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A direita e o social: contradições estruturais e discurso vazio

       

      A despeito das inegáveis vitórias políticas obtidas pela direita nas décadas de 1980 e 1990, poucas vezes vemos liberais e conservadores discursando em prol das bandeiras que fazem deles direitistas: essencialmente, a preservação das desigualdades econômicas e sociais através da manutenção, por todos os meios ao seu alcance, das hierarquias informais, porém enraizadas nas sociedades, de classe, gênero e etnia.  É certo que podemos encontrar tal defesa em sites de extremistas que flertam ou aderem sem disfarces ao neonazismo, mas praticamente nunca na fala de políticos com pretensões eleitorais sérias ou de formadores de opinião desejosos de conservar respeitabilidade diante de um público mais amplo.
      Não faltará, sem dúvida, um interlocutor que venha a me explicar o fenômeno se reportando à suposta "erosão dos valores tradicionais".  Todavia, é interessante verificarmos que esta tendência evasiva nada tem de ineditismo. Podemos encontrá-la, por exemplo, na documentação de um período no qual a direita também detinha uma posição ofensiva: os primeiros anos da ditadura civil-militar inaugurada em 1964.  As mensagens oficiais dos generais-presidentes, não obstante as muitas críticas diretas e indiretas ao governo de João Goulart, contêm diversas passagens que o dirigente deposto talvez subscrevesse com orgulho. Nelas, o regime reivindica ideais igualitários que contrastam brutalmente com a ação cotidiana do Estado sob seu controle.                 
           Logo na primeira mensagem presidencial publicada na ditadura, a de 1965, Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967) elabora uma condenação dos privilégios vigentes que pouquíssimos esquerdistas deixariam de endossar.  Fica óbvio que o ilustre "revolucionário" enxergava com bastante clareza o quão discriminatória era a sociedade brasileira.   

          No ano seguinte, Castelo Branco, apesar de ter chegado ao poder em parte nada desprezível com o apoio dos que temiam as reformas de base de João Goulart, se declara um partidário da redistribuição das terras aráveis, admitindo direitos de setores historicamente alijados da propriedade rural.   



http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1347/000104.html

         Na mensagem de 1967, última de sua administração, Castelo Branco aponta para a necessidade de melhoria das condições de vida das classes trabalhadoras.  Para asco dos entusiastas do Estado-mínimo, notemos que o presidente da República, pelo menos no terreno retórico, considera essencial a ação do governo no sentido de reduzir variadas "carências" da população.    



http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1334/000093.html
           Confesso alguma surpresa ao achar, na mensagem de 1968, o linha-dura Arthur da Costa e Silva (1899-1969) afetando preocupação com o poder de compra dos salários de seus governados. Ele chega à temeridade de admitir que a política econômica em vigor nos anos anteriores tinha resultado em compressão salarial.

 



               Já o general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), na mensagem de 1970, reconhece o dever do Estado de estender a assistência médico-odontológica aos estudantes do antigo Primeiro Grau, listando também incentivos econômicos convenientes aos alunos pobres de todos os níveis.   

 
           Nem o mais fanático partidário de 1964 acreditaria na real intenção da ditadura de remover as barreiras sociais impostas aos pobres e aos negros, facilitar o acesso universal de posseiros e meeiros à propriedade de terras e instruir os filhos dos trabalhadores braçais se pautando em padrões de excelência.  Seria como crer em um César Maia, no mais recente programa do DEM, pregando a remodelação do Estado na direção do interesse público.  Avançando ou recuando, a direita jamais pode mostrar sua verdadeira face, por mais que reclamem os puristas do elitismo; pelo menos enquanto existirem o sufrágio universal e a democracia de massas.      

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Eu quero


       

       Fluminense do município de Campos, Dermeval Miranda Maciel (1940-1996), mais conhecido pelo nome artístico de Roberto Ribeiro, foi um versátil cantor e compositor que, tendo despontado como puxador de samba da escola carioca Império Serrano, gravou vários discos nas décadas de 1970 e 1980. Após enfrentar diversos problemas de saúde que comprometeram gravemente sua visão, faleceu prematuramente no Rio de Janeiro, vítima de atropelamento. 


 

      Uma de suas melhores interpretações, inesquecível para quem viveu os últimos anos da ditadura civil-militar e o início do processo de redemocratização no Rio de Janeiro, foi a do samba-enredo Eu quero, composto por Aluísio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega.  A música empolgou os espectadores do Carnaval carioca de 1986, fato que não bastou para levar o Império Serrano ao título.  A escola ficou em terceiro lugar, resultado tido por muitos como injusto. 
        Eu quero, além de levantar o público, permaneceu na memória da cidade como uma das mais lúcidas letras de protesto contra o legado do regime autoritário.  Desmentindo o lugar-comum liberal conservador da multidão-criança  incapaz de identificar seus próprios interesses e eternamente necessitada da liderança de elites "esclarecidas", os poetas populares demonstram saber o que querem com muita nitidez.  Emerge dos versos bem articulados,  mais do que a denúncia das injustiças cometidas ao longo das gestões ditatoriais, o embrião de um programa político igualitário.
         São postos na salgada conta dos generais-presidentes e de seus colaboradores e aliados o descaso com o meio ambiente, a persistência da fome, a falta de segurança e de uma política habitacional decente, as desigualdades de tratamento facilmente verificadas no cotidiano, o arrocho salarial quase contínuo, as barreiras invisíveis impostas à difusão do saber acadêmico e às oportunidades de trabalho.  Eu quero é o grito de uma parcela dos setores historicamente marginalizados da sociedade brasileira que não aceita a subalternidade como um dado natural.  É uma proposta no sentido de uma verdadeira meritocracia, oposta ao discurso hipócrita da "livre competição" liberal em que alguns já iniciam a corrida a poucos metros da linha de chegada.  Daí a sua extraordinária atualidade.
                  

http://www.youtube.com/watch?v=E0b304kkmrQ

Eu quero
Eu quero, a bem da verdade
A felicidade em sua extensão
Encontrar o gênio em sua fonte
E atravessar a ponte
Dessa doce ilusão

Quero, quero, quero sim

Quero que o meu amanhã, meu amanhã
Seja um hoje bem melhor
Uma juventude sã
Com ar puro ao redor

Quero nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz na moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia

Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos que alguém comeu


Quero me formar bem informado
e meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel
se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe de bedel

Cessou a tempestade, é tempo de bonança
Dona Liberdade chegou junto com a Esperança

Vem meu bem, vem meu bem
Sentir o meu astral
Hoje estou cheio de desejo
Quero lhe cobrir de beijos etecetera e tal


sexta-feira, 22 de março de 2013

Desagravo a Salvador Allende (com motivação extra para não ler Veja)


   
     Salvador Allende Gossens (1908-1973), presidente do Chile entre 1970 e 1973, é um dos estadistas do século XX mais difamados pela mídia conservadora latino-americana.  Seus detratores não cessam de "descobrir" novas mazelas em seu governo e novas taras em sua personalidade no intuito de justificar a extinta ditadura de Pinochet, beneficiar eleitoralmente a direita chilena contemporânea  e/ou proclamar a necessidade de alinhamento ideológico de toda a região com as  forças mais retrógradas e elitizantes do Hemisfério Norte.   
       Provavelmente dispondo de um bom patrocínio, o historiador chileno Víctor Farias é um dos agentes mais ativos neste processo.  Ele publicou, em 2005, o livro Salvador Allende: Antisemitismo y eutanasia, vastamente traduzido e divulgado.  A obra, como o título indica, se destina a caracterizar o biografado como racista e adepto de práticas de extermínio.  
        Ninguém se surpreenderá com o fato de que, no Brasil, a revista Veja tenha sido um dos canais de promoção do livro de Farías.  Na edição de 8 de junho de 2005, o notório pasquim do udenismo tardio trouxe uma reportagem da qual Allende emerge como monstro genocida.  Emprestando ares de veracidade à farsa, foi construída uma versão deturpada do trabalho Higiene mental y delincuencia, apresentado pelo falecido presidente chileno ao se graduar em Medicina no ano de 1933.  Para dar sustentação a um discurso anticomunista rasteiro e fabricar uma associação inteiramente forçada entre o pensamento do jovem Allende e o nazismo, a redação de Veja distribuiu entre seus argumentos frases isoladas da tese, arrancando-as de seu contexto original.
         O procedimento descrito, na verdade, não difere muito do método empregado por Víctor Farías para compor seu livro.  Porém, enquanto Farías era desmascarado pelos admiradores de Salvador Allende nos países de língua espanhola, que apontaram suas falácias e manipulações praticamente linha por linha, no Brasil, salvo grave e até desejável engano da minha parte, prevaleceu a mistificação.    Portanto, penso que um desagravo em português com quase oito anos de atraso ainda terá serventia.  Na pior das hipóteses, algumas centenas de pessoas perceberão o nível de credibilidade que se pode conferir à imprensa burguesa.
      Limito-me a extrair dois recortes: no primeiro, Allende é acusado de relacionar o pertencimento étnico de ciganos e judeus à prática de determinados crimes; no segundo, escassas linhas divididas por dois parágrafos são exibidas como prova de uma homofobia radical e associada a tendências totalitárias.                       





         A montagem parece impecável, mas somente se ignorarmos que a tese está disponível na Internet, com texto integral, apresentação e notas: 

http://www.salvador-allende.cl/Documentos/1939-49/MemoriaSAG.pdf

           Notamos de imediato que Veja, ao reproduzir a passagem supostamente racista do trabalho de Allende, ocultou um trecho anterior, no qual fica evidente que o autor se referia ao  pensamento do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso (1835-1909). 


       Verificando as notas impressas no final da tese, temos as referências completas de uma tradução de Lombroso publicada na Espanha.  O que fica provado, então, é que o panfletário na época encarregado dos assuntos latino-americanos pela família Civita, no mínimo, copiou desavisadamente um material estrangeiro produzido de maneira totalmente desonesta.


          Mais grave ainda é constatarmos que Veja, tal como Víctor Farías, omitiu a conclusão de Salvador Allende, que não se mostrava convencido de que o fator raça influía sobre a delinquência no "mundo civilizado". 




           A tentativa de pintar Allende como um exterminador potencial de gays também cai no ridículo.  A afirmativa de que a homossexualidade é vista na tese como doença procede, mas  estamos diante de um senso comum dos anos 1930.  O fato em si em nada auxilia os conservadores, que ao menos para consumo externo continuam proclamando, até os dias atuais, que a personalidade homossexual constitui uma patologia. Além disto, o parágrafo anterior, só para variar omitido, demonstra que os homossexuais que Allende pretendia "curar" seriam pessoas levadas à prática homossexual por distúrbios endócrinos.  Mesmo que saibamos há muito que ninguém é gay por falta de testosterona, não existe no texto qualquer manifestação de intolerância.  
   


       
      Pelo contrário: Allende expôs em seguida citações de dois autores, Asúa e Marañón, que recriminam as possíveis punições ao homossexualismo, tido como um problema orgânico e não como falha de caráter.  Dificilmente o faria se desejasse confinar os "doentes" em campos de concentração ou unidades de reeducação.







      O publicista de direita, partindo de uma rejeição visceral à igualdade, se vê obrigado a procurar episódios discriminatórios na trajetória de pessoas de esquerda ou contradições no igualitarismo destas, para se encaixar no papel do verdadeiro humanista.  O resultado, em regra, é o que vimos acima.     


quinta-feira, 21 de março de 2013

O racismo brasileiro, nem sempre tão velado



       
       Hoje retorno às imagens da página "Orgulho Eurodescendente" que salvei por meio do print screen.  Ressaltei na postagem anterior as contradições do administrador em sua inútil pretensão de fugir à qualificação de racista.  Agora, apresento uma pequena parte das pérolas do racismo brasileiro que ele permitiu que fossem gravadas naquele espaço, apesar de alertar seguidas vezes que não toleraria "porcarias".  A tarefa poderia ter sido cumprida até por um bom aluno do Ensino Fundamental, pois o próprio "Orgulho" facilita as coisas ao incensar a memória dos ultrarracistas confederados do Sul dos Estados Unidos.  A vinda de uma parte deles para o Brasil é apresentada de forma simplória como uma estratégia para fazer progredir a agricultura brasileira, passando ao largo dos compromissos entre forças escravagistas dos dois países.




     Abaixo de uma reportagem sobre a Islândia, um dos seguidores da comunidade, Alexandre Fernandes, lamenta o fato de existirem habitantes não brancos na aprazível ilha, ainda que poucos.  



          Lucas Hans deplora sem disfarce a resistência oferecida por britânicos e franceses ao nazismo.  Isto teria frustrado o projeto de uma Europa completamente branca.  Ele relaciona o desenvolvimento material da Alemanha de Hitler ao perfil étnico de sua população.  Alguém talvez queira avisá-lo de que os alemães contemporâneos continuam vivendo na maior economia do continente tendo ao lado milhões de turcos em todas as atividades produtivas, mas creio que se trata de uma missão de resultado duvidoso.      



      Para Kevin Campos, os brancos da África do Sul e do Zimbabwe, supostamente marginalizados por comunistas perversos, deveriam imigrar em bloco, reforçando o componente racial "ariano" de outros Estados. 


                                                                   


      O mesmo Kevin endossa as palavras de ordem  de Filipe Milos contra a miscigenação entre brancos e não brancos.





             Rafael Shevchenko, em um dos tópicos destinados à apreciação das beldades femininas brancas, faz objeção à colagem da foto de uma moça que, na sua opinião, não é caucasiana o suficiente para figurar na dita seleção.  Descobrimos então, com certa surpresa, que os nascidos entre Porto Seguro e São Luís, bem como os que com eles se parecem fisicamente, estão automaticamente desclassificados do segmento branco. 






         Jair Santana, além de naturalizar o fato de negros serem alvo preferencial de batidas policiais, prega a submissão de todos aos parâmetros de uma "civilização branca".  Aos negros inconformados, oferece a imigração para a África ou para o Haiti.  


                                                     
      Em comentário sobre a militância negra norte-americana, Yuri Vankovich revela a sobrevivência do lugar comum segundo o qual todos os africanos, antes do tráfico de escravos para a América, eram selvagens que viviam pelados em aldeias de tipo Neolítico.  Contra toda lógica, ele afirma que a liberdade dos negros do continente americano é uma dádiva do homem branco.  Arrematando o discurso, Sylvio Ker reproduz o argumento da volta para a África, encontrável em várias publicações da comunidade.   



                                                             
       Para Márcio Henriques, a capacidade de superar contextos desfavoráveis como a escravidão confere a alguns povos o direito talvez natural a uma "supremacia".  De maneira incrivelmente sincera, apesar do primitivismo ideológico, a miscigenação entre brancos e não brancos é definida como "procriação mal planejada".



       Não formularei denúncia contra qualquer um destes perfis, os quais suspeito que nem sejam verdadeiros em sua totalidade.  Penso que eles já desempenharam com a eficiência necessária o papel de advogados de auto-acusação.  Resta, portanto, a alegação de que são perseguidos por uma militância de esquerda intolerante.  Deixo ao leitor o julgamento sobre quanta solidariedade merecem...   


quarta-feira, 20 de março de 2013

Direita, fascismo e racismo: uma conexão brasileira


A democracia contemporânea funda-se sobre o princípio pelo qual todos os indivíduos são considerados titulares de direitos inalienáveis, independentemente da raça, do patrimônio e do gênero (ou sexo) e, portanto, pressupõe a superação das três grandes discriminações (racial, patrimonial e sexual) ainda vivas e vitais à véspera de outubro de 1917. 

(Domenico Losurdo.  Fuga da História? A Revolução Russa e a Revolução Chinesa vistas de hoje.  Rio de Janeiro: Revan, 2004, p. 99/100)


        Encontro em excursão despretensiosa pela Internet uma página do Facebook denominada "Orgulho Eurodescendente", cujas propostas declaradas são o culto às realizações materiais e espirituais dos povos europeus e de seus descendentes e a denúncia das situações de racismo contra pessoas brancas.  Seu administrador, no  provável intento de desvincular o movimento dos grupos neonazistas ou similares, expõe uma suposta rejeição ao proselitismo racista, especialmente se associado à violência física.         




         Na postagem que copio abaixo, escolhida entre muitas possibilidades, o caráter direitista da "comunidade" é evidenciado no mais puro estilo Alborghetti.  Os marxistas não apenas são convidados a ficar de fora do combate à "eurofobia" como também se tornam suspeitos de viver em permanente estado de alucinação química.       




          A máscara democrática do "Orgulho" não resiste a uma investigação superficial.  Um link compartilhado com os seguidores no último Ano Novo revela a previsível simpatia pelo partido neofascista francês Front National, fundado pelo notório racista Jean-Marie Le Pen.  


     O administrador, em trecho de protesto contra "acusações injustas", deixa ainda mais óbvia uma filosofia de matriz fascista.  Ele se vangloria de localizar suas raízes familiares nas populações que historicamente estiveram "no domínio", tal como os mussolinianos que enalteciam as campanhas de conquista e recordavam a grandeza do Império Romano, toscamente relacionado à monarquia italiana das primeiras décadas do século XX.   



      "Orgulho Eurodescendente" também é bastante sincero nas convicções belicistas.  Podemos notar em diversas publicações a fascinação por armas e guerreiros, em particular cruzados e participantes da conquista da América.  Nesta imagem, vemos a mistificação que vincula a personalidade militarista a um determinado sangue.    


     Mais uma vez investindo contra a esquerda, "Orgulho" enaltece o espanhol Hernán Cortés, aventureiro faminto por metais preciosos que agiu à revelia de seus superiores na invasão do Império Asteca.  Apesar de ter comandado a destruição de uma das maiores cidades de seu tempo, Tenochtitlán, Cortés é vendido como "herói civilizador". 




         O leitor que me acompanhou até aqui não se surpreenderá com a sintonia fina do indivíduo, não casualmente anônimo, com a ala mais reacionária do franquismo.  Ele publica uma poesia, aliás de péssima qualidade, ufanista a respeito das guerras empreendidas pela monarquia espanhola.  A referência à Reconquista como uma luta contra os infiéis dispensa comentários. 

                                                


      Como o que é péssimo continua sujeito a piora, "Orgulho" avança em sua faceta discriminatória.  Diante da descoberta das origens norte-africanas de Zenedine Zidane, ele simplesmente "cassa" a cidadania francesa do ex-jogador, "tão francês quanto um rato nascido em forno é um biscoito".
  



           Em outro ato falho,  adotando o modelo de discurso que os próprios panfletários direitistas classificam como "vitimismo", "Orgulho" se queixa da presumida perseguição contra os defensores da "cultura branca".  Poderíamos perguntar-lhe o que torna idênticos culturalmente um católico francês, um muçulmano de Sarajevo e um materialista russo do tipo Anatoly Karpov.  Até que os elementos que devem ser salvos dos "bárbaros" estejam claramente definidos, fica a impressão de que talvez certos brancos não façam parte da "cultura branca" idealizada. Porém, mais interessante é perceber o extremado racismo implícito na propaganda: sugere-se a proteção ao "sangue branco" (repulsa à miscigenação?), enquanto os judeus, ao que parece, são deslocados da condição de brancos.        

                                                   
         Finalizo, digamos assim, com a cereja do bolo.  Nestes parágrafos de autoria obscura divulgados pelo entusiasmado direitista, recria-se a fantasia de uma civilização egípcia inteiramente elaborada por caucasianos perfeitos.  A decadência da antiga nação dos faraós e o subdesenvolvimento do Egito contemporâneo são relacionados, sem rodeios, à progressiva infusão do sangue negro africano.   




            Ainda bem que "Orgulho Eurodescendente" não é racista.  Mesmo que fosse, eu pensaria duas vezes antes de dizê-lo, pois ele já adianta (ver quarta ilustração abaixo da capa) que contra calúnias apela de imediato à Justiça.  Espero, então, que aprecie meu recurso ao extraordinário europeu e incontestável caucasiano que é Domenico Losurdo.