Joias da rainha núbia Amanishaketo, contemporânea do imperador romano Augusto
Escrevo inspirado na jornalista Christine Vrey, da Namíbia, que há alguns meses publicou a matéria Dez ideias erradas sobre a África, motivada pela notória falta de informação sobre o continente africano que prevalece nas sociedades ocidentais. O texto foi divulgado em português em muitas páginas, entre elas
Sabemos que no próprio Brasil, apesar das amplas e multisseculares influências culturais africanas, muitas pessoas creem que a África é um único país, habitado por selvagens, todos de pele negra ao extremo. Sendo a contemporaneidade africana desconhecida em larga margem pela maioria, a História da África é ainda mais ignorada, apesar da legislação que determina o seu ensino nas escolas do país. O brasileiro médio, no máximo, retém as generalizações correntes sobre o tráfico negreiro. Suas referências, portanto, giram em torno da figura do africano como elemento necessário ao funcionamento da plantation americana. Apenas uma máquina de produzir artigos agrícolas, e não o colonizador involuntário identificado por muitos dos intérpretes clássicos do Brasil.
A desinformação sobre aquele continente nada tem de nova. Podemos recordar as lamentações de Nina Rodrigues, formuladas há mais de um século, acerca da África que morria "em nossas cozinhas" sem que conhecêssemos sequer as suas línguas. Este desinteresse, no século XXI, favorece o projeto dos segmentos da direita que pretendem estabelecer, ou restabelecer, um pleno alinhamento do Brasil com a aliança militar ocidental na política externa. Para eles, convém a manutenção do estereótipo do africano primitivo, incapaz de esforço intelectual e necessitado da tutela estrangeira para escapar da miséria absoluta e das guerras "tribais". Assim como convêm os estereótipos do árabe fanático e terrorista, do indiano faminto e descalço, do russo pérfido e truculento, do chinês devorador de cães e eternamente disponível para o serviço sujo e mal pago.
Obviamente, uma tendência de longo prazo não será revertida por um artigo de blog. Penso, porém, que investir na desmistificação sempre traz bons resultados; ao menos, perdem-se algumas virgindades políticas. Selecionei, então, cinco das generalizações mais grosseiras que ouvimos (e eventualmente lemos) a respeito da História da África, comentando-as de acordo com uma bibliografia de fácil acesso.
1-Os africanos nunca foram capazes de desenvolver a escrita. As regiões que já faziam uso desta modalidade de comunicação antes da expansão colonial do século XIX importaram-na do mundo islâmico ou da Europa. Mesmo que desconsiderássemos a escrita dos egípcios como africana, coisa que não faz sentido, a sentença seria um disparate. Já no tempo que corresponde na Europa à Antiguidade Clássica, havia em Méroe, citada por Heródoto no século V a. C. como a "capital do reino dos etíopes", e situada no norte do atual Sudão, uma escrita cuja parte fonética foi decifrada pelo inglês F. I. Griffith entre 1900 e 1911. Durante o reinado de Arcamani, que provavelmente governou Méroe no século III a. C., quando a República romana lutava contra Cartago pelo domínio do Mediterrâneo Ocidental, a chamada escrita meroíta substituiu quase por completo o egípcio antigo como língua impressa nos monumentos daquela região. Ela comportava uma variante hieroglífica e outra cursiva, composta por um alfabeto de 23 sinais¹. Também na área que hoje identificamos como o norte da Etiópia, no século III a. C., houve a reelaboração da grafia no sentido de uma aproximação com a língua autóctone, e um consequente afastamento do idioma arábico trazido do Iêmen (pré-islâmico, é claro), de onde os "etíopes" tinham recebido a escrita².
2-Não havia organização estatal na África antes da ocupação pelas metrópoles europeias, a não ser, mais uma vez, nas regiões controladas por muçulmanos.
Poderíamos novamente recorrer ao exemplo do Egito faraônico, citando inclusive a dinastia núbia que o governou em partes dos séculos VIII e VII a. C.. Na verdade, a existência de Estado, na África, esteve mais para regra do que para exceção.
O reino de Axum, sediado em terras da atual Etiópia, era uma potência regional respeitável no século III, que participava do comércio entre a Europa e a Ásia através do Índico e do mar Vermelho e fazia circular moedas de ouro, prata e cobre. Numa campanha militar iniciada em 525, o rei axumita Calebe chegou a conquistar toda a Arábia do Sul, onde "colocou cristãos em todas as posições de mando³".
Moedas do reino de Axum, em circulação no século IV.
Bem mais ao sul e muito mais tarde, no século XVI, quando os portugueses firmaram relações próximas com o reino do Congo, lidaram ali com uma monarquia complexa, na qual o rei partilhava a arrecadação dos tributos com governadores de província, que os redistribuíam entre os chefes de distritos e estes com os chefes de aldeia e com os "cabeças de linhagens"4.
3-Antes da colonização europeia, todos os africanos, ou quase, viviam em pequenas aldeias formadas por casas de cômodo único.
Esta afirmativa é tão ou mais absurda do que a anterior. O "país" dos ussá, que jamais foi unificado politicamente, abrangia diversas cidades-estados, localizadas na bacia do rio Níger: Kano e Rano, onde predominavam os tecelões; Katsina e Daura, cuja vida girava em torno do comércio; Zaria, dominada pelos mercadores de escravos. Estes centros, cuja influência atingiu um apogeu por volta de 1350, possuíam altas muralhas para evitar um eventual saque por parte das populações vizinhas. Dois séculos mais tarde, Hassan ibn Mohamad, conhecido também como Leo Africanus, disse que os habitantes de Kano eram "artesãos civilizados e ricos mercadores"5.
Ruína da igreja Kulumbimbi, em M'Banza Congo, Angola
Banza Congo, a capital do reino do manicongo, abrigava no final do século XVI entre 60 e 100 mil habitantes. Somente o palácio real tinha 2.400 metros de circunferência6.
Até na remota (pelo critério europeu) ilha de Madagascar, o reino do Boiná, formado no século XVII, concentrava em 1792, apenas em sua capital Majunga, seis mil comerciantes omanitas e hindus, estimulados pela integração nos circuitos comerciais da rede swahili do Oceano Índico. A influência ocidental na ilha, por outro lado, só se intensificou a partir do reinado de Radama I do Ambohimango (1810-1828), que contratou europeus para modernizar o exército e promoveu a mudança da transcrição da língua malgaxe dos caracteres arábicos para os latinos7.
4- Os africanos trazidos para a América a partir do século XVI eram todos prisioneiros de guerra que seriam mortos caso os europeus não os comprassem dos mercadores também africanos.
O especialista Patrick Manning, em seu trabalho The enslavement of Africans: a demographic model (1981), demonstrou que a maioria das pessoas escravizadas na África permanecia dentro do próprio continente. No circuito atlântico do tráfico, enquanto os "exportados" representaram 44,6% das amostras pesquisadas, a proporção dos que ficaram foi de 55,4%. Destes, o autor calculou que pereciam em torno de 10%, abatidos por doenças semelhantes às dos que morriam na travessia oceânica. É certo que em processos desta natureza indivíduos tidos como "cativos indesejáveis" poderiam ser mortos por seus captores, mas o argumento humanitário definitivamente não se sustenta8. Nem o mais delirante ficcionista imaginaria negreiros enchendo seus navios com cativos sem valor de revenda.
O especialista Patrick Manning, em seu trabalho The enslavement of Africans: a demographic model (1981), demonstrou que a maioria das pessoas escravizadas na África permanecia dentro do próprio continente. No circuito atlântico do tráfico, enquanto os "exportados" representaram 44,6% das amostras pesquisadas, a proporção dos que ficaram foi de 55,4%. Destes, o autor calculou que pereciam em torno de 10%, abatidos por doenças semelhantes às dos que morriam na travessia oceânica. É certo que em processos desta natureza indivíduos tidos como "cativos indesejáveis" poderiam ser mortos por seus captores, mas o argumento humanitário definitivamente não se sustenta8. Nem o mais delirante ficcionista imaginaria negreiros enchendo seus navios com cativos sem valor de revenda.
5- As potências ocidentais trabalharam incessantemente, contra os interesses das elites tradicionais das regiões que ocupavam, no sentido de eliminar a escravidão do continente africano.
Muitos exemplos podem ser invocados para desfazer esta fábula reabilitadora do colonialismo. Uma passagem de Paul Lovejoy é particularmente instrutiva:
As leis abolindo a escravidão nas colônias britânicas não eram aplicáveis ao Protetorado de Serra Leoa, onde a escravidão continuava a prosperar. O escravismo desenvolveu-se, dessa forma, até muito tarde. Os negócios com escravos não foram abolidos antes de 1896, e a própria escravidão foi considerada ilegal somente em 1926. Freetown, apesar do nome, era a capital de um dos últimos bastiões da escravidão9.
Nas colônias portuguesas da África, apesar da abolição oficial da escravidão na década de 1870, foram implantados o que Cabaço define como "regimes laboristas especiais que incluíam o trabalho forçado". O tráfico de escravos, embora proibido desde 1840, permaneceu ativo na costa de Moçambique "até a alvorada do século XX", sob a proteção de agentes do Estado colonial10. Já no Estado Livre do Congo, a monarquia belga entregou, na década de 1890, concessões a empresas que promoviam o extrativismo com vasto emprego de mão de obra forçada. Ainda em 1908, quando o regime colonial assumiu diretamente o controle daquela região, a escravidão permanecia como "instituição marginal"11.
Referências:
1-Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Edusp, 1992, p. 113 a 115.
2- A enxada e a lança, p. 158 a 160.
3- Idem, p. 167 a 179.
4- Alberto da Costa e Silva. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 368.
5-João Carlos Rodrigues. Pequena história da África Negra. São Paulo: Globo; Brasília: Biblioteca Nacional, 1990, p. 36-37.
6- A manilha e o libambo, p. 369.
7- Pequena história da África Negra, p. 81, 125 e 126.
8- Paul Lovejoy. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 112-113.
9- A escravidão na África, p. 366.
10- José Luís Cabaço. Moçambique: identidade, colonialismo e libertação. São Paulo: UNESP, 2009, p. 52.
11- A escravidão na África, p. 381.
Muitos exemplos podem ser invocados para desfazer esta fábula reabilitadora do colonialismo. Uma passagem de Paul Lovejoy é particularmente instrutiva:
As leis abolindo a escravidão nas colônias britânicas não eram aplicáveis ao Protetorado de Serra Leoa, onde a escravidão continuava a prosperar. O escravismo desenvolveu-se, dessa forma, até muito tarde. Os negócios com escravos não foram abolidos antes de 1896, e a própria escravidão foi considerada ilegal somente em 1926. Freetown, apesar do nome, era a capital de um dos últimos bastiões da escravidão9.
Nas colônias portuguesas da África, apesar da abolição oficial da escravidão na década de 1870, foram implantados o que Cabaço define como "regimes laboristas especiais que incluíam o trabalho forçado". O tráfico de escravos, embora proibido desde 1840, permaneceu ativo na costa de Moçambique "até a alvorada do século XX", sob a proteção de agentes do Estado colonial10. Já no Estado Livre do Congo, a monarquia belga entregou, na década de 1890, concessões a empresas que promoviam o extrativismo com vasto emprego de mão de obra forçada. Ainda em 1908, quando o regime colonial assumiu diretamente o controle daquela região, a escravidão permanecia como "instituição marginal"11.
Referências:
1-Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Edusp, 1992, p. 113 a 115.
2- A enxada e a lança, p. 158 a 160.
3- Idem, p. 167 a 179.
4- Alberto da Costa e Silva. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 368.
5-João Carlos Rodrigues. Pequena história da África Negra. São Paulo: Globo; Brasília: Biblioteca Nacional, 1990, p. 36-37.
6- A manilha e o libambo, p. 369.
7- Pequena história da África Negra, p. 81, 125 e 126.
8- Paul Lovejoy. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 112-113.
9- A escravidão na África, p. 366.
10- José Luís Cabaço. Moçambique: identidade, colonialismo e libertação. São Paulo: UNESP, 2009, p. 52.
11- A escravidão na África, p. 381.











































