sábado, 19 de maio de 2012

Apostando na liberdade



          A historiadora norte-americana Mary Karasch, que empreendeu uma das pesquisas mais minuciosas sobre a escravidão na cidade do Rio de Janeiro, elaborou, em sua principal obra sobre o tema, um longo capítulo intitulado Fugitivos e rebeldes.  Segundo a autora, sendo escassas as chances, em plena capital do Império, de um escravo obter a liberdade por meio da revolta, a fuga era, entre as modalidades de resistência, a mais comum e a que contava com maiores possibilidades de sucesso.  Ganhando a rua para escapar do cativeiro, cada novo fugitivo tinha como prioridade inicial a escolha de um refúgio.  Os morros cariocas, ainda cobertos por florestas na primeira metade do século XIX, ofereciam bons esconderijos; os barcos ancorados na orla marítima da cidade davam acesso às localidades costeiras da Baía de Guanabara e ao litoral atlântico da província do Rio de Janeiro; em outros casos, era possível avançar rumo ao interior e tentar passar por liberto.  Os relatos dos viajantes estrangeiros apontam para um número de fugas excepcionalmente alto¹.  
           Contudo, a ruptura com a escravidão também implicava em riscos nada desprezíveis.  Encarregada das buscas, a polícia do Rio recolhia os prisioneiros ao Calabouço, onde sofriam a pena de açoite.  Somente no ano de 1826, houve registro de 925 fugitivos apanhados, em sua maioria homens nascidos na África.  Para Karasch, as mulheres tinham mais oportunidade de se refugiar nas casas de "protetores", o que  dificultava sua recaptura.  Além disto, muitas vezes acabavam sendo punidas no próprio âmbito doméstico e não na prisão². 
            O sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987) coletou milhares de anúncios sobre fugas de escravos, recorrendo essencialmente ao Diário de Pernambuco e ao Jornal do Commercio (do Rio de Janeiro).  Este trabalho resultou em um livro, datado de 1963, que já passou por diversas reedições.                             


        Buscando dados sobre a política eleitoral no Império, habitualmente me deparo com informações desta natureza.  Certa ocasião, quando consultava exemplares de 1857 do Jornal do Commercio, tive o impulso de fotografá-las, montando uma pasta de imagens, que aqui reproduzo parcialmente.  Minha intenção, em primeiro lugar, é mostrar aos leitores que fontes históricas não são informações guardadas a sete chaves, somente ao alcance de um punhado de pesquisadores profissionais ou acadêmicos de ponta.  Qualquer pessoa que possua instrução básica e uma certa polidez conta com a chance, recorrendo a bibliotecas, arquivos e casas de cultura, de realizar descobertas fascinantes.
         Em segundo, quero compartilhar um pouco do meu espírito de torcedor.  Um olhar objetivo nos dirá que todos os atores mencionados, escravos e donos de escravos, estão mortos há pelo menos um século.  Todos estes episódios já tiveram seu desfecho há mais de cento e cinquenta.  Porém, ao mergulharmos nas curtas narrativas, torna-se possível construir quadros fictícios, desejar que cada fugitivo triunfe sobre seu senhor, eventualmente até aconselhá-lo sobre o que fazer para escapar da polícia e dos capitães do mato.           
                    


               José Frazão de Souza Breves, proprietário do marujo baiano, é meu velho conhecido dos antigos almanaques.  Negociante e político do município de Mangaratiba, no litoral sul fluminense, tinha como pai o comendador Joaquim José de Souza Breves, o Rei do Café.  Que sentimento levaria Miguel a desafiar a ira de uma das famílias mais ricas e poderosas do país? O tédio das quase quatro décadas no cativeiro, o desespero provocado por castigos físicos ou privações recentes ou a ambição despertada por alguma proposta de trabalho assalariado?  Jamais saberemos ao certo.     


           A evasão de Thomaz é um exemplo concreto de que os cativos com profissão definida, que não raro dispunham da confiança de seus senhores e se moviam com desembaraço pela cidade, reuniam com relativa facilidade meios para fugir.  Neste caso, porém, a figura singular do cozinheiro representava um empecilho à sua necessária "invisibilidade".     


           Não se apressem em identificar no garoto Franklin, sem dúvida um digno representante da resistência escrava, também um proto-herói do movimento gay.  Imagino o que diria Luiz Mott ao ver o apelido de Frango! Qualquer atitude de incitação à fuga, no linguajar da época, recebia o título de "sedução".  Orientação sexual à parte, o fôlego dos dezesseis anos era uma vantagem para quem pretendia sumir. Mas a vestimenta algo incomum tendia a atrapalhar, bem como os passeios em locais próximos à casa do coronel Conrado.       


          Provavelmente estamos diante de um dos muitos dramas produzidos pelo tráfico interprovincial que se generalizava naquela década.  Privados de seus amigos e das referências de parentesco, escravos como Geraldo, trazidos de áreas de menor dinamismo econômico para o Sudeste cafeeiro, não raro escapavam  ao primeiro sinal de afrouxamento da vigilância sobre eles exercida.  


        Sobre este grupo tão heterogêneo, é lícito calcular que Liberato, mestiço de cabelos lisos, tenha se escondido em outra municipalidade, na qual se apresentaria como homem livre.  Sua familiaridade com cavalos, compartilhada por José, talvez favorecesse uma saída imediata da província, pois a vila de Valença estava bem próxima de Minas Gerais.  Quanto a Gregório, não é impossível que a tonalidade de pele fula (avermelhada) lhe permitisse ocultar o nascimento na África Ocidental.  Como "crioulo" fluminense, seria mais fácil passar por liberto ou mesmo nascido livre.      


        João Congo, em torno dos 25 anos, idade superior à expectativa média de vida dos escravos no Brasil, carregava em seu corpo várias mazelas do cativeiro: a calvície por trauma, as sequelas nos pés pelas caminhadas sem sapatos, o vestuário roto e encardido.  Seu próprio senhor levantou a hipótese de que talvez se suicidasse por afogamento, circunstância nada surpreendente entre os escravos do Rio de Janeiro.  


      Wencesláo, segundo os muitos entusiastas da "escravidão reabilitada", seria um "escravo de elite": vivia no centro do município da Corte, obedecia a senhores estrangeiros, talvez aprendesse em breve técnicas litográficas, podendo reunir em alguns anos recursos para negociar sua alforria.  Não obstante tais "privilégios", vestiu a jaqueta escocesa e caiu no mundo.  Notemos, no uso do termo "moleque de nação", a falta de pudor dos anunciantes, ao admitirem tacitamente que se tratava de africano embarcado para o Império em período posterior à proibição do tráfico atlântico.     


            Provavelmente mais uma vítima do tráfico interprovincial, este outro João adotava um procedimento pouco comum: nascido no Brasil, declarava ser africano, condição que implicava em desvalorização na hierarquia do escravismo.  Pura estratégia para assumir com êxito a identidade de outra pessoa ou identificação étnica com familiares deixados no Maranhão?  Também ficaremos sem saber. 
          Fujam, Joões! Volte para a Bahia, Miguel! Franklin, vá para Niterói e nunca mais ande perto da casa do velho Conrado! Thomaz, espere a poeira baixar e depois entre no primeiro navio com destino a Luanda! Como todas as Histórias são mesmo Histórias Contemporâneas, em cada um deles que visualizamos se furtando em definitivo ao cativeiro, nós, trabalhadores, podemos projetar também uma fuga das relações econômicas e sociais que nos desfavorecem no capitalismo.

Notas:
1-Cf. Mary Karasch.  A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850.  São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 399. 
2- Idem, pp. 399 a 401.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pequeno glossário da direita brasileira

              

                Durante as últimas semanas, venho exibindo, ainda que irregularmente, o autêntico programa da direita e as máximas dos seus heróis.  Nada mais natural, portanto, do que também relacionar algumas categorias básicas, fundamentais para a compreensão mútua das diversas tribos de reacionários.  A lista, sem dúvida, pode e deve ser enriquecida pelos leitores.

Amazônia- região que, antes representando quase metade do território nacional, deu lugar a acampamentos do MST, reservas indígenas e falsos quilombos, todos evidentemente dirigidos por fundações estrangeiras aliadas do Foro de São Paulo.

Analfabeto- indivíduo apto à execução de alguns trabalhos braçais, mas nocivo quando cadastrado em programas sociais do governo financiados com o dinheiro dos impostos pagos pela classe média.

Árabe- fanático religioso, com propensão média ou alta ao terrorismo, a ser contido ou eliminado pela aliança militar ocidental.

Brasília- cidade que, projetada pelo comunista Oscar Niemeyer, constitui a sede do estatismo brasileiro, sobretudo após sua tomada pelos petistas.

Bullying- termo difundido por pedagogos e psicólogos comunistófilos com o objetivo de cercear a liberdade de expressão das pessoas espontâneas, em regra conservadoras.

Capitalismo- conjunto de práticas econômicas naturais, esboçadas desde a Pré-História, consolidadas na Inglaterra da Idade Moderna e combatidas pelos coletivistas de todos os matizes.

Cinema Nacional- atividade criminosa que consiste na exaltação do consumo de drogas, do adultério, do homossexualismo, da pedofilia, do palavreado chulo e da estética da miséria.



Colonização- processo louvável, infelizmente em desuso, no qual populações selvagens eram treinadas para executar algumas tarefas úteis para as sociedades civilizadas.

Comunismo- sistema político cuja prioridade é a construção de campos de concentração nos quais pelo menos um quinto da população de cada país deverá ser exterminada.

Cuba- ilha do Caribe habitada por onze milhões de cortadores de cana, cem mil instrutores de terrorismo e dois velhos, mantidos vivos pelo Capeta, que enganam a todos os outros.

DEM- partido formado pelos herdeiros das forças de centro-esquerda que romperam com a candidatura oficial para apoiar, em 1985, Tancredo Neves, que já contava com os votos dos parlamentares comunistas e criptocomunistas.

Democracia- nome atribuído ao conjunto formado por todos os regimes que reconhecem, ou reconheceram, a livre iniciativa como motor da economia, entre eles o castelismo, o franquismo e o pinochetismo.  

Doutrinação- atividade dos que, usurpando a denominação de educadores, desviam crianças e adolescentes dos salutares princípios conservadores.

Eleição- processo pelo qual as pessoas maiores de dezesseis anos devem renovar seu assentimento à direção esclarecida das elites.

Estados Unidos- país-sede da Civilização Ocidental, ao qual cabe a preservação da economia capitalista e do governo das elites em toda a superfície terrestre.

Favela- localidade habitada por traficantes, assaltantes e seus acoitadores, sob o estímulo de governantes populistas que sobreviveram ao AI-5.

Feminismo- conjunto de movimentos compostos por comunistas lésbicas, que pretendem, após a tomada do poder, relegar os homens heterossexuais aos serviços domésticos.

Greve- atividade criminosa que tem como finalidade o bloqueio da cadeia produtiva para favorecer a implantação do comunismo.

Homossexualismo- desvio de conduta que tem sido, nas últimas décadas, incentivado pelos políticos de esquerda, no intuito de dissolver as famílias conservadoras.

Império- período da História do Brasil em que as mulheres eram decentes, os políticos não roubavam e os negros, muito bem tratados, conheciam o seu lugar.

Imprensa Livre- empresas jornalísticas familiares, dirigidas por aristocratas honrados, que orientam corretamente a opinião pública nacional.

Índio- individuo selvagem, sem contato com o homem branco, que vive nu em alguns pontos da Floresta Amazônica; distinto do falso índio, estelionatário que, mesmo conhecendo a língua portuguesa e possuindo televisão, reivindica de má fé terras que devem ser destinadas à agricultura de exportação ou à produção de celulose.

Indigenismo- conjunto de movimentos que pretendem legalizar o consumo de carne humana e os sacrifícios de prisioneiros aos deuses pré-colombianos, criando uma organização econômica em que a principal atividade será a produção de cocaína. 


Janismo- movimento político que, a princípio incorporando justas demandas da boa sociedade, descambou para a esquerda, culminando na vergonhosa condecoração do terrorista Che Guevara.

Judiciário- poder do Estado constituído em prol da segurança física e patrimonial das elites, nos últimos anos desfigurado para estabelecer privilégios em favor de ex-terroristas, sindicalistas, negros e gays.

KGB- diz-se, em sentido figurado, dos indivíduos e grupos que empregam seu tempo na elaboração de dossiês contendo os raros deslizes dos homens de bem.

Libertário- denominação aplicada ao elemento que, simulando ser adepto do sistema de livre mercado, defende a agenda cultural da esquerda, nela incluídos o casamento gay e a pedofilia. 


Muçulmano- termo semelhante ao verbete “árabe”, porém mais empregado quando se enfatiza o papel de inimigo mortal do Ocidente.

Napalm- produto industrial de alto valor estratégico, podendo ser empregado tanto para queimar comunistas quanto para solucionar o problema da favelização das metrópoles. 

Nudista- diz-se do indivíduo ou grupo, de tendência esquerdista, que visa à dissolução dos valores da sociedade ocidental por meio da generalização das posturas obscenas. 

Organizações Globo- grupo empresarial mercenário que, tendo prestado alguns bons serviços à democracia a partir de 1964, vendeu-se posteriormente ao lulismo e ao dilmismo. 

Pluralismo Político- situação medianamente aceitável, na qual operários, professores, estudantes, desempregados e outros tipos suspeitos falam o que querem, todavia aceitando de maneira expressa ou tácita que os representantes da indústria, do comércio e das finanças deem a última palavra. 

Politicamente Correto- filosofia esquerdizante que tem como objetivo solapar as hierarquias sociais consagradas pela tradição, eliminando da língua os termos que qualificam os elementos superiores e os inferiores. 

PSDB- partido socialista que, em conluio com o PT, pretende estabelecer o comunismo no Brasil, por meio da estratégia das tesouras.

PT- partido que, simulando aceitar a economia de mercado, forma o principal tentáculo do movimento comunista no país.

Quilombola- indivíduo que, se valendo da epiderme escura, reivindica terras que ao invés de cultivar pretende vender a terceiros.

Republicano- adepto do partido norte-americano que constitui a última resistência, ao lado do governo de Israel, à implantação do Estado Mundial comunista.

Sindicato- organização criminosa formada por pessoas que recebem salário sem trabalhar, propagandistas e instrutores de terrorismo e terroristas propriamente ditos.

Social-democrata- comunista envergonhado, disposto a tolerar, com indisfarçável má vontade, alguns tipos de propriedade privada.

Socialista- eufemismo gasto, empregado pelos comunistas que não gostam de se apresentar como tal. 

Trabalhista- indivíduo semelhante ao social-democrata, em geral combina seu ódio à propriedade privada com táticas populistas.

Trabalho Escravo- expressão fraudulenta inventada por políticos marxistas que desejam abolir a propriedade rural, visto que desde a Lei Áurea nenhum brasileiro tem a posse sobre outro homem registrada em cartório.

Terrorista- termo aplicado a todos os indivíduos que participaram da resistência à Revolução Democrática de 1964, desde os que pegaram em armas efetivamente até os que escreveram redações escolares contra a ordem revolucionária. 

Totalitário- diz-se do indivíduo, movimento ou partido que se opõe, ainda que pela via eleitoral, à abolição das relações econômicas naturais, que se materializam no capitalismo do tipo laissez-faire.

União Soviética- federação que depois de funcionar como sede do comunismo internacional foi maliciosamente dissolvida para facilitar ainda mais a difusão desta perversa doutrina.

Universidade Pública- centro que emprega o dinheiro dos impostos pagos pela classe média para sustentar professores que não trabalham e pregam o comunismo.

Veja- instituição constituída nos moldes de uma agência oficial de notícias, papel a ser desempenhado em futuro breve, após a passagem do eclipse petista.

Xá- título do falecido imperador do Irã, Reza Pahlavi, injustamente afastado do poder para dar lugar a clérigos cujo único propósito é construir bombas atômicas para lançar contra Israel.
        

quinta-feira, 17 de maio de 2012

La derecha rabiosa: pérolas do reacionarismo hispano-americano


             
              Reuni em duas postagens anteriores algumas dezenas de citações, produzidas entre o século XIX e os dias atuais, que ilustram bem o espírito da direita, em seu horror à igualdade e desprezo por todos os que nasceram fora do universo oligárquico.  Privilegiei, digamos assim, os reacionários do Brasil, não apenas por ser brasileiro, mas também pelo acesso mais fácil à "matéria-prima", neste caso contida na minha estante de livros.
            Percebi, ao longo do processo, que os países americanos de língua espanhola mereciam uma edição à parte.  Nestas sociedades, marcadas por uma colonização que, ainda mais do que a portuguesa, afirmou  as hierarquias de nascimento, os preconceitos são expressados com menos pudor.  A fúria verbal dos elitistas contra quem não se acomoda ao "seu lugar" é mais espontânea, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde certas coisas só se dizem aos correligionários e a portas fechadas.  O anticomunismo, entre o rio Bravo do Norte e a Terra do Fogo, assume contornos delirantes e caricatos.
           É fácil encontrar, nos sites hispano-americanos que admitem comentários dos leitores, insultos ao povo trabalhador, visto pela direita como "la chusma", "los cholos", "cabecitas negras", entre outros termos depreciativos.  Publicá-los não seria interessante: muitos brasileiros, julgando-se protegidos pelo anonimato dos perfis fakes, fazem o mesmo.  Preferi expor o reacionarismo de políticos e escritores influentes, cujas falas nos revelam a sobrevivência de uma mentalidade colonial ou neocolonial que pode, sem dúvida, ser classificada como herança maldita.                                                                  
                         
1-José Antonio Saco, jornalista de Cuba, teoriza sobre o futuro da ilha, ainda sob a colonização espanhola na década de 1830:

"A nacionalidade cubana sobre a qual falei, e a única nacionalidade que deveria preocupar todos os homens sensíveis, é aquela formada pela raça branca".
(citado em Richard Gott.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 72)  

2-Bartolomé Herrera, intelectual conservador peruano, faz sua profissão de fé aristocrática (1860):

"[...] o povo, isto é, a soma dos indivíduos de todas as idades e condições, não tem capacidade nem o direito de fazer as leis.  Segundo confessam os patriotas, as leis 'são princípios eternos fundados na natureza das coisas': princípios que não podem ser percebidos com clareza, mas só pelo entendimento habituado a vencer as dificuldades do esforço mental e exercitado na indagação científica.  A maioria de um povo está em situação de empreender essa difícil tarefa, indispensável para descobrir esses princípios? Não, não tem tal capacidade.  E não se pode dizer, sem cometer um absurdo, que quem não tem a capacidade de fazer alguma coisa tem o direito de fazê-la.  O direito de ditar leis pertence aos mais inteligentes- a aristocracia do saber, criada pela natureza."
(citado em Julio Cotler.  Peru: classes, Estado e nação.  Brasília: Funag, 2006, pp. 65/66)    

3-Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), presidente da Argentina, tinha uma visão peculiar sobre o constitucionalismo:

"Uma Constituição pública não é uma regra de conduta para todos os homens.  A Constituição das massas populares são as leis ordinárias, os juízes que as aplicam e a polícia de segurança.  São as classes educadas as que necessitam de uma Constituição que assegure as liberdades de ação e de pensamento, a imprensa, tribuna, a propriedade, etc."
(citado em D. F. Sarmiento: política/org. León Pomer.  São Paulo: Ática, 1993, pp. 51/52)

4-Bartolomé Mitre (1821-1906), outro presidente argentino, tinha uma solução definitiva para a questão indígena em seu país:

"Las tribus salvajes son una gran potencia respecto de nosotros, una república independiente y feroz en el seno de la república.  Para acabar con este escándalo es necesario que la civilización conquiste ese territorio: llevar a cabo un plan de operaciones que dé por resultado el aniquilamiento total de los salvajes."
(citado em Felipe Pigna.  Los mitos de la historia argentina 2.  Buenos Aires: Planeta, 2005, p. 297)

5-Ricardo Palma, em carta ao ditador peruano Nicolás de Piérola (1839-1913), provavelmente escrita em 1881, encontra seu bode expiatório pelo fracasso das Forças Armadas do Peru na recente guerra contra o Chile:

"Na minha opinião, a causa principal do grande desastre do 13 está em que a maioria do Peru tem uma raça abjeta e degradada, que Vossa Senhoria quis dignificar e enobrecer.  O índio não tem o sentimento da pátria; é inimigo nato do branco e do homem do litoral e, senhor por senhor, tanto faz para ele que seja chileno ou turco.  Explico assim o fato de que batalhões inteiros tenham abandonado suas armas, em San Juan, sem queimar um só cartucho.  Educar o índio e inspirar-lhe o patriotismo será obra não das instituições, mas do tempo."
(citado em Julio Cotler. Peru: classes, Estado e nação.  Brasília: Funag, 2006, pp. ) 

6-La Prensa, periódico argentino, incentiva o Estado a intervir na questão social, após a eclosão de greves de trabalhadores nas estâncias da Patagônia no ano de 1921:

"Los principales industriales, comerciantes y estancieros de Río Gallegos enviaron un telegrama al Ministerio del Interior, pidiendo que se mande un regimiento de caballería a fin de terminar con las devastaciones de que está sendo víctima esta región por parte de una banda de pretendidos huelguistas.  Hay que impedir la reproducción de sucesos tan graves y tan vergonzosos como los que se están desarrollando em Santa Cruz."
(citado em Felipe Pigna.  Los mitos de la historia argentina 3.  Buenos Aires: Planeta, 2006, p. 94) 

7-Manuel Gálvez (1882-1968), escritor argentino, enaltece o fascismo na revista Criterio de 11 de outubro de 1928:

"Y surgió Benito Mussolini.  Por primera vez un gobernante se pronunciaba contra la democracia y el liberalismo político.  Al principio roussoniano y anárquico 'todos los hombres son iguales', opuso este otro, que restablecía el sentido de las jerarquías: 'cada uno en su puesto'.  Enseguida surgió la dictadura en España, en Portugal, en Polonia, en Grecia, en Chile.  Todas, más o menos, han nascido por el triunfo del fascismo italiano.  Y todas restablecen el orden jerárquico, imponiendo el respeto al poder, reponiendo a la Iglesia en su verdadero lugar, estableciendo la enseñanza religiosa, combatiendo la inmoralidad".
(citado em Felipe Pigna.  Los mitos de la historia argentina 3.  Buenos Aires: Planeta, 2006, p. 132)

8-O jornal oposicionista argentino La Fronda, na edição de 27 de abril de 1929, deprecia o presidente Hipolito Yrigoyen (1852-1933) ... por sua suposta origem negra!

"La tiranía enternece al señor Yrigoyen, sobre todo si es centroamericana, es decir, manejada por negritos mediocres y enfermizos que son de su misma raza y su misma mentalidad [...] La recepción del señor Machado en Cuba le ofrece nuevas oportunidades de enviar abrazos emocionados a los negritos del norte y éstos le retribuirán la fineza con gestos simiescos, colgando de los árboles por la cola".
(citado em Felipe Pigna.  Los mitos de la historia argentina 3.  Buenos Aires: Planeta, 2006, p. 157)

9-Enrique Gallegos, tenente-coronel peruano, expõe sua concepção do Apocalipse em artigo datado de 1960:

"Quando se pretende lutar de forma clássica contra uma guerra subversiva, o melhor Exército será invariavelmente destruído e um dia o inimigo, subterrâneo e invisível, explodirá por toda parte, de surpresa e antes que os canhões possam ser apontados e as colunas deslocadas, as massas populares se apossarão do poder e pela força e o terror desaparecerão na escravidão espiritual todos aqueles que não forem conquistados pela doutrina comunista".
(citado em Julio Cotler.  Peru: classes, Estado e nação.  Brasília: Funag, 2006, p. 269)


10-Rafael Trujillo (1891-1961), ditador dominicano, culpa os imigrantes haitianos pela pobreza do país e ordena o seu extermínio:

Los haitianos. Su presencia en nuestro territorio no puede más deteriorar las condiciones de vida de nuestros nacionales. Esa ocupación de los haitianos de las tierras fronterizas no debía continuar. Está ordenado que todos los haitianos que hubiera en el país fuesen exterminados.

Ver www.publicacoesacademicas.uniceub.br/.../713 -

11-Jorge Más Canosa (1939-1997), principal líder dos cubanos anticastristas, se ressentia, em 1962, do apoio limitado dos povos americanos à invasão da Baía dos Porcos, segundo ele parte de uma “guerra justa”:

Creemos que hoy dia el mundo libre peligra ante la expansion imperialista avasalladora del totalitarismo comunista... Ya los cubanos realizamos el primer intento libertario. Nuestros aliados naturales nos proporcionaron los medios,, aunque en forma deficiente, para derrocar, por primera vez en la historia, un gobierno comunista. Mas no seriamos leales a nuestros sentimientos si no afirmaramos que hubiesemos marchado a la guerra con mas entusiasmo, si los paises hermanos de America nos hubieran brindado los medios indispensables para desarrollar la guerra justa y necesaria.

cubamason.foroactivo.net/t1799-discurso-de-jor...




12-Augusto Pinochet (1915-2006), ditador chileno, afirma, um mês após dar um golpe de Estado, que “a mão de Deus” lhe concedeu a oportunidade de salvar mais de um milhão de chilenos da execução planejada pelos marxistas.

Los siniestros planea para realizar una masacre en masa de un pueblo que no aceptaba sus ideas, se habían preparado en forma subterránea. Países extranjeros enviaron armas y mercenario del odio para combatirnos; sin embargo, la mano de Dios se hizo presente para salvarnos, a pocos días, antes de consumarse tan horrendo crimen. Hoy sabemos qué habría ocurrido, ya que los documentos encontrados así lo indican: el marxismo internacional hubiera desatado la guerra civil, en cumplimiento de sus siniestros planes, y la vida de más de un millón de chilenos, se habría segado a sangre y fuego.

Ver es.wikisource.org/.../Discurso_de_Augusto_Pino... -




13-Anastasio Somoza Debayle (1925-1980), ex-presidente da Nicarágua, considerava seu país o “freio do comunismo” e lamentou, na última entrevista antes de ser assassinado, o fato de ter deixado de prender os ativistas pró-sandinismo.

"Hace algunos años usted dijo: Nicaragua es el único freno que tiene el comunismo en América Latina. ¿Qué pasó, entonces? ¿Por qué ese freno fracasó ahora, y qué culpa o responsabilidades reconoce usted en ese fracaso?
-          Bueno, yo diría que los primeros brotes comunistas salieron de Cuba y entraron en Nicaragua bajo la forma de gente entrenada en asaltos, en terrorismo, en quema de establecimientos y en movilización de masa. Todos estos individuos no eran ciudadanos que gozaban de la Constitución de la República, sino que la usaban para sus fines subversivos. Tendríamos que haber puesto a cientos de ellos en las cárceles”.



14-Segundo o jornalista venezuelano Carlos Rangel (1929-1988), os socialistas chilenos eram os responsáveis pelos problemas econômicos do Chile antes mesmo de Salvador Allende ser empossado!

"Quando se soube que os democratas cristãos dariam seus votos a Allende na votação congressional final para a presidência, a situação econômica imediatamente deu uma guinada para pior.  E a responsabilidade por essa deterioração econômica, que começou muito antes de Allende assumir a presidência, recai sobre a Unidade Popular; essa foi a reação natural de um sistema de livre mercado que acabava de saber que seria encurralado e asfixiado pelo governo que se instalava."

(Carlos Rangel.  Ideologia terceiro-mundista e a realidade ocidental.  Rio de Janeiro, Nórdica, 1999, p. 103)

15-Corina Falcón, política do Partido Colorado do Paraguai, faz apología (2010) à extinta ditadura de seus correligionários:  

“Alfredo Stroessner (ex dictador) nos ha dado la oportunidad de que pudiéramos vivir en paz. Porque aquellos que hoy llaman socialismo colectivo tuvieron la misma intención de socavar la paz, de exterminar la paz, de perseguir a las personas, de idolatrar a ciertos y determinados dirigentes como lo hacen hoy a (Fidel) Castro, a (Hugo) Chávez, o al "Che" Guevara. Estos son idealistas políticos de otros países, que muchos de nuestros conciudadanos idolatran sin saber y sin valorar que existen grandes patriotas que nos permitieron trabajar en paz, estudiar en paz y jubilarnos con mayor dignidad y en paz ". 

Ver www.abc.com.py/.../corina-falcon-stroessner-nos... -


16-Iván Moreira, deputado chileno da Unión Democrática Independiente, apresenta sua generosa visão do regime pinochetista (2012): 

"el hecho que se hable de dictadura es una forma de estigmatizar a un gobierno que entregó democráticamente el poder y eso en ninguna dictadura del mundo se ha dado, sólo en Chile, lo que habla muy bien del espíritu democrático de Chile".   
                    
Ver www.p/.../Para_Pinera oliticaymedios.com _el_go..



17-Da lavra dos “nacionalistas” cubanos do Periódico Libertad, o tipo de gente ao qual a direita brasileira  gostaria que Cuba fosse "devolvida", o texto mais preconceituoso e detestável que já vi em espanhol.   



"A pesar de las apariencias retóricas, como siempre en alta política, la realidad es la que NO se ve, y que la candidatura de Rosales fue auspiciada por el dictador comunista zambo Chavez quien es parte del movimiento "indigenista", impulsado ahora en iberoamerica por los enemigos de la libertad de los pueblos en el mundo, con el fin estratégico de destruir a las clases dirigentes blancas y apoderarse así de todos los recursos, naturales (petróleo, gas, minerales, etc) y humanos, SIN oposición alguna de los sectores nacionales de esos paises.... "    

                                                       [...]

"La invasión de habitantes del decimocuarto mundo y sus clases de muy bajo nivel de educación y civilidad, continúa imperterrita a pesar de los aspavientos de falsa aplicación estricta de la ley de inmigración por parte de la clase política nortemericana, subordinada casi toda ella al poder de los intereses del dinero y la prensa controlada por éste.... este hecho se observa hoy en día en los rincones más recónditos del país, adonde se puede ver a los invasores ilegales en todas partes, y hasta en remotas localidades de las montañas de Carolina del Norte, por ejemplo. Pero es en Miami uno de los lugares adonde el fenómeno resulta más palpable.... primero fue la invasión cubana estimulada para despejarle el camino al castrismo de parte de su oposición potencial más fuerte, que continúa por diversos medios, y ahora la invasión de personas provenientes de casi todos los paises de iberoamerica, sur, centro y caribe, con una alta dosis de elementos racialmente autóctonos y mestizos de imposible asimilación cultural al medio y modo de vida norteamericanos construido y formado por los colonizadores y fundadores de esta nación de origen racial y cultural noreuropeo." 




segunda-feira, 14 de maio de 2012

A direita aberrante: entre o trágico e o cômico


                      

                  A rápida expansão do acesso ao computador entre os brasileiros, que resultou, nos últimos anos, na formação de uma provável maioria de internautas, deu margem a diversos fenômenos curiosos.  Um deles foi a proliferação dos sites geridos por uma extrema direita raivosa, que adicionou à velha pizza macarthista, requentada sem muita imaginação, incontinência verbal e bizarras teorias da conspiração.  Alguns de seus líderes, posando de perseguidos por "minorias totalitárias", foram viver no exterior, de onde remetem seus libelos. Não raro, utilizam como argumento de autoridade uma duvidosa experiência na esquerda militante, com a qual teriam se desiludido ainda na juventude.
                Embora, em regra, não tenha qualquer expressão eleitoral, esta direita aberrante reivindica o papel de autêntica defensora do conservadorismo no Brasil.  Os partidos direitistas tradicionais, como o DEM e o PP, são qualificados como clubes de centristas mercenários, reféns do estatismo.  Os elitistas tucanos recebem com frequência o rótulo de comunistas moderados.  Segundo a delirante tese da "estratégia das tesouras", PSDB e PT, alternando-se no poder, cumprem uma agenda perversa, cujos objetivos seriam conduzir o debate político cada vez mais para a esquerda, destruir os valores familiares, sufocar as resistências conservadoras e abrir caminho para uma "nova ordem" comunista.
                  Não me proponho a desconstruir o pensamento desta corrente.  Assumiria o risco de cair na caricatura, como um enfermeiro de sanatório tentando convencer o louco de que ele não é Napoleão.  Porém, tendo em vista o inegável fato de que os neomacarthistas conseguem seduzir, além de antigos órfãos da ditadura militar, muitos jovens que pendem para o fundamentalismo religioso ou para o fascismo, sinto-me instigado a exibir um pouco de suas facetas mais caricatas.  Divirtam-se ou indignem-se, conforme sua índole, humor e percepção da realidade.                      
                       Reinaldo Azevedo, diante das estatizações ocorridas na Bolívia, volta sua ira contra Evo Morales, para ele um falso índio! 


                        O cineasta Ipojuca Pontes crê que Karl Marx era uma espécie de apóstolo do Diabo.




                               Diogo Mainardi, em sua obsessão por Lula, produz uma crônica grotesca, com direito a racismo mal disfarçado e profecia ruim.


                            Félix Maier, sentindo-se um pária pela condição de teuto-brasileiro, compõe sua poesia de pé quebrado, que inclui reprise do besteirol de Luiz Mott sobre a "homossexualidade de Zumbi".  

                         
                    Para Olavo de Carvalho, a pérfida coalizão entre comunistas, muçulmanos e adeptos do governo mundial colocou um estrangeiro na presidência dos Estados Unidos:     

                             

                       Segundo Graça Salgueiro, o Brasil jaz nas mãos do Foro de São Paulo.  Em Pernambuco, particularmente, o comunismo é uma unanimidade!


                       Sua xará do blog Graça no País das Maravilhas denuncia o controle dos "esquerdopatas" sobre a massa de eleitores semi-analfabetos, e mostra erudição escrevendo traseiros com Z.

 

                       Para Jair Bolsonaro, o único do gênero que tem votos,  o índio autêntico é um comedor de capim.






                      Caso acreditemos no pastor Julio Severo, os "brasileiros comuns" estão prestes a cair sob o jugo do nazismo gay, que já instrumentaliza o Ministério Público contra os heterossexuais.



                     Pelo menos num ponto, os neomacarthistas se mostram lúcidos: a constatação de que, por mais que esperneiem, nunca constituirão uma alternativa de poder.  Nada preciso acrescentar para revelar os motivos.                        




sábado, 12 de maio de 2012

Devassando o imperialismo (III)



A prática do domínio imperialista exige, como fator de segurança, a opressão cultural e a tentativa de liquidação, direta ou indireta, dos dados essenciais da cultura do povo dominado.  Mas este só pode criar e desenvolver o movimento de libertação por guardar bem viva a sua cultura, apesar da repressão permanente e organizada da sua vida cultural.

(Amílcar Cabral (1924-1973), líder revolucionário e secretário-geral do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde- PAIGC.  Citado em COMITINI, Carlos/org.  Amílcar Cabral: a arma da teoria.  Rio de Janeiro: Codecri, 1980, p. 75)

               Visualizamos nos posts anteriores uma pequena fração dos massacres cometidos pelas potências imperialistas para estabelecer o domínio colonial e a intensa exploração econômica a que eram submetidos, em regra, os colonizados.  Observemos hoje o fracasso das políticas assimilacionistas.  Longe de elevar as populações dominadas aos níveis de instrução, bem estar material e participação política verificados nas respectivas metrópoles, os colonialistas tendiam a construir sociedades marcadas por forte segregação étnica, concedendo escassos direitos aos "nativos" tidos como integrados à cultura metropolitana e tratando os demais, sempre majoritários, como uma mera reserva de mão de obra barata, a ser reprimida pelas armas ao menor sinal de insubordinação.
                A longa ocupação da Argélia pela França constitui um ótimo exemplo.  Os colonos franceses, no decorrer de um século, adquiriram progressivamente o controle de boa parte das áreas cultiváveis, em um país que tem a maior parcela de seu território coberta pelo deserto.  Embora fossem tratados como não-cidadãos, os argelinos, lutando ao lado das tropas metropolitanas, sofreram pesadas perdas durante a Segunda Guerra Mundial.            


         Mesmo com todos os sacrifícios impostos à ampla maioria de origem árabe, o governo francês lhe negava, na quase totalidade, os direitos políticos¹.


          O quadro apresentado se repetia na região subsaariana sob administração francesa.  Homens de diversas áreas da África Ocidental e Central se viam submetidos, aos milhares, a um regime de trabalho forçado que não excluía os castigos físicos, nas obras de infra-estrutura de interesse da colonização.  A taxa de mortalidade era quase inacreditável.    


             Entretanto, os súditos africanos da França, por mais que aderissem, eventualmente, à cultura francesa, não recebiam o direito de voto, mas continuavam sujeitos a um código penal que criminalizava qualquer gesto de resistência². 


       Nas Índias Orientais, os cultos holandeses mantiveram, durante gerações, os indonésios no analfabetismo.  Em pleno início do século XX, a colônia, a exemplo do Brasil sob D. João VI, cem anos antes, não possuía uma única universidade.  Os raros indonésios que detinham recursos suficientes para se graduar na Holanda, ainda que qualificados, nem por isto recebiam um tratamento igualitário em sua própria terra.    


        O simulacro de Parlamento que ali existia não possuía poder decisório.  Mesmo assim, os poucos   holandeses que habitavam as ilhas contavam com uma representação grosseiramente exagerada³. 


        Identificamos um quadro idêntico nas províncias ultramarinas de Portugal, com o agravante da pobreza do colonizador.  Além da permanência do trabalho compulsório, admitindo-se a possibilidade de venda formal da mão de obra para a África do Sul, é visível o insucesso da política assimilacionista, denominada indigenato.  Pouquíssimas pessoas de origem africana obtinham acesso ou se interessavam em reunir os atributos necessários à aquisição da cidadania portuguesa4.      


         As mazelas causadas pelo imperialismo japonês se assemelharam às de seus antecessores ocidentais.  Apesar dos investimentos estruturais feitos na península coreana, poucas linhas são suficientes para demonstrar que não havia limites no que se referia ao dever da colônia de suprir a metrópole.  O desvio progressivo da produção local de arroz para o Japão intensificou a miséria no período entre as duas grandes guerras.      


           Também na Coreia se verificou um dos processos mais tenebrosos entre os relacionados ao imperialismo.  Souyri nos revela que o rapto e a exploração sexual das coreanas não foi, como a mídia televisiva habitualmente dá a entender, uma circunstância anômala da Segunda Guerra Mundial, e sim uma política  de longo prazo, incentivada pelo Estado e aplicada desde os anos 1930.  O total de vítimas excedeu a 140 mil [5].   



           A retomada da crítica ao imperialismo, sobretudo quando associado à  invasão territorial, sempre é conveniente.  Não é difícil encontrar brasileiros mentecaptos que constroem fantasias no estilo "como seria bom se fôssemos recolonizados por povos do Primeiro Mundo!". A descendência ideológica dos ferozes colonialistas do século XIX e da maior parte do XX está representada, por exemplo, nas lideranças militares da OTAN e nas alas mais beligerantes do Partido Republicano dos EUA, ainda que seus discursos e métodos, obviamente, não sejam mais os mesmos.       



1- Ver Mustafá Yazbek.  Argélia: a guerra e a independência.  São Paulo: Brasiliense, 1983, pp. 21 a 25.
2- Cf. Jean Suret-Canale.  A África Negra sob a colonização francesa.  In: O livro negro do capitalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000, pp. 228 a 230. 
3- Ver Thomas Beaufils.  O colonialismo nas Índias Holandesas.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 287/288.
4- Ver Lincoln Secco.  A Revolução dos Cravos e a crise do império colonial português: economias, espaços e tomadas de consciência.  São Paulo: Alameda, 2004, pp. 72/73. 
5- Ver Pierre-François Souyri.  A colonização japonesa: um colonialismo moderno, mas não-ocidental. In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 473, 474 e 482.  






sexta-feira, 11 de maio de 2012

Devassando o imperialismo (II)



“Em 1860, assim como em 1760, o trabalho forçado dos não-europeus continuou a ser o tipo de trabalho preferido por capitalistas racionais, que escolhiam cultivar as áreas em grande parte não-desenvolvidas dos trópicos [...]  Os 20 milhões que deixaram a Índia entre 1830 e 1910, geralmente na qualidade de servos a contrato, superam em dobro os africanos obrigados a desembarcar na América durante os quatro séculos do comércio atlântico de escravos”.
(Seymour Drescher, historiador americano, citado em LOSURDO, Domenico. Contra-História do liberalismo.  Aparecida (SP): Ideias & Letras, 2007, p. 237)

“Concordo com vocês sobre o fato de que os maiores perigos internos, que ameaçam hoje os estados do Norte, são menos a escravidão do que a corrupção das instituições democráticas [...].  Quanto à política que permite à escravidão desenvolver-se em toda uma parte da terra na qual até então era desconhecida, admitirei, como vocês sustentam, que não se pode fazer outra coisa senão tolerar tal extensão, no interesse particular e atual da União”.
(Alexis de Tocqueville, pensador liberal francês, em carta de 1857 sobre a política interna norte-americana.  Citado em LOSURDO, Domenico.  Contra-História do liberalismo, p. 168)

               
                O senso comum associa o desenvolvimento do capitalismo ao enfraquecimento ou dissolução dos sistemas de trabalho compulsório, em particular a escravidão.  Em tese, a transformação de escravos e servos em mão de obra assalariada seria de grande interesse para a burguesia, que lucraria com a ampliação dos mercados consumidores.  Todavia, abundam exemplos de que o sistema capitalista, em plena era industrial, conviveu pacificamente com formações econômicas "arcaicas".  Mais do que isto, as potências capitalistas aceitaram em sua política colonial, até datas incrivelmente avançadas, a permanência da exploração do homem pelo homem em suas versões mais brutais.
              Retardatária em relação à Inglaterra e à França, a Holanda aboliu oficialmente a escravatura em seus domínios no ano de 1859.  Consultando Thomas Beaufils, entretanto, notamos que as autoridades coloniais holandesas das Índias Orientais foram negligentes no cumprimento desta legislação, permitindo que décadas depois ainda existissem milhares de escravos em alguns lugares.  Não existia empenho, igualmente, em garantir que os ex-cativos desfrutassem de uma liberdade efetiva¹.      

               
                Ainda mais retardatário, Portugal estendeu a escravidão legalizada até 1875.  Porém, no que se refere a Moçambique, os "libertos" continuavam a ser vistos e tratados como propriedade, o que foi atestado pelo diplomata britânico Frederic Elton².    


                    A situação em Angola parecia ser pior.  O sucesso da plantation em várias regiões daquela colônia favoreceu a sobrevida do escravismo.  Lovejoy aponta que na década de 1890 os cafezais angolanos  empregavam uma mão de obra que, na prática, continuava a viver em condição análoga à escravidão³.


                 O Estado francês, que aboliu o cativeiro em suas colônias americanas em 1848, também tolerou, durante muito tempo, que as relações escravistas vigorassem em suas áreas de influência na África.  Identificamos, mais uma vez através de Lovejoy, que o governo colonial chegou a impedir intencionalmente que os escravos da região do Senegal desarticulassem o sistema, escapando em massa para as comunas sob controle mais direto da França4.    


              Também em prol da governabilidade no ultramar, a Inglaterra, que extinguira a escravidão nas ilhas caribenhas sob seu domínio em 1833, entrou em acordo, vinte anos mais tarde, com as forças escravistas da região que hoje constitui a Nigéria.  A diplomacia britânica tentou tranquilizá-las a respeito da possibilidade de perda das suas "propriedades".  Apesar de tal compromisso, muitos escravos viram a nova conjuntura política como uma brecha que lhes facilitaria  o acesso à liberdade5.   


         O mito do Império Britânico enquanto força impulsionadora da liberdade desaba por completo se voltarmos o olhar para Serra Leoa: no protetorado constituído para abrigar os egressos da escravidão, ainda havia cativos em ... 1926 [6].


[continua]
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1- Ver Thomas Beaufils.  O colonialismo nas Índias Holandesas.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 280.
2- Ver Paul Lovejoy.  A escravidão na África, uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 337.
3- Idem, p. 342.
4- Ibidem, p. 382/383.
5- Ibidem, p. 370.
6- Ibidem, p. 366.