domingo, 17 de março de 2013

Estados Unidos e América Latina: os múltiplos desastres de uma relação desigual


                                                             Augusto César Sandino

Creen [los Estados Unidos] en la necesitad, en el derecho bárbaro, como único derecho: ‘esto será nuestro, porque lo necesitamos’.  Creen en la superioridade incontrastable de ‘la raza anglosajona contra la raza latina’.  Creen en la bajeza de la raza negra que esclavizaron y vejan hoy, y de la india, que exterminan.  Creen que los pueblos de Hispanoamérica están formados, principalmente, de indios e negros.  Mientras no sepan más de Hispanoamérica los Estados Unidos y la respeten más, - como con la explicación incesante, urgente, múltiple, sagaz, de nuestros elementos y recursos, podrían llegar a respetarla, - ¿pueden los Estados Unidos convidar a Hispanoamérica a uma unión sincera y útil para Hispanoamérica? ¿Conviene a Hispanoamérica la unión política y económica com los Estados Unidos?”

José Martí (1853-1895), em artigo de maio de 1891 sobre a Conferência Monetária Internacional ocorrida naquele ano em Nova York. 

         Esta postagem tem relação direta com o texto "Quem são os verdadeiros idiotas latino-americanos" que publiquei em 30 de julho do ano passado.
(http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2012/07/quem-sao-os-verdadeiros-idiotas-latino.html) 
          Nestes últimos sete meses e meio, não parece ter arrefecido o ânimo dos milhões de liberais e conservadores latino-americanos que sonham com o alinhamento automático, na economia e na política externa, de seus respectivos países com os Estados Unidos, preferencialmente sob as teses do Partido Republicano.  Pelo contrário: muitos deles se mostraram eufóricos com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez Frias (1954-2013); alguns já se arriscam a prever as datas em que desmoronarão os governos de tendência nacionalista ou esquerdista existentes na região.
          Não tenho a pretensão, que seria bastante tola, de fazê-los virar as costas à sua Meca particular.  Apenas trago, para apreciação de um público mais amplo, outros episódios de um relacionamento cujos resultados, em regra, têm prejudicado desde o século XIX a parte que casualmente integramos.          
       
                                                                     (...)

       A Guerra de Secessão norte-americana (1861-1865) repercutiu expressivamente na vizinha Cuba, ainda sob domínio da Espanha.  Cubanos como os irmãos Federico e Adolfo Cavada, engajados  no exército nortista, adquiriram a experiência militar que depois utilizariam na luta pela independência da ilha.  Outro veterano, o americano Henry Reeve, conhecido como "El Inglesito", alcançaria a patente de general entre os rebeldes cubanos, mesmo após perder a força das pernas logo que desembarcou em Cuba, em um choque armado no qual foi baleado por soldados espanhóis.
        Durante a Guerra de Secessão, as autoridades espanholas, que mantinham a escravidão na colônia caribenha, reconheceram os estados escravagistas do Sul como potência beligerante.  Baseando-se nesta circunstância recente, o fazendeiro Carlos Manuel de Céspedes (1819-1874), líder que comandou os autonomistas cubanos no início da Guerra dos Dez Anos (1868-1878), solicitou ao presidente americano Ulysses Grant (1822-1885) que também reconhecesse a beligerância de suas forças.
       O governo dos Estados Unidos não reconheceu a beligerância do exército de Céspedes.  Pelo contrário: vendeu à Espanha canhões e outros armamentos empregados na repressão ao movimento independentista.  Exilados chegaram em grande número a cidades como Tampa, Key West, Baltimore, Nova York e Filadélfia, onde pouco podiam fazer além de sensibilizar a opinião pública norte-americana em favor de Cuba. 
       Na mesma época, ocorreram negociações secretas no sentido de efetivar a venda da ilha aos Estados Unidos pela cifra de cem milhões de dólares.  Um dos possíveis envolvidos era Moses Taylor, fundador do National City Bank de Nova York, cuja fortuna derivava principalmente de seus negócios cubanos.  A descoberta da tramoia causou enorme escândalo em Madrid.  Uma de suas consequências foi o assassinato do general Joan Prim (1814-1870), ex-presidente do Conselho de Ministros de Espanha.     

                                                                       (...)

        A intervenção norte-americana foi um elemento constante na História da Nicarágua.  Logo em 1854, o aventureiro sulista William Walker (1824-1860), chefiando tropas mercenárias, se valeu de uma situação de guerra civil para tomar o poder.  Os nicaraguenses só recuperaram sua autonomia três anos mais tarde.  Após a queda de Walker, presidentes conservadores se sucederam em Manágua até 1893, quando uma revolução liberal levou ao governo o general José Santos Zelaya (1853-1919).
          Zelaya adotou políticas modernizantes e incentivou o desenvolvimento da cafeicultura, mas se afastou politicamente dos Estados Unidos quando, na escolha da área que deveria dar lugar a um canal entre o Atlântico e o Pacífico, seu país foi preterido em prol do Panamá.  Em 1909, tropas norte-americanas desembarcaram na Nicarágua, depuseram Zelaya e devolveram o poder aos conservadores.  Com a eclosão de revoltas contra o presidente conservador Adolfo Díaz (1875-1964), houve uma nova ocupação a partir de 1912.  Em 1914, os Estados Unidos impuseram à Nicarágua o tratado Bryan-Chamorro, pelo qual o primeiro país adquiria o direito perpétuo de construir um canal no segundo. 
           Saindo os marines em 1925, recomeçou a guerra civil; no ano seguinte, voltaram os norte-americanos, desta vez obrigados a enfrentar uma guerrilha popular cujo nome mais importante foi o de Augusto César Sandino (1895-1934).  A potência ocupante organizou e equipou uma Guarda Nacional que, além de promover o assassinato de Sandino e sustentar por mais de quatro décadas a ditadura da família Somoza, participou da derrubada de Jacobo Árbenz (1913-1971) na Guatemala (1954) e das invasões da Baía dos Porcos em Cuba (1961) e da República Dominicana em 1965.
            Em 1977, às vésperas da Revolução Sandinista, 65% dos nicaraguenses eram analfabetos, a expectativa média de vida não passava de 35 anos e a mortalidade infantil atingia o espantoso índice de 200 por mil.            

                                                                       (...)     

        Adoecendo o general Roberto Eduardo Viola (1924-1994) no final de 1981, os grupos militares que lhe eram contrários instalaram na presidência da Argentina o comandante em chefe do Exército, Leopoldo Fortunato Galtieri (1926-2003).  Integrante da linha-dura do regime, Galtieri visitara recentemente os Estados Unidos, sendo bem recebido pelos funcionários do governo Reagan, que buscavam novos aliados para sua política externa então em fase de implementação.  O militar argentino, em troca do aval ao seu projeto de poder, prometeu um alinhamento incondicional com os norte-americanos, inclusive nos conflitos da América Central.   Contribuindo com armamentos e assessores para a guerra suja naquela parte do continente, o governo argentino conseguiu dos republicanos o fim das sanções impostas pela administração Carter diante das sucessivas violações dos direitos humanos na Argentina. 
           No começo de abril de 1982, forças argentinas ocuparam as ilhas Malvinas, invadidas pela Inglaterra em 1833.  O governo Galtieri calculou erroneamente que diante do fato consumado só restaria a definição de um novo status quo por meio de negociações.  Os Estados Unidos, a princípio, buscaram apaziguar os dois aliados.  O secretário de Estado Alexander Haig (1924-2010) propôs a retirada militar argentina e o estabelecimento de uma gestão tripartite no arquipélago (incluindo os próprios americanos) como condições para o início do diálogo.  
        Galtieri tentou pressionar os Estados Unidos acionando a Organização dos Estados Americanos (OEA), onde a Argentina contava com a solidariedade dos demais países latino-americanos.  Invocou também o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), antes utilizado pelos norte-americanos para mobilizar seus vizinhos contra o Eixo e contra Cuba.  A definição se deu no sentido oposto.  Iniciado o ataque britânico contra as ilhas, o governo Reagan abandonou a mediação, enquanto o Senado dos Estados Unidos aprovava sanções contra a Argentina e oferecia apoio logístico à Grã-Bretanha.  Em 14 de junho de 1982 a ditadura argentina se viu forçada a apresentar sua rendição, contabilizando mais de 700 mortos e desaparecidos e quase 1.300 feridos.  
      
Referências:

José A. Benítez.  El pensamiento revolucionario de hombres de nuestra América.  La Habana: Editora Política, 1986.
Manuel Moreno Fraginals.  Cuba/Espanha, Espanha/Cuba: uma história comum.  São Paulo: Edusc, 2005, p. 300 a 306.
Jean Sellier.  Atlas des peuples d'Amérique.  Paris: La Découverte, 2006, p. 154.
Héctor H. Bruit.  Revoluções na América Latina.  São Paulo: Atual, 1988, p. 92 a 94.
Luis Alberto Romero.  História contemporânea da Argentina.  Rio de Janeiro; Zahar, 2006, p. 217 a 223.       

sexta-feira, 15 de março de 2013

Os muitos felicianos e seu deplorável mito camítico

     

        A polêmica acerca da nomeação do pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados ocupou um espaço significativo no noticiário impresso e televisivo das últimas semanas, além de provocar milhares de manifestações pela Internet.  Pouco ou nada tenho a acrescentar às críticas dirigidas ao exótico parlamentar, sobretudo quando o próprio invoca em sua defesa (!) o depoimento de Silas Malafaia que exponho abaixo: 

http://www.marcofeliciano.com.br/noticia/113/a-carta-aberta-de-pastores-que-acaba-ajudando-aqueles-que-nos-odeiam-pr-silas-comenta.html


         Descobrimos, desta maneira, que impedir a contratação de gays numa empresa não é homofobia.  Afinal, não é preciso surrar os semelhantes para tomar esta "providência".  Na mesma linha, adquirimos o conhecimento de que é impossível que descendentes de negros discriminem outros negros; Malafaia, provavelmente, "lava o sangue" de Nina Rodrigues e Oliveira Vianna, entre muitos antigos profetas do racismo científico.
       Mas agora deixo de lado as pretensões de absolvição de Marco Feliciano, que terá o imerecido direito de produzir um vasto repertório de gafes antes de ser arrancado da citada comissão.  O que importa é que, ainda que nenhum racista brasileiro se assuma como tal em público, encontramos sem grande dificuldade a difusão da mitologia discriminatória que foi atribuída ao deputado federal.  O velho mito camítico que já serviu para justificar o apartheid, a segregação étnica nos Estados Unidos e (em proporção bem menor) a escravidão no Império do Brasil.      
          Numa revista virtual de estudos bíblicos vemos um texto, suposta tradução de trabalho do pastor Forrest Keener, que claramente identifica os povos africanos e de uma parte do Oriente Médio como a descendência  amaldiçoada de Cão (ou Cam), filho de Noé.  Com intenções mais do que óbvias, põe-se em negrito a palavra preto.  Sob o ridículo arrazoado, há um questionário que  em uma das perguntas se destina a fixar a posição geográfica da maldição:

http://www.estudosnovotempo.com.br/sem-cao-e-jafe/




          Outro site, intitulado Palavra Prudente, traz considerações semelhantes a partir do mesmo Keener.  Sem qualquer sutileza, fala-se de uma "perpétua diferença racial", estabelecida em prejuízo dos "povos negros":



           No site da Fundação Betel temos outra versão, pela qual somente um dos filhos de Cão, Canaã, seria portador da maldição extensiva aos descendentes.  Porém, o termo Cão é apontado como sinônimo de preto (também com destaque!), em contradição com Forrest Keener, para quem o nome de Cuxe, irmão de Canaã, teria este significado.  Em suma, os amaldiçoados nunca perdem a qualidade de "pretos":  



Noé era canal de Deus na terra,era autoridade de Deus na terra.
Por que Noé amaldiçoou Canaã e não Cão? Hipóteses:
- Talvez porque Deus tivesse abençoado Cão ( Gn 9: 1), e a benção não poderia ser removida.
Nm 23: 20 - "Eis que recebi mandado de abençoar; pois ele tem abençoado, e eu não o posso revogar."
- Talvez porque Canaã seria motivo de vergonha para seu pai (Cão) assim como Cão foi vergonha para seu pai Noé. O que Cão fez para Noé, Canaã faria para Cão.
- Acima de tudo, porém, a maldição de Noé foi profética. As bençãos e maldições dos patriarcas eram profecias.
Noé não foi a causa da maldição, ele simplesmente profetizou, foi boca de Deus.
Os filhos de Noé - ( a origem das nações )
Cão = preto ou quente
Sem = nome
Jafé = expansão
Cão - seus descendentes : Canaã - os que habitavam a Palestina; Pute ( Líbia ); Mizraim ( Egito ); Cuxe ( Etiópia ).
As práticas cananitas e de seus descendentes, eram totalmente idólatras e imorais.
Os descendentes de Canaã foram os povos expulsos da terra prometida, por sua rebeldia a Deus. 


     
          Um blog editado por seguidores da Assembleia de Deus aparentemente estende a maldição de Cão a todas as populações não brancas, inclusive os índios americanos.  Naturaliza-se a escravidão antiga e moderna e passa-se a mensagem quase explícita de que é necessário submeter os muçulmanos do Oriente Médio ("assírios", "babilônios" e "egípcios") aos "filhos de Jafé":
           

              http://igrejaemvilafelizpilar.blogspot.com.br/p/noe-era-descendente.html


           Já na página de mórmons cujo endereço também copio é explicada uma pretendida tolerância quanto ao ingresso de negros na igreja, tendo-se em vista o fim recente da praga bíblica.  Entretanto, o autor derrapa de forma bastante comprometedora pouco antes de chegar ao resumo-conclusão, ao afirmar sem meias medidas que os filhos de pele branca de casais "interraciais" escaparam do estigma da maldição:  

 http://apologeticamormon.blogspot.com.br/2010/10/o-sacerdocio-para-os-negros.html




         Conheço de longa data a vocação de certos conservadores para distorcer as palavras alheias.  Declaro então, com veemência, que esta postagem não é um libelo antievangélico.   Preciso também dizer que para cada um destes discursos escatológicos localizei dezenas de explanações de líderes religiosos que negam categoricamente qualquer validade ao mito camítico.   Quem desejar lê-las, precisa apenas colocar na busca do Google o nome de Marco Feliciano, que em regra recebe dos autores os adjetivos que lhe são devidos.  
        Todavia, esta denúncia é pertinente e muito atual.  Milhares de brasileiros negros "aprendem" que são netos distantes de criaturas danadas.  Convenientemente, não lhes prometem as chamas eternas, o que afastaria numerosos dizimistas, mas lhes induzem à submissão.  Milhares de brasileiros brancos "aprendem" que devem manter a hierarquia étnica como obediência a uma determinação divina, o que é extremamente nocivo à cidadania.  Por extensão, fica subentendido que um país formado por tantos amaldiçoados está condenado à subalternidade na política internacional.  
            Combatamos o mito camítico sempre e onde estiver, inclusive com as armas do Código Penal para quem incorrer em pregações racistas!   


terça-feira, 5 de março de 2013

O "homem comum" como sujeito da História


        
                                 Estátua de Raimundo Gomes localizada em Caxias, no estado do Maranhão

      Apesar de atuar como professor da rede pública estadual do Rio de Janeiro há treze anos, nunca havia postado, em quase um ano de edição deste blog, um texto composto para uso didático. Decido fazê-lo hoje motivado por uma inquietação recorrente.  Em alguns almoços atravessados por diálogos políticos, meu prezado amigo Alexandre Soares, entomologista do Museu Nacional, se queixou de ter sido apresentado na juventude a uma História do Brasil sem espaço para o confronto interno e marcada pela enganosa perspectiva de harmonia entre as diversas classes sociais.  Isto aconteceu pela primeira vez quando mencionei a guerra civil conhecida como Cabanagem, ocorrida na Amazônia durante a segunda metade da década de 1830, como o processo mais sangrento da política interna brasileira.  Soares não apenas me declarou que jamais ouvira falar na Cabanagem, como também confessou que outras rebeliões daquele período, como a Sabinada e a Balaiada, para ele eram simples termos praticamente desprovidos de conteúdo, meras recordações de leituras antigas e bastante superficiais.  Sobre a Guerra dos Farrapos sabia um pouco mais, circunstância facilmente explicável pelo espaço romanceado que este último conflito por vezes ocupa na mídia. 
         Alexandre é um homem culto, dedicado há mais de trinta anos ao estudo da Biologia, fluente em inglês a ponto de ter publicado na Inglaterra um livro naquele idioma sobre a sua especialidade, interessado em várias disciplinas.  Não gosto de chutes estatísticos, mas penso que posso dizer, a partir do exemplo exposto, que mais de 95% dos brasileiros desconhecem por completo o que foi a Cabanagem.  Não duvido sequer que a maioria dos paraenses e amazonenses compartilhe esta ignorância com o restante da população, mesmo que vivam nas mesmas municipalidades em que aconteceram os referidos combates e massacres.
       O esquecimento das rebeliões regenciais pelos brasileiros letrados e iletrados me traz à memória uma frase do historiador Boris Fausto sobre a sociedade da Primeira República, que transcrevo abaixo:

"[...]o voto não era obrigatório e o povo, em regra, encarava a política como um jogo entre os grandes ou uma troca de favores". (História do Brasil.  São Paulo: Unesp, 1998, p. 262)

       Excetuada a questão da obrigatoriedade do voto, a observação de Fausto, desgraçadamente, permanece atual.  Tendo residido por quase vinte anos na Região dos Lagos fluminense, que não cabe de forma exata na definição de grotão, pude perceber no cotidiano os severos obstáculos impostos ao "homem comum" como partícipe de processos decisórios.  As oligarquias municipais, não raro divididas em bandos rivais por razões das mais variadas e em regra inconfessáveis, atuam em conjunto para impedir que até a mais débil associação de moradores disponha de autonomia em suas reivindicações.  Os poucos indívíduos que ousam questionar as relações de poder tradicionais são confrontados com a lembrança de antigos laços de dependência de seus pais e avós perante "coronéis" eventualmente ainda vivos.  Por vezes, a ameaça de demissão de um parente, contratado pela municipalidade ou por empresa da família do suposto ofendido, é suficiente para calar o "rebelde"; em outras ocasiões, apela-se para a intimidação física. 
        Aos entraves impostos à participação popular, no sentido amplo e verdadeiro da expressão, inclusive na política "paroquial", soma-se o desconhecimento dos numerosos episódios da História do Brasil em que o "homem comum" decidiu tomar em mãos o próprio destino, desafiando abertamente seus opressores. Um deles foi a Balaiada, iniciada no Maranhão, com ramificações para outras províncias do que então se entendia como o Norte do país.
       Compus a adaptação abaixo contemplando uma turma do 1º ano do Ensino Médio, para a qual o planejamento pedagógico inclui a apreensão do papel do homem comum como sujeito ou agente da História. A leitura será realizada hoje à noite e espero que motive boas reflexões. Apresento meus agradecimentos à historiadora piauiense Claudete Dias, que não conheço pessoalmente, mas que viabilizou o trabalho com seus conhecimentos sobre o tema.                        
    
          

O “homem comum” como sujeito histórico: o caso da Balaiada

         O vaqueiro Raimundo Gomes Vieira Jutahy, cafuzo nascido na província do Piauí, trabalhava como capataz para o padre Inácio Mendes, dono de uma fazenda de gado próxima à Vila da Manga, no Maranhão.  Ele passava por este lugar conduzindo uma boiada, em certo dia do final de 1838, quando vários de seus companheiros, inclusive um irmão, foram presos.  O irmão seria acusado de homicídio, numa das táticas que o governo local utilizava para recrutar homens à força.
Os ministros da Marinha e da Guerra, entre 1837 e 1840, ordenavam com frequência que fossem trazidos homens de todas as províncias para servir na Artilharia da Marinha e na Cavalaria do Exército.  Os recrutados, depois de embarcados em navios comerciais, seguiam para o Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.  No Piauí e no Maranhão, o recrutamento atingia as famílias pobres de caboclos, mulatos e outros mestiços, sendo os brancos geralmente poupados.  A possibilidade de ida para os chamados “matadouros do sul” causava imenso pavor entre os camponeses locais.
 Raimundo Gomes tentou libertar seu irmão apelando às autoridades municipais, mas não foi atendido. Dias mais tarde, o jornal Crônica Maranhense noticiou que uma “partida de proletários”, formada por no máximo quinze homens, tinha atacado o quartel do destacamento da Vila da Manga, soltando os presos, roubando o armamento, prendendo o ajudante que estava no local e obrigando o subprefeito a fugir.  O líder do grupo, Raimundo Gomes, lançou em seguida um manifesto no qual exigia o restabelecimento dos poderes do juízes de paz, autoridades eleitas, e a demissão dos prefeitos e subprefeitos, cuja existência não era prevista pela Constituição.
            O manifesto correu toda a província, e o governo estabelecido em São Luís destacou duzentos homens da tropa de linha para prender os rebeldes.  Enquanto isso, o grupo de Raimundo Gomes cruzava os povoados vizinhos a Manga, crescendo com o apoio da população sertaneja.  Outras cadeias foram invadidas e mais presos libertados.  Em abril de 1839, dois mil homens ocuparam a Vila do Brejo e outros mil rumaram para Parnaíba, no Piauí, onde o movimento contava com simpatizantes. Em maio, um exército com seis mil componentes cercou a principal cidade do interior do Maranhão, Caxias.  Um de seus chefes, fazendeiro em Campo Maior, no Piauí, atendia pelo imponente nome de Lívio Lopes Castelo Branco; outros eram conhecidos como Milome, Mulungueta e Caboclo Coque.  Depois de dois meses de sítio, Caxias caiu.
            A rebelião ficaria conhecida como Balaiada, nome que derivou do apelido de Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio.  Mulato livre, filho de camponeses e fabricante de cestos, ele se aliou a Raimundo Gomes quando um oficial legalista violentou sua mulher e suas filhas.  Mal sabia ler, mas logo se tornou um dos principais líderes do movimento e teve participação importante na conquista da cidade de Caxias. 
            Os balaios contaram com o reforço de guerreiros indígenas das serras situadas entre o Piauí e o Ceará, além de outros que habitavam o interior do Maranhão.  No decorrer das lutas, receberam a adesão de quilombolas.  Liderados por Cosme Bento das Chagas, que fugira da senzala e da cadeia, três mil escravos rebeldes se concentravam nas matas maranhenses de Codó e na costa entre Barra do Tutoia e Priá.  Considerado um mero bandido pela “boa sociedade” da província, Cosme adotava o título de Tutor e Imperador das Liberdades.  Distribuía cartas de alforria aos escravos e tentou criar uma escola de ler e escrever no quilombo da Lagoa Amarela, situado na comarca do Brejo.
Os rebeldes eram numerosos, mas possuíam armamento muito inferior ao das forças do governo, fato que os obrigava a adotar táticas de guerrilha.  A partir de setembro de 1840, enfraquecidos, os balaios se escondiam em serras e caatingas fechadas.  Perseguido no Maranhão por forças vindas do Piauí, Raimundo Gomes entrava em fazendas, matava os proprietários e soltava os escravos.  Reunindo-se na localidade maranhense de Pacoti, duzentos balaios tomaram uma fazenda e libertaram seus cativos, que construíram quilombos nas florestas próximas.
A repressão à Balaiada trouxe grande prestígio para o coronel Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, que assumiu a presidência e o Comando das Armas da província do Maranhão em fevereiro de 1840. Manoel Ferreira, o Balaio, já havia morrido.  Ferido gravemente na cidade de Caxias, em outubro de 1839, não resistiu à gangrena.  Raimundo Gomes, esgotado por dois anos de guerra e reconhecendo a superioridade militar das tropas imperiais, acabou por aceitar a anistia do imperador. Cosme Bento das Chagas, combatido pelo próprio Luís Alves de Lima, que marchou contra o quilombo por ele governado, foi ferido, capturado e processado na Justiça, recebendo doze acusações e sendo condenado à morte em abril de 1842. 
Lívio Lopes Castelo Branco, como outros homens instruídos que participaram da Balaiada, afastou-se do movimento ao notar que os balaios radicalizavam suas posições e que seria impossível qualquer acordo com as autoridades.  Refugiou-se no Ceará, continuando a ser perseguido por forças cearenses, pernambucanas e paraibanas.  Preso, teve o benefício da anistia em agosto de 1840, mas recusou-se a assinar um documento que o proibia de ingressar novamente no Piauí e foi embarcado para o Rio.  Retornou à província de origem em 1842, com a Balaiada já extinta, e passou a se dedicar à imprensa, fundando vários jornais.  
(Adaptado de Claudete Maria Miranda Dias. Balaios e bem-te-vis: a guerrilha sertaneja. Teresina: Instituto Dom Barreto, 2002)    

sexta-feira, 1 de março de 2013

Um país que homenageia seus campeões escravagistas

      
                           Joaquim Octavio Nébias (1811-1872), parlamentar paulista contrário à Lei do Ventre Livre 

       O quantitativo da escravatura no Brasil, após a lei (de 1850) que impôs uma proibição efetiva ao tráfico negreiro, diminuiu continuamente.  Salvo raras municipalidades e mesmo assim em períodos específicos, os números somados das mortes e alforrias superaram, ano a ano, os nascimentos de crianças escravas.  Qualquer observador atento às estatísticas, no terceiro quartel do século XIX, seria capaz de prever o fim do cativeiro no país, ainda que a médio prazo.
     Entretanto, as cifras desfavoráveis não desanimaram os partidários do escravismo, que se mobilizaram, numa primeira etapa, para manter o debate sobre o processo de emancipação fora do Parlamento; quando isto se tornou inviável, lutaram para bloquear as medidas pró-abolição ou reduzir sua eficácia aprovando emendas favoráveis aos senhores de escravos.
       Durante os meses de julho, agosto e setembro de 1871, a Câmara dos Deputados e o Senado do Império assistiram ao que talvez tenha sido a maior batalha parlamentar ocorrida no Brasil, dela emergindo a chamada Lei do Ventre Livre.  Os filhos das mulheres escravas não mais acompanhariam a condição jurídica de suas mães, embora se vissem obrigados a prestar serviços aos proprietários delas até os 21 anos de idade.  Os senhores que abrissem mão desta prerrogativa poderiam, em troca de uma indenização de seiscentos mil-réis, determinar sua libertação formal aos oito anos. 
      O Parlamento brasileiro, naquela altura, era inteiramente dominado pelo Partido Conservador, ao qual pertencia o presidente do Conselho de Ministros (chefe de governo), o visconde do Rio Branco.  Mesmo assim, muitos membros das duas Casas parlamentares se rebelaram contra o que consideravam uma afronta à propriedade privada e, pelo menos no discurso,  uma irresponsabilidade política que resultaria no colapso da lavoura cafeeira, principal atividade econômica do país.  Não transcreverei aqui os longos debates de 1871.  Os que desejarem lê-los na íntegra podem facilmente iniciar uma busca com a expressão "Anais da Câmara", tendo acesso em poucos cliques aos velhos livros do Poder Legislativo.
     Conheço suficientemente a amplitude que a propriedade escrava alcançou no Brasil para  querer construir sobre o nome de cada homem que ao longo de sua vida herdou ou comprou um par de cativos a imagem de um vilão de novela como o Leôncio de A Escrava Isaura.  O que pretendo salientar é a existência, numa avançada altura do século XIX, de uma corrente política disposta a quase tudo para estender pelo maior tempo possível a existência da escravidão, agora restrita, no continente americano, ao Império bragantino e à colônia espanhola de Cuba.  Seus adeptos, na quase totalidade, pertenciam às províncias cafeicultoras do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.  Não é difícil identificá-los nominalmente; os opositores do Ventre Livre, vencidos na Câmara por 61 a 35, constam de várias obras de referência.  Adotarei como fonte um parágrafo do historiador monarquista Brasil Gérson (1904-1981):

"Mas, dentre os votantes, quais os contrários de maior renome político? O Conde de Baependi, Belisário de Sousa, Ferreira Viana, Duque Estrada Teixeira, Paulino Soares de Sousa, Pereira da Silva, Diogo Pereira de Vasconcelos, Perdigão Malheiros, Andrade Figueira, Ferreira da Veiga (sucessor de Evaristo, também não abolicionista, na sua cadeira de deputado por Minas), Jerônimo Penido, Gama Cerqueira, Joaquim Nébias, Antônio Prado e Rodrigo Silva- e com a ressalva de que os dois últimos, conservadores paulistas, moderados, depois mudariam de atitude, e convertendo-se Rodrigo Silva, aliás, no próprio Ministro da Agricultura, em 88, do Gabinete João Alfredo, o da Lei Áurea, e Antônio Prado, futuro senador, no grande líder, com o jornalista Antônio Bento, do abolicionismo em São Paulo". (A escravidão no Império.  Rio de Janeiro: Pallas, 1975, p. 215) 

           
         Sublinhei os nomes de alguns daqueles deputados gerais para destacar que o Estado brasileiro foi pródigo em reconhecer seus presumidos serviços à nação, como notamos após uma breve busca de imagens, cujo resultado exponho abaixo:   

Rua Conselheiro Pereira da Silva, em Laranjeiras, cidade do Rio de Janeiro

                                                Rua Andrade Figueira, em Barra Mansa (RJ)


                                        Rua Conde de Baependi, no Flamengo, cidade do Rio de Janeiro

                                                                                
                                     
                                              Escola Técnica Ferreira Viana, no Rio de Janeiro


                                                                  Avenida Conselheiro Nébias, em Santos (SP) 

                                 
                                      
Rua Perdigão Malheiros, no bairro Coração de Jesus, em Belo Horizonte



                                                          


           O Império escravista, naturalmente, reconheceu o status de seus políticos escravagistas, mesmo que estes, em algumas circunstâncias, tivessem rejeitado certas razões de Estado.  Não existiam ainda as leis que impedem os poderosos de ser homenageados em vida, dando seus nomes a logradouros públicos ou a estabelecimentos sob gestão estatal.  Porém, a República que sucedeu à Monarquia decrépita reorganizando a ordem oligárquica não reparou tais distorções.  Os campeões do escravagismo permanecem nas placas de bairros nobres ou populares, cidades de variados tamanhos, ruas, avenidas e escolas públicas de todos os níveis.  O passado, como muitas vezes já foi dito, não conhece o seu lugar, e frequentemente se mostra incômodo.         





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Resposta a Pedro Mundim (segunda parte)


                                 Silvio Berlusconi, ex-líder de vários gabinetes italianos de direita, ao lado de seu aliado fascista Gianfranco Fini
     

      Prossigo nesta postagem na análise de um extenso comentário de Pedro Mundim.  Transcrevo abaixo os dois últimos parágrafos, já me desculpando pelos eventuais danos à paciência de alguns leitores:  

Mussolini também veio da plebe, e na juventude chegou a mendigar e ser preso por vadiagem. O fascismo surgiu na História como uma alternativa ao socialismo, ou antes, como um pastiche deste: de resto, ambos eram regimes de massa, de fanfarra, de operários e estudantes desfilando uniformizados, etc. etc. O fascismo não elimina a burguesia, mas inverte a relação que normalmente existe entre a burguesia e o governo nos regimes liberais e conservadores: se nesses, como dizia Marx, o governo era não mais que o comitê onde a burguesia realizava seus negócios, no fascismo a burguesia está submetida ao governo. Hitler permitiu que os burgueses continuassem usufruindo do conforto proporcionado por suas riquezas, mas na prática era o governo que comandava os meios de produção (há aqui uma simetria de espelho com o que acontecia na mesma época na ex-União Soviética, onde os comissários do partido viviam como burgueses, embora não fossem formalemente proprietários das fábricas que administravam). Na verdade, os regimes fascistas criam uma burguesia para seu uso, ao favorecer os burgueses aliados e os membros do partido, ao mesmo tempo em que perseguem e expropriam os burgueses inimigos (quem conhece a dita boliburguesia da Venezuela sabe do que eu estou falando).
Concordo que soa estranho eu aqui referir-me à Venezuela como exemplo de fascismo na época atual. É que o senso comum definiu o fascismo como o mero antônimo do socialismo. É falso. O verdadeiro antônimo do socialismo é o liberalismo (ou neoliberalismo, como queiram). Mas o regime de Chávez tem todas as caracterísitcas do antigo fascismo dos anos 30: organizações de massa, nacionalismo exacerbado, culto ao líder, militarismo, fabricação de um inimigo externo para desviar a atenção dos problemas internos, manutenção do capitalismo, porém sob a égide do estado; criação de uma burguesia fiel e dependente do governo. Quem conhece a História sabe o que é isso.

      A tentativa de iniciar uma desqualificação do fascismo como regime burguês pela menção às origens de Mussolini chega a ser ingênua.  Abundam exemplos de que a filiação ideológica de um político não está necessariamente atrelada às condições de seu nascimento.  O festejado jurista liberal e presidente do México Benito Juárez era filho de camponeses indígenas analfabetos e iniciou sua experiência com os livros como encarregado de espanar a biblioteca do patrão de seus pais.  O ex-primeiro-ministro britânico John Major, também nascido pobre, sem meios para cursar uma universidade na juventude, fez uma carreira de sucesso no Partido Conservador.  Ninguém contestaria, no sentido inverso, a sinceridade esquerdista de um Caio Prado Júnior ou de um Eduardo Suplicy por comprovar os berços privilegiados de ambos.  Para ratificar de vez tamanha obviedade podemos recordar que o "anjo" Nelson Rodrigues foi pai de Nelson Rodrigues Filho, aderente à luta armada contra a ditadura nos anos 70.  
       Longe de ser pastiche de qualquer coisa, o fascismo foi um movimento organizado cujos líderes sabiam bem a direção que pretendiam impor ao Estado quando chegassem ao poder.  O recurso à mobilização das massas pelos fascistas não faz deles um tipo peculiar de socialistas, da mesma forma que uma determinada utilização do canto e de instrumentos musicais não transforma os católicos carismáticos em evangélicos.  Ainda que a analogia fosse verdadeira, ressalto que se tratava de uma militância de direita copiando táticas de esquerda (com objetivos opostos) e não o contrário.  A construção idealizada de uma burguesia manietada e instrumentalizada pelos fascistas e nazistas é outra mistificação.  Para ficarmos em um só caso, diversas multinacionais de países ditos democrático-liberais estiveram voluntariamente empenhadas no triunfo dos franquistas na guerra civil espanhola, não obstante a companhia da diplomacia (e da aviação) nazifascista.      
    A comparação entre fascistas e chavistas é mais do que forçada.  Basta lembrarmos, retornando aos argumentos da matéria antecedente, de que todo fascismo contém uma recusa apaixonada da igualdade.  Mussolini pregava o controle da sociedade por uma elite "forte e audaz".  Chávez apontaria de pronto esta aristocracia autonomeada como um desprezível bando de escualidos.  Embora a economia venezuelana continue, no essencial, sendo capitalista, existe um nítido processo de socialização que não se limita ao discurso. Quanto aos elementos "militarismo", "nacionalismo exacerbado" e "fabricação de inimigos externos", cabem as seguintes observações: ninguém poderia negar o caráter militarista de sucessivos governos dos Estados Unidos, que têm mantido o orçamento astronômico do Pentágono, oito ou nove vezes maior do que os gastos militares da China, que ocupa uma distante vice-liderança; não seria excesso retórico caracterizar as consecutivas declarações de presidentes republicanos e democratas no sentido de que seu país deve liderar o mundo por mais um século, ou indefinidamente, como uma modalidade de nacionalismo exacerbado; também é fácil denunciarmos a constante fabricação de inimigos externos por parte do Estado norte-americano, que já  foi ao cúmulo, em tempos não muito distantes, de estabelecer a derrubada do regime da ilha de Granada como uma das metas prioritárias para a segurança do continente.  Todavia, o direitista brasileiro médio se irritaria caso eu classificasse os Estados Unidos como uma nação fascista, o que descarto como evidente deturpação da categoria "fascismo". 
      Liberalismos e fascismos, cada um a seu tempo, ou em seu lugar, podem ser os regimes mais convenientes aos mais diversos tipos de burgueses, não obstante determinadas preferências de indivíduos e/ou grupos.                         

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ainda sobre o nazifascismo: resposta ao leitor Pedro Mundim




      Muitos blogueiros e administradores de sites políticos simplesmente excluem de suas páginas os comentários críticos, seja para ostentar uma suposta irrefutabilidade de suas teses, seja pela pura falta de tempo ou de disposição para responder.  Eu mesmo já deletei, dezenas de vezes, falas que continham mais impropérios do que argumentos, assim como outras que no meu entendimento revelavam uma visível má intenção.  Há poucos dias, certo leitor anônimo, em um punhado de linhas escritas em tom raivoso e reacionário, simulou concordância com uma de minhas premissas para encaixar logo em seguida insultos aos judeus.  Jamais saberei se o indivíduo expressava estupidez autêntica ou se maliciosamente "plantava" o parágrafo discriminatório no blog para depois me acusar, saindo do anonimato, de abrir espaço para o antissemitismo.  O fato é que a excrescência verbal seguiu para seu destino inevitável: a lixeira.                
      Situações deste tipo à parte, não tenho dúvidas a respeito do caráter enriquecedor do embate entre visões opostas. Anteontem, após ler minha matéria Reabrindo os armários da direita: visões brasileiras sobre o nazifascismo, o leitor Pedro Mundim elaborou, como faz com alguma frequência, longas objeções, que foram publicadas nos comentários.  Conheço, desde os tempos recentes em que inseri alguns links no site Mídia Independente, a orientação política conservadora de Mundim.  Poderia, como em outras ocasiões, contestar suas afirmativas na mesma postagem.  Porém, levando em consideração o volume das críticas, bem como o elevado número de vezes em que encontro discursos praticamente idênticos ocupando espaços na Internet, julguei melhor responder através de dois novos textos.
     Aqui temos os dois primeiros dos quatro parágrafos de Mundim:           

Alguém que chama Hitler de "von Hitler" e define-o como monarquista, com certeza não sabia do que estava falando, o que é compreensível naqueles idos, quando a informação chegava muito mais penosamente via telégrafo e cabo submarino, e os jornais cometiam muito mais erros do que hoje em dia. De resto, é perfeitamente sabido que Hitler veio da plebe e nunca escondeu seu ódio e desprezo pela antiga aristocracia do império alemão, a quem ele culpava pela rendição em 1918 (embora tenha sido posteriormente forçado a manter em altos postos do exército alguns von-não-sei-o-quê, já que eles é que entendiam do assunto).
Hitler assumiu a liderança de um partideco de esquerda chamado Partido Nacional-SOCIALISTA dos Trabalhadores Alemães, e nunca eliminou a palavra socialista do nome do partido. Sempre definiu sua ideologia como socialista, com a ressalva de que socializava pessoas, e não bens (isso ele fez mesmo, obrigando as classes sociais a conviverem juntas nos acampamentos da juventude Hitlerista). A velha burguesia apoiou o nazismo porque considerava-o uma alternativa preferível ao comunismo soviético (e com certeza Hitler deliciou-se ao ver aqueles aristocratas a quem tanto desprezava virem lamber suas botas).


       Segundo um de seus principais biógrafos, John Lukacs, Hitler realmente não era um monarquista, ainda que, até a queda do Império Alemão, nunca tivesse expressado rejeição à dinastia Hohenzollern.  Ele se esquivava, na verdade (mesmo depois de assumir o cargo de chanceler), de emitir pronunciamentos antimonárquicos, pela necessidade de assegurar o apoio dos conservadores.  A maior prova da reprovação hitleriana à monarquia talvez tenha sido sua atitude após a visita oficial à Itália em maio de 1938.  Diante do cerimonial arcaico, da corrupção da nobreza italiana e das falhas de caráter de Vítor Emanuel III, Adolf Hitler expressou a seus assessores a opinião de que Mussolini errara ao aceitar dividir o governo italiano com o rei.  Entretanto, numa disputa interna de seu partido com Gregor Strasser, em 1926, Hitler se mostrou favorável à devolução das propriedades dos príncipes alemães, que tinham sido confiscadas em 1918¹.  Na mesma direção, como aponta Roderick Stackelberg, os nazistas enalteciam o "Império Hohenstaufen medieval", tal como os fascistas italianos se inspiravam no poderio do Império Romano². 
       Desta maneira, não é tão estranho que um jornal carioca, justamente em 1926, quando Hitler era pouco conhecido fora da Europa, lhe desse o rótulo de monarquista.  Mais significativo do que isto é a menção à abolição do direito de greve com pena de morte para os infratores, naquela altura uma inegável bandeira de extrema direita.  A propósito, Stackelberg demonstra com precisão o porquê da inclusão dos regimes fascistas nesta categoria:

"É importante conceituar o fascismo como um regime de extrema direita, não apenas porque era dedicado à destruição do marxismo e comunismo (afinal, dois movimentos de extrema esquerda, o maoísmo chinês e o comunismo soviético, podiam também ser violentamente opostos um ao outro), mas também por causa de sua oposição fundamental ao valor da igualdade.  Os fascistas consideravam o igualitarismo sob qualquer forma, mas em particular na forma de igualdade racial, como a fonte da ruína da humanidade.  Era essa oposição à igualdade e à democracia que tornou os fascistas tão compatíveis com as elites tradicionais de direita, de cuja ajuda dependiam para conquistar o poder.  Na percepção de seus contemporâneos, o fascismo era um movimento de extrema direita³"                 

      Sobre a pretendida ojeriza de Hitler aos aristocratas, voltemos a Lukacs, insuspeito de qualquer esquerdismo:

"Não temos prova de que, antes de 1919, ele demonstrasse qualquer profunda insatisfação com a ordem da sociedade alemã, exceto, talvez, pelo desejo de ver certos elementos (socialistas, judeus, internacionalistas) excluídos de posições influentes"4.

       O mesmo autor revela que desde a explosão de ressentimento que vivenciou em 1919 Hitler identificou que seus aliados potenciais estariam, em grande número, "nas classes nacionalista e conservadora"5, e nos dois anos seguintes se entrosou nos "círculos conservadores de Munique"6.
       O argumento de que Adolf Hitler assumiu a liderança de um "partideco de esquerda" é completamente descabido.  De acordo, novamente, com Stackelberg, desde o fim da guerra ele estava imbuído das "fantasias da direita radical", segundo a qual o conflito havia sido fomentado pelos judeus para enfraquecer o czarismo, regime de natureza anti-semita.  Em setembro de 1919, foi incumbido pelo próprio Exército de monitorar as ações do pequeno Partido dos Trabalhadores Alemães, uma das muitas organizações criadas no pós-guerra com a finalidade de "atrair trabalhadores para a causa nacionalista".  Tornando-se líder do partido, no ano seguinte mudou seu nome, efetivamente, para Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.  Ainda em 1920, Hitler se alinhou com as forças que apoiavam o governador da Baviera, o conservador (e monarquista) Gustav von Kahr, no sentido de derrubar a República de Weimar7. 
        A alusão ao objetivo de "socializar o povo", tão difundida na Internet, também parece imprecisa.  Lukacs narra que diante da acusação de que desejava nacionalizar a indústria alemã, Hitler disse: "Por que deveria nacionalizá-la?  Eu nacionalizarei o povo"8.  Creio que não preciso recorrer aos dicionários para convencer o instruído Pedro Mundim de que socializar e nacionalizar são termos com campos semânticos bem distintos.  Mas suponhamos que se trate de um grave erro de tradução.  Em discurso de 1937, o chanceler do Reich declararia, deixando clara sua opção pela "livre iniciativa":

"Se os industriais alemães me dissessem: 'Nós não podemos fazer isso', eu responderia a eles: 'Ótimo.  Vou me encarregar disso, porque terá de ser feito'. Mas, quando a indústria me diz, 'Podemos fazer isso', então fico muito satisfeito, por eu mesmo não ter de fazê-lo"9. 

       Quanto ao apoio de conservadores, burgueses ou aristocratas, ao nazismo, não custa lembrar que temos em perspectiva uma relação de mão dupla.  Robert Paxton aponta que o único Land (estado) alemão a dar maioria absoluta aos nazistas foi o Schleswig-Holstein na eleição de julho de 1932, quando aquele partido recebeu 51% dos votos.  Esta vitória se deveu basicamente ao voto rural (64% pró-nazismo), sendo que os nazistas, depois dos maus resultados de 1924 e 1928, tinham se voltado para os fazendeiros.  Diante da situação de crise, com a queda radical dos preços de seus produtos, os agricultores locais, que tradicionalmente votavam no Partido Nacionalista Conservador (DNVP), se bandearam para o lado de Hitler. 
        Peço desculpas pela relativa demora em responder, motivada pelo andamento da minha tese e não por excessos carnavalescos.  Prosseguirei o mais breve possível.               
              

Notas:

1-John Lukacs.  O Hitler da História.  Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 76-77.
2- Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 25.
3- Idem, p. 31-32. 
4- Lukacs, p. 68. 
5- Idem, p. 68-69.
6- Ibidem, p. 72. 
7- Stackelberg, p. 109-110.
8- Lukacs, p. 75.
9- Idem, p. 75.
10-Robert O. Paxton.  A anatomia do fascismo.  São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 115-116.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Reabrindo os armários da direita: visões brasileiras sobre o nazifascismo

       

       Um dos principais incômodos que acometem liberais e conservadores, sejam eles jurássicos ou pós-modernos, é sem dúvida a dificuldade em lidar com o fato de que a maior hecatombe da História, a Segunda Guerra Mundial, especialmente marcada por episódios de extermínio sistemático de populações, se deveu por inteiro à ação de forças de direita.  Fiz referência, em outras matérias, aos contorcionismos ideológicos, aliás antigos, cujo objetivo é deslocar o fascismo e o nazismo para o campo oposto por meio de artifícios de retórica.  Neste revisionismo tosco, alguns candidatos a formadores de opinião alegam que o enquadramento dos autoritarismos de inspiração mussoliniana entre os regimes capitalistas resultou de uma hábil propaganda esquerdista, difundida pelo mundo inteiro.   
      Entre muitos exemplos possíveis, apresento trecho de uma matéria publicada no blog Candango Conservador, cujos editores insinuam que a esquerda logrou ocultar a existência de uma natureza comum ao nazifascismo e aos socialismos.   

http://candangoconservador.blogspot.com.br/2011/11/nazismo-e-comunismo-sistemas-rivais-ou.html

Finalmente, após uma rápida análise do nazi-fascismo e socialismo, resta-nos algumas indagações: será  que há uma substancial  diferença entre os sistemas supracitados ou será que aquele tão procurado ponto de divergência não passa de um envolto ilusório criado pelos espíritos revolucionários e esquerdistas das várias épocas?

     Apontei, em postagens feitas no ano passado, o empenho dos capitalistas urbanos e rurais na emergência e na consolidação dos fascismos.  Hoje devo colocar em evidência uma consideração ainda mais irrefutável: muito antes das anexações hitlerianas na Europa Central, da invasão brutal da Etiópia a mando de Mussolini, dos genocídios praticados pelos nazistas contra judeus, eslavos e ciganos, as correntes políticas ultranacionalistas e beligerantes do continente europeu já eram correntemente identificadas como pró-capitalistas e direitistas.              
     Para ratificar esta afirmativa, podemos nos valer da simples consulta aos periódicos brasileiros do período Entreguerras. 

      O jornal carioca A Manhã, ao reproduzir notícias sobre um suposto plano de restauração do Império Alemão, em 12 de maio de 1926, descreve "Von" Hitler como um líder reacionário, além de monarquista.  Longe de qualquer pendor esquerdista, sobre o movimento do qual era acusado de participar pairava a suspeita de pretender extinguir o direito de greve, com pena de morte para os transgressores. 



      O periódico paulista Diário Nacional, em matéria sobre os partidos políticos alemães publicada em 8 de junho de 1928, também define o nacional-socialismo como uma força "radical" de direita.  Hitler é mencionado como uma personalidade que exercia grande influência sobre os conservadores germânicos.   



       Sebastião Pagano, no artigo Hitler e o fascismo allemão, que consta da edição de janeiro de 1932 da revista Hierarchia, declara que os "partidos nacionalistas" liderados por Hitler e Hugenberg contavam com o apoio da "grande burguesia" e da "aristocracia".  O autor não hesita em equiparar os nazistas às demais forças parlamentares de direita, com as quais se articulavam dentro do jogo político convencional.  Pagano menciona ainda as negociações entre os extremistas de direita e o aristocrático presidente Hindenburg.      

     Em 14 de setembro de 1930, o jornal Correio Paulistano informava que as bases conservadoras e monárquicas da Alemanha, descontentes com o partido que tradicionalmente as representava, tinham migrando maciçamente para o nazismo.  Além disto, o periódico destacou o uso demagógico do termo "socialista" pelos adeptos de Hitler, cujas atividades contavam com financiamento empresarial.  Segundo o Correio, os nazistas eram anti-socialistas.   

     O Diário Carioca, na edição de 3 de fevereiro de 1931, em notas sobre a crise de governabilidade que atingia a Alemanha, empregou a expressão extrema-direita ao se referir aos nazistas, então em desacordo com os "centristas" liberais.


          Muitos leitores, nisto incluídos os direitistas dotados de senso de realidade, podem dizer que fui óbvio demais, e não lhes negarei razão.  Entretanto, diante do vulto que assumem na Internet as redes de manipulação ideológica da direita, em especial os sites fascistófilos que renegam cinicamente o fascismo no plano do discurso, penso que não é excessivo repetir e difundir certas obviedades, agradecendo a todos pela paciência que me for dispensada.