quinta-feira, 13 de março de 2014

O racismo brasileiro segundo... Gilberto Freyre


       Entre as construções ideológicas do conservadorismo brasileiro, a noção de democracia racial é a mais exaustivamente desmistificada.  Um pesquisador que se dispusesse a relacionar os títulos de todos os trabalhos acadêmicos destinados a comprovar o caráter estrutural do racismo em nossa sociedade seria obrigado, sem dúvida, a distribuir tal trabalho por vários volumes. Nenhum profissional das Ciências Humanas, mesmo no campo teórico liberal, contesta frontalmente a persistência dos preconceitos étnicos no país; no máximo, alega-se que as diferenças socioeconômicas têm peso superior ao "fator raça".
       Todavia, o mito mantém a antiga força no imaginário de expressivos segmentos da população, nisto incluídos os de elevada escolaridade.  Podemos localizar com facilidade as variantes de um discurso segundo o qual um sábio multidisciplinar, Gilberto Freyre, atestou há mais de oitenta anos a ausência de racismo no Brasil e uma perfeita harmonia nas relações entre brancos, negros e índios, traduzida na miscigenação generalizada que se verificou desde o período colonial. Pouco importa, a este respeito, que o próprio Freyre tenha manifestado opiniões ambíguas a respeito da validade do conceito de democracia racial e que suas obras estejam repletas de exemplos categóricos de que sempre houve, desde os primórdios da América Portuguesa, uma nítida hierarquia étnica.                   
         Examinemos dois casos.  Apologista de Gilberto Freyre, o advogado Antônio Campos, em texto que foi reproduzido em diversos sites, expõe sua fervorosa crença, sem ressalvas, no mito da democracia racial.  

http://www.mimo.art.br/noticia-154-o-classico-casa-grande-senzala-de-gilberto-freyre-completa-80-anos#.Ux80Q_ldUUY

Publicado em 1933, no mesmo ano em que Hitler assume a liderança do Partido Nazista e o mundo é tomado pela ótica da eugenia, o livro configura uma reflexão muito pertinente sobre a miscigenação e sobre uma convivência cordial entre os povos de todas as raças e crenças, existentes no território brasileiro, exemplo também sem igual nas outras Nações.

                                                                (...)


E mais, esse pernambucano do Recife viu o Oriente no Brasil, e o nosso país como o grande paradigma da atualidade, pela lição que dá ao mundo de uma tolerância racial inigualável. 




      O administrador do blog Acarajé Conservador, outro crente na natureza adocicada da colonização e das relações interétnicas no Brasil, se vale de citações de Freyre para situar o Catolicismo como um dos alicerces da presumida "confraternização cultural".  

http://acarajeconservador.blogspot.com.br/2012/12/e-o-brasil-fosse-protestante.html


Se "o catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade", como diz Freyre, a ligação da Igreja Católica com a identidade nacional é de caráter essencial. Os portugueses que atravessaram o Atlântico, que já carregavam fortes traços de miscigenação entre os povos que invadiram a península ibérica, estavam unidos na guerra de cristãos contra infiéis. Afirma o autor de "Casa-Grande e Senzala" que as "guerras contra os índios nunca foram guerras de branco contra peles-vermelhas, mas de cristãos contra bugres." A heresia, portanto, é o grande inimigo da colônia, não o estrangeiro: franceses, holandeses e ingleses convertidos serão tratados com a mesma doçura que um lusitano legítimo. O Brasil nasceu, assim, sob a urgência da ortodoxia – ainda que aparente. Destarte, na Terra de Santa Cruz o crivo se tornou o batismo católico e não a gota de sangue, como ocorrera nos EUA. Diz o pensador pernambucano que “a religião tornou-se o ponto de encontro e de confraternização entre as duas culturas, a do senhor e a do negro; e nunca uma intransponível ou dura barreira”. 


         Considero um equívoco ignorar os lugares comuns pela falta de sofisticação intelectual de seus propagadores.  Inversamente, julgo que todo grupo ou indivíduo capaz de formar opinião política deve ser submetido à crítica.  Assim, recorro ao livro Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre, para fazer passar pelo crivo da razão o que dizem os freyrianos leigos.  Tenho em mãos a 3a edição da obra, datada de 1974 (Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL), sendo o original de 1959.  Estamos, portanto, frente ao ensaísta pernambucano em sua fase madura, na qual oscilou significativamente para a direita. 

       Entusiasta, ao longo de toda a vida, do "mundo que o português criou", Freyre não deixa de apontar, em Ordem e Progresso (tomo I, p. 312), a evidente conjuntura de desigualdade "racial" que testemunhou na juventude, explicitada na distribuição do poder político: 

Branco, oficialmente, por ter se tornado líder prestigioso da República, era agora o mestiço Francisco Glycerio; era o mestiço Nilo Peçanha- que chegaria à Presidência da República; e embora se murmurasse de outros líderes novos, como Campos Sales, não serem de todo caucásicos, mas tocados de algum sangue negro-africano, sua situação de brancos de fato estava confirmada ou assegurada pela sua posição de triunfadores políticos.  O domínio político na República continuava a ser quase tão de brancos puros ou de fato, como fora no Império.  Quem atentar nas fotografias dos membros da Constituinte republicana de 91, não conclui, da análise dos característicos étnicos dos homens públicos que ela reuniu, terem eles representado a tomada do poder político no País por uma camada social etnicamente diversa da que dominara politicamente o Império, com uma ou outra fisionomia negroide- Jequitinhonha, por exemplo- no meio das muitas fisionomias caucásicas ou arianas.  Viria a acentuar-se, sob a República, a ascensão de brasileiros negroides aos altos comandos políticos: mas aos poucos e através de um processo de seleção que importou em alguma discriminação contra quem fosse ostensivamente africano na cor e nos traços.  

           Apesar da clareza desta passagem, outras partes de Ordem e Progresso se mostram mais interessantes para nossa investigação.  Freyre, ao longo da década de 1940, sugeriu a mais de mil brasileiros nascidos entre 1850 e 1900 o preenchimento de um questionário autobiográfico que, entre diversas questões, convidava os entrevistados a estabelecerem posições a respeito do fim da escravidão e de hipotéticos casamentos de seus parentes próximos com "pessoas de cor".  Muitos se esquivaram  da proposta, como o presidente Getúlio Vargas, que teria declarado que "Eu não sou homem que se descubra, mas que deve ser descoberto" (O. & P., tomo I, p. XLI).  Mesmo assim, o autor reuniu "quase trezentas respostas escritas e conseguidas durante anos de paciente colheita" (O. & P., tomo I, p. XXVII).  Uma parcela deste material foi transcrita em termos mais ou menos literais ao longo de alguns capítulos do livro.
          Vários dos entrevistados negaram alimentar preconceito em qualquer grau.  Entre eles, José de Paiva Castro, paulista nascido em 1899, para quem "o coração não tem cor" (O. & P., tomo II, p. 358), o piauiense Francisco Antônio de Lima, de 1875, segundo o qual "cor não é indignidade" (O. & P., tomo II, p. 368), e a também paulista Analice Ribeiro Corbelli, que incluiu em seu texto a sentença "Não deve haver preconceito de cor no casamento, tudo dependendo das circunstâncias e da afeição dos nubentes" (O. & P., tomo II, p. 362).  João Barreto de Meneses, filho do filósofo Tobias Barreto, não apenas disse que aceitaria "sem menor relutância nem pesar nenhum" a união de filhos ou irmãos com pessoas "de cor mais escura", como também se orgulhava de ter nas veias "uma porção de glóbulos da raça que santificou com seu martírio nos troncos o soerguimento de nossa grandeza econômica" (O. & P., tomo II, p. 355).  O baiano Manuel Silvino da Silveira, vigário de Livramento, receberia "o casamento de parente próximo com pessoa de cor mais escura com respeito e acatamento, a todos considerando irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo" (O. & P., tomo II, p. 363).  Astrojildo Pereira, um dos fundadores do PCB, se definiu como "sem preconceito de cor" e anexou a informação de que "só na madureza a questão me preocupou do ponto de vista político marxista" (O. & P., tomo II, p. 368).     
        Todavia, predominaram por larga margem respostas que revelam níveis variados de racismo. Muitos dos depoentes admitiram sem subterfúgios, e até de forma rancorosa, o preconceito racial, em certos casos demonstrando simpatia por uma eventual segregação étnica.       
                      
."Sempre fui contrário à aproximação de negros e mulatos para com os brancos", informa José Rodrigues Monteiro, nascido em 1887 no Ceará.  De modo que "receberia de mau grado" casamento de filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor mais escura.
(O. & P., tomo II, p. 353) 


.Dona Isabel Henriqueta de Sousa e Oliveira, nascida na Bahia em 1853, mas educada na Capital do Império, confessa ter sido sempre "antipática ao abolicionismo".  Considerando "o negro uma raça inferior", qualquer mistura "legal ou ilegal" que tenha havido de brancos com pretos no Brasil, lhe parecia, na época na época de sua resposta ao questionário que serve de lastro a parte deste ensaio, merecer censura. 
(O. & P., tomo II, p. 354)


.Para Durval Guimarães Espínola, baiano de origem rural nascido em 1883, a abolição dos escravos, no Brasil foi "boa": "boa" a ideia da Princesa Isabel "mas isto depois que ela indenizasse os Senhores que aliás naquela época tiveram muito prejuízo".  Lamentável lhe parecia- seu depoimento escrito é datado de 1942- que a raça se mostrasse entre nós "degenerada", pois "eu muito aprecio a cor branca e não desejava que se casasse um preto com um branco, coisa muito comum entre nós, o que eu muito combato e eis a razão da nossa mistura de raça que eu muito condeno".
(O. & P., tomo II, p. 356)

.João Batista de Lima Figueiredo, nascido em São Paulo em 1878, informa ter tido, quando menino e jovem, atitude de "certa pena" para com os negros.  Quanto a casamento de parente próximo com pessoa de cor, "receberia com tristeza e revolta".
(O. & P., tomo II, p. 358)


.Júlio de Mesquita, nascido em São Paulo em 1892, expande-se sobre o problema sociológico das relações de brancos com pretos e mulatos,
                                                                           (...)
"Outra prova do que afirmamos: os terríveis recalques que fazem da maioria dos mulatos indisfarçáveis seres desgraçados e, de quase todo preto, um marginal em choque permanente com o meio: Isto pelo menos em São Paulo e nos Estados do Sul, onde tendem a viver em grupo e em oposição aos brancos".  E acrescenta: "Por todas essas razões, é óbvio que eu não aceitaria jamais, voluntariamente, o casamento de qualquer membro de minha família com gente indisfarçavelmente de cor.  Além do mais, porque me recusaria sempre a que viessem ao mundo infelizes.  E o preto e o mulato, devido às condições sociais, cada vez mais predominantes no Brasil, de toda evidência, são uns infelizes". 
(O. & P., tomo II, p. 358-359)


."Condeno totalmente o casamento de gente de cor com filhos ou filhas de branco", diz em seu depoimento o Padre Leopoldo Fernandes Pinheiro, nascido no Ceará em 1880"
(O. & P., tomo II, p. 363)


.Ainda mais intransigente neste particular, revela-se, em seu depoimento escrito, datado de 1940, José Magalhães Carneiro, nascido em Sergipe em 1880 e formado na Faculdade de Medicina em 1901, depois de ter feito estudos de Humanidades no Rio de Janeiro, "sob a orientação de Sylvio Romero, de quem foi discípulo 11 anos":
                                                                            (...)
Quanto ao casamento de filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor, Magalhães o receberia "do pior humor".  Isto por ter sempre considerado a mestiçagem de negro "uma irremediável desgraça.  Ao conflito de sangue corresponde um desequilíbrio no metabolismo dos três domínios.  Quem já viu um mulato criador? Ninguém me venha dizer que Tobias Barreto e outros que tais foram gênios..."
(O. & P., tomo II, p. 363)


.De ainda outro pernambucano, Adolfo Ferreira da Costa, nascido em 1879, é a confissão: "Sou contra a igualdade das raças, embora todos sejam humanos. Deveria haver seleção pois os tais tomam muita liberdade.  Sobre o casamento [de filho com pessoa de cor] ficaria indignado.  Acho que [cada qual] deveria procurar um da sua igualha". Sua expressão "os tais" refere-se a mulatos ou indivíduos de cor.
(O. & P., tomo II, p. 367)


        Um número maior de pessoas, exibindo as facetas daquilo que ficaria conhecido como "racismo velado", procurou mesclar suas prevenções com declarações de tolerância e generosidade, recordando velhas inclinações abolicionistas ou aceitando a igualdade racial como princípio em tese justo, embora talvez repugnante.    


.Outro brasileiro do Rio Grande do Sul, Afonso Côrtes Taborda, nascido em Santo Ângelo em 1857, recorda ter sido "desde tenra idade [...] contra a escravidão".  Seus pais tinham muitos escravos e Afonso conseguiu "com eles que lhes dessem liberdade a uns quantos..." Entretanto receberia mal o casamento de filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor.
(O. & P., tomo II, p. 354)  


.Nunca pensou assim Dona Carlinda Custódia Nunes, nascida em 1874, em Botafogo, no Rio de Janeiro, que moça, teve "pena dos negros e mulatos" e "gostou muito da abolição", achando, porém, que "se deve apurar [no Brasil] a raça branca.  Receberia mal o casamento de qualquer parente com pessoa de cor.
(O. & P., tomo II, p. 355)


.Outro paulista, de origem aristocrática, Luís de Toledo Piza Sobrinho, nascido em 1888, assim se exprime sobre o assunto, em seu longo depoimento: "Jamais se aninhou em mim qualquer preconceito de raça.  Cresci, e me fiz homem, amando os meus semelhantes, tratando com especial deferência e carinho os pretos e mulatos, os mais humildes.  Pensava, assim, resgatar a injustiça da escravidão a que estiveram submetidos.  Como já disse antes, minha família foi entusiasta da Abolição". E quanto ao aspecto concreto e pessoal da questão: "Poderá parecer que minha resposta a este item, contradiz a dada ao anterior.  Mas não há tal: fui sincero, como serei ao responder ao último.  Falo a um sociólogo, a um fino psicólogo e, estou certo, ele me compreenderá.  Não veria com agrado, confesso, o casamento de um filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor.  Há em mim, forças ancestrais invencíveis, que justificam essa atitude.  São elas, percebo, mais instintivas do que racionais, como, em geral, soem ser aquelas forças, sedimentadas, há séculos, no subconsciente de sucessivas gerações".
(O. & P., tomo II, p. 359-360)


.Não assim o cearense nascido em 1880, Luís Gonzaga de Melo, para quem "a Abolição foi um ato de franca humanidade", devendo-se, entretanto, com relação a casamentos mistos, seguir o preceito "cada macaco no seu galho".
(O. & P., tomo II, p. 363)


.José Bezerra de Brito, nascido no Ceará em 1878, lembra-se de que tendo seus avós possuído escravos, estes eram tratados com tanta humanidade que, depois da Abolição, "ficaram em casa e só foram saindo à medida que iam se casando ou encontrando colocações convenientes". Acrescenta sobre o assunto: "Os negros [escravos e descendentes de escravos] da nossa família tinham regalias especiais e eu vi muitas vezes minha avó, santa velhinha, a cuidar dos escravinhos, a banhá-los, a alimentá-los".  Em matéria de casamento, porém, José Bezerra de Brito não se deixava dominar pelo sentimentalismo: era adepto da sentença "se não queres casar mal, casa com igual".
(O. & P., tomo II, p. 364)


.De outro cearense, nascido em 1882 no sertão, é o depoimento de ter tido "a ventura" de assistir ao "maior e mais honroso acontecimento nacional, o 13 de Maio de 1888": "Fui testemunha do desfile de escravos que deixavam as senzalas com a carta de alforria na mão, radiantes de felicidade".  Mas quanto a casamento misto, "para nós, sertanejos, o casamento de branco com negro é muito reprovado.  Quando se dá, há bastante censura e contrariedade da família [branca]".
(O. & P., tomo II, p. 364)

.O pernambucano Artur de Siqueira Cavalcanti, nascido em Palmares, em 1877, no Engenho Primoroso, declara ter sido simpático à Abolição.  Mas "o casamento de filho meu com negra ou mulata, receberia sempre com o coração envolvido pela faixa negra da mágoa".
(O. & P., tomo II, p. 366)


.O paraibano Horácio Gomes da Silva, nascido em 1862, depois de se dizer adepto da "igualdade das raças na sua origem e no seu fim" e "ardente abolicionista", diz quanto aos casamentos mistos que envolvessem parente seu muito próximo: "Radicalmente contrário a tais casamentos".  Em outras palavras: igualitário, em teoria; arianista, na prática.
(O. & P., tomo II, p. 367)

."Não faço distinção de cor, para mim o que vale são as qualidades intrínsecas ao homem, o seu caráter", generaliza Sebastião de Oliveira, nascido em 1878 no Rio Grande do Sul.  Mas quanto a casamento de filho ou irmão com pessoa de cor, "receberia com prevenção".
(O. & P., tomo II, p. 368) 


.Otávio Tarquínio de Sousa (Amaranto), nascido em 1893 no Rio de Janeiro, depõe: "Sempre fui muito tolerante com relação a negros e mulatos.  Entre negros e mulatos conheci algumas das criaturas mais perfeitas que já tenho encontrado".  Quanto a casamento de filho ou irmão com pessoa de cor: "Respondendo a frio, raciocinadamente, não faria objeção [...] mas estou certo de que acharia pelo menos estranho que isso acontecesse: teria um choque".
(O. & P., tomo II, p. 368)


.Amílcar Armando Botelho de Magalhães, nascido em 1880 no interior do Rio de Janeiro, declara quase nas mesmas palavras de Max Fleiuss sempre ter sido abolicionista.  Abolicionista "desde a mais tenra idade!" 
                                                                             (...)
"Julgo que não há propriamente um problema de raças no Brasil mas que a tendência natural para a seleção individual, conforme leis biológicas e sociológicas, preparam o amálgama dum tipo de estabilidade crescente.  O que parece necessário é facultar os cruzamentos e evitar, por medidas adequadas, a perpetuação dos tipos elementares, quer índios, quer negros, incrementando a fusão dessas duas [raças] separadamente com tipos da raça branca.  Mas isto só é possível e viável nas camadas inferiores desta raça, como os poilus, os jecas, os homens do campo de toda parte, de instrução elementar". Daí sua atitude com relação a casamentos de filho ou irmão com pessoa de "raça elementar pura ou quase pura": Repudiaria [...] e tudo faria para os evitar, como altamente prejudiciais, no ponto de miscigenação a que atingiu minha família.  Particularmente tive oportunidade de assim agir num caso concreto".
(O. & P., tomo II, p. 369)

.Alfredo Bartolomeu da Rosa Borges, nascido em Pernambuco em 1864, depois de recordar sua qualidade de abolicionista e de republicano, adepto de Martins Júnior, confessa lealmente ter sido sempre dominado por esse "instinto de branquidade" na sua forma absoluta: "Tenho um arraigado preconceito de cor.  Seria contrariadíssimo que receberia, em minha família, um casamento com pessoa de cor".
(O. & P., tomo II, p. 371)

.Atitude semelhante é a revelada por João Cupertino Dantas, nascido em 1854 no Engenho Unha de Gato, em Sergipe: "Como o meu pai foi sempre humanitário em tratar os escravos, não sofreu grande abalo com a Abolição, continuando quase todos eles na propriedade sob o regímen de assalariados.  O casamento com pessoa de cor em minha família seria um grande desapontamento [...] pois não se dissipa facilmente em nosso espírito a hereditariedade de antiga prevenção. 
(O. & P., tomo II, p. 371)  


."Não obstante minha boa vontade para com os homens de cor, não toleraria o casamento de uma filha ou de uma irmã com um deles, fosse embora um Patrocínio, um Luís Gama ou um Rebouças", confessa João Franklin de Alencar Nogueira, nascido no Ceará em 1867.
(O. & P., tomo II, p. 371)


.Paulo Inglês de Sousa, nascido em São Paulo em 1888, pensa da Abolição que "veio tarde demais".  Quanto à sua atitude para com negros e mulatos, em depoimento de 1940, afirma ter sido sempre de cordialidade, evitando, porém, a intimidade.  Não gostaria de ver filha ou irmã casada com homem de cor evidente.
(O. & P., tomo II, p. 372)

.Aureliano Leite, nascido em Minas Gerais em 1887, mas crescido e educado em São Paulo, lembra em seu depoimento não ter sido "do tempo da Abolição"; quanto à sua atitude para com negros e mulatos, caracteriza-a como "de tolerância, sem grandes preconceitos, certo de que o Brasil é um País de mestiços".  Nada, porém, de casamento de filha ou irmã sua com pessoa de sangue africano: "Opor-me-ei quanto possa".
(O. & P., tomo II, p. 375)


.Daí, talvez, Rogério Gordilho de Faria, nascido em Sergipe em 1889 mas crescido e educado na Bahia, depois de reconhecer que "o pigmento não deveria constituir barreira para os acessos", "a raça", entre nós, devendo ser "depurada no sentido mais psicológico do que pigmentar", confessar: "Se sob o ponto de vista mental penso assim, o casamento de filho, filha ou irmã, brancos, com um preto, ainda me choca o instinto, pela sedimentação do costume".
(O. & P., tomo II, p. 375)


      Pelo menos um dos entrevistados ostentou adesão consciente à chamada "ideologia do branqueamento":         

.Roberto Christiani Naegeli, brasileiro filho de europeus, nascido no Rio de Janeiro em 1881 e educado na Suíça, depõe sobre o assunto: "Lembro-me, entretanto, do meu tempo de menino na Suíça, acontecer, às vezes quando éramos apresentados em sociedade a pessoas desconhecidas, que estas exclamavam com muito espanto e pouca delicadeza: 'Brasileiros brancos?!' o que, regularmente, era motivo para que minha Mãe se encolerizasse bastante".  E quanto à miscigenação brasileira, opina "que o sistema adotado pelo Brasil para a solução da questão da cor e que consiste na absorção paulatina das raças de cor pela raça branca, está dando esplêndidos resultados.
                                                                             (...)
"Estimo que, com mais 75 anos, o elemento de cor tenha completamente desaparecido da população brasileira.  Contudo, não poderia ver com bons olhos um casamento de membro da minha família com uma pessoa de cor".
(O. & P., tomo II, p. 360-361)


       Outra parte dos depoentes assumiu um discurso de tolerância para com os mestiços, negando-a aos negros tidos como "puros", ou admitiu a convivência com estes, no plano familiar, somente sob determinadas condições:


.Waldemar (Martins) Ferreira, nascido também em São Paulo, em 1885, escreve no seu depoimento: "Não receberia (quando moço) com agrado o casamento de filho ou filha, irmã ou de irmão, com homem de cor.  Com o preto, enfim.  Não com o mestiço, o que é diferente; e mestiços há em toda parte.
(O. & P., tomo II, p. 357)

.Enquanto o cearense Francisco Lopes Filho, nascido em 1880, e casado com mulher de cor, informa da sua atitude para com os negros e mulatos ser regulada, como sua atitude para com os brancos, pelo procedimento dos mesmos.  Veria entretanto "com repugnância o casamento de filha com homem de cor mais escura".
(O. & P., tomo II, p. 368)


.Alfredo Rosas, nascido na Paraíba em 1887, depois de tachar de "audaciosa" a pergunta que lhe foi feita em questionário que concordara em responder por escrito, sobre como receberia o casamento de filho ou irmão com pessoa de cor, escreveu em depoimento datado de 1940, não sem ter antes generalizado sobre o assunto, que considerava o Brasil "um povo modelar" no tocante às relações entre as raças: "Se pode existir no casamento de um branco com uma negra ou mulata, a afinidade eletiva, de que nos fala Max Nordau, não me oporia a uma dessas uniões na família. Estou convencido, porém, de que essa afinidade não poderia existir [...].  Como não existiria numa aliança de branco com uma maori neozelandesa".
(O. & P., tomo II, p. 371)

.Já outra branca pobre, Maria Teodora dos Santos, nascida em Pernambuco em 1878, informa ter-se casado aos dezesseis anos com homem que deu para beber.  De pretos, diz, no seu depoimento, não gostar como iguais de gente branca: "nasceram para servir os brancos".  Ela própria teve a seu serviço "uma preta chamada Constância que vendia os seus trabalhos de labirinto".  Se filha sua "se casasse com preto, sentiria, a não ser que ele tivesse dignidade e caráter e cuidasse bem dela".
(O. & P., tomo II, p. 377) 

         
          Já Heitor Modesto de Almeida, mineiro nascido em 1881, expressou a tendência inversa:

.(...)depois de ter recebido, "em menino, com grande simpatia, a abolição dos escravos", pois os escravos eram "um anexo da família", alguns tendo ficado com os Modesto "o resto da vida, depois de libertos", confessa sempre ter gostado "mais do negro que do mulato", considerando o mulato "o inimigo natural do branco". 
(O. & P., tomo II, p. 352)       


         Por fim, um conterrâneo do autor (e portador do mesmo sobrenome), negando enfaticamente seu preconceito pessoal, imputou a discriminação ao conjunto da sociedade, à qual conviria se curvar.

.Do também pernambucano José Maria da Silva Freyre, ou Freire, nascido em 1887, é o depoimento de ter sido mais feliz em sua "amigação com negra" - no que seguiu o exemplo do seu tio Manuel da Rocha Wanderley, "homem louro como um estrangeiro, olhos azuis, alvíssimo de pele, para quem mulher branca não era mulher"- do que no seu casamento com branca.  Daí sua predileção por mulher de cor ter se tornado total, tendo deixado de casar com negra pelo receio de "ofender a família e ficar mal visto pela sociedade".
(O. & P., tomo II, p. 383)

       
           Esta longa exposição não tem como finalidade trazer para execração pública os nomes de algumas dezenas de presumidos monstros.  As declarações dos homens e mulheres que foram entrevistados por Gilberto Freyre denunciam, obviamente, mazelas de sua socialização nas décadas finais do escravismo brasileiro ou no pós-Abolição.  Sem poder escapar ao velho chavão, afirmo que todos constituíam produtos do meio em que viveram, absorvendo em maior ou menor escala os padrões predominantes de discriminação racial e socioeconômica; estes, não raro, combinados entre si de uma maneira que torna problemática a quantificação de cada um.
            Porém, devo salientar que não estamos diante das falas de senhores de engenho da época do estabelecimento das Capitanias Hereditárias ou revisitando os fundadores do Império do Brasil.  Ainda que todos os colaboradores de Ordem e Progresso já tenham morrido, eles foram bisavós, avós ou pais das pessoas que integram a geração dos meus pais (nascidos em 1941 e 1945).  Em outras palavras, participaram ativamente da formação das ideias e dos sentimentos de gente que ainda está viva e exercendo influência em todos os setores.             
           Concluo então, mais uma vez, pela falta de seriedade dos que ainda saúdam a inexistência, ou quase, de racismo no Brasil.  Não entendam que sou pessimista quanto à questão abordada; a julgar pelo conjunto de muitas experiências pessoais, eu diria que a discriminação étnica diminuiu no Brasil das últimas décadas, embora meu foco de observação contenha uma deficiência básica: nunca residi fora do estado do Rio de Janeiro.  Este avanço resulta diretamente das lutas pela igualdade, individuais e coletivas, e jamais do negacionismo desmoralizado e caduco.           
             


          













  
   





  




    





   











sexta-feira, 7 de março de 2014

Brevíssimas notas sobre as origens do fascismo


            Um dos expedientes mais desonestos de um determinado conjunto de intelectuais de direita é a tentativa de ocultar do público o viés elitista e pró-capitalista dos movimentos nazifascistas do Período Entreguerras.  Entre os recursos empregados nesta tarefa, figura a contínua lembrança de que Benito Mussolini, na juventude, militou com destaque no Partido Socialista Italiano.  Embora ele fosse um autodidata cuja formação intelectual não excluiu a incorporação de ideias de autores totalmente estranhos ao socialismo, como Nietzsche e Pareto (este último nomeado senador na Itália fascista), tenta-se, com base em certas passagens da trajetória política de Mussolini e em suas leituras, sacralizar a balela de que o fascismo constituiu, na verdade, um concorrente do marxismo no campo da esquerda.  Não nos custa, como de hábito, apresentá-los a mais alguns episódios "inconvenientes".                  
       Emilio Gentile, especialista em fascismo e professor de História Contemporânea da Universidade La Sapienza, em Roma, ressalta o fracasso do projeto mussoliniano de envolver um grande número de socialistas na Primeira Guerra Mundial, então em curso.  Insatisfeito, Mussolini deixou seu cargo de diretor do Avanti! (órgão oficial do Partido Socialista Italiano) para fundar um outro periódico, destinado à defesa de suas posições belicistas.  Foi, na época, expulso do partido e qualificado como "traidor das massas socialistas".  
            Ainda segundo Gentile, a experiência nos campos de batalha contribuiu decisivamente para que Mussolini trocasse os princípios marxistas e internacionalistas por um outro programa, "que afirmava o primado da nação sobre as classes sociais e combatia os partidários de uma revolução socialista sustentando a vitalidade do capitalismo produtivo e a necessidade de uma colaboração entre as classes para aumentar a riqueza e a potência da nação".             






       Martin Blinkhorn afirma que o jornal de Mussolini, sustentado pelos intervencionistas (indivíduos adeptos da guerra), afastou-se de uma linha editorial socialista para assumir a função de "voz dos produtores [o empresariado rural e urbano, obviamente] e soldados".




        Donald Sassoon põe em relevo o fato de que os industriais italianos, em sua maior parte favoráveis ao ingresso do país no conflito europeu, também financiaram, em pequena escala, Il Popolo d'Italia.  Flertando com o liberalismo no campo da economia, Mussolini começou a dissolver a desconfiança que ainda despertava entre os empresários por seu passado socialista. Luigi Einaudi, citado no texto, esteve longe de ser o único liberal a simpatizar com o líder fascista.




           Robert Paxton informa que o evento de fundação do movimento fascista ocorreu na sala de reuniões da Aliança Industrial e Comercial de Milão.  Haja contorcionismo retórico, portanto, para nos convencer de que a burguesia lombarda abriu com alegria sua sede para patrocinar o surgimento de uma nova corrente política de esquerda! 
  



           
         A estrutura desta matéria convida os leitores à colagem das fontes, nos incontáveis locais em que os reacionários despejam suas insanidades "históricas".  Estejam, como sempre, à vontade!  

Referências:

.BLINKHORN, Martin.  Mussolini e a Itália Fascista.  Lisboa: Gradiva, s/d. 

.GENTILE, Emilio.  Qu'est-ce que le fascisme? Histoire et interprétation.  Paris: Éditions Gallimard, 2004.

.PAXTON, Robert O.  A anatomia do fascismo.  São Paulo: Paz e Terra, 2007.

.SASSOON, Donald.  Mussolini e a ascensão do fascismo.  Rio de Janeiro: Agir, 2009.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A farsa da "farsa yanomami" (segunda parte)

Oca yanomami


       Mencionei, na postagem de 26 de fevereiro, uma falácia vastamente difundida pela militância direitista da Internet: a inexistência do povo yanomami.  Apesar dos numerosos elementos que desmentem esta tese absurda, a amplitude dos meios à disposição dos reacionários e dos colonialistas tardios faz com que milhares de pessoas venham não apenas a acreditar na mentira grotesca, como também a reproduzi-la em suas páginas pessoais.  Isto não deve nos surpreender: já tratei, em outras ocasiões, de mais subprodutos da mesma fábrica de denúncias vazias, como o "nazismo" de Salvador Allende e a "extinção" dos tupinambás baianos no século XVII.  
       Coloco em destaque, desta vez, a versão construída sobre o tema por Janer Cristaldo, que reforça a falsa premissa do coronel Menna Barreto de que os yanomamis foram "inventados" pela fotógrafa Claudia Andujar em 1973.  Cristaldo, todavia, se revela um pouco mais sofisticado   do que o militar na manipulação dos fatos: não podendo simplesmente ignorar o trabalho do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon, ele admite que existem yanomamis ... na Venezuela.      
                
http://cristaldo.blogspot.com.br/2012/08/um-novo-ianoblefe-no-dia-19-de-agosto.html

Os ianomâmis brasileiros são uma criação de Cláudia Andujar – fotógrafa que ora é suíça, ora é romena. Se o antropólogo Napoleon Chagnon constatou a existência de uma tribo de ianomâmis na Venezuela, a extensão desta etnia a territórios brasileiros está longe de ser uma evidência. O blefe do massacre de ianomâmis em 93 repousa sobre um blefe anterior, ou seja, a existência de uma tribo ianomâmi no Brasil. Quem faz esta denúncia é o coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto, em A Farsa Ianomâmi (Rio, Biblioteca do Exército Editora, 1995). Em função de seu ofício, o militar gaúcho trabalhou em Roraima desde 1969, onde teve estreito contato com a população da região e jamais ouviu falar em ianomâmis, palavra que invade a imprensa brasileira e internacional somente a partir de 1973.


          Consultei, na Biblioteca do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, um dos livros escritos por Napoleon Chagnon a partir das pesquisas que realizou nos anos 60 e 70.  Já no mapa que antecede a Introdução, o autor identifica como regiões habitadas pelos yanomamis, além do extremo sul da Venezuela, partes dos estados de Roraima e do Amazonas.             






    
        A apresentação da obra, assinada pelos editores George e Louise Spindler, traz a informação de que Chagnon, cuja primeira expedição àquela área foi encerrada em 1966, viveu durante três anos entre os yanomamis na Venezuela e no Brasil.




        Relatando suas visitas aos diversos grupos que compõem a nação yanomami, Chagnon deixa explícito que os trabalhos de campo levaram-no ao Brasil no ano de 1967.  Esta datação evidencia mais uma vez o caráter inverídico da história que envolve Claudia Andujar e sua "descoberta" de 1973.   
    



    Em outra parte do livro, na qual faz referência aos sítios arqueológicos outrora ocupados pelas populações que estudava, Chagnon explica que para compreender as relações dos Shamatari com outros grupos yanomamis seria preciso empreender vários meses adicionais de trabalhos de campo na bacia do rio Negro, ao norte do Brasil.    



                   
          Não deixem de compartilhar.  É necessário lançar no merecido descrédito a intensa e constante campanha da direita contra os índios brasileiros.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Da usina de mentiras da direita: a farsa da "farsa yanomami"

        
        Não é desconhecida das pessoas que trafegam pelas páginas políticas brasileiras, impressas ou virtuais, a ação de uma certa parcela da direita que, em conluio com o ruralismo, contesta sistematicamente as identidades étnicas ou culturais dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e/ou dos trabalhadores sem terra.  No caso dos índios, em particular, verifica-se a intenção recorrente de deslegitimar os laudos favoráveis emitidos pelos antropólogos que participam, a serviço do governo, das atividades de demarcação das reservas.  Quando a disputa pelo solo se estende a áreas de fronteira, sobretudo na Amazônia, juntam-se ao argumento da proteção ao agronegócio protestos contra uma suposta alienação da soberania nacional.
       Este discurso está longe do ineditismo.  Já na época da minha adolescência, nas distantes décadas de 1970 e 1980, circulavam a partir dos meios da direita nacionalista informações "acima de qualquer suspeita" sobre a presença, nos estados amazônicos, de instituições transnacionais cujo objetivo seria o desmembramento de partes do território brasileiro para a criação de nações indígenas independentes.  Entre as etapas que antecederiam este desfecho, estaria a difusão de línguas estrangeiras entre os índios, por meio da atuação de catequistas norte-americanos ou europeus.  Mesmo que em mais de trinta anos não haja ocorrido qualquer iniciativa comprovada de secessão, a teoria conspiratória continua prosperando.
         Os Yanomami, que habitam partes do estado de Roraima e do sul da Venezuela, são talvez o alvo mais frequente das campanhas que se destinam a lançar a opinião pública contra os índios em geral, com ganhos exclusivos para o poder econômico.  O motivo, sem dúvida, é o fato de terem obtido, em 1992, a maior área demarcada entre todos os povos indígenas do Brasil.  Em 1995, o coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto, que comandou um batalhão de fronteira em Roraima no governo Médici, publicou um livro intitulado A farsa Ianomâmi.  Não possuo a obra, mas seu argumento central é seguidamente reproduzido em numerosos sites de viés conservador: a etnia em questão nunca teria existido, constituindo obra da "imaginação interessada" de uma fotógrafa ora identificada como suíça, ora como húngara ou romena.  Apresento apenas dois exemplos, para não entediar os leitores com a transcrição de notícias repetidas de maneira uniforme.  Um deles consta do portal Mídia sem Máscara, coisa que dificilmente surpreenderá os conhecedores de tão notório depósito de spams que desinformam à direita.      
          
http://www.bancadamilitar.org.br/abm-AMZ-06.htm


Em 1973, em noticiário bombástico, Cláudia Andujar se referiu pela primeira vez aos índios ianomâmis, os quais, no entanto, nunca haviam sido identificados pelos exploradores que passaram pela região. E olha que foram muitos, tanto do Brasil, quanto do exterior. No capítulo 3, A Ianomamização dos Índios, diz Menna Barreto: "Manoel da Gama Lobo D'Almada, Alexandre Rodrigues Ferreira, os irmãos Richard e Robert Schomburgk, Philip von Martius, Alexander von Humboldt, João Barbosa Rodrigues, Henri Coudreau, Jahn Chaffanjon, Francisco Xavier de Araújo, Walter Brett, Theodor Koch-Grünberg, Hamilton Rice, Jacques Ourique, Cândido Rondon e milhares de exploradores anônimos cruzaram, antes disso, os vales do Uraricoera e do Orenoco, jamais identificaram quaisquer índios com esse nome" (pg. 29). Com a autoridade de quem foi o primeiro comandante do 2º Batalhão Especial de Fronteira e do Comando de Fronteira de Roraima, diz Menna Barreto: "É preciso ficar claro antes de tudo que os índios supostamente encontrados por Cláudio Andujar são os mesmos de quando estive lá, em 1969, 1970 e 1971. (...) eles continuam a ser os xirianás, os uaicás, os macus e os maiongongues de sempre, ficando essa história de 'ianomâmis' só para brasileiros e venezuelanos" (pg. 33).

http://www.midiasemmascara.org/artigos/globalismo/13517-a-farsa-ianomami-e-a-cobica-internacional-sobre-a-amazonia.html- Roberto Gama e Silva


Menna Barreto e outras fontes fidedignas afirmam que coube a uma jornalista romena, Claudia Andujar, mencionar, pela primeira vez, em 1973, a existência do grupo indígena por ela denominado “ianomâmi”, localizado em prolongada faixa vizinha à fronteira com a Venezuela.


         A militância direitista, com o ímpeto habitual, propaga em larga escala a denúncia do falecido coronel sem jamais averiguar sua autenticidade.  Poderia escapar de mais um vexame, caso se desse ao trabalho de consultar, ao menos, fontes de fácil acesso na Internet.  Um dos jornais de maior circulação do Rio de Janeiro, no final de 1972, publicou uma entrevista com o padre João Batista Saffirio, que na ocasião declarou ter vivido cinco anos entre os Yanomami.  A reportagem foi ilustrada com imagens produzidas pela mencionada Claudia Andujar.      





      
                  
          Um crítico apressado poderia declarar que faço barulho por quase nada.  A tramoia atribuída a Claudia Andujar começaria alguns meses antes, não por iniciativa da fotógrafa, e sim através de religiosos de origem italiana.  Esta hipótese, contudo, também não se sustenta.  Em 1971, o antropólogo francês Jacques Lizot escreveu um artigo, hoje digitalizado, sobre a cultura Yanomami, resultado de trabalhos de campo realizados entre 1968 e 1970.    


          Antes de Lizot, a área Yanomami foi percorrida, principalmente na parte venezuelana, pelo americano Napoleon Chagnon, cuja tese de doutorado, defendida em 1966, recebeu o título de Yanomamö Warfare, Social Organization and Marriage.  Os estudos de Chagnon também se materializaram em livros que podem ser encontrados nas bibliotecas de Antropologia das universidades brasileiras. 






            
       Fica provada, portanto, a má fé dos criadores da acusação fraudulenta, que evidentemente não ignorariam tantas referências que nada tiveram de secretas.  O pior de tudo, entretanto, é vermos dezenas ou centenas de pequenos formadores de opinião, iludidos pela demagogia reacionária, proporcionando eco à mentira.  
               Prosseguirei com o tema, mais complexo do que parece à primeira vista.    
                   

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Coluna Prestes: explicando o óbvio a direitistas ensandecidos



        
         Há cerca de nove meses, o cantor Lobão, convertido em estrela da direita politicamente incorreta, concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo, com o evidente objetivo de promover um livro que publicara.  Entre diversas declarações histriônicas,  pelo menos uma fez do entrevistado alvo inevitável da chacota de milhares de pessoas:

"O estopim, a causa da ditadura militar foram eles [os comunistas].  Desde 1935, desde a Coluna Prestes, começaram a dar golpes de Estado".

(Ver http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1271788-tudo-passa-na-lei-rouanet-diz-lobao-em-entrevista.shtml)

         Embora Luís Carlos Prestes, que deu nome àquele movimento, seja a figura mais emblemática do comunismo no Brasil, qualquer aluno concluinte do Ensino Médio que esteja razoavelmente preparado para a disputa de vagas universitárias sabe que o capitão revolucionário só entrou em contato com a teoria marxista durante seu período de exílio na Bolívia, após a dissolução da Coluna.  Porém, com alguma dose de espanto, acabo de constatar que a "versão histórica" divulgada por Lobão é compartilhada pelos redatores de diversas páginas políticas da Internet.    

     O Portal Piancó, editado por seguidores do senador Cássio Cunha Lima (PSDB), nos "informa" que a Coluna Prestes tinha a finalidade de servir como uma espécie de trampolim para uma "revolução marxista".   

http://www.portalpianco.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=2342:9-de-fevereiro-de-1926-passagem-da-coluna-prestes-pelo-municipio-de-pianco&catid=34:noticiaspianco&Itemid=64


Passando por dois governos, um em sua formação Artur Bernardes (1922 – 1926) e outro na sua extinção, 

 Washington Luiz (1926 – 1930), mataram por volta de 600 soldados e sofreram perda de 70 oficiais 


guerrilheiros; Tentavam atrair a atenção do governo para que pudessem surgir outros focos revolucionários 


nos grandes centros; começando a desordem para depois eclodir o movimento maior, uma revolução 


marxista. 




      Opinião semelhante é manifestada por James Leite Pinto Seixas, que publica um Portal 

Militar sob o codinome Beyler. 


http://www.militar.com.br/modules.php?name=Artigo&file=display&jid=1767#.Uv6p7_ldV7M




      A Coluna Prestes, numa tentativa de arregimentar camponeses para a causa comunista da época, embrenhou-se pelo interior do país percorrendo cerca de 36 mil quilômetros sob o comando de Luis Carlos Prestes, ex-integrante do movimento denominado Tenentismo, convertido ao comunismo. Se nunca foi derrotada, jamais conheceu a vitória. A Coluna Prestes usava a tática conhecida nos meios militares, como "despistamento" e consistia em evitar o confronto direto com as tropas contrárias. Por isso era considerada "invencível."


     Um articulista da direita católica, escrevendo para site inspirado na ação de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, classifica passionalmente os integrantes da Coluna Prestes como "um bando de comunistas!

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=B5343852-CC49-1333-56D8939AE09E8DC4&mes=Agosto1999

Os “heróis” da Coluna Prestes, recebidos com festas, fogos e música pelas populações das cidades por onde passavam, como se tentou impingir goela a dentro à opinião pública nacional, já vão sendo desmitificados. E era bem tempo.  Na verdade, tratou-se de um bando de comunistas que aterrorizavam nossos pacatos habitantes do interior, de modo não muito diferente do que fazem hoje os guerrilheiros colombianos ou os invasores profissionais do MST. 

Para Caio César Mancin, colaborador da página "contraprestes" (http://contraprestes3bn.blogspot.com.br/), tanto Luís Carlos Prestes quanto o general Miguel Costa já estavam decididos a implantar o comunismo na época da formação da Coluna. 

       É sabido que o presidente Artur Bernardes está, junto de sua base governista, lutando contra as mazelas geradas pelos protestos anarquistas, deliberadamente liderados pelo guerrilheiro Luís Carlos Prestes e por seu comparsa, o igualmente comunista Miguel Costa. Há algum tempo, Prestes e seus discursos soviéticos foram a causa da ação ilegal que culminou na ruptura do Anel de Ferro, acabou derrotado na cidade paranaense de São Luiz Gonzaga e, vencido, o guerrilheiro se refugiou na região da Foz do Iguaçu. Mas, recentemente, soube-se que Prestes e Costa estão montando e treinando um exército de comunistas em seu antro de ideologia leninista, este integrado por guerrilheiros gaúchos e paulistas.



A esta altura, portanto, não resta mais dúvida de que a tese da "Coluna comunista", embora estapafúrdia, deve ser desmentida, no mínimo para o bem das crianças e adolescentes que navegam pela Internet. O historiador norte-americano Neill Macaulay, que estudou o tema com profundidade, enquadra a Coluna Prestes no campo do liberalismo.

         Consideradas realizações apenas em termos de sobrevivência, a Coluna Prestes deveria ficar bem abaixo do bando de Lampião que só foi vencido em 1938.  Contudo, a população dos centros urbanos do Brasil foi bastante correta, pagando elevado tributo a esses jovens instruídos que sacrificaram o conforto da civilização para fazerem demonstrações em prol da honra militar e da democracia liberal num ambiente áspero e pouco receptivo. (Ver A coluna Prestes.  Rio de Janeiro; São Paulo: Difel, 1977, p. 229) 

            
      Boris Fausto, especialista em Brasil República, destaca a indefinição ideológica do Tenentismo, tendência à qual se filiavam os revolucionários militares dos anos 1920.  O autor não deixa de apontar as diretrizes elitistas daqueles homens, bem como seu nacionalismo, certamente incompatível com o internacionalismo proletário. 

            De qualquer forma, a restrição da fala é um indício forte de que, nos anos 20, eles [os tenentes] não tinham uma proposta clara de reformulação política.  No fundo, pretendiam dotar o país de um poder centralizado, com o objetivo de educar o povo e seguir uma política vagamente nacionalista.  Tratava-se de reconstruir o Estado para reconstruir a nação.  O grande mal das oligarquias- pensavam eles- consistia na fragmentação do Brasil, na sua transformação "em vinte feudos" cujos senhores são escolhidos pela política dominante.  Embora não chegassem a formular um programa antiliberal, os "tenentes" não acreditavam que o "liberalismo autêntico" fosse o caminho para a recuperação do pais.  Faziam restrições às eleições diretas, ao sufrágio universal, insinuando a crença em uma via autoritária para a reforma do Estado e da sociedade. (História do Brasil.  São Paulo: Edusp, 1998, p. 314).   


          Outro brasilianista,  Thomas Skidmore, exprime opinião semelhante à de Fausto:  aos tenentes, ainda formados a partir de referenciais positivistas, faltava uma "base ideológica clara".  

            Durante o final do Império, os militares menos graduados tinham sido influenciados pelas novas doutrinas do republicanismo e positivismo. Na década de 1920, mostravam uma influência intelectual semelhante, mas menos focalizada.  Eles haviam sido contaminados pela crescente onda de desilusão com a República, embora não houvesse base ideológica clara para essa insatisfação.  Por trás de tudo estava a percepção generalizada de que o Brasil fracassara em sua luta pela modernidade.  Eles queriam um governo central forte que unificasse o país e pusesse fim aos "políticos profissionais que enriqueciam às expensas públicas" bem como uma legislação social progressista com um salário mínimo e uma legislação do trabalho infantil. (Uma História do Brasil.  São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 147)  

              
         Mesmo sem o recurso às obras acadêmicas, podemos salientar o disparate que é presumir qualquer simpatia pelo marxismo em ex-integrantes da Coluna Prestes como: João Alberto Lins de Barros, interventor do estado de São Paulo durante o governo provisório de Getúlio Vargas; Juarez Távora, candidato dos setores políticos mais conservadores nas eleições presidenciais de 1955; Oswaldo Cordeiro de Farias, futuro comandante da Escola Superior de Guerra (ESG).  Os dois últimos, aliás, ocuparam ministérios no regime ditatorial instalado em 1964.
          Os discursos aberrantes que apresentei no começo desta matéria não são apenas produtos da ignorância de seus autores. Eles se integram ao contexto mais amplo de uma direita psicologicamente desequilibrada, mas extremamente ativa na Internet, empenhada em atribuir todas as mazelas planetárias a um espantalho onipresente denominado "comunismo", ao qual podem ser associados, em certos casos, até ferrenhos anticomunistas que venham a discordar de algum tópico da agenda ultraconservadora.  Infelizmente, conseguem formar opinião e mobilizar, quase sempre através do recurso ao medo, pessoas que nada tem a ganhar com a manutenção do status quo.
          Antecipo desculpas pela larga repetição de obviedades.        
                      


  

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Quilombolas de São Paulo



"O escravo teve um papel autonômico na crise terminativa da escravidão. Abaixo da propaganda multiforme, cuja luz lhe abriu os olhos ao senso íntimo da iniquidade, que o vitimava, ele constitui o fator determinante na obra de redenção de si mesmo. O não quero dos cativos, esse êxodo glorioso da escravaria paulista, solene, bíblico, divino como os mais belos episódios dos livros sagrados, foi, para a propriedade servil, entre as dubiedades e tergiversações do Império, o desengano definitivo". 

(Ruy Barbosa, citado em Jacob Gorender. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1991, p. 182)

     O relevante papel desempenhado pelos escravos na destruição do sistema escravista foi, até um passado recente, negligenciado em nossos livros didáticos, que salientavam apenas a atuação dos filhos abolicionistas da classe senhorial, quando não incorriam na secular apologia à princesa Isabel.  Este quadro, felizmente, tem se modificado.  Transcrevo da obra A escrita da História, de Flavio Campos e Renan Garcia Miranda (São Paulo: Escala Educacional, 2005, p. 369), destinada ao Ensino Médio, o seguinte trecho:

Na década de 1880, grupos mais radicais, descontentes com as medidas parlamentares, organizaram associações que auxiliavam a fuga de escravos.  Estudantes, advogados, comerciantes e ex-escravos formaram um grupo abolicionista denominado caifazes, que incitava e promovia fugas de fazendas em São Paulo.  Retirados do cativeiro, a maior parte se dirigia ao quilombo do Jabaquara, em Santos, que chegou a reunir cerca de 10 mil pessoas.  Além das fugas, tornaram-se cada vez mais frequentes as insurreições, os assassinatos, os atentados e as sabotagens no decorrer da década de 1880, evidenciando a irreversível desestruturação do regime escravista.  A rebeldia tomou conta das senzalas e levou muitos proprietários a tentar estabelecer acordos com seus escravos. 

       Encontro colocações semelhantes no livro História: volume único (Ronaldo Vainfas, Georgina dos Santos, Jorge Luiz Ferreira e Sheila de Castro Faria.  São Paulo: Saraiva, 2010, p. 501):

Algumas lideranças abolicionistas chegaram a estimular publicamente a fuga de escravos e a formação de quilombos- o quilombo de Jabaquara, em Santos, e o do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, formaram-se com o incentivo de grupos abolicionistas. Depois de muita discussão parlamentar, foi votada e aprovada a Lei dos Sexagenários, em 28 de setembro de 1885, que libertava todos os escravos com mais de 60 anos.  Mas em vez de minimizar os conflitos, a Lei estimulou ainda mais o movimento, aumentando as fugas em massa e levando muitos senhores a alforriar coletivamente seus escravos, com a condição de continuarem a trabalhar em suas terras.           

       Em Vontade de saber História, 8o ano (Marco César Pellegrini, Adriana Machado Dias e Keila Grinberg.  São Paulo: FTD, 2012, p. 206), podemos ler que

Enquanto na cidade os abolicionistas organizavam manifestações contra a escravidão, nas fazendas milhares de escravos se rebelavam e fugiam.  Muitos deles se refugiavam nos quilombos abolicionistas, que eram organizados pelos caifazes.  Os caifazes eram pessoas que participavam do Movimento Abolicionista e davam proteção aos escravos, procurando agilizar seu processo de libertação.

      Malgrado a persistência, no imaginário de boa parte da população, dos velhos mitos, difundem-se nas salas de aula versões mais críticas do processo que resultou na Abolição.  Para ilustrá-las, recorro mais uma vez aos programas de digitalização de documentos brasileiros da Biblioteca Nacional e da Universidade de Chicago.  Nas imagens apresentadas abaixo, ganham vida, apesar do anonimato, homens que decidiram conquistar ativamente sua própria liberdade.      

O periódico Correio Paulistano, ligado ao Partido Conservador, noticiou na edição de 11 de janeiro de 1887 que um grupo de quilombolas da região de Campinas opôs séria resistência ao destacamento policial encarregado da sua captura.  Apesar de algumas baixas, a maioria conseguiu escapar. 



O Paiz, jornal da Corte, menciona em 13 de junho de 1887 a fuga em massa de escravos rumo ao município de Santos, processo que suscitava uma mobilização militar por parte do governo.




No Correio Paulistano de 15 de setembro de 1887 temos o testemunho do senador Antônio Prado a respeito da evasão contínua dos cativos campineiros.



Em 19 de outubro de 1887, O Paiz reproduzia matéria de outro jornal acerca de um grande levante, no qual elevado número de escravos derrotou uma força policial e se apoderou de suas armas.  




Pela edição do dia seguinte, ficamos sabendo que o mesmo grupo afugentara também uma força de cavalaria.




O Correio de 13 de dezembro de 1887 narra a rebelião contra o barão da Serra Negra, várias vezes assinalada na historiografia acadêmica, e outros episódios da resistência escrava.






O futuro presidente da República Francisco de Paula Rodrigues Alves, que então administrava a província de São Paulo, registrou no relatório apresentado em 10 de janeiro de 1888 o iminente colapso do escravismo. 

http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/1032/000019.html


      A recordação destas lutas, ocorridas há bem mais de cem anos, nos remete à necessidade constante da mobilização dos setores populares, sem a qual os avanços sociais se tornam impossíveis.  A antiga coalizão entre elementos dos mais diversos contra a instituição do cativeiro nos sugere, sobretudo neste começo de século tão áspero para os partidários do socialismo, a união das forças progressistas contra uma direita que se mostra cada vez mais enfurecida e próxima do fascismo.