sexta-feira, 20 de maio de 2016

El Zorro: uma leitura coxinha



        Retornei ontem, enquanto era obrigado a esperar pela assistência técnica da Oi, ao meu arquivo morto de Maricá, que cada vez mais mostra o quanto está vivo.  Aliás, na semana passada fiquei sabendo pelo amigo Jorge Dias, arquivista do Museu Nacional, que a expressão "arquivo morto" é uma impropriedade.  Devemos dizer arquivo permanente!
         Resgatei das velhas estantes El Zorro, em versão paradidática da Editora Scipione para alunos de curso de espanhol.  Não me lembro a razão da compra, visto que jamais fiz matrícula em qualquer curso de espanhol.  Mas continua lá, em excelente estado, apesar da impressão datada de 2000.  Vários dos diálogos do livreto me recordaram as sátiras virtuais que mostram Cristo, depois de emitir algumas de suas mais célebres máximas, sendo atacado pelos ouvintes com falas do tipo "subversivo, vai pra Cuba!" ou "não adianta dar o peixe, tem que ensinar o pobre a pescar".
      Imaginei então como poderia ser a leitura simultânea e comentada de El Zorro por dois conservadores irados, um deles mais velho, com seus sessenta e cinco anos talvez, a quem dei o nome de Canrobert da Matta e Motta, o outro bem mais novo, um discípulo trintão chamado Leandro Fiúza. Pensei de início em produzir uma sequência de memes, mas isto me prenderia por muitas horas no Photoshop.  Assim, decidi apenas escanear parte de treze páginas, contrapondo a cada trecho os "comentários" da dupla coxinha.   
         Adaptações inspiradas, talvez eu nem precise dizer, são bem-vindas.         







Canrobert da Matta e Motta- Eu te digo outra vez que quem rouba é sempre bandido, não importa de quem roube!  Esse papo de justiça social é coisa de invejoso e preguiçoso! 

Leandro Fiúza- Também acho: o pior tipo de ladrão é esse, que não rouba pra si mesmo, pra trocar de carro, pra mandar a filha pra Disney, pra comprar tênis, que seja, mas pro Foro de São Paulo!





LF- Essa história da esquerda de dar terra pra índio, quilombola e sem-terra desgraça cada vez mais a vida de quem só quer produzir! 

CMM- E tem sempre uns padrecos vermelhos junto!  Por isso que de uns tempos pra cá o Malafaia é meu segundo ídolo, abaixo só do capitão Bolsonaro!




CMM- Tá vendo? O Don Diego é mais um desses caras da esquerda caviar, como já dizia aquele garoto que a Veja mandou embora, acho que se chama Rodolfo Constantino.

LF- O safado deve tomar só vinho caro, comer escargot e tirar férias em Paris, no meio das sedas e dos frufrus, enquanto diz que defende os miseráveis!  O único Diogo bom é o Mainardi, que não aguentou o avanço da comunização e saltou fora do Brasil!





LF- Os comunas não respeitam nada, pra mim quem ataca um homem de farda no exercício da função tem que sofrer a pena de morte na mesma semana!

CMM- Note que são três as coisas que eles mais odeiam: a Família, a Igreja e as Forças Armadas!  Senta a borracha nele, González!







CMM- Veja só: é por isso que a esquerda quer o desarmamento, desde a época do psicopata carequinha, o Vladimir Lênin!

LF- Exatamente: o cidadão de bem sem sua arma de fogo fica à mercê da bandidagem!  O delinquente que mata e estupra como quem pega Coca-Cola na geladeira deita e rola!







LF- O tempo todo eles atacam a família, o casamento tradicional!  O cara vai casar só pra poder herdar o dinheiro do pai e entregar pra subversão continental!

CMM- Enquanto isso, vão incentivando a tal da ideologia de gênero, o casamento gay e outras aberrações!  Daqui a pouco só vai ter chinês, hindu, africano e turco nesse mundo, pois ninguém mais quer ter filho do lado de cá!



LF- Novelinha sem vergonha de comunista que exalta a criminalidade, ao invés do trabalho! A mocinha esquerdista de família rica apaixonada pelo marginal!  O nome disso é Síndrome de Estocolmo.

CMM- É rapaz, o Avancini e o Dias Gomes foram pro colo do capeta, porém deixaram os secretários! Mas foi por isso que o México perdeu aquelas terras todas pros americanos.  Enquanto os governantes mexicanos deixavam os bandoleiros soltos, fazendo o que queriam, os americanos eram sérios, mandavam essa ralé toda pra forca!





LF- Comuna não respeita mesmo nada! Chutar a bunda de um jovem oficial!  Tem mais é que morrer!

CMM- Eles sabem, em todos os países, que o Exército é a reserva moral da Nação, que guarda os verdadeiros valores da Pátria, então ficam cheios de ódio, querem destruir e desmoralizar a qualquer custo!








CMM- Quem sabia da vida desses defensores de bandido de batina era o Nelson Rodrigues, que há sessenta anos atrás já descia a lenha nos padres de passeata brasileiros, que eram ainda mais vermelhos do que esse frei.

LF- Isso, e enquanto a Teologia da Libertação ajuda transformar o país numa Cuba gigante a Igreja Católica vai perdendo milhões de fiéis e as catedrais viram museus! 






CMM- Que maneira peculiar é essa?  O Don Diego é uma bichona, um queima rosca, faz meinha com o criado índio que não pode contar os podres dele depois!

LF- É por isso que ele acha o casamento “aburrido”!  A não ser o casamento entre pessoas do mesmo sexo!!!





CMM- Era assim que faziam o Che Guevara, o Lamarca e o Marighella: justiça sumária contra as pessoas distintas!  A alma de um comuna é sempre assassina!

LF- Onde os comunas tomam o poder todo homem de bem está praticamente condenado ao Gulag ou ao paredón!  Depois da matança e do açoite, eles botam qualquer um pra ser juiz, reitor de universidade, diretor de hospital! Isso quando não botam motorista de ônibus e torneiro mecânico na presidência da República!  






LF- É por essas e outras que eu digo que a esquerdalha é hipócrita.  Eles sempre se lembram da meia dúzia de terroristas que o Brilhante Ustra e o Fleury esfolaram, o que foi muito pouco...

CMM- É o que eu falo! Mas sempre se esquecem dos bons cidadãos que os amiguinhos deles executaram a sangue frio, até em fila de banco!  Se eles fizessem a revolução matavam setenta milhões de brasileiros, igualzinho à União Soviética do Stalin!




CMM- Rapaz, o governador fingia que era do lado da ordem, mas soltou o bandido e confraterniza com ele na mansão!

LF- Mais um bolivariano de bosta, e foi desse jeito que uns vinte países da América Latrina caíram nas garras do comunismo!  Isso enquanto os Estados Unidos continuam com aquele muçulmano comunista na Casa Branca, o senador mais à esquerda que o Congresso de lá já teve, um cara que nem nasceu no país!       

domingo, 15 de maio de 2016

Um futuro retrógrado




“Vejo bem claro agora o nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, também reconheço que sem o concurso dele nada valeríamos no mundo.  Bastou um momento de divórcio para que a raça branca se visse nesta horrível situação: apeada do domínio e à mercê de uma raça de pitecos que, essa sim, tem contas terríveis a justar conosco...”¹


        Não julgue, caro leitor, que o título deste artigo diz respeito às minhas expectativas quanto ao governo Temer, embora seja quase inevitável que eu as exponha em breve.  Tampouco a citação inicial foi recortada do último manifesto de alguma militante antifeminista empenhada em unir seus esforços aos de “white pardos” arianistas de Campinas, São Bernardo do Campo ou Niterói.    
Neste começo, somente a expressão “raça de pitecos” é exatamente o que parece.  Mesmo assim, a ofensa não saiu do teclado de alguma coxinha ensandecida, e sim da caneta do grande escritor José Bento Monteiro Lobato (1882-1948). Insisto: nada de conclusões apressadas. Monteiro Lobato, ao que se sabe, jamais construiu um alter ego feminino como a Suzana Flag de Nelson Rodrigues.
As duas frases transcritas foram extraídas do discurso de Miss Astor, uma das três principais lideranças políticas dos Estados Unidos no ano de 2228, personagem do romance O Presidente Negro ou O Choque das Raças (São Paulo: Clube do Livro, 1945).  Não descreverei o contexto da fala, muito menos o enredo completo da obra.  Lembro-me que um excelente professor de Português, Mário Jesus Alexandre, me ensinou a gostar de Literatura Brasileira na distante temporada de 1981, mas lamento até hoje o dia em que o mestre resumiu, com talento, a história de Dom Casmurro.  Foi decepcionante, já na idade adulta, ler o melhor livro de ficção produzido no Brasil sabendo tudo que iria acontecer. Compre, quem tiver curiosidade, O Presidente Negro, que a propósito está para Dom Casmurro, na minha opinião, como a seleção brasileira dos fatídicos 7 x 1 para a que conquistou o tricampeonato mundial no México.
Comprei-o pela Estante Virtual há dois ou três anos, a preço irrisório, a fim de entender um pouco mais sobre a discussão, na época bem exaltada, acerca do racismo presente nos escritos de Lobato.  Entretanto, alguma sobrecarga de trabalho, ou talvez o interesse maior por outra leitura, me fez relegar O Presidente Negro ao arquivo morto, em armário quase abandonado de Maricá.  Casualmente, reencontrei-o neste final de semana e resolvi ler.  Já tive em mãos artigos acadêmicos que estabelecem as conexões intelectuais entre Monteiro Lobato e teóricos eugenistas como Artur Neiva e Renato Kehl.  Apesar disto, o conteúdo do livro não deixou de me surpreender, e sem dúvida para mal.
Como já indiquei, O Presidente Negro é contemporâneo dos embates finais da Segunda Guerra Mundial.  O prefácio do editor Mario Graciotti é datado de 1º de abril de 1945.  O protagonista Ayrton Lobo, em certa passagem, faz alusão ao automóvel Ford que adquiriu, apesar da escassez de recursos que enfrentava, como um “novo pecúlio, com tanto esforço acumulado depois do desastre germânico” (O Presidente Negro, p. 11).  Porém, ao contrário de um Oliveira Viana, o mulato arianista que praticamente varreu as teses racistas de seus ensaios após a derrocada do Eixo, Monteiro Lobato se manteve alinhado com os ideais de eugenia e, em O Presidente Negro, parece obcecado pela expectativa, relativamente comum entre os eugenistas das primeiras décadas do século XX, de favorecer ou pelo menos "torcer" pelo desaparecimento, identitário ou mesmo físico, dos negros do continente americano.
Um diálogo entre Ayrton Lobo e Miss Jane (p. 81-82) resgata o choque entre duas vertentes do pensamento racista, a “otimista”, que previa o fim do negro pela diluição gradativa de seu patrimônio genético, e a “pessimista”, que pretendia, tendo como inspiração o modelo norte-americano, investir nas políticas de segregação.  Não se estabelece, nestes trechos ou em qualquer outra parte do livro, qualquer contraponto ao supremacismo ariano, e os estereótipos “raciais” empregados pelo autor chegam a depor contra sua reconhecida inteligência.


- A nossa solução foi admirável.  Dentro de cem ou duzentos anos terá desaparecido por completo o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco.  Não acha que fomos felicíssimos na nossa solução?
(...)
- Não acho, disse ela.  A nossa solução foi medíocre.  Estragou as duas raças, fundindo-as.  O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter, consequente a todos os cruzamentos entre raças díspares.  Caráter racial é uma cristalização que às lentas se vai operando através dos séculos.  O cruzamento perturba essa cristalização, liquefa-a, torna-a instável.  A nossa solução deu mau resultado.
(...)
- Não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas.  O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor.  O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica.  O ódio criou na América a glória do eugenismo humano.


Mais adiante (p. 90-91), um espantado Ayrton descobre que o Brasil dos séculos vindouros tinha dado origem a dois novos países: o sul arianizado, constituído pelos estados da bacia platina, havia se unido a Argentina, Paraguai e Uruguai.  As regiões tropicais, impossibilitadas de dar solução ao “erro inicial da mistura de raças”, permaneciam unidas “a sofrer o erro e suas consequências”.  A culpa destas mazelas é lançada sobre o elemento português, argumento que se repete em outros textos de Monteiro Lobato². 


-Mas por que dividiram o Brasil? perguntei ainda mal consolado.  Era só povoar o norte da mesma maneira que o sul...
-Um país não é povoado como se quer, senhor Ayrton, ou como apraz aos idealistas.  Um país povoa-se como pode.  No nosso caso foi o clima que estabeleceu a separação.  Dos europeus só os portugueses se aclimavam na zona quente, onde, graças às afinidades com o negro, continuaram o velho processo de mestiçamento, acabando por formar um povo de mentalidade incompatível com a do sul.


           Conhecedora do futuro, Miss Jane também mostra a Ayrton os largos progressos obtidos pela eugenia no Terceiro Milênio (p. 87-88), em particular nos Estados Unidos.  O tom apologético adotado por Monteiro Lobato é óbvio, e se associa a uma fantasia de livrar a Terra da maior parte de sua população.


-  (...) A lei Owen, como era chamado esse Código da Raça, promoveu a esterilização dos tarados, dos malformados mentais, de todos os indivíduos em suma capazes de prejudicar com má progênie o futuro da espécie.  Só depois da aplicação de tais leis é que foi possível realizar o grandioso programa de seleção que já havia empolgado todos os espíritos.  Os admiráveis processos hoje em emprego na criação dos belos cavalos puro-sangue passaram a reger a criação do homem na América.
-E lá se foram os peludos! ...
-Exatissimamente... Desapareceram os peludos- os surdos-mudos, os aleijados, os loucos, os morféticos, os histéricos, os criminosos natos, os fanáticos, os gramáticos, os místicos, os retóricos, os vigaristas, os corruptores de donzelas, as prostitutas, a legião inteira de malformados no físico e no moral, causadores de todas as perturbações da sociedade humana.


             Dando continuidade à fala de Miss Jane, o autor deixa transparecer apreensão diante da possibilidade de um futuro marcado pelo predomínio numérico dos negros; em poucas linhas, Monteiro Lobato realiza uma transposição do quadro que por certo visualizava no Brasil dos anos 40 para a América do Norte fictícia do século XXIII (p. 88).


- Apesar de submetida aos mesmos processos restritivos dos brancos, a raça negra começou desde logo a apresentar um índice mais alto de crescimento.  A proporção do negro puro relativa ao branco subiu a um quinto, a um quarto, a um terço e por fim chegou à metade... Quer isso dizer que o binômio racial, desprezado na era do crescimento imigratório e descurado no início do regímen seletivo, passou a entrar na fase aguda do “resolve-me ou devoro-te”.


                Tamanho horror, é claro, precisava ser exorcizado, o que Lobato torna explícito pela voz de um dos ministros do 87º presidente dos Estados Unidos, Mr. Kerlog, então prestes a perder a reeleição para o candidato negro Jim Roy (p. 121). A “solução negra” mencionada abaixo seria a divisão do país em duas partes, o norte branco e o sul negro. 


-É impossível protelar por mais tempo com paliativos ilusórios a solução do binômio racial.  Ou expatriamos os negros já, ou dentro de meio século seremos forçados a aceitar a solução negra, asfixiados que estaremos pela maré montante do pigmento.


             Emerge do livro uma irritante misoginia.  Monteiro Lobato, que também era bastante hostil ao legado da Revolução Francesa, chega a emitir um comentário depreciativo (p. 134) sobre os movimentos que, na época da sua juventude, haviam lutado em prol do voto feminino.


Um tropel reboou nos corredores.  Era o bando elvinista que entrava com miss Astor à frente.  Kerlog empalideceu.  Os extremismos daquela facção eram tantos que ele previu qualquer coisa semelhante aos assaltos histéricos da antigas sufragistas britânicas.  E apertou o botão da campainha de alarma, chamando a postos os guardas.


              Coerentemente, digamos assim, o criador do Marquês de Rabicó constrói uma imagem genérica da mulher como ser irreflexivo que, ao se intrometer no mundo da política, só pode gerar desastres.  Logo depois de viabilizar a vitória do candidato Jim Roy por puro ressentimento contra seus maridos, as eleitoras norte-americanas se arrependem unanimemente e voltam a apoiar Kerlog (p. 130).


Depois de 87 presidentes brancos surgia o primeiro negro, eleito por 54 milhões de votos.  Miss Astor obtivera 50 milhões de meio e Kerlog 50 milhões e pico.  Apesar de disporem de um eleitorado quase duplo do contrário, os brancos perdiam a presidência graças à cisão entre os dois sexos provocada pelo elvinismo...
Foi instantânea e radical a mudança que se operou nas mulheres.  Apreenderam num relance todas as consequências possíveis do golpe negro e tomaram-se de furiosa crise de sentimentalismo amoroso pelo homem branco, ser mau, opressivo, injusto, não havia dúvida, mas, afinal de contas o marido milenar da mulher.  Mal com ele, pior sem ele.  Estava tão longe o hipotético sabino...


     
            Apesar da notória associação entre a figura de Monteiro Lobato e um determinado tipo de nacionalismo, O Presidente Negro também é uma obra americanófila.  Enquanto a velha Europa é apontada como futuro túmulo do homem branco (p. 52), os Estados Unidos despontam como uma espécie de farol da raça, destinado a concentrar os melhores tipos da humanidade (p. 79-80). 


-Por que catástrofe?  Tudo que é tem razão de ser, tinha forçosamente de ser; e tudo que será terá razão de ser e terá forçosamente de ser.  O amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais.  Só se salvará da absorção o branco da América.
(...)
-E o mundo americano não podia deixar de ser assim, senhor Ayrton, continuou ela [Miss Jane].  Note apenas: que é a América senão a feliz zona que desde o início atraiu os elementos mais eugênicos das melhores raças europeias?  Onde a força vital da raça branca, senão lá?
(...)
Ondas sucessivas dos melhores elementos europeus para lá se transportaram.  Depois vieram as leis seletivas da emigração, e as massas que a procuravam, já de si boas, viram-se peneiradas ao chegar.  Ficava a flor.  O restolho voltava...



            Entretanto, piores do que as teorias raciais, ilustradas por “chutes” que podem ser classificados como pura Antropologia de botequim, são alguns dos delírios ficcionais de Monteiro Lobato.  A certa altura da narrativa, Miss Jane conta a Ayrton Lobo (p. 112-113) que a tecnologia do futuro resolvera o “problema” da tez escura dos negros, ainda que restassem outras características fenotípicas indesejáveis:


-Havia uma pedra no sapato americano: o problema étnico.  A permanência no mesmo território de duas raças díspares e infusíveis perturbava a felicidade nacional.  Os atritos se faziam constantes e, embora não desfechassem como outrora nas violências da Ku Klux Klan, constituíam um permanente motivo de inquietação. A ideia do expatriamento para o vale do Amazonas tinha um ponto fraco: só podia ser voluntária e o negro não se mostrava inclinado a trocar a cidadania americana por outra qualquer.  O processo científico de embranquecê-los aproximava-os dos brancos na cor, embora não lhes alterasse o sangue nem o encarapinhamento dos cabelos.  O desencarapinhamento constituía o ideal da raça negra, mas até ali a ciência lutara em vão contra a fatalidade capilar.  Se isso se desse, poderia o caso negro entrar por um caminho imprevisto, a perfeita camouflage do negro em branco. 


               
          Retornando ao século XXIII, notamos que enquanto Mr. Kerlog buscava reverter no campo da política a ascensão iminente dos negros ao poder central, um homem de ciência contribuía para seu projeto de maneira decisiva (p. 167-168).


John Dudley havia resolvido enfim o difícil problema capilar.  Os raios Ômega, de sua descoberta, tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano.  Com três aplicações apenas o mais rebelde pixaim tornava-se não só liso, como ainda fino e sedoso com o cabelo do mais apurado tipo de branco.  Os raios Ômega influíam no folículo e destruíam nele a tendência de dar forma elíptica ao filamento capilar.  Vencido este pendor para a forma elíptica, cessava o encarapinhamento, que não passa de mera consequência mecânica.
(...)
Já o pigmento fora destruído e, embora o esbranquiçado da pele não se revelasse cor agradável à vista, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea.  Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam, era, não havia dúvida, sinal de um fim de estágio.  Reduzidas desse modo as duas características estigmatizantes da raça, o tipo áfrico melhorava a ponto de em numerosos casos provocar confusão com o ariano.  Entre a miss naturalmente branca e loura e a negra despigmentada e omegada pelo processo Dudley, era quase nula a diferença.



             A estupidez das mulheres não é a única generalização sugerida pelo livro.  Os negros que se mobilizavam para desmontar o multissecular domínio branco  sobre a América do Norte eram os mesmos que, por unanimidade, desejavam se converter em perfeitas figuras caucásicas (p. 169 e 181).



As negras, sobretudo, viviam num perpétuo sorrir-se a si próprias, metidas dentro de um céu aberto.  Passavam os dias no espelho, muito derretidas, penteando-se a despenteando-se gozosamente.  O seu enlevo ao correrem as mãos pelas macias comas omegadas levava-as a esquecer o longuíssimo passado da humilhante carapinha.  Brancas, afinal!  Libertas afinal do odioso estigma!
(...)
A fúria desencarapinhante dos negros fê-los se esquecerem completamente da política.  Datava de três meses a entrada em cena dos abençoados raios Ômega e pelas estatísticas oficiais 97% da população negra já estava omegada.  Mais uma semana, e os últimos postos se fechariam por falta de carapinha a alisar.



Lobato, nas derradeiras páginas da obra, alcança o clímax da fantasia.  Sem as inconveniências da miscigenação e sem derramamento de sangue, Mr. Kerlog  e seus aliados acham o meio infalível para fazer dos Estados Unidos uma nação exclusivamente branca (p. 190-191).


Meses depois do aparecimento dos raios Ômega o índice da natalidade negra caiu de chofre.  Março, precisamente o nono mês a datar da abertura dos primeiros postos desencarapinhantes, acusava uma queda de 30%.  Esta porcentagem subiu ao dobro em abril e chegou a 97 em maio.  Em junho as estatísticas só registravam 122 negrinhos novos.
(...)
O problema negro da América está pois resolvido da melhor maneira para a raça superior, detentora do cetro supremo da realeza humana.



                Apesar da superficialidade desta pesquisa, posso sem dúvida engrossar o coro dos que, se reportando a um período em que o Racismo Científico ainda desfrutava de imenso prestígio, veem em Monteiro Lobato um autor mais racista do que o homem médio de seu tempo.  Também era machista e tinha (piedade não é o meu forte) espírito de colonizado.  Isto não significa que partirei agora para a casa de minha mãe para incinerar os volumes (ainda hoje em bom estado) de Caçadas de Pedrinho e Reinações de Narizinho que me entretiveram por muitas horas na infância. Levaria, de imediato, merecidas paneladas.  Tampouco sugerirei a qualquer direção de escola um boicote ao conjunto da obra de Lobato.
           Somente quero afirmar que toda blindagem é nociva e que toda mitificação de indivíduos, vivos ou mortos, tende à fraude.  Toda reputação pode ser discutida, e, em particular, todos os heróis, especialmente os autoproclamados e os “pais da pátria” (seja ela qual for), devem ser submetidos a críticos realistas e imunes ao ufanismo. 


Em tempo:

Este texto é dedicado à minha filha Isabela, feminista de carteirinha, negra, cientista social iniciante, mas que em breve combaterá muito, e sem tréguas, o conservadorismo decrépito que julga ainda poder dar as cartas na política brasileira e fazer o país retornar às relações sociais vigentes na Era Collor.

                               

1- Ver O Presidente Negro ou O Choque de Raças, p. 131.
2- Entre outras pérolas de racismo tosco, Lobato resumiu o jornalismo carioca, em 1938, na alegoria do "mulatinho fazendo o jogo do galego".


   

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Soneto Petrarquiano¹



Um jornal velho te recordará
Das pilantragens daqueles dias
Fiz campanha pro gato angorá
Depois fechei c’um tal de Farias

Fui pau mandado de um tourinho
Porém do tipo que mais emerge
Disto gostou o monstro marinho
Caiu-me no colo a Telerj

Virei de vez homem de esquemas
Escrevi um belo aditivo
Que me carregou lá pro tribunal

Se tens padrinhos, então não temas
Confessem todos como sou vivo

Engavetaram na cara de pau

1- É aquele que contém quatro estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos.  Escrito por Gustavo Moreira ou outros amadores, costuma sair meio estropiado, mas, ainda assim, petrarquiano sempre é melhor do que cosentino!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Um desabafo despretensioso



         Meu falecido orientador Théo Lobarinhas Piñeiro (1955-2015), quando exposto a certas pérolas dos doutores pós-modernos que cada vez mais infestam as universidades brasileiras, costumava fazer uso de um divertido bordão: -Para eles, o concreto não existe!  O riso dos amigos e orientandos era compulsório.  Sou forçado a reconhecer, por outro lado, que este tipo de percepção é uma via de mão dupla.  Há alguns anos, frequentei um curso que se revelou decepcionante: a professora, reconhecida por mim no começo da década de 1990 como lúcida especialista em História Política, tinha enveredado no Terceiro Milênio pelos caminhos de um delirante pós-modernismo.  Mantive frequência integral, me comportando com toda a cordialidade possível, mas ela logo percebeu que eu não embarcava nas suas viagens pela maionese e não me empolgava com suas realidades virtuais.  Durante uma sessão vespertina, a veterana historiadora me fitou, soltou um suspiro de tédio e disparou: -Não adianta, você é todo do concreto, né?
            Infelizmente, viajar na maionese não é privilégio de intelectuais pós-modernos.  No final da tarde de hoje, decidi percorrer a pé os cinco quilômetros e meio que separam o Museu Nacional de minha casa; parte da batalha inglória contra os quilos em excesso e a taxa limítrofe de colesterol.  Já no último quinto do trajeto, na esquina das ruas Conde de Bonfim e Pinto de Figueiredo, aguardava o sinal verde para pedestres quando, na direção contrária, apareceu um grupo grande de estudantes da rede municipal, todos uniformizados, totalizando talvez cinquenta adolescentes. 
          Nada faziam que mereça nota: no máximo, produziam muito barulho, fato mais do que compreensível em se tratando de gente situada entre os treze e os quinze anos.  Não ouvi sequer um palavrão trivial, ninguém parecia querer brigar, mas, antes que todos pudessem atravessar, uma voz feminina à direita tratava meus ouvidos como latrina: -Abriram a porta da jaula!  Um bom conhecedor do Rio de Janeiro diria, com precisão, que andando pelo coração da conservadora Tijuca estou sujeito diariamente a incidentes do gênero. 
Porém, ao virar o pescoço na direção da criatura, não enxerguei uma dondoca tijucana insolente, ou uma representante incontestável das oligarquias porcas que os bajuladores de plantão preferem tratar como “elites brasileiras”.  Era uma mulher de cinquenta e tantos anos, pequena, de cabelo mal pintado, roupas baratas e surradas, situada a algumas dezenas de léguas do fenótipo caucasiano.  O sábio indiano Vasyayana, autor do Kama Sutra, registrou com acerto naquela obra que “os sinais externos são enganosos”, mas, caso me visse obrigado a tentar desvendar o cotidiano da desagradável transeunte, apostaria que se tratava de uma pessoa de classe C, sobrevivendo a duras penas em bairro de classe média numa casa herdada de pais ou avós mais favorecidos em termos de renda.
Não tenho prazer em citar o ex-deputado e ex-presidiário Roberto Jefferson, mas a “reacionária sem capital” conseguiu mexer com meus instintos mais vis.  Já estava, sem dúvida, em estado de irritação silenciosa, derivada do conhecimento de certas movimentações políticas que ocorrem, digamos assim, no meu quintal, e o primeiro impulso foi o de despejar, bem alto, generosa leva de impropérios.  Foi bom ter desistido: seria uma reação muito desproporcional, e talvez a vizinhança se indignasse com tanta agressividade contra uma senhora à primeira vista frágil.
Também poderia, se estivesse com a cabeça menos quente, tentar trazê-la por instantes para o mundo real, demonstrando em poucas frases que a única distância visível entre a “turba ameaçadora” que cruzava a rua no sentido oposto e sua vítima em potencial era o contraste entre as idades.  Isto me renderia senhoras gargalhadas, nesta noite e no almoço de amanhã, além, é claro, de ser um retorno justo a tamanha imbecilidade.  Mas decidi, em décimos de segundo, deixar o silêncio como única resposta, e ela também, não encontrando na minha expressão a solidariedade que desejava, ficou para trás sem falar mais nada.
Não me considero um pessimista; no máximo, um fatalista que vê o mundo com boa dose de crueza.   Entretanto, a circunstância de ter observado ou participado de centenas, talvez milhares, de situações como a de hoje me leva a nada esperar da pequena burguesia. Também nada espero, o que é pior, de uma falsa pequena burguesia, bem numerosa, empenhada em ostentar posições aristocráticas ilusórias, cuja face mais caricata se expressa na formação de células neonazistas das periferias do Rio e de São Paulo.
       Penso que compreendo cada vez melhor qual era o sentimento de Marilena Chauí quando proferiu a desastrada sentença “eu odeio a classe média”, tão intensamente explorada pela histriônica fauna virtual de fãs da “revista” Veja.  Conheço, é claro, e poderia listá-los em muitas laudas consecutivas, indivíduos de classe média, média alta, média média, média baixa, “emergentes”, que destoam em suas palavras e ações do perfil descerebrado da turba [aqui sem necessidade de aspas] que elege Bolsonaros com votações recordes. Quanto ao resto, não me causará qualquer surpresa quando for em peso à Vieira Souto (e à Conde de Bonfim!!!) em apoio à revogação da Lei Áurea.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Santo Domingo, 1965: crônica sobre uma derrota honrosa


         Estive a passeio, de 25 de dezembro a 1 de janeiro, na República Dominicana, nação de pequenas dimensões (pouco mais de 48 mil km², ligeiramente maior do que o estado do Espírito Santo), que divide o espaço territorial da ilha de São Domingos com o Haiti.  País de gente bastante hospitaleira, dotado de um patrimônio histórico único, resultante do fato de ter sido a primeira região das Américas a cair sob domínio europeu.  Fiquei hospedado na Zona Colonial de Santo Domingo, um bairro turístico no qual podemos visitar e fotografar, ao longo de poucas horas de caminhada, dezenas de construções, em regra bem cuidadas, erguidas no século XVI. São fortificações, igrejas, casas de antigos nobres e das autoridades metropolitanas, por vezes transformadas em hotéis que conservam muito das características originais.
        Esperava encontrar uma terra castigada por cinco séculos de economia de plantation. Felizmente, estava enganado por completo: ao cruzar as estradas dominicanas em várias direções, observei uma natureza exuberante, bosques por toda parte, parques nacionais exibidos com orgulho pelos taxistas e guias turísticos.  Há muito tempo a renda do turismo e as remessas de dinheiro feitas pelos dominicanos que vivem no exterior superam as divisas geradas pela produção de charutos e de derivados da cana. Não realizei, contudo, o desejo relativamente simples de comprar sementes de plantas típicas do Caribe e levá-las para meu quintal de Maricá (RJ). Pelo contrário: ali predominam as mesmas árvores que vejo aos milhares na Região dos Lagos fluminense, como mangueiras, cajazeiras e amendoeiras, estas últimas com a denominação local de almendras de la playa.  Para beber suco de acerola, é preciso pedir cereza, e o maracujá costuma atender por chinola, mas julguei tais particularidades insuficientes para colocar em prática uma operação de "contrabando". 
       A população, em sua maior parte, é visivelmente pobre e suporta graves problemas de infraestrutura; nos locais afastados dos circuitos turísticos, tive a sensação de andar pelos bairros da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense mais abandonados pelo poder público.  A música nacional desfruta de um prestígio admirável: das casas e lojas, os CDs de salsa, merengue e bachata promovem uma ambientação ininterrupta dos visitantes aos sons caribenhos. Pelas ruas de Santo Domingo, ouve-se de alguns carros tunados funk no volume máximo; mesmo assim, canta-se em espanhol, e as temáticas são locais. 
            O dominicano típico, em sua aparência física, é indistinguível do brasileiro, e do carioca em especial. Declarei com sinceridade ao taxista Ramón, e a outras pessoas que me prestaram bons serviços, que "no me siento extranjero en tu país".  Ouvi também, mais de uma vez, que somente o acento portugués denuncia aos dominicanos a presença de um brasileiro. Um sorveteiro chegou a me perguntar se minha mulher, que estava a uns quinze metros de distância, era sua patrícia.
             Diversões à parte, o historiador participou da viagem.  Visitei, perto da virada do ano, a Fortaleza Ozama, imponente castelo espanhol que o tirano Rafael Leónidas Trujillo Molina (1891-1961) utilizou como cárcere de presos políticos e criminosos comuns.  Ainda se mantém a haste metálica em que os torturadores trujillistas, como se fossem agentes da Inquisição ressuscitados, encaixavam o garrote vil empregado para estrangular suas vítimas.  Hoje ela sustenta apenas uma bandeira nacional. 

  

Fortaleza Ozama


         Um veterano guia, Antonio Mejías, narrava com segurança e muitos detalhes histórias relacionadas a cada cômodo da fortaleza.  Ao término da exposição, confidenciei a ele que apenas uma coisa não havia me agradado em Santo Domingo: a virtual ausência de livrarias e bancas de jornal, que me impedira, até aquele momento, de investigar a História dominicana. Mejías, então, afirmou que eu estava no lugar certo, e me convidou a comparecer à recepção, onde guardava meio escondidas diversas publicações, cobrindo temas que se estendiam desde as eras pré-colombianas até a contemporaneidade.  Tudo era muito interessante, mas como as verbas reservadas para a excursão já se aproximavam do fim, optei por um livro editado em 2009: La guerra de locutores, de José Antonio Núñez Fernández. 



       Não é uma obra acadêmica.  O octogenário Núñez, nascido em 1928 e retratado em primeiro plano na capa, se destacou entre dezenas de locutores das rádios dominicanas, principal instrumento de formação de opinião no país, que conclamaram a população civil e os militares nacionalistas à resistência contra a invasão ordenada por Lyndon Johnson em 1965. Entre numerosas experiências pessoais, ele se reporta a elementos de um contexto histórico que não é de todo estranho aos nossos manuais de Ensino Médio, onde por vezes figura brevemente como ilustração do período da Guerra Fria. 
         As eleições que se seguiram à morte do ditador Trujillo foram vencidas pelo intelectual reformista Juan Bosch, cuja posse na presidência, em 27 de fevereiro de 1963, contou com a presença do próprio Lyndon Johnson, vice de John Kennedy.  Classificado pela CIA como aliado dos Estados Unidos, Bosch tomou, porém, iniciativas que desagradaram trujillistas e representantes das multinacionais: nacionalizou terras da família Trujillo (nas quais promoveu assentamentos de camponeses), estatizou parte dos lucros da produção açucareira, cancelou um contrato com a Standard Oil e tentou combater a corrupção existente nas Forças Armadas. 
       Antes de completar sete meses de governo, precisamente em 25 de setembro de 1963, Juan Bosch foi derrubado por um golpe de Estado a que Núñez se refere depreciativamente como Madrugonazo, empreendido por oficiais militares que contavam com o apoio das forças políticas derrotadas no pleito do ano anterior e de algumas empresas norte-americanas.  O Triunvirato golpista (outra expressão do autor), entretanto, não conseguiu se legitimar no poder, e sua crescente impopularidade desembocou, no mês de abril de 1965, em uma Revolução cuja proposta era promover a volta de Bosch, a quem caberia concluir o mandato obtido nas urnas. Os autoproclamados constitucionalistas bateram o Exército regular em três dias. Logo em seguida, após convocação extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), 42 mil soldados, em sua maioria infantes da Marinha dos Estados Unidos, mas também brasileiros, hondurenhos e paraguaios, invadiram a República Dominicana e esmagaram o constitucionalismo.    
         Podemos dizer, com margem integral de acerto, que uma ampla maioria dos brasileiros ignora por inteiro a memória deste desastre.  Para grande parte dos demais, os que dele tomaram conhecimento pelos livros didáticos, o processo que desembocou na invasão de 1965 talvez pareça um episódio monótono, parte indiferenciada de um esquema geral:

1- O eleitorado de um país latino-americano conduz à presidência um político de tendências reformistas, acusado demagogicamente por seus inimigos de ser pró-soviético.
2- Militares de direita, estimulados por conspiradores civis, depõem o presidente, com apoio tácito ou aberto do governo norte-americano e dos dirigentes das multinacionais ali instaladas.
3- O povo se submete, em parte por estar habituado ao domínio oligárquico, em parte por saber que os generais conservadores não pouparão sangue na defesa do status quo.
4- As eventuais resistências são sufocadas "no berço", com o auxílio de assessores norte-americanos ou, no limite, com o apelo aos marines.

          Certa vez, um professor de Sociologia afirmou, ao me orientar para uma prova, que "todo esquema é empobrecedor", mesmo que útil em ocasiões específicas. Uma descrição factual da crise dominicana de 1965, ainda que tecnicamente exata, constitui exemplo perfeito desta regra.  Implica, entre outros males, no esquecimento de que muitos dos militares da República Dominicana, ao invés de cumprirem o papel de reprimir seu próprio povo, a ele se juntaram numa resistência cujas chances de sucesso eram inversamente proporcionais à sua coragem. Núñez Fernández cita em trechos do livro um bom número de constitucionalistas fardados, entre eles dois de seus parentes, o coronel Emilio Ludovino Fernández e o tenente-coronel José Mauricio Fernández.  O líder mais destacado do movimento, coronel  Francisco Alberto Caamaño Denó (1932-1973), chegou a ser eleito presidente constitucional pelos revolucionários. Atualmente é reverenciado como herói pelos segmentos populares de seu país e homenageado com uma estátua metálica de mais de três metros de altura na cidade de Santo Domingo.  




                                                                    Caamaño Denó
                

                 
                     
          Não encontraremos, nas fontes tradicionais, qualquer menção à intrepidez dos locutores dominicanos, alguns dos quais chegaram a ser presos pelos golpistas em 24 de abril, tiveram como certo, por algumas horas, que enfrentariam o pelotão de fuzilamento, mas, recuperando a liberdade no dia seguinte, mantiveram seu apoio ativo ao constitucionalismo. A narrativa tradicional oculta a adesão de uma imensa parcela da população, desprovida de qualquer treinamento militar, à luta pela soberania.  Revelá-la, com riqueza de imagens e depoimentos, é o maior mérito da obra de Núñez Fernández.  Mais de quatro mil dominicanos morreram na guerra.  Eu havia caminhado, antes da leitura, por um cenário de intensos tiroteios, a charmosa calle El Conde, sem imaginar por um segundo o que ali acontecera cinquenta anos atrás.  La guerra de locutores, se bem traduzida e disponibilizada ao chamado grande público, seria ótima opção, numa quadra em que Veja, O Globo e veículos menos votados pregam, como solução para as mazelas do Brasil, um salto no colo do Tio Sam.   


  
                                              
                         

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Notas sobre a velha falácia da legitimidade da "Redentora" e seus novos papagaios de pirata




          Ontem à noite, durante uma breve investigação a respeito do que se discutia em algumas comunidades políticas das redes sociais, tive minha atenção despertada por mais um dos memes “históricos” cretinos que poluem a Internet.  À primeira vista, tratava-se de uma apologia nada original, e de um primarismo gritante, à ditadura civil-militar de 1964.  Antecipo desculpas aos donos de olhos mais sensíveis por reproduzi-la logo abaixo.



       Muito mais do que o tosco conteúdo, o que me surpreendeu foi o tom triunfalista das pessoas que se empenhavam em difundir a peça de propaganda, dando a impressão de que se julgavam portadoras de um segredo de Estado maliciosamente escondido de 99,99% da população. Ficava evidente, para qualquer observador, que todos acreditavam cegamente no que diziam, tendo sua crença reforçada por várias manifestações, em geral quase imediatas, de solidariedade.  
           Mantenho, em casos desta natureza, a convicção de que nenhum formador de opinião deve ser subestimado.  A atitude contrária, de soberba diante da manipulação grosseira e do discurso inconsistente, conduz facilmente à elevação de figuras como Leandro Narloch à categoria de especialistas em História e ao descrédito da pesquisa acadêmica.
            Não é suficiente atribuir à besteira popularizada o rótulo de besteira, ou qualificar como idiota quem a produziu, sendo, aliás, bastante significativo o fato de que quase sempre as pérolas de tal gênero emergem do anonimato. É necessário mostrar pacientemente onde está a idiotice. Poderíamos, em primeiro lugar, sugerir aos interessados a consulta aos anais eletrônicos da Câmara  dos Deputados (http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp) e do Senado (http://www.senado.gov.br/publicacoes/anais/asp/AP_Apresentacao.asp), para que se constate que, apesar do conservadorismo que predominava no Congresso Nacional nos primeiros meses de 1964, jamais ocorreu a suposta invocação oficial da quartelada.  Isto não impede, é claro, que sejam localizadas naquelas páginas falas golpistas, em geral vindas da minoria udenista, coisa que aponta mais para a vocação antidemocrática da maior parte da direita brasileira do que para a legitimidade do processo que levou à derrubada do presidente Goulart.
           Para quem não pode ou não pretende gastar muito tempo na busca, vale a descrição sucinta e precisa do brasilianista Thomas Skidmore, que não deixa dúvida de que os parlamentares golpistas formavam uma minoria:          
               

João Goulart foi deposto por uma revolta militar.  Sua fuga não tinha sido o resultado de ação da elite política civil.  Ao contrário, os oponentes de Goulart no Congresso sequer haviam tentado procedimentos de impeachment, pois sabiam não contar com os votos necessários para vencer um tal teste, exatamente como os antigetulistas não tinham votos suficientes em 1954.  Embora a maioria dos congressistas nutrisse profundas suspeitas sobre as intenções de Goulart, não se decidiam a embargá-lo segundo os fundamentos previstos na Constituição.  Tal relutância nada tinha de estranhável.  Como políticos profissionais, receavam o que poderia vir na esteira de um impeachment.  Em consequência, não havia um só líder congressista do centro disposto a encabeçar um movimento para impedir o presidente.  E os militantes da UDN favoráveis a tal movimento, como Bilac Pinto, eram figuras suspeitas para a liderança da maioria, constituída de próceres do PSD, temerosos de que o afastamento de Goulart pudesse resultar num expurgo geral da "camarilha" do partido¹.


         Outra prova cabal de que o golpe nunca poderia ter sido desfechado por iniciativa (ou com a conivência) do Poder Legislativo é o fato de que a ação militar apresentou aspectos de improviso, visto que teve início antes do momento planejado pelo principal líder dos conspiradores.  Também é afrontosa à inteligência de qualquer indivíduo com mais de dois pares de neurônios ativos a hipótese de que um governo sustentado por dois partidos grandes, e seu aparato militar, possam ser apanhados sem qualquer capacidade de reação por um movimento deflagrado a partir dos ritos previstos pela Constituição.  
                                                  

No dia 28 de março de 1964, o governador José Magalhães Pinto, acompanhado pelo coronel José Geraldo de Oliveira, comandante da Polícia Militar de Minas Gerais, dirigiu-se a Juiz de Fora e lá se encontrou com o marechal Odylio Denys e os generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luiz Guedes, decidindo marcar a data da sedição, à revelia de Castelo Branco, para o dia 30².


            O autor do meme, ou algum de seus cúmplices, até poderia alegar que não se referiu exatamente ao ato da deposição em si, mas ao reconhecimento dos governos que se seguiram. Mas isto seria comparável a achar legitimidade, ou espontaneidade, na ação da vítima de uma "saidinha" de banco que entrega sua senha aos assaltantes sob a mira de uma arma.  Não existia, em abril de 1964, nada que pudéssemos chamar de "margem de independência", à disposição dos congressistas:   

O presidente interino, Ranieri Mazzilli, estava de fato subordinado a uma junta militar que se proclamara Alto Comando da Revolução, constituída pelo general Artur da Costa e Silva, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Correia de Mello.  Propondo-se a "restaurar a legalidade" e "eliminar o perigo da subversão", os novos detentores do poder baixaram a 9 de abril o ato institucional, que passaria mais tarde a ser conhecido por AI-1, em virtude da decretação de outros atos institucionais.  O ato instituiu a eleição indireta para a Presidência da República, transformando o Congresso já castrado pelas primeiras cassações de mandatos e subordinado aos novos mecanismos de exceção em dócil colégio eleitoral³.
             
             
          Não obstante a notória simpatia do presidente do Senado pelos golpistas, com os quais há muito se alinhara, foi preciso colocar em execução uma manobra absurdamente anticonstitucional para dar capa de legalidade à ditadura que começava a se instalar:


Do ponto de vista político-institucional, o golpe se consumou na madrugada de 2 de abril: violando todas as normas constitucionais (uma vez que o presidente da República estava no território nacional e não renunciara), o presidente do Senado Federal, Auro de Moura Andrade, declarou a vacância da Presidência da República e o lugar de Jango foi usurpado por Ranieri Mazzilli (a mesma figura que, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, os golpistas militares quiseram fazer "presidente4").

           
       Por fim, digo que basta um pouco de raciocínio lógico para concluir que a única opção disponível naquele momento para os políticos profissionais que ainda sobreviviam em um Parlamento sob intervenção, sobretudo os velhos pessedistas, seria o abaixar de orelhas.  Uma eventual postura de repulsa resultaria em cassações em série e no fechamento da Casa.            


No dia seguinte, 10 de abril, o "Supremo Comando Revolucionário" publicou a primeira lista de brasileiros que tinham mandatos cassados e/ou seus direitos políticos suspensos por dez anos.  Um dia depois (11 de abril), um Congresso Nacional mutilado e sob ameaça de novas cassações e baioneta, "elegeu" para a presidência da República o marechal Castelo Branco e, para a vice-presidência, José Maria Alkmim, velho político mineiro, um dos fundadores do PSD, ex-ministro da Fazenda de Kubitschek e que, na oposição a Jango, aliara-se à UDN5.


         A célebre onda conservadora que assola o universo virtual brasileiro, embora não se limite a este objetivo, se configura em boa parte como uma tentativa de conquista dos segmentos que foram denominados pela mídia, nos últimos anos, como "nova classe média".  São milhões de pessoas que, apesar de terem ampliado seu acesso a bens, serviços e informação, em alguns casos abrindo caminho rumo às universidades, ainda padecem de uma crônica escassez de escolaridade real, agravada pelo perfil oligárquico dos meios de comunicação.  Isto favorece, entre incontáveis expressões de reacionarismo, a proliferação dos memes "bolsonáricos", que nada mais são do que vulgarizações extremas de teses já superficiais e mal intencionadas em sua origem.
         A esquerda não pode se esquivar deste combate, sob pena de se ver, em futuro próximo, carente de qualquer projeto político viável.    


Notas:

1- Thomas Skidmore.  Brasil: de Getúlio a Castelo.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 370.

2- Luiz Alberto Moniz Bandeira.  O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil, 1961-1964.  Rio de Janeiro: Revan; Brasília: EdUnb, 2001, p. 171.

3- Lincoln de Abreu Penna.  República brasileira.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 266.

4- José Paulo Netto.  Pequena história da ditadura brasileira.  São Paulo: Cortez, 2014, p. 69.

5- Idem, p. 72.






  

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A história de Matias


            

            O escravo "pardo" Matias, nascido em 1809 e batizado na freguesia carioca de São José, era filho da "crioula" Maria.  Ambos pertenciam originalmente a João Coelho Marinho, homem casado com D. Francisca das Chagas.  Quando mandou lavrar testamento, em 1824, Francisca determinou que a partir de sua morte Matias se tornaria liberto, sendo o valor do jovem descontado de seu quinhão na sociedade conjugal.  Antes disto, entretanto, o casal entrou em um período de brigas que resultou em ação de divórcio.  Tendo Matias na conta de "vadio", o senhor decidiu vendê-lo em 1826.  Após conhecer diversos donos, o escravo foi comprado pelo bispo Conde de Irajá, em 1840, mas este não seria seu último destino no cativeiro; em 1847, passou das mãos do bispo às de Francisco de Sales Torres Homem, na época um jornalista liberal que ostentava os diplomas de médico e advogado¹.
         Fugindo da casa de Torres Homem em maio de 1848, Matias obteve uma certidão da verba testamentária de sua antiga senhora Francisca das Chagas, documento que confirmava a promessa de alforria.  Logo depois, buscou a Justiça na intenção de ratificar a condição social pretendida, e recebeu um mandado de manutenção de sua liberdade. Alguns anos mais tarde, porém, Torres Homem tentou resgatar o que ainda entendia como sua propriedade, e deu início a uma batalha judicial, no princípio desfavorável a Matias.  O juiz de primeira instância encarregado do caso compreendeu que a venda efetuada por João Coelho Marinho revogava automaticamente a verba testamentária estabelecida pela esposa.  Matias escapou de uma apreensão imediata exibindo o mandado de manutenção aos oficiais de Justiça, mas tudo indicava que a vitória final caberia a Torres Homem.  Este, surpreendentemente, procurou o juiz desembargador do Tribunal da Relação, que julgaria o recurso à sentença inicial, e declarou, no dia 1º de setembro de 1852, que abria mão de seus direitos, de maneira que "o apelante ficasse livre e gozasse de sua plena liberdade, como se nascesse de ventre livre²".  
          Provavelmente, mais de um fator contribuiu para a desistência de Torres Homem.  Aos 43 anos, Matias se apresentava, segundo a lógica do mercado de escravos do Rio de Janeiro, como um trabalhador velho, com valor em queda constante, mesmo que se conservasse vigoroso. Devemos também considerar que seu último senhor, filho do padre Apolinário Torres Homem, tinha como mãe, conforme as palavras do também padre João Manuel de Carvalho, "uma preta quitandeira que estacionava no largo do Rosário para fazer o seu negócio³". Talvez Torres Homem, durante o longo tempo de que dispôs para refletir sobre a querela, houvesse concluído que existia desumanidade em atirar de volta à escravidão uma pessoa cujo histórico familiar continha semelhanças com o dele próprio.  Aliás, é igualmente possível que Matias, ao tomar a decisão radical de fugir e tentar viver como livre, tenha antes experimentado uma ampliação de seu sentimento de revolta, ao se notar sob o jugo de um senhor de cor semelhante à sua e filho de mãe nascida escrava.   
        Além de tudo, e principalmente, Matias era um homem que não reconhecia qualquer legitimidade em seu cativeiro.  Apegado à antiga promessa de liberdade, constituiria um risco permanente para qualquer proprietário, pela disposição de fugir, pela falta de ânimo para trabalhar, pela possibilidade concreta de um dia empregar a violência física no intuito de se afirmar como livre.  Nada disto escaparia da percepção de um intelectual do porte de Francisco de Sales Torres Homem. 
         A organização socioeconômica escravista foi extinta há bem mais de um século.  Todavia, não pode ser tratada como um "tecido morto", como quer parte da historiografia brasileira contemporânea. Muitos de seus elementos ideológicos foram incorporados pela ordem burguesa que a sucedeu, em particular uma hierarquia étnica que impõe, além da desvalorização da vida do negro, a expectativa quase generalizada de que, quanto mais a aparência de uma pessoa se aproxime dos fenótipos africanos, menores sejam sua compreensão do mundo real, sua capacidade de desempenhar tarefas intelectuais, e mesmo sua confiabilidade no terreno das relações pessoais.
          É tarefa essencial para todos os que pensam à esquerda desmistificar e esvaziar na maior medida possível, com todos os meios ao seu alcance, estes lugares comuns e seus desdobramentos no cotidiano, com a mesma intensidade que, consensualmente, atribuímos à necessidade de combater as hierarquias de classe e gênero.  Ainda vivenciamos, de forma muitas vezes escandalosa, o que Domenico Losurdo definiu precisamente como a "tríplice discriminação" que caracteriza as sociedades capitalistas.  Um capitalismo sem a aceitação tácita da maioria do poder do burguês-conservador-branco-heterossexual-proprietário, se não desmoronasse de imediato, pareceria uma mesa de jantar com as pernas serradas em quase todo o seu diâmetro, mantida de pé a duras penas pelas forças mais diretamente interessadas, mas sujeita à queda com um simples esbarrão.  
       Não importando as restrições que a grande mídia e os teóricos conformistas queiram aplicar às nossas reflexões contestatórias, a título de "limite civilizatório" ou algo ainda mais cínico, é preciso prosseguir.  É preciso negar, a todo momento, o caráter supostamente natural, ou espontâneo, de relações que foram construídas na História e nada tiveram, ou têm, de inevitáveis.  Uma esquerda que venha a se acomodar, no todo ou em parte, à "tríplice discriminação", não será esquerda de fato, a não ser no discurso dos anticomunistas histéricos; na melhor das hipóteses, uma aristocracia generosa, como o PSDB da Constituinte de 1988, transfigurado pelos fatos da década seguinte.                                                      
            
Notas:

1- Ver Sidney Chalhoub.  A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista.  São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 268-269. 
2- Idem, p. 268 a 270.
3- Cf. R. Magalhães Júnior.  Três panfletários do Segundo Reinado.  São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956, p. 6-7.