segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vencemos: os racistas vão à lona




      Recebi, no dia 23 de julho, uma notícia das mais animadoras: um grupo significativo de participantes do Facebook, efetuando denúncias simultâneas junto à administração daquela rede social, conseguiu o fechamento da comunidade racista Orgulho de Ser Branco (http://www.facebook.com/BrancosOrgulosos?ref=ts&fref=ts), cujos donos se gabavam de uma invulnerabilidade sustentada por advogados simpatizantes da causa.  Desta maneira, desmoronou uma conexão que levava mensagens supremacistas, disfarçadas sob a capa de orgulho identitário, a mais de oito mil pessoas. Aparentemente, a página foi reaberta com novo título, Brancos Orgulhosos (https://www.facebook.com/BrancosOrgulhososOficial?fref=ts), embora outras comunidades nanicas também reivindiquem a "herança" da que acabou derrubada.  O mais importante, no que diz respeito  a tais episódios, é a constatação de que os racistas amargaram o retardamento de seus "trabalhos": pela dinâmica do Facebook, precisarão de anos para recuperar a quantidade de likes que exibiam. Isto, se não tiverem novas surpresas, vindas da polícia ou da Justiça.
          Já se tornou notória a relutância das redes sociais, pelo menos durante o presente período eleitoral, em bloquear comunidades e perfis pessoais alinhados com a direita, mesmo quando estes assumem comportamentos injuriosos e difamatórios ou incitam à violência explícita.  Todavia, podemos verificar com satisfação que outras páginas racistas vêm sendo eliminadas ao longo de 2014. Somente no Facebook, caíram a Orgulho de Ser Branco "genérica" (http://www.facebook.com/pages/Orgulho-de-ser-Branco/219447141525948?ref=ts&fref=ts) e mais duas que funcionavam sob o rótulo de Raça Branca e Associação de Eurodescendentes (http://www.facebook.com/RacaBrancaForcaeHonra?ref=ts&fref=ts e (http://www.facebook.com/pages/ONG-Ra%C3%A7a-Branca-e-Euro-Descendentes-da-Am%C3%A9rica-do-Sul/587466391298795?ref=ts&fref=ts).  
 Outro espaço do gênero, Orgulho Eurodescendente (http://www.facebook.com/OrgulhoEurodescendente?ref=ts&fref=ts), onde antes se encontravam raivosas postagens supremacistas, foi convertido, sem dúvida para evitar o fechamento, numa comunidade festiva, que se limita a mostrar atrações turísticas do continente europeu e fotografias comportadas de belas modelos louras.  Ainda assim, reúne hoje menos de dois mil seguidores. 
           Parabenizo os numerosos militantes progressistas que vêm tomando parte neste processo de combate ao racismo pelas vitórias conquistadas.  O lugar legítimo dos racistas, tanto no mundo real quanto no virtual, deve ser o limbo.  Merece ser igualmente comemorada a percepção de que aquele tipo de propaganda depende, para se manter na Internet, de um punhado de filonazistas que, na prática, abrem e reabrem todas as páginas.  Cedo ou tarde, terão o destino da criatura que se escondia debaixo do pseudônimo de Silvio Koerich.  Enquanto isto não acontece, podemos nos divertir publicando nas comunidades deles algumas imagens chocantes dos "malefícios da miscigenação":

      Micaela Reis  
          
         
                                                                   Marcia Idelfonso


Katiely Kathissumi


Michelle Martins


Ivi Pizzott




           




segunda-feira, 7 de julho de 2014

Para que mesmo estudar História?



            O jornal Folha de São Paulo, em 20 de dezembro de 2011, anunciou que o governo Alckmin reduziria as cargas horárias de História e Geografia, para os alunos do Ensino Médio, em 25% e 14%, respectivamente.  Seriam também extintas as aulas de aprofundamento, destinadas à preparação dos interessados em fazer exames vestibulares. (Ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/15993-sp-reforca-sociologia-filosofia-e-artes-mas-corta-aula-tradicional.shtml)  A notícia, que provocou forte indignação entre o professorado, não deve ter surpreendido em grande proporção os bons conhecedores de um político cuja característica mais saliente é o conservadorismo rançoso.  Só não me atrevo a rotulá-lo como o pior quase-presidente que o país já possuiu pelo risco de cometer injustiça contra os demais candidatos de peso a este título, a exemplo de Júlio Prestes e Juarez Távora. 
           Atitudes como a do atual governo paulista prosperaram em outras fases de nossa era republicana.  A reestruturação do ensino implantada pelo ditador Médici, através da Lei nº 5692 de 1971, fundiu as matérias escolares História e Geografia em uma nova, os Estudos Sociais, cuja ênfase na memorização de dados factuais ocasionou um severo esvaziamento dos conteúdos.  Lembro-me bem, ainda que não tenha localizado referências na Internet, que Fernando Collor, no início de sua gestão, lamentou a preferência, entre os estudantes brasileiros, pelas Ciências Humanas, declarando algo como "a universidade no Brasil não produz riqueza".  
           Não devo me restringir à acusação tão velha quanto verídica de que a direita tende a desvalorizar as disciplinas que favorecem a crítica do status quo, ou a desconstrução de seus valores.  As declarações dos dirigentes citados, e de muitos outros, além, é claro, de suas diretrizes para o setor educacional, formaram e continuam a formar opinião. Com notável frequência, encontramos pessoas completamente apartidárias e desinteressadas pelo jogo eleitoral que veem historiadores, geógrafos, cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e filósofos como cultivadores de uma erudição vazia, sem qualquer efeito prático na vida cotidiana. É com aqueles "homens comuns", na verdade, que desejo dialogar sobre a utilidade da História, e não com os agentes intencionais da alienação.
           Evitarei o expediente de construir um texto retórico pontuado por termos-chave como conscientização, politização e cidadania.  Embora isto seja possível, provavelmente seria entediante ao extremo.  Prefiro, então, resgatar para os leitores três processos históricos repletos de diferenças, mas suscetíveis de gerar longas e importantes reflexões.  
                              
                                                                     (...)                         

           Entre julho e setembro de 1683, exércitos turcos que somavam 200 mil homens mantiveram sob cerco a cidade de Viena, capital do Império da Áustria, governado pela dinastia Habsburg.  Os atacantes eram comandados pelo grão-vizir Kara Mustafá, amigo pessoal do sultão Mehmed IV, credenciado por uma notável vitória sobre as tropas polonesas de Jan Sobieski, onze anos antes, em batalha às margens do Rio Dniester.


                          

          
         O imperador austríaco Leopoldo I, abrigado na localidade de Passau, pediu ajuda a outros governantes cristãos.  Recebeu auxílio financeiro do Papa, voluntários do norte da Itália e da Alemanha, soldados dos reinos germânicos da Baviera e da Saxônia.  Contava igualmente com a vinda de Jan Sobieski, agora rei da Polônia, que marchava para o sul a partir da região montanhosa dos Cárpatos.  
        As forças de resistência foram beneficiadas pela ambição de Kara Mustafá, que preferia esperar por uma rendição da cidade, para se apossar de seus tesouros, do que entrar numa Viena em ruínas que pouco teria a oferecer.  Somente no final de agosto, quando os poloneses já haviam chegado ao Danúbio, o grão-vizir ordenou o ataque geral.  A 12 de setembro, os turcos conseguiram explodir parte da muralha vienense, mas àquela altura precisavam lutar corpo a corpo com a infantaria germânica que fustigava seu acampamento.  Quando a cavalaria polonesa atingiu a "cidade de tendas" construída por ordem de Kara Mustafá, o grão-vizir teve que fugir às pressas em direção a Buda, na Hungria, e depois Belgrado, na Sérvia. 
       Para não arcar com o custo político de uma derrota desastrosa, Mehmed IV orientou seu braço direito a devolver os símbolos de sua autoridade civil e militar e, em seguida, "entregar a alma a Alá".  Em 25 de dezembro de 1683, Kara Mustafá foi executado por estrangulamento, com uma corda de arco e flecha, em Belgrado. Os austríacos, por sua vez, recuperaram a estratégica cidade de Esztergom, quebrando o controle turco sobre o médio Danúbio e lançando a base para futuros avanços territoriais¹.
          Decorridos mais de dois séculos e meio, o alemão Alfred Rosenberg, em novembro de 1941, foi promovido a ministro dos territórios orientais ocupados pelo III Reich.  Sua proposta de criar Estados independentes na região, para mobilizar seus povos contra o comunismo, não contou com a aprovação de Adolf Hitler.  O Führer, embora nascido em Braunau am Inn, na Áustria outrora salva por Jan Sobieski, considerava todos os eslavos como seres subumanos, cuja única utilidade seria a de servir às necessidades da raça superior. Assim, houve o fechamento das escolas da Polônia, pois o país deveria se limitar a fornecer trabalhadores braçais.  O Plano Geral do Leste, elaborado pelo comissário Himmler, previa que todos os poloneses, além dos habitantes das nações bálticas e da parte ocidental da União Soviética, sofreriam remoção, dando lugar a colonos germânicos ou "regermanizáveis"².  


                                                                          (...)

            O corsário David Jewett, comandante do navio Heroína, chegou às Ilhas Malvinas em 27 de outubro de 1820, a mando de Manuel de Sarratea, governador de Buenos Aires.  Jewett tomou posse do arquipélago, abandonado pelos espanhóis há nove anos, em nome da autoridade portenha.  Ali foi estabelecida uma pequena colônia argentina, que se dedicou à criação de ovinos. Nomeado comandante militar da localidade de Puerto Soledad em 1829, o comerciante franco-alemão Luis Vernet proibiu a caça da baleia nas Malvinas, medida que não funcionou, pela falta de homens e barcos para efetuar a repressão.  Dois anos depois, o presidente Rosas revogou a proibição, criando em seu lugar um imposto que deveria ser pago pelas embarcações pesqueiras. Os capitães dos baleeiros, porém, passavam ao largo de Puerto Soledad ignorando o fisco argentino. Confrontado com a ampliação das atividades ilegais, Luis Vernet apreendeu três navios norte-americanos que carregavam peles de foca.





             A revanche não tardou: em 28 de dezembro de 1831, a fragata Lexington, da marinha dos Estados Unidos, atacou Puerto Soledad, destruiu a artilharia e a munição da guarnição argentina e capturou seis de seus oficiais.  Rosas, através do ministro Maza, das Relações Exteriores, apresentou um protesto oficial e expulsou de Buenos Aires o cônsul norte-americano Slacum e seu compatriota Bayles, encarregado de negócios.  Antes de sair do país, a dupla alertou a representação britânica a respeito da vulnerabilidade das ilhas.  Um ano mais tarde, exatamente a 2 de janeiro de 1833, a corveta inglesa Clio, sob o comando do capitão John James Onslow, desembarcou nas Malvinas. Impossibilitado de resistir, o governador provisório Pinedo se curvou à ordem de expulsão e retornou a Buenos Aires.  Os britânicos simplesmente deixaram sem resposta as reclamações subsequentes de Rosas³. 
         Cento e cinquenta anos após o ataque norte-americano a Puerto Soledad, ascendeu à presidência da Argentina o general Leopoldo Fortunato Galtieri, homem afinado com as metas de Ronald Reagan a ponto de conseguir, no início de sua administração, o fim das sanções impostas a Buenos Aires pelas violações dos direitos humanos.  Galtieri ordenou a retomada das Malvinas, realizada em 2 de abril de 1982, sob os aplausos da comunidade latino-americana em geral, mas enfrentando a reprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que declarou a Argentina como "nação agressora".  Os militares argentinos tentaram em vão pressionar o governo Reagan, que adotou a princípio a posição de mediador do conflito, a ficar do seu lado, invocando o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca).  Quando uma força-tarefa britânica chegou à região das Malvinas, em fins de abril, o governo dos Estados Unidos abandonou a mediação.  O Senado de Washington votou novas sanções econômicas contra a Argentina e ofereceu apoio logístico à Grã-Bretanha.  As tropas argentinas se renderam incondicionalmente, em 14 de junho, e a renúncia de Galtieri foi exigida por seus próprios companheiros de generalato4.  Tal como no século XIX, os norte-americanos tomaram partido de sua ex-metrópole contra os portenhos.  

                                                                        (...)

         O sertanista baiano Fernão Carrilho, agindo sob as ordens do governador da capitania de Pernambuco, Dom Pedro de Almeida, comandou uma expedição que, entre setembro de 1677 e fevereiro de 1678, causou graves danos aos quilombolas de Palmares. As investidas contra vários mocambos possibilitaram a captura de mais de cem pessoas, entre elas vinte parentes do rei Ganga Zumba. Nesta conjuntura vantajosa para as autoridades coloniais, um novo governador, Aires de Souza de Castro, que assumiu a administração da capitania em abril de 1678, firmou um tratado de paz com Ganga Zumba.
         O chefe palmarino, com uma comitiva de quarenta pessoas, chegou a Recife em novembro, sendo nomeado "mestre de campo de toda a sua gente".  Dois de seus filhos foram adotados pelo governador.  Quatrocentos seguidores de Ganga Zumba rumaram para a área do Cucaú, situada a 32 quilômetros de Serinhaém, onde ficavam terras que lhes caberiam segundo o tratado. Embora os quilombolas tenham recebido a liberdade e o perdão da Coroa, este critério não se aplicava a todos: os fugitivos dos engenhos deveriam ser devolvidos aos proprietários.  Enquanto isso, a região da Serra da Barriga, na qual antes se concentravam os palmarinos, foi dividida entre soldados e senhores que tinham apoiado a expedição de Carrilho.
           O Conselho Ultramarino, instalado em Lisboa, aprovou as cláusulas do tratado em parecer datado de 26 de janeiro de 1680.  Contudo, Cucaú se revelou uma experiência política fracassada. Apesar de terem prestado auxílio a diversas expedições punitivas contra Zumbi, que colocara sob sua liderança os mocambos insubmissos, os ex-quilombolas eram alvo dos mesmos soldados e sertanistas que pouco antes tinham forçado sua rendição.  Eles entravam em Cucaú em busca de fugitivos, destruíam roças e, nos termos de Silvia Hunold Lara, "punham em risco as trocas comerciais com os moradores da vizinhança".  Como o acordo que "pacificou" os adeptos de Ganga Zumba não passara pelo crivo das câmaras municipais, certos proprietários se queixavam de que os negros haviam ficado com as melhores terras.
      As disputas internas ocorridas em Cucaú resultaram numa conspiração e no envenenamento de Ganga Zumba.  Um dos filhos do líder morto, que tomava parte nas negociações com Zumbi, atuou também na repressão das tropas coloniais aos amotinados.  Após três meses de combate, a resistência acabou sufocada: os quase 200 prisioneiros sofreram a pena de servidão perpétua, sendo repartidos entre grandes fazendeiros. Um alvará emitido em Lisboa no dia 10 de março de 1682, com o intuito de solucionar as pendências jurídicas geradas pelo processo de reescravização, sequer mencionava o nome Cucaú5. 
      Os episódios relacionados a Palmares e Cucaú são quase inteiramente ignorados pelos brasileiros, que em sua maioria retêm apenas a imagem construída no Ensino Fundamental de Zumbi como um guerreiro meio mítico que foi decapitado, ou, numa perspectiva inspirada por Luiz Mott e Leandro Narloch, um cruel homossexual escravagista que precipitou o fim do maior quilombo das Américas.  Não é de espantar, portanto, que a submissão completa aos interesses dos ricos e poderosos, dos quais se espera uma improvável benevolência, ou apenas um pouco de migalhas e de sossego, seja a opção política preferencial de milhões. 
          O estudo da História, além de bastante útil, é vital.      
                                          
                          
Notas
1-Ver Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 8 a 14.  
2-Cf. Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 270.             
3- Ver Felipe Pigna. Los mitos de la historia argentina 2.  Buenos Aires, Planeta, 2004, p. 197 a 199. 
4- Ver Luis Alberto Romero.  História contemporânea da Argentina.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 217 a 223. 
5- Cf. Silvia Hunold Lara.  Marronage et pouvoir colonial.  Palmares, Cucaú et les frontières de la liberté au Pernambouc à la fin du XVIIe siècle.  Annales, 67 n. 3, p. 639-662.
           


domingo, 29 de junho de 2014

Como me defini à esquerda


       

          Fui criado e vivi até os vinte e cinco anos no bairro da Tijuca, situado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, cuja imagem mais corriqueira é a de reduto da classe média conservadora. Muito cedo, logo na década de 70, pude notar que na verdade existiam pelo menos três tipos de cidadão tijucano. Os moradores ditos de classe média média (ou média alta), instalados em apartamentos amplos nas áreas consideradas nobres, não raro proprietários de dois automóveis, cultivavam certas prevenções, por vezes manifestadas sem disfarce, contra uma classe média baixa que se mantinha com sacrifício em imóveis menores, localizados em edifícios mais velhos, ou casas decadentes herdadas de pais e avós de melhor poder aquisitivo.  Estes dois segmentos, entretanto, se mostravam solidários na atitude preconceituosa contra os habitantes das diversas favelas vizinhas: Borel, Casa Branca, Chácara do Céu, Formiga, Salgueiro.  Lembro-me bem de ocasiões em que inspetores escolares, nos distantes tempos em que eu ainda não havia concluído o Primeiro Grau, aconselhavam os alunos dos colégios particulares a guardar distância dos jovens "do morro".  A sentença "vocês são de família" funcionava como argumento básico para legitimar barreiras que, embora abstratas, não costumavam ser contestadas.
     As condições de vida dos "favelados" (o termo comunidade ainda não entrara em uso), combinadas ao discurso midiático que já os tratava, em regra, como criminosos em potencial ou, no mínimo, coniventes com ladrões e traficantes, reforçavam o asco e o isolamento entre pessoas que dividiam diariamente as calçadas tijucanas.  Durante quase toda a presidência de Ernesto Geisel, residi em um apartamento de fundos da Rua Conde de Bonfim, principal artéria do bairro. Espaço confortável portas adentro, de cujas janelas visualizava, a poucas dezenas de metros, um cortiço próximo ao poluído Rio Maracanã; pouco adiante, estavam as encostas do Borel.  Sendo precária a coleta de lixo fora das áreas urbanizadas, restos de todo gênero se acumulavam durante vários dias em grandes caçambas. Os pobres da época, quando escasseavam os biscates, frequentemente exibiam os sinais da desnutrição. Muitos andavam sujos, sem camisa ou com roupas rasgadas, e me recordo de ter visto, incontáveis vezes, sandálias Havaianas de cores diferentes em um mesmo par de pés.  Penso que seus netos que vivem hoje, mesmo os que permanecem nas classes D e E, se sentiriam privilegiados caso pudessem localizar seus avós em um fictício túnel do tempo.   
        Não havia, então, escola pública no Borel, que enviava boa parte de suas crianças à Escola Municipal Barão de Itacuruçá, onde também estudei da primeira à quarta série.  O colégio, situado na Rua Andrade Neves, ficava a cerca de um quilômetro e meio do morro.  Os que tinham a pretensão de concluir, pelo menos, o Primeiro Grau, precisavam enfrentar, além da disputa acirrada pelas vagas, o trajeto, que calculo em uns quatro quilômetros, até a Escola Orsina da Fonseca, quase na outra extremidade do bairro.  Posso afirmar com convicção que se qualquer daqueles meus contemporâneos proferir a conhecida frase "não tive chance de estudar", deve merecer crédito até forte prova em contrário.
        Conservador, sem dúvida, era o tijucano médio nas fases finais do período ditatorial.  Isto não quer dizer que a Tijuca constituía um terreno impermeável ao brizolismo e, mais tarde, ao petismo; se os comerciantes locais, diretores e gerentes da iniciativa privada e detentores de chefias no serviço público compunham um eleitorado sólido para a direita, muitos profissionais liberais e assalariados com empregos de alta qualificação tinham o comportamento oposto diante das urnas. Meus próprios pais votavam sistematicamente contra a ARENA (depois PDS), e sempre que possível em candidatos socialistas. Pelo que retive na memória, a experiência de viver numa ditadura desagradava à maioria dos tijucanos nos anos Geisel e Figueiredo, com a provável exceção da comunidade militar.                       
        Apesar do ambiente doméstico que favorecia a elaboração de valores mais à esquerda, não fui o típico adolescente politizado, embora me interessasse pelo noticiário político nacional e internacional.  Não participava de qualquer militância, e sequer me empolguei, nos primórdios da redemocratização, pela candidatura de Fernando Gabeira ao governo do estado do Rio, uma febre fugaz, porém intensa, que contagiou quase toda a "juventude conscientizada" carioca.  Escapei, bem mais por sorte do que por mérito, de um voto que depois preferiria esquecer.  
      Abriguei no pensamento, entre os quatorze e os vinte anos, numerosas contradições.  Rejeitava com fervor o conservadorismo dominante no ambiente ao meu redor, tanto pelas múltiplas discriminações que formavam sua base quanto pela hipocrisia generalizada que marcava sua prática.  Por outro lado, não fiquei imune às seduções do discurso neoliberal do início dos anos 80. Mais de uma vez acreditei, ou tentei acreditar, que com um punhado de boas ideias e uma dose extra de suor poderia saltar, no futuro próximo, para o mundo dos milionários.  Meu círculo de relações expressava estes conflitos: ao lado de vários amigos tidos como "socialmente inferiores", havia um número semelhante de filhos de famílias abonadas, mas indóceis aos padrões convencionais.  Eu era uma espécie de rebelde, porém ainda não um esquerdista.  Minha mãe precisou empregar vastos recursos persuasivos para me convencer a votar, nas eleições estaduais de 1986, em Darcy Ribeiro, do PDT. Esforço, aliás, mal recompensado: contra Darcy e Gabeira, prevaleceu o ex-pedessista Moreira Franco, do PMDB, apoiado pelo governo Sarney. 
           O ingresso no mercado de trabalho, por volta dos vinte anos, dissipou com rapidez a maior parte das minhas ilusões de adolescente.  Não conhecia a expressão "moinhos de gastar gente", do mencionado Darcy Ribeiro, mas talvez pudesse descrever com tais palavras o capitalismo real que surgiu diante de meus olhos durante os quinze meses em que, atuando como funcionário de um departamento de pessoal, lidei com trabalhadores de todas as idades e níveis de escolaridade. Longe de parecer um largo trampolim para o sucesso, o "sistema" se apresentava agora como um jogo de cartas marcadas que dependia, para continuar funcionando, da adesão da maioria dos homens ao conjunto de preconceitos dos grupos dirigentes e, é claro, de seus múltiplos medos. 
            Faltava apenas, para me fixar à esquerda, um suporte ideológico, que se formou ao longo da graduação em História, realizada na UERJ.  O curso, noturno, reunia estudantes que, em sua maioria, vinham de longe e trabalhavam em horário integral.  Dedicava-me mais ao extinto Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ), no qual ingressei por concurso em 1989 e fui escriturário e caixa, do que aos textos das disciplinas.  A rotina dos alunos deixava pouco espaço para a militância.  Entre os professores, o único doutrinador característico era um direitista, que me deu aulas no primeiro período.  Fascinado pela obra de François Furet, ele tentava desqualificar o marxismo de todas as maneiras ao seu alcance, desde a colagem de rótulos como "positivismo de sinal trocado" até a repetição da falácia de que "Marx pretende explicar tudo através do fator econômico".  Não o fazia com grande assiduidade: gostava mais dos vinhos do que dos discentes proletários que, sem investir no confronto, pouco se interessavam em absorver suas ideias. Faltava com uma constância indecente, ou comparecia meio embriagado, e por fim acabou neutralizado pela nomeação para um cargo comissionado que exigia apenas a sobriedade necessária para carimbar e rubricar um punhado de documentos por semana.
           Não foi o comportamento do antigo mestre, entretanto, que me empurrou decisivamente para a esquerda, mas sim as incursões que fazia, nas horas vagas, na biblioteca do departamento. Ali, invariavelmente sozinho, buscava nas prateleiras destinadas às Ciências Humanas  o que me instigava, ao invés das leituras obrigatórias.  Livros como Ocidente Traído, de Jorge Boaventura, atiçavam minha ira de pós-adolescente contra as elites conservadoras às quais nunca quis, de fato, pertencer.  Naquele processo, digeri longamente uma obra clássica de Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil, que hoje consulto em pdf, a partir do site http://www.dominiopublico.gov.br/. Nela, encontrei a essência de tudo que desejava combater e antes não distinguia com clareza.        
        O intelectual fluminense celebrava, junto com o poder hereditário que se expressara através do regime monárquico, o imobilismo político que sempre beneficiou as classes dominantes. 
         
                  





           Também apontava como elemento benéfico a associação entre conservadorismo político e autoritarismo.  



          O complexo de colonizado que marcava o autor, partidário da importação de modelos civilizatórios, apesar de suas indiscutíveis qualidades literárias, conflitava com minhas posições favoráveis à autodeterminação dos povos.    









         O pior, contudo, se concentrava nas páginas gastas em considerações racistas. Vários anos antes da ascensão de Hitler, era exaltada uma suposta dominação do Brasil, no Império e na República, pelos "arianos" migrados do outro lado do Atlântico.  Não obstante sua condição de mulato, assinalada por muitos críticos, Oliveira Viana relacionava a mestiçagem brasileira a distúrbios morais e emocionais.    









           Da condenação  do mestiço, onipresente em Populações meridionais do Brasil, decorria um desprezo pelo pobres e subalternos, desprovidos, salvo casos excepcionais, do sangue ariano salvador.                   






         Com uma sinceridade notável para os "nossos" conservadores, Oliveira Viana enaltecia o próprio racismo, visto como instrumento essencial para a manutenção da ordem.  





         Como contraponto às monstruosidades que catalogava, comprei o livro A ideologia do colonialismo, de Nelson Werneck Sodré (Petrópolis: Vozes, 1984).  Vibrei, e me senti algo vingado, com as 76 páginas ácidas dedicadas por Sodré a Oliveira Viana, pontuadas por expressões como "delírio ariano", "deformação histórica" e "racismo colonialista". Ninguém, no plano da política convencional, se expressa atualmente nos termos de Oliveira Viana, a respeito de quem precisamos registrar que, na produção pós-Segunda Guerra, moderou de maneira sensível seu "elitismo selvagem".  Permaneço crendo, todavia, que as premissas básicas dos liberais conservadores, conservadores "puros", monarquistas e fascistas brasileiros ainda são, nos aspectos mais fundamentais, as de Populações meridionais do Brasil.  Contra elas, devo persistir nas lutas pela igualdade e pela democracia popular.       

terça-feira, 17 de junho de 2014

A bravata dos "orgulhosos"



          Muitos leitores, certamente, tomaram conhecimento da postagem anterior, na qual coloquei em destaque a continuidade dos procedimentos delituosos dos membros da comunidade do Facebook "Orgulho de ser Branco".  Um bom número de pessoas declarou ter feito, perante os administradores da rede, a necessária denúncia, fundamentada nos múltiplos artigos e comentários racistas que ali encontram espaço.
      Diante da morosidade, talvez omissão, dos responsáveis pela supressão deste tipo de conteúdo, um dos moderadores da "OSB" decidiu se vangloriar da suposta intocabilidade da página, com base numa interpretação complacente do que acredita ser o Código Penal.  



        Possivelmente alguém se lembrará de que no texto de ontem, na parte em que me referi à risível proposta de estabelecer um país só para brancos no Cone Sul, preferi não cogitar sobre o que os "orgulhosos" fariam, na hipótese de serem bem sucedidos, com os índios, negros e mestiços da região.  Pois bem: hoje procurei verificar, e constatei que, de saída, uns vinte milhões de chilenos e bolivianos se transformariam em refugiados!  



              Ainda no mesmo tópico, a moderação da comunidade explica que o estado de São Paulo ficou excluído do mapa da Brancolândia pela mera impossibilidade de expulsar todos os "indesejáveis". 






           Percorrendo a página com mais atenção, pude notar a extensão do filonazismo entre seus aderentes. O já mencionado Eduardo Fornaciari endossa sem meias palavras a teoria negacionista do Holocausto.




         A seu turno, Phelip Santos se empolga com o nacionalismo exaltado e com uma presumida "ordem ideal", existentes na Alemanha de Hitler. 




         O português João Silva, que mistura em suas intervenções tradicionalismo e racismo furioso, culpa ingleses e franceses (!) pelo desvirtuamento das propostas originais do nazismo. 





                  João Silva, em outra passagem, se volta contra os negros, que para ele possuem uma espécie de "racismo original".




             No calor de uma discussão sobre política imigratória, outros membros, como Gutierre de Almeida e  (mais uma vez) Phelip Santos destilam ódio contra diversas populações classificadas como não brancas.




          Estimulados pelo conhecido expediente dos líderes de comunidades racistas de postar vídeos sobre crimes comuns praticados por homens negros como se fossem ataques deliberados contra os brancos, Rafael Zanotti e Roberto Diniz incorrem no mais velho de todos os insultos "raciais".




          
      Alguns companheiros, inegavelmente comprometidos com os interesses dos setores populares,  desistem do recurso à denúncia ao se deparar com a má vontade da administração do Facebook. Compreendo esta atitude, apesar de saber que em tais situações a persistência costuma trazer bons resultados.  Porém, o protesto "interno" está longe de ser o único recurso contra o racismo na Internet.   Podemos deixar o caso dos "orgulhosos" a cargo da Polícia Federal (crime.internet@dpf.gov.br), do Safernet (http://www.safernet.org.br/site/denunciar) ou ainda da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (ouvidoria@seppir.gov.br; seppir.imprensa@seppir.gov.br).   
      Disponibilizarei, em vários lugares virtuais, os prints racistas para quem desejar tomar suas próprias providências.  
        



segunda-feira, 16 de junho de 2014

Detonem os racistas!



        Volto hoje a uma das muitas páginas racistas do Facebook, já denunciada aqui e em diversos outros espaços do mundo virtual.  Contra toda lógica, sem falar no senso de justiça mais elementar, a comunidade Orgulho de ser Branco (https://www.facebook.com/BrancosOrgulhosos?fref=ts), nitidamente supremacista e com evidentes simpatias pelo nazismo, apesar das patéticas alegações em contrário de seus moderadores, ainda existe!
      Haverá quem diga que perco tempo com garotos analfabetos que não sabem a diferença entre mau e mal, desconhecem a grafia da interjeição hein e cometem atentados gramaticais do tipo "o continente ancestral está sendo invadindo", como vemos nos prints abaixo.  Meu eventual crítico, entretanto, deve levar em conta um dado factual significativo: enquanto alinho estas considerações, 7.797 pessoas concedem um presumido aval à comunidade, tendo acionado em algum momento de suas trajetórias naquela rede social a opção "Curtir".  Assim, continuo a partir da premissa de que nenhum adversário pode ser subestimado pelo mero fato de ser ignorante e produzir asneiras em abundância.              








         Embora se proclamem "apenas orgulhosos", os moderadores permitiram há sete meses que Eduardo Fornaciari fizesse uma apologia nada sutil de determinado homem, sob mais de um aplauso.                    





          Durante a mesma semana, André Aguiar pregou com todas as letras uma guerra racial para restabelecer o domínio branco sobre o mundo.  Até hoje, não recebeu sequer uma simples censura da moderação.




          
       O cidadão que se oculta por trás do pseudônimo de Cavaleiro, por sua vez, desafia qualquer interlocutor a provar que o nazismo matou negros.  Sem muito disfarce, mas também sem apologia ao regime, é claro!           
             



      Apesar de tudo, diante de tal reivindicação apresentarei uma resposta, assumindo o risco de ver o Cavaleiro bradar em triunfo algo como "Hitler não foi o maior carrasco dos negros. Perde até para o Duque de Caxias!". Segundo Nadja Vuckovic, já no Tratado de Versalhes os representantes alemães pediram a exclusão dos soldados originários das colônias africanas francesas do cenário europeu. Entretanto, não foram atendidos, e muitos batedores senegaleses figuraram entre as tropas de ocupação da Renânia, após a dissolução do Império Alemão.  Uma certa "Campanha contra a vergonha negra", deflagrada nos anos 20, associava a imagem daqueles homens à de macacos portadores de impulsos sexuais incontroláveis e de todo tipo de doenças. Sobre os que permaneceram no país depois da ascensão do nazismo, relata a autora que "ante o risco de que os soldados negros desobedecessem à proibição das relações sexuais interraciais, Hitler preferiu mandar esterilizar grande número deles, entre os cerca de 25 mil que viviam na Alemanha em 1935, e deportá-los para campos de trabalho forçado.  No fim de 1937, pelo menos 400 mestiços, denominados pejorativamente 'bastardos renanos', estavam esterilizados, e outros 400 desapareciam nos campos¹".
           A moderação, em outra postagem, nos "explica" que para serem admitidos na categoria de brancos os judeus antes precisam diluir bem o "sangue hebraico".      





           A máscara cai de vez quando moderadores e simpatizantes demonstram seu entusiasmo pelo "projeto" de criar uma cidade ou país só para brancos.




            Para relativo consolo dos leitores que ainda não saíram para vomitar, informo que o Brasil já  foi descartado como sede do paraíso sonhado pelos racistas. 



          Enquanto a moderação delira no rascunho de um "texto constitucional", Wilson Camargo Junior exalta Orania, local tido como último refúgio dos segregacionistas da África do Sul. 




                   
          Os membros mais otimistas da comunidade, ao que parece, trabalham com a ideia de fundar uma nação com milhões de quilômetros quadrados, englobando terras de cinco dos atuais Estados sul-americanos. 




             Prefiro, por ora, não tentar adivinhar como "nossos" fascistas caricatos gostariam de lidar com as maiorias índio-mestiças do Chile e da Bolívia, com os milhões de argentinos da mesma origem, ou ainda com as numerosas comunidades negras do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Vale mais a pena, para quem participa do Facebook, seguir este breve roteiro:

1-Acesse https://www.facebook.com/BrancosOrgulhosos?fref=ts e clique no alto, à direita, escolhendo a opção denunciar.
2- Selecione, consecutivamente, as opções "Discurso de violência" e "É direcionado a uma raça ou etnia".
        Expulsemos o racismo das redes sociais.  Que seus adeptos fiquem relegados ao submundo, no sentido mais depreciativo do termo.       
       
             


              


                       
           
Nota
1- Ver o artigo Quem pede reparações, e por quais crimes? In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p. 901-902.    

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Contra a escravidão, a favor de um Congresso à esquerda

Flagrante da Operação Gato Preto, efetuada no estado de São Paulo

      Há nove meses, após consulta ao site oficial do Ministério do Trabalho, produzi uma breve matéria sobre o trabalho escravo no Brasil contemporâneo:    

http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2013/08/parem-o-moinho-prendam-os-moleiros.html

        Infelizmente, foi sem qualquer espanto que, ao reproduzir o roteiro nesta semana, encontrei um quadro muito semelhante: em outras oito comunicações, referentes apenas ao ano de 2014 (há erro de data no cabeçalho de duas), é possível contabilizar mais de mil pessoas submetidas à escravidão ou, no mínimo, a condições degradantes e/ou insalubres em seus empregos.  Os alvos da exploração extrema parecem seguir o padrão "tradicional": carvoeiros, lenhadores, estrangeiros admitidos em pequenas confecções, mineiros, lavradores diaristas.          
     

















          Além destas notícias, o Ministério publicou há duas semanas um relatório anual que aponta para a gravidade do problema, que se mostra como mazela quase onipresente, não se restringindo de forma alguma a regiões ermas e pouco povoadas.  É lícito e até inevitável suspeitar que a repressão governamental atinge somente uma pequena fração do total de ocorrências.  Sabemos o quanto são corriqueiros os "vazamentos" de informação que impedem a prisão de delinquentes ditos "comuns", por vezes acompanhados de obstáculos impostos ao cumprimento da lei por sócios da criminalidade abrigados em altos cargos dos vários Poderes.  Podemos calcular, portanto, que grau devem alcançar a tolerância e a "boa vontade" para com os infratores titulares de CNPJs respeitáveis, em regra atuantes na política local e alistados nas instituições classistas do empresariado.                          


          Considerando a extensão do território brasileiro, os desequilíbrios econômicos abissais entre regiões por vezes próximas, a enorme oferta de capangas e jagunços talvez em todas as municipalidades e, é claro, a corrupção generalizada, seremos levados a pensar que a erradicação de tais práticas constitui tarefa dificílima para qualquer governo.  Para administrações direitistas, sobretudo, liquidar o trabalho escravo constitui missão impossível, mesmo quando vagamente desejada.  Cada cativeiro desbaratado, cada multa imposta às empresas transgressoras, cada desapropriação, significa um recuo, ainda que minúsculo, da desigualdade social que oferece razão de ser para a própria direita, além de um estímulo à busca por mais direitos por parte dos trabalhadores.  
           Uma coalizão conservadora instalada em Brasília não teria como marginalizar, por exemplo, um esforço como o da senadora Kátia Abreu, do Tocantins, que tenta proibir a divulgação, pelo Ministério do Trabalho, do cadastro dos empregadores punidos pelo recurso ao trabalho escravo. A propósito, acessem, salvem e compartilhem a famigerada lista, para que jamais fiquem ignorados os nomes dos que pretenderam, no começo do século XXI,  fazer o país retroceder ao XIX:


         Entretanto, mais importante do que se indignar e denunciar é aproveitar a ocasião fornecida pelo ano eleitoral e se certificar de que seu voto não beneficiará o latifúndio, a agiotagem legalizada, as federações comerciais e industriais, as grandes emissoras de rádio e televisão, os "tubarões" do transporte. Apenas com a presença maciça de operários urbanos e rurais, bancários, professores, comerciários, ferroviários, rodoviários e demais trabalhadores no Congresso Nacional será viável inclinar a balança política para a esquerda e, assim mesmo lutando acirradamente, remover do cenário brasileiro os resquícios do escravagismo e outras sobrevivências das épocas em que o Brasil disputava com Honduras, Serra Leoa e Botswana a taça do maior índice Gini do mundo.