terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ainda sobre a Palestina: desconstruindo outras mentiras de Joseph Katz


 
         
         Retorno à crítica, iniciada ontem, de um texto de Joseph Katz, reproduzido no site de Matheus Zandona Guimarães, repleto de fraudes e distorções sobre a História da Palestina:

http://ensinandodesiao.org.br/artigos-e-estudos/historia-e-significado-de-palestina-e-palestinos/

          Fazendo uso de argumentos falaciosos, Katz pretende induzir o leitor a acreditar não apenas que toda a Palestina sob mandato britânico estaria destinada à construção de um Estado judeu, como também a vizinha Jordânia.  A instauração de um Israel ampliado, desta maneira, teria sido inviabilizada somente pela perversidade do colonialismo inglês.       

A Declaração Balfour, de 1917, confirmada pela Liga (ou Sociedade) das Nações, comprometeu o governo britânico aos princípios que “o governo de vossa majestade vê com favor o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional Judaico, e fará uso de seus melhores recursos para facilitar a materialização deste objeto (…)”. Ficou então determinado o controle britânico sobre toda a região e que a área seria aberta à criação de assentamentos judaicos. Também determinou-se que os direitos de todos os seus habitantes (já residentes na região) seriam preservados e protegidos. O Mandato Britânico na Palestina originalmente incluía tudo o que é hoje a Jordânia, bem como o que hoje é Israel e os territórios entre eles. No entanto, quando o “protégé” britânico Emir Abdullah foi forçado a abandonar seu domínio hashmaíta na Arábia, os britânicos criaram para ele uma região alternativa para seu reino, localizada ao leste do rio Jordão. Não havia nenhum nome árabe para a região, assim os ingleses a chamaram de “além do Jordão”, ou “Trans-Jordânia”; posteriormente apenas “Jordânia”. Com esta manobra política, que violava todas as regras estipuladas pela Declaração Balfour e pelo Mandato Britânico, os ingleses retiraram 75% da região destinada a ser o “Lar dos Judeus”, como havia declarado a rainha. Não foi permitido que nenhum judeu habitasse na região da Trans-Jordânia (ou Jordânia). Menos de 25% permaneceu da Palestina original do Mandato Britânico, destinado aos “assentamentos judaicos” prometidos pelos ingleses. Além disso, eles restringiram a imigração judaica na região e impuseram restrições quanto ao local onde os judeus poderiam trabalhar, viver, construir ou plantar. Na verdade, as regiões mais deploráveis da então Palestina britânica foram destinadas aos judeus, como os pântanos da Galiléia e as regiões infestadas de malária como Jafa e Tel-Aviv.
           Entretanto, Alan Palmer, em sua obra sobre a decadência do poderio turco, deixa evidente que  a ideia da unidade entre as terras situadas a leste e oeste do Jordão após a Primeira Guerra é falsa, visto que nem mesmo o controle inglês sobre ambas as partes foi determinado na mesma ocasião.   

Quando a Liga [das Nações] começou a funcionar, o Iraque, a Palestina e, mais tarde, a Transjordânia se tornaram mandatos ingleses, enquanto após renhida discussão entre Paris e Londres, a França recebeu o mandato da Síria e do Líbano¹. 

           Outro especialista na História do Oriente Médio, mencionado em meu artigo anterior, reforça a ideia de que a margem leste do Jordão não estava incluída no plano de criação do Estado judeu:
Ao sul da área do mandato francês, na Palestina e na terra a oeste dela, a Grã-Bretanha manteve o mandato.  Devido à obrigação assumida na Declaração Balfour e repetida no mandato, de facilitar a criação de um lar nacional judeu, os britânicos governavam a Palestina diretamente; mas a leste dela, estabeleceu-se um Principado da Transjordânia, governado por outro filho de Husayn, 'Abdullah (1921-51), sob mandato britânico mas sem obrigação em relação à criação do lar nacional judeu². 

        O repertório de balelas de Joseph Katz parece não conhecer limites: em um breve trecho, ele expõe duas teses no estilo que alguns reacionários gostam de rotular como "vitimismo":        
Em 1939, os ingleses decidem proibir toda imigração Judaica para a “Palestina”, algo que era constante desde o século XVIII na região. Esta proibição foi feita no momento em que os Judeus mais precisariam, uma vez que o Nazismo estava fortemente se estabelecendo na Europa e milhões de judeus estavam sendo perseguidos. Milhares que conseguiam escapar dos campos de concentração e tentaram ir para Israel, foram mandados de volta para o inferno, novamente para as câmaras de gás na Europa.
         A primeira sentença, tecnicamente falando, é  uma completa mentira: o rabino Dan Cohn-Sherbok, cuja obra também citei na matéria anterior, revela que, apesar da imposição de certas restrições, a administração britânica não suspendeu a imigração judaica para a Palestina; ao invés disto, foram estabelecidas cotas bastante significativas, se considerada a população total da região naquela época:    

Em 17 de março de 1939, dois dias depois de Hitler ocupar Praga, a conferência terminou sem que houvesse acordo entre as várias partes.  Em maio de 1939, um outro Documento Branco foi publicado, o qual designava as regras da separação e da criação de um Estado judaico.  Todavia, ele decretava que um Estado palestino seria criado em dez anos e que após cinco anos a imigração judaica não seria mais permitida, a não ser que os árabes palestinos aprovassem.  Apesar dessa tendência antijudaica, o Documento Branco permitia que mais 75 mil judeus se estabelecessem na Palestina durante o período de cinco anos e que a independência de um Estado palestino dependia de salvaguardas para a comunidade judaica³. 

            Mais deplorável ainda é o intuito de utilizar o Holocausto como apelo emocional para reforçar as razões que lhe faltam.  Os judeus perseguidos pelo nazismo em 1939 não poderiam ser devolvidos às câmaras de gás, simplesmente porque tais instalações não existiam.  Entraram em operação somente no segundo semestre de 1941, como notamos pela narrativa de Roderick Stackelberg (logo abaixo). É certo que, para qualquer observador europeu sensato que vivesse em 1939, um eventual genocídio dos judeus pelos nazistas seria uma possibilidade real, e até esperada.  Porém, carece de sentido insinuar que uma possível culpa das autoridades inglesas pelo extermínio de judeus praticado por alemães deveria ser reparada com a cessão de territórios habitados por árabes!     
Ao final do verão de 1941, experimentos com gás venenoso foram realizados pela SS em vários locais da Europa Oriental.  O monóxido de carbono já fora usado no programa clandestino de eutanásia, que tinha o codinome de T-14, dirigido por Philip Bouhler, da chancelaria do Führer, a partir de outubro de 1939.  Em diversas instituições para deficientes físicos e mentais, as mortes por gás ocorriam em câmaras especialmente construídas, com a aparência de chuveiros.  A experiência adquirida no programa de eutanásia foi aproveitada na guerra contra os judeus.  Câmaras de gás móveis, instaladas em caminhões fechados, foram usadas para matar as esposas e filhos de reféns judeus na Sérvia, em outubro de 1941.  No mesmo mês, começaram os preparativos para o uso de câmaras de gás móveis em Chelmno (que os nazistas chamavam e Kulmhof), 65 quilômetros a noroeste de Lodz, no território ocidental polonês, incorporado ao Reich como Warthegau.  Chelmno foi o primeiro dos seis centros nazistas de extermínio na Polônia a entrar em operação.  Mais de 150.000 judeus, a maioria do gueto de Lodz, foram mortos por gás em Chelmno, em 1942 4.  

         Adiante, Katz se queixa de que o rápido aumento da população árabe, por ele compreendida, sem dúvida, como intrusa, derivaria de uma suposta imigração ilegal.  Poderíamos, a princípio, contestar seus juízos de valor, quando tenta estabelecer o que seria imigração ilegal em uma área sujeita a relações de protetorado.  Por que, afinal, a vinda de judeus da Rússia, da Polônia e de outras partes da Europa para a Palestina seria mais justificável do que a simples mudança de árabes de um lado para o outro do Jordão?  Esta reflexão se torna mais oportuna na medida em que sabemos que para Katz a identidade palestina é um engodo!  Além disto, se projetássemos, talvez, uma taxa de crescimento demográfico em torno de 3% para os árabes palestinos ao longo da primeira metade do século XX, nada incompatível com sua alta natalidade, chegaríamos a um resultado final até superior ao do histriônico propagandista!     
Mas ao mesmo tempo em que os britânicos proíbem a imigração judaica, eles permitem ou ignoram a imigração ilegal de milhares de árabes da Jordânia (chamada de Palestina Oriental), Síria, Egito e de várias partes do norte da África. Em 1939, Winston Churchill declara que “…longe de serem perseguidos, os árabes invadiram a região e se multiplicaram…!” Estatísticas exatas da população da região na época são problemáticas, mas sabe-se que em 1947 o número de árabes ao oeste do Jordão triplicou em comparação a 1900.
         Calculo, em contrapartida, o que pensavam os palestinos já engajados na luta contra o sionismo desde os tempos do esfacelamento do Império Otomano, a respeito da possibilidade de se converterem numa minoria em consequência de um processo migratório deflagrado a partir da Europa e contra a sua vontade, conforme depreendemos destas informações de Albert Hourani:

Na Palestina, a aquisição de terra para imigrantes judeus europeus, que começara durante fins do século XIX, continuou dentro do novo sistema de administração estabelecido pela Grã-Bretanha como governo mandatário.  A imigração judia foi encorajada, dentro de limites determinados em parte pela estimativa governamental do número de imigrantes que o país podia absorver num dado momento, e em parte pelo volume de pressão que os sionistas ou árabes podiam aplicar sobre o governo em Londres.  A estrutura da população do país mudou muito nesse período.  Em 1922, os judeus contavam cerca de 11% de uma população total de três quartos de milhão, sendo o resto sobretudo muçulmanos e cristãos de língua árabe; em 1949, formavam mais de 30% de uma população que duplicara5. 
        Associando dados de Hourani e Dan Cohn-Sherbok, concluímos que os judeus, no curto intervalo de menos de uma geração, compreendido entre 1926 e 1948, quintuplicaram seus efetivos na Palestina.  Só nos resta, assim, formular a pergunta: que mal houve na multiplicação dos árabes por três, salvo a adoção de uma perspectiva francamente racista?    
Depois da imigração maciça da Polônia e da Rússia em 1925, relativamente poucos judeus chegaram à Palestina.  Entre 1926 e 1931, a população judaica aumentou apenas de 149.640 para 174.606.  Ao mesmo tempo, a população árabe saltou de 675.450 para 759.700  [6]. 
Contra isso [a diminuição do número de estrangeiros em países árabes], houve uma grande movimentação de judeus tanto da Europa quanto do Oriente Médio e Magreb para o novo Estado de Israel, cuja população judia aumentou de 750 mil em 1948 para 1,9 milhão em 1960  [7]. 
      Merece registro, igualmente, a tentativa desastrada de mostrar as nações árabes como irmãs desprovidas de solidariedade, explícita em um parágrafo que beira a estupidez: 
Após o término da Guerra [de 1948] e a vitória de Israel, os árabes que permaneceram se tornaram cidadãos de Israel, e os que abandonaram suas casas esperando a destruição dos judeus foram rejeitados pelos países árabes das fronteiras onde estavam refugiados. Egito, Jordânia, Síria e Líbano fecharam suas portas para seus irmãos árabes, dando início ao que conhecemos hoje como os “Refugiados Palestinos”.
     O naufrágio cognitivo é berrante: se todos os vizinhos tivessem fechado as fronteiras aos palestinos expulsos, como eles teriam se transformado em refugiados? Não importando o juízo que façamos da "inteligência" de Katz, o fato é que as estatísticas mais uma vez insistem em desmenti-lo.   Albert Hourani lembra que os palestinos se abrigaram na Jordânia em quantidade tão grande que suplantaram a própria população do país fronteiriço, o que, aliás, não representa novidade para os leitores e telespectadores de jornais que acompanham as notícias do Oriente Médio. Dan Cohn-Sherbok confirma que a Jordânia foi o refúgio principal dos palestinos desalojados.         

Na Jordânia, havia uma situação semelhante, de um regime ansioso por ajuda contra perigos externos- dos vizinhos árabes, e também de Israel- mas sob pressão da opinião pública nacionalista.  Depois de 1948, o país ficou com uma maioria de palestinos, que encaravam Israel como seu principal inimigo e vigiavam para ver algum sinal de que o país fazia concessões aos israelenses8. 
Quando a segunda trégua foi estabelecida [1948], mais de meio milhão de refugiados árabes tinha fugido do território israelense.  Embora alguns tivessem sido expulsos, um grande número, inclusive a liderança palestina árabe, partiu por conta própria.  A maioria dos refugiados foi para a Jordânia9.  Outros escaparam para a Faixa de Gaza. 

          Ainda por intermédio de Cohn-Sherbok, constatamos que havia mais de três milhões de palestinos na década de 1960, para frustração dos lunáticos que insistem em negar a existência de uma nação palestina.  Daquele contingente, quase a metade vivia, por efeito dos deslocamentos forçados em maior ou menor grau, em  outros países árabes. 
Depois da Guerra dos Seis Dias, havia quase o mesmo número de palestinos vivendo sob o domínio israelense (1,6 milhão), quanto os que viviam fora do Estado de Israel (1,5 milhão).  Desses que viviam fora de Israel, 644 mil residiam na Jordânia (Margem Oriental); 288 mil, no Líbano; 183 mil, na Síria; 39 mil, no Egito; 194 mil, no Kuwait; 59 mil, na Arábia Saudita; 35 mil no Iraque; e 67 mil, em outros países10. 

            Prosseguirei no tema, avaliando algumas de suas repercussões na política brasileira. 

Notas:

1- Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 247.
2- Albert Hourani. Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 321.  
3- Dan Cohn-Sherbok.  Uma perspectiva judaica.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender...  São Paulo: Editora Palíndromo, 2005, p. 54.  
4- Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 311.
5- Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 325.
6- Cohn-Sherbok, p. 54. 
7- Hourani, p. 377. 
8- Idem, p. 367  
9- Cohn-Sherbok, p. 66.
10- Idem, p. 79.






segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Falácias sobre a Palestina

O autor do blog, em foto de 2007, expressa seu apoio à causa palestina

       
       Eu começava a alinhar os argumentos que formariam este artigo, em minha sala de jantar, quando me deparei com a figura de Heraldo Pereira, do Jornal Nacional, repetindo em horário nobre frases visivelmente traduzidas do noticiário "metropolitano" sobre o "grupo radical Hamas". Não pude deixar de recordar, com certa dose de ironia e também de  irritação, que há cerca de duas décadas "nossa" mídia burguesa classificava o atual chefe de governo de Israel, Benjamin Netanyahu, como um político extremista, partidário da colonização israelense na Cisjordânia. Netanyahu mudou, desde então? Compreendi, naqueles instantes, a motivação dos arroubos retóricos de Paulo Henrique Amorim contra Pereira, em episódios relativamente recentes que tiveram desdobramentos na Justiça.
     Paremos, agora, de perder tempo com o entediante jornalista conservador, que na verdade apenas cumpre à risca o que lhe ordenam os Marinhos, com prováveis ajustes pontuais de autoria de Ali Kamel, para encontrar nosso foco na detestável orientação seguida por todos os grandes jornais impressos e televisivos do país no que diz respeito ao Oriente Médio.  Não obstante as atrocidades que venha a cometer, qualquer governo israelense é tratado como uma entidade responsável e respeitável que reage de pronto às agressões de "extremistas", "radicais" e "terroristas"; mesmo que propósitos segregacionistas ou genocidas embutidos nas ações militares israelenses sejam condenados por uma maioria esmagadora da comunidade diplomática internacional, milhões de salas de jantar de todos os municípios brasileiros são quase diariamente invadidas por versões em que prevalecem as cínicas desqualificações do governo norte-americano contra os protestos árabes, europeus, africanos, asiáticos e latino-americanos. Com frequência, tais matérias são encerradas com informações que remetem a uma mensagem bastante óbvia: não importando o mérito de suas políticas contra os palestinos, Israel contará com o apoio dos Estados Unidos e sempre vencerá.
          Levando em consideração a correlação de forças vigente, é válido perguntar o que pode um blogueiro de esquerda, ou ainda todo o conjunto dos blogueiros de esquerda, atuando de maneira coordenada, contra interesses tão claramente hegemônicos no hemisfério ocidental.  Um artigo no História & Política, diria um detrator ou um simples observador desinteressado, não tem contra os ecos do Jornal Nacional sequer o impacto de um míssil Qassam; é algo como uma pequena pedra atirada contra uma divisão de tanques.  Entretanto, digo eu que é uma pedra que merece ser atirada, mesmo que alerte somente algumas centenas de pessoas contra a desinformação predominante.               
       Partindo da percepção do caráter tendencioso da cobertura midiática, devo destacar que em diversos espaços da Internet o respaldo a Israel, muitas vezes associado a uma visão religiosa "guerreira", assume feições ainda mais selvagens. Estabeleço, em um primeiro momento, contraponto a um artigo que localizei no site de Matheus Zandona, cuja redação é atribuída a Joseph E. Katz, que combina uma série de balelas e distorções da realidade para convencer os leitores de que os israelenses são os legítimos donos de toda a Palestina, e até de outras regiões vizinhas, e os palestinos intrusos sem identidade:        
http://ensinandodesiao.org.br/artigos-e-estudos/historia-e-significado-de-palestina-e-palestinos/

       Katz e seu divulgador Zandona tentam, a princípio, difundir a noção de que após a Diáspora judaica a Palestina se transformou em uma espécie de "terra de ninguém", pronta a receber de volta, em lugar indeterminado do futuro, seu "povo escolhido":      
           
“Palestina” nunca foi o nome de uma nação ou estado. É na verdade um termo geográfico utilizado para designar uma região abandonada ao descaso desde o século II d.C. 

         Tamanha falácia provocaria, logo de entrada, a fúria de qualquer especialista no estudo dos impérios Romano e Bizantino.  A ideia de que uma região tão estratégica do Mediterrâneo Oriental, limítrofe com Egito e Síria e aproximada por mar da Grécia e da Ásia Menor, tenha ficado abandonada ou despovoada após a destruição da autonomia dos judeus por Roma é no mínimo ridícula.  Avançando um pouco mais na linha do tempo, percebemos através destas linhas de Albert Hourani que, ao ser conquistada pelos árabes, a Palestina cedo se converteu em uma área de enorme importância para o Islã:            

Os lugares santos dos judeus e cristãos ainda tinham poder sobre a imaginação dos novos governantes: 'Umar visitou Jerusalém depois que ela foi capturada, e Mu'awiya ali foi proclamado califa.  Então, na década de 690, ergueu-se a primeira grande edificação a afirmar que claramente que o Islã era distinto e ia perdurar.  Foi o Domo da Rocha, construído no local do Templo judeu em Jerusalém, agora transformado num haram muçulmano; seria o ambulatório para peregrinos em torno da rocha onde, segundo a tradição rabínica, Deus intimara Abraão a sacrificar Isaac¹.

         Pela narrativa do cristão árabe Amin Maalouf, pesquisador das Cruzadas, fica claro que, no início daquele processo histórico, o território palestino era regularmente povoado por comunidades muçulmanas que identificavam os europeus como invasores: 

Na Palestina, a maioria das cidades e das aldeias é evacuada pelos seus habitantes antes mesmo da chegada dos franj.  Em nenhum momento estes encontram uma verdadeira resistência, e na manhã de 7 de junho de 1099, os habitantes de Jerusalém já os podem ver aparecer ao longe, sobre a colina, perto da mesquita do profeta Samuel².

           Retornando a Hourani, somos informados de que no período sob domínio mameluco (após a expulsão dos cruzados) Jerusalém constituía um importante centro educacional do mundo islâmico: 

(...) a madrasa de Tankiziyya em Jerusalém, dotada durante o período mameluco, tinha quatro salões (iwan) que se abriam para um pátio central, um para o ensino do Hadith, outro da lei hanafita, outro do sufismo, enquanto o quarto era uma mesquita.  A dotação mantinha quinze estudantes da lei, vinte do Hadith e quinze do sufismo, e professores de cada assunto; os estudantes deviam dormir na madrasa, e havia também um asilo para doze viúvas³.

        Joseph Katz invoca, como se isto sustentasse o seu delírio, um parágrafo atribuído ao romancista Mark Twain, que aponta para a existência de uma Palestina quase desabitada em pleno século XIX:

“Não há sequer uma vila em toda a extensão do vale chamado Jezreel, nem mesmo em um raio de 50 Km. Viajamos quilômetros sem encontrar uma alma sequer. Nazaré está abandonada, Jericó é uma ruína que se desfaz; Belém e Betânia, na sua pobreza e humilhação, não é desejada por qualquer criação (…). Um país desolado cujo solo é bastante rico, mas é dado inteiramente a ervas inúteis (…) uma expansão silenciosa, pesarosa (…) uma desolação (…). Nunca vimos um ser humano durante todo o caminho. A Palestina encontra-se vestida em pano de saco e cinzas…”.
Mark Twain, “The Innocents Abroad”, 1867.

           Real ou fictícia, a narrativa de Twain não se mantém diante do quadro exposto por Alan Palmer, um dos maiores estudiosos do Império Otomano, a respeito da Palestina do século XIX, ainda sob controle turco: 


Em contraste com outras terras árabes no Levante e a despeito do perfil cosmopolita de Jerusalém, na virada do século [XX], a Palestina era invulgarmente homogênea, o povo com esmagadora maioria de fé sunita.  De modo geral, eram bons e e leais otomanos, e o sultão Abdulhamid se dispunha a ouvir seus representantes com especial simpatia, admitindo alguns árabes mais preparados em cargos de confiança em Yildiz.  Na Terra Santa, os árabes também eram um povo antigo, como os judeus.  Podiam alegar a descendência de comunidades que lá viviam por dez ou mais séculos, remontando, talvez, aos cananeus da Bíblia.  O governo otomano temia que, se milhares de aldeões judeus pobres da Rússia convergissem para aquela região tão sensível, provocariam um conflito permanente com os árabes e seriam um ônus para as colônias judias já existentes, algumas lá instaladas havia mais de trinta anos.  Portanto, quando, em 1891, Abdulhamid recebeu o primeiro pedido de notáveis árabes de Jerusalém para que acabasse com a imigração judia e a compra de terras, dispensou ao pedido atenta consideração4.  


          Ainda sobre o período otomano, é relevante esta nota de Albert Hourani a respeito de Solimão, O Magnífico, que reinou durante o século XVI: 

Também na cidade santa de Jerusalém, o sultão Suleiman deixou sua marca, nos azulejos das paredes externas do Domo da Rocha, e nos grandes muros que cercavam a cidade5.

           O mesmo autor fornece alguns dados sobre a inclusão da Palestina na administração formal dos territórios turcos:

As províncias sírias de Alepo, Damasco e Trípoli tinham de ser controladas diretamente, devido às suas receitas, ao lugar de Alepo no sistema internacional de comércio, ao de Damasco com um dos centros a partir dos quais se organizava a peregrinação, e ao de Jerusalém e Hebron como cidades santas (Jerusalém, lugar de onde se acreditava que o Profeta ascendera ao Céu em sua viagem noturna; Hebron, o túmulo do patriarca Abraão)6.

      O palestino Dawoud El-Alami nos revela o perfil demográfico da região em uma determinada altura do século XIX: o percentual de judeus, nativos e/ou emigrados, era inferior até ao dos cristãos de língua árabe: 

Por volta de 1888, a Palestina estava dividida em três Sanajek (distritos) principais.  O Sanjak de Jerusalém, que compreendia a metade sul do país e era, por causa de sua importância, governado diretamente por Constantinopla.  Os outros dois Sanajek, Nablos e Akka, eram parte da Vilayet de Beirute.  A Jordânia constituía uma parte da Vilayet da Síria, com Damasco como capital.  Nessa época, a população da Palestina nesses três distritos era de aproximadamente seiscentos mil habitantes, dos quais cerca de 10% eram cristãos, 4% judeus e a maioria era de muçulmanos sunitas7.


       Os números de El-Alami são compatíveis com as cifras indicadas por Alan Palmer para um período imediatamente posterior:

Na época em que o Kaiser Wilhelm II visitou os três vilayets [províncias] que geograficamente constituíam a Palestina, a população árabe superava a judia na proporção de dez para um8.

                                                                        (...)

Na Palestina, a população judia cresceu de apenas 24 mil em 1880 (quase metade do número de judeus em Londres) para 49 mil em 1903 e 90 mil na eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando, na mesma região, se admitia existirem 500 mil árabes.  Em 1882, tão logo começou a imigração em larga escala, as autoridades otomanas adotaram medidas para impedir a entrada de judeus vindos da Rússia e doutras partes da Europa pelos portos de Latakia, Beirut, Haifa e Jaffa9.


        Mesmo se expondo a fáceis desmentidos, Katz e seu papagaio brasileiro prosseguem no falseamento da História:   

O mito atual é que estes árabes há muitos séculos já estavam estabelecidos na Palestina, até que vieram os judeus e os “desalojaram” em 1948. Mas na verdade a imigração recente de árabes para a Palestina foi que “desalojou” os judeus. 

           Contra isto, basta o depoimento do rabino Dan Cohn-Sherbok, cujos argumentos em livro já referenciado nas notas formam um contraponto aos do palestino El-Alami: 


Simultaneamente, povoamentos judeus continuavam a ser criados na Palestina.  Em 1914, um grupo do Hovevei Zion da Rússia fundou Nahalat Yehuda (A Herança de Yeruda), ao norte de Rishon le-Zion. Nessa fase, havia aproximadamente noventa mil judeus vivendo na Terra Santa, dos quais 75 mil eram imigrantes. Nos anos que se seguiram à criação do Fundo Nacional Judeu no início do século, quarenta e três colônias tinham sido criadas com uma população de 120 mil.  A maioria dessas pessoas que tinha emigrado para a Palestina era da Rússia e da Romênia- eles trabalhavam a terra como fazendeiros ou como trabalhadores agrícolas ou eram empregados como lojistas, artesãos ou operários.  Em contraste, o número de árabes na Palestina era de cerca de meio milhão10.

         Honestamente, Cohn-Sherbok admite que as migrações impulsionadas pelo sionismo não apenas incomodavam o governo otomano, como provocavam a reação articulada, inclusive no plano institucional, dos árabes da Palestina: 

Ansiosa com o influxo de colonos judeus, a população árabe começou a se engajar em atividades políticas.  Dois árabes de Jerusalém foram eleitos para o parlamento otomano em Constantinopla como anti-sionistas.  No verão de 1914, o governo turco impôs medidas rígidas para impedir a imigração judaica11.


          Ainda segundo Cohn-Sherbok, apesar do forte fluxo migratório era este o panorama demográfico da Palestina em 1918:

Por causa da guerra [A Primeira Guerra Mundial], toda a população da Palestina, inclusive os judeus, muçulmanos e cristãos, sofreu consideravelmente.  A população total caiu de cerca de oitocentos mil, em 1914, para 640 mil, sendo constituída de aproximadamente 512 mil muçulmanos, 66 mil judeus e 61 mil cristãos12.

       As fantasias da dupla Katz/Zandona parecem chegar ao ápice neste trecho, em que a imigração dos judeus europeus é apresentada como um grande benefício aos próprios árabes: 

A restauração da terra “desolada” e “não desejada” começou na segunda metade do século XIX, com os primeiros pioneiros judeus. O trabalho realizado por estes pioneiros criou novas e melhores condições e oportunidades, o que acabou por atrair outros imigrantes de várias partes do Oriente Médio, tanto árabes quanto outros.
            A propaganda falaciosa não resiste a cinco linhas de Albert Hourani:


Apesar da oposição do governo otomano e da crescente ansiedade entre parte da população árabe local, em 1914 a população judia da Palestina tinha aumentado para aproximadamente 85 mil, ou 12% do total. Cerca de um quarto deles assentara-se na terra, parte dela comprada por um fundo nacional e declarada propriedade inalienável do povo judeu, em que não se podiam empregar não judeus13.

            Os limites do progressismo dos colonos judeus, aliás, são reconhecidos por Dan Cohn-Sherbok: 


Durante os anos de 1920-21, houve graves dúvidas sobre a possibilidade de se fundar uma Pátria judaica conforme proposta na Declaração Balfour.  Embora [Herbert] Samuel buscasse criar instituições representativas na Palestina, a população judaica temia essas instituições, uma  vez que os judeus constituíam apenas 11% da população palestina.  Além disso, a taxa de natalidade dos árabes era mais alta do que a dos judeus.  Nessas condições, parecia certo que os árabes seriam maioria em qualquer instituição que fosse criada- e essa situação inevitavelmente prejudicaria o programa sionista14.

          Retomarei, o mais breve possível, reflexões que não podem ser desenvolvidas por completo no espaço de uma só postagem.  Peço aos fãs do blog que continuem divulgando, nesta fase em que a visibilidade das páginas virtuais não pagas permanece bastante reduzida.            


Notas
1- Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 46.
2- Amin Maalouf. As Cruzadas vistas pelos árabes.  São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 54.
3- Hourani, p. 175. 
4- Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 194/195.
5- Hourani, p. 246. 
6- Idem, p. 234.
7- Dawoud El-Alami.  Uma perspectiva palestina.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender... /Dan Cohn Sherbok e Dawoud El-Alami. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005,  p. 122.
8- Palmer, p. 193.
9- Idem, p. 194.
10- Dan Cohn-Sherbok.  Uma perspectiva judaica.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender... /Dan Cohn Sherbok e Dawoud El-Alami. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005,  p. 37-38.
11- Idem, p. 38.
12- Ibidem, p. 40.
13- Hourani, p. 292-293.
14- Dan Cohn-Sherbok, p. 43.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vencemos: os racistas vão à lona




      Recebi, no dia 23 de julho, uma notícia das mais animadoras: um grupo significativo de participantes do Facebook, efetuando denúncias simultâneas junto à administração daquela rede social, conseguiu o fechamento da comunidade racista Orgulho de Ser Branco (http://www.facebook.com/BrancosOrgulosos?ref=ts&fref=ts), cujos donos se gabavam de uma invulnerabilidade sustentada por advogados simpatizantes da causa.  Desta maneira, desmoronou uma conexão que levava mensagens supremacistas, disfarçadas sob a capa de orgulho identitário, a mais de oito mil pessoas. Aparentemente, a página foi reaberta com novo título, Brancos Orgulhosos (https://www.facebook.com/BrancosOrgulhososOficial?fref=ts), embora outras comunidades nanicas também reivindiquem a "herança" da que acabou derrubada.  O mais importante, no que diz respeito  a tais episódios, é a constatação de que os racistas amargaram o retardamento de seus "trabalhos": pela dinâmica do Facebook, precisarão de anos para recuperar a quantidade de likes que exibiam. Isto, se não tiverem novas surpresas, vindas da polícia ou da Justiça.
          Já se tornou notória a relutância das redes sociais, pelo menos durante o presente período eleitoral, em bloquear comunidades e perfis pessoais alinhados com a direita, mesmo quando estes assumem comportamentos injuriosos e difamatórios ou incitam à violência explícita.  Todavia, podemos verificar com satisfação que outras páginas racistas vêm sendo eliminadas ao longo de 2014. Somente no Facebook, caíram a Orgulho de Ser Branco "genérica" (http://www.facebook.com/pages/Orgulho-de-ser-Branco/219447141525948?ref=ts&fref=ts) e mais duas que funcionavam sob o rótulo de Raça Branca e Associação de Eurodescendentes (http://www.facebook.com/RacaBrancaForcaeHonra?ref=ts&fref=ts e (http://www.facebook.com/pages/ONG-Ra%C3%A7a-Branca-e-Euro-Descendentes-da-Am%C3%A9rica-do-Sul/587466391298795?ref=ts&fref=ts).  
 Outro espaço do gênero, Orgulho Eurodescendente (http://www.facebook.com/OrgulhoEurodescendente?ref=ts&fref=ts), onde antes se encontravam raivosas postagens supremacistas, foi convertido, sem dúvida para evitar o fechamento, numa comunidade festiva, que se limita a mostrar atrações turísticas do continente europeu e fotografias comportadas de belas modelos louras.  Ainda assim, reúne hoje menos de dois mil seguidores. 
           Parabenizo os numerosos militantes progressistas que vêm tomando parte neste processo de combate ao racismo pelas vitórias conquistadas.  O lugar legítimo dos racistas, tanto no mundo real quanto no virtual, deve ser o limbo.  Merece ser igualmente comemorada a percepção de que aquele tipo de propaganda depende, para se manter na Internet, de um punhado de filonazistas que, na prática, abrem e reabrem todas as páginas.  Cedo ou tarde, terão o destino da criatura que se escondia debaixo do pseudônimo de Silvio Koerich.  Enquanto isto não acontece, podemos nos divertir publicando nas comunidades deles algumas imagens chocantes dos "malefícios da miscigenação":

      Micaela Reis  
          
         
                                                                   Marcia Idelfonso


Katiely Kathissumi


Michelle Martins


Ivi Pizzott




           




segunda-feira, 7 de julho de 2014

Para que mesmo estudar História?



            O jornal Folha de São Paulo, em 20 de dezembro de 2011, anunciou que o governo Alckmin reduziria as cargas horárias de História e Geografia, para os alunos do Ensino Médio, em 25% e 14%, respectivamente.  Seriam também extintas as aulas de aprofundamento, destinadas à preparação dos interessados em fazer exames vestibulares. (Ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/15993-sp-reforca-sociologia-filosofia-e-artes-mas-corta-aula-tradicional.shtml)  A notícia, que provocou forte indignação entre o professorado, não deve ter surpreendido em grande proporção os bons conhecedores de um político cuja característica mais saliente é o conservadorismo rançoso.  Só não me atrevo a rotulá-lo como o pior quase-presidente que o país já possuiu pelo risco de cometer injustiça contra os demais candidatos de peso a este título, a exemplo de Júlio Prestes e Juarez Távora. 
           Atitudes como a do atual governo paulista prosperaram em outras fases de nossa era republicana.  A reestruturação do ensino implantada pelo ditador Médici, através da Lei nº 5692 de 1971, fundiu as matérias escolares História e Geografia em uma nova, os Estudos Sociais, cuja ênfase na memorização de dados factuais ocasionou um severo esvaziamento dos conteúdos.  Lembro-me bem, ainda que não tenha localizado referências na Internet, que Fernando Collor, no início de sua gestão, lamentou a preferência, entre os estudantes brasileiros, pelas Ciências Humanas, declarando algo como "a universidade no Brasil não produz riqueza".  
           Não devo me restringir à acusação tão velha quanto verídica de que a direita tende a desvalorizar as disciplinas que favorecem a crítica do status quo, ou a desconstrução de seus valores.  As declarações dos dirigentes citados, e de muitos outros, além, é claro, de suas diretrizes para o setor educacional, formaram e continuam a formar opinião. Com notável frequência, encontramos pessoas completamente apartidárias e desinteressadas pelo jogo eleitoral que veem historiadores, geógrafos, cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e filósofos como cultivadores de uma erudição vazia, sem qualquer efeito prático na vida cotidiana. É com aqueles "homens comuns", na verdade, que desejo dialogar sobre a utilidade da História, e não com os agentes intencionais da alienação.
           Evitarei o expediente de construir um texto retórico pontuado por termos-chave como conscientização, politização e cidadania.  Embora isto seja possível, provavelmente seria entediante ao extremo.  Prefiro, então, resgatar para os leitores três processos históricos repletos de diferenças, mas suscetíveis de gerar longas e importantes reflexões.  
                              
                                                                     (...)                         

           Entre julho e setembro de 1683, exércitos turcos que somavam 200 mil homens mantiveram sob cerco a cidade de Viena, capital do Império da Áustria, governado pela dinastia Habsburg.  Os atacantes eram comandados pelo grão-vizir Kara Mustafá, amigo pessoal do sultão Mehmed IV, credenciado por uma notável vitória sobre as tropas polonesas de Jan Sobieski, onze anos antes, em batalha às margens do Rio Dniester.


                          

          
         O imperador austríaco Leopoldo I, abrigado na localidade de Passau, pediu ajuda a outros governantes cristãos.  Recebeu auxílio financeiro do Papa, voluntários do norte da Itália e da Alemanha, soldados dos reinos germânicos da Baviera e da Saxônia.  Contava igualmente com a vinda de Jan Sobieski, agora rei da Polônia, que marchava para o sul a partir da região montanhosa dos Cárpatos.  
        As forças de resistência foram beneficiadas pela ambição de Kara Mustafá, que preferia esperar por uma rendição da cidade, para se apossar de seus tesouros, do que entrar numa Viena em ruínas que pouco teria a oferecer.  Somente no final de agosto, quando os poloneses já haviam chegado ao Danúbio, o grão-vizir ordenou o ataque geral.  A 12 de setembro, os turcos conseguiram explodir parte da muralha vienense, mas àquela altura precisavam lutar corpo a corpo com a infantaria germânica que fustigava seu acampamento.  Quando a cavalaria polonesa atingiu a "cidade de tendas" construída por ordem de Kara Mustafá, o grão-vizir teve que fugir às pressas em direção a Buda, na Hungria, e depois Belgrado, na Sérvia. 
       Para não arcar com o custo político de uma derrota desastrosa, Mehmed IV orientou seu braço direito a devolver os símbolos de sua autoridade civil e militar e, em seguida, "entregar a alma a Alá".  Em 25 de dezembro de 1683, Kara Mustafá foi executado por estrangulamento, com uma corda de arco e flecha, em Belgrado. Os austríacos, por sua vez, recuperaram a estratégica cidade de Esztergom, quebrando o controle turco sobre o médio Danúbio e lançando a base para futuros avanços territoriais¹.
          Decorridos mais de dois séculos e meio, o alemão Alfred Rosenberg, em novembro de 1941, foi promovido a ministro dos territórios orientais ocupados pelo III Reich.  Sua proposta de criar Estados independentes na região, para mobilizar seus povos contra o comunismo, não contou com a aprovação de Adolf Hitler.  O Führer, embora nascido em Braunau am Inn, na Áustria outrora salva por Jan Sobieski, considerava todos os eslavos como seres subumanos, cuja única utilidade seria a de servir às necessidades da raça superior. Assim, houve o fechamento das escolas da Polônia, pois o país deveria se limitar a fornecer trabalhadores braçais.  O Plano Geral do Leste, elaborado pelo comissário Himmler, previa que todos os poloneses, além dos habitantes das nações bálticas e da parte ocidental da União Soviética, sofreriam remoção, dando lugar a colonos germânicos ou "regermanizáveis"².  


                                                                          (...)

            O corsário David Jewett, comandante do navio Heroína, chegou às Ilhas Malvinas em 27 de outubro de 1820, a mando de Manuel de Sarratea, governador de Buenos Aires.  Jewett tomou posse do arquipélago, abandonado pelos espanhóis há nove anos, em nome da autoridade portenha.  Ali foi estabelecida uma pequena colônia argentina, que se dedicou à criação de ovinos. Nomeado comandante militar da localidade de Puerto Soledad em 1829, o comerciante franco-alemão Luis Vernet proibiu a caça da baleia nas Malvinas, medida que não funcionou, pela falta de homens e barcos para efetuar a repressão.  Dois anos depois, o presidente Rosas revogou a proibição, criando em seu lugar um imposto que deveria ser pago pelas embarcações pesqueiras. Os capitães dos baleeiros, porém, passavam ao largo de Puerto Soledad ignorando o fisco argentino. Confrontado com a ampliação das atividades ilegais, Luis Vernet apreendeu três navios norte-americanos que carregavam peles de foca.





             A revanche não tardou: em 28 de dezembro de 1831, a fragata Lexington, da marinha dos Estados Unidos, atacou Puerto Soledad, destruiu a artilharia e a munição da guarnição argentina e capturou seis de seus oficiais.  Rosas, através do ministro Maza, das Relações Exteriores, apresentou um protesto oficial e expulsou de Buenos Aires o cônsul norte-americano Slacum e seu compatriota Bayles, encarregado de negócios.  Antes de sair do país, a dupla alertou a representação britânica a respeito da vulnerabilidade das ilhas.  Um ano mais tarde, exatamente a 2 de janeiro de 1833, a corveta inglesa Clio, sob o comando do capitão John James Onslow, desembarcou nas Malvinas. Impossibilitado de resistir, o governador provisório Pinedo se curvou à ordem de expulsão e retornou a Buenos Aires.  Os britânicos simplesmente deixaram sem resposta as reclamações subsequentes de Rosas³. 
         Cento e cinquenta anos após o ataque norte-americano a Puerto Soledad, ascendeu à presidência da Argentina o general Leopoldo Fortunato Galtieri, homem afinado com as metas de Ronald Reagan a ponto de conseguir, no início de sua administração, o fim das sanções impostas a Buenos Aires pelas violações dos direitos humanos.  Galtieri ordenou a retomada das Malvinas, realizada em 2 de abril de 1982, sob os aplausos da comunidade latino-americana em geral, mas enfrentando a reprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que declarou a Argentina como "nação agressora".  Os militares argentinos tentaram em vão pressionar o governo Reagan, que adotou a princípio a posição de mediador do conflito, a ficar do seu lado, invocando o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca).  Quando uma força-tarefa britânica chegou à região das Malvinas, em fins de abril, o governo dos Estados Unidos abandonou a mediação.  O Senado de Washington votou novas sanções econômicas contra a Argentina e ofereceu apoio logístico à Grã-Bretanha.  As tropas argentinas se renderam incondicionalmente, em 14 de junho, e a renúncia de Galtieri foi exigida por seus próprios companheiros de generalato4.  Tal como no século XIX, os norte-americanos tomaram partido de sua ex-metrópole contra os portenhos.  

                                                                        (...)

         O sertanista baiano Fernão Carrilho, agindo sob as ordens do governador da capitania de Pernambuco, Dom Pedro de Almeida, comandou uma expedição que, entre setembro de 1677 e fevereiro de 1678, causou graves danos aos quilombolas de Palmares. As investidas contra vários mocambos possibilitaram a captura de mais de cem pessoas, entre elas vinte parentes do rei Ganga Zumba. Nesta conjuntura vantajosa para as autoridades coloniais, um novo governador, Aires de Souza de Castro, que assumiu a administração da capitania em abril de 1678, firmou um tratado de paz com Ganga Zumba.
         O chefe palmarino, com uma comitiva de quarenta pessoas, chegou a Recife em novembro, sendo nomeado "mestre de campo de toda a sua gente".  Dois de seus filhos foram adotados pelo governador.  Quatrocentos seguidores de Ganga Zumba rumaram para a área do Cucaú, situada a 32 quilômetros de Serinhaém, onde ficavam terras que lhes caberiam segundo o tratado. Embora os quilombolas tenham recebido a liberdade e o perdão da Coroa, este critério não se aplicava a todos: os fugitivos dos engenhos deveriam ser devolvidos aos proprietários.  Enquanto isso, a região da Serra da Barriga, na qual antes se concentravam os palmarinos, foi dividida entre soldados e senhores que tinham apoiado a expedição de Carrilho.
           O Conselho Ultramarino, instalado em Lisboa, aprovou as cláusulas do tratado em parecer datado de 26 de janeiro de 1680.  Contudo, Cucaú se revelou uma experiência política fracassada. Apesar de terem prestado auxílio a diversas expedições punitivas contra Zumbi, que colocara sob sua liderança os mocambos insubmissos, os ex-quilombolas eram alvo dos mesmos soldados e sertanistas que pouco antes tinham forçado sua rendição.  Eles entravam em Cucaú em busca de fugitivos, destruíam roças e, nos termos de Silvia Hunold Lara, "punham em risco as trocas comerciais com os moradores da vizinhança".  Como o acordo que "pacificou" os adeptos de Ganga Zumba não passara pelo crivo das câmaras municipais, certos proprietários se queixavam de que os negros haviam ficado com as melhores terras.
      As disputas internas ocorridas em Cucaú resultaram numa conspiração e no envenenamento de Ganga Zumba.  Um dos filhos do líder morto, que tomava parte nas negociações com Zumbi, atuou também na repressão das tropas coloniais aos amotinados.  Após três meses de combate, a resistência acabou sufocada: os quase 200 prisioneiros sofreram a pena de servidão perpétua, sendo repartidos entre grandes fazendeiros. Um alvará emitido em Lisboa no dia 10 de março de 1682, com o intuito de solucionar as pendências jurídicas geradas pelo processo de reescravização, sequer mencionava o nome Cucaú5. 
      Os episódios relacionados a Palmares e Cucaú são quase inteiramente ignorados pelos brasileiros, que em sua maioria retêm apenas a imagem construída no Ensino Fundamental de Zumbi como um guerreiro meio mítico que foi decapitado, ou, numa perspectiva inspirada por Luiz Mott e Leandro Narloch, um cruel homossexual escravagista que precipitou o fim do maior quilombo das Américas.  Não é de espantar, portanto, que a submissão completa aos interesses dos ricos e poderosos, dos quais se espera uma improvável benevolência, ou apenas um pouco de migalhas e de sossego, seja a opção política preferencial de milhões. 
          O estudo da História, além de bastante útil, é vital.      
                                          
                          
Notas
1-Ver Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 8 a 14.  
2-Cf. Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 270.             
3- Ver Felipe Pigna. Los mitos de la historia argentina 2.  Buenos Aires, Planeta, 2004, p. 197 a 199. 
4- Ver Luis Alberto Romero.  História contemporânea da Argentina.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 217 a 223. 
5- Cf. Silvia Hunold Lara.  Marronage et pouvoir colonial.  Palmares, Cucaú et les frontières de la liberté au Pernambouc à la fin du XVIIe siècle.  Annales, 67 n. 3, p. 639-662.
           


domingo, 29 de junho de 2014

Como me defini à esquerda


       

          Fui criado e vivi até os vinte e cinco anos no bairro da Tijuca, situado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, cuja imagem mais corriqueira é a de reduto da classe média conservadora. Muito cedo, logo na década de 70, pude notar que na verdade existiam pelo menos três tipos de cidadão tijucano. Os moradores ditos de classe média média (ou média alta), instalados em apartamentos amplos nas áreas consideradas nobres, não raro proprietários de dois automóveis, cultivavam certas prevenções, por vezes manifestadas sem disfarce, contra uma classe média baixa que se mantinha com sacrifício em imóveis menores, localizados em edifícios mais velhos, ou casas decadentes herdadas de pais e avós de melhor poder aquisitivo.  Estes dois segmentos, entretanto, se mostravam solidários na atitude preconceituosa contra os habitantes das diversas favelas vizinhas: Borel, Casa Branca, Chácara do Céu, Formiga, Salgueiro.  Lembro-me bem de ocasiões em que inspetores escolares, nos distantes tempos em que eu ainda não havia concluído o Primeiro Grau, aconselhavam os alunos dos colégios particulares a guardar distância dos jovens "do morro".  A sentença "vocês são de família" funcionava como argumento básico para legitimar barreiras que, embora abstratas, não costumavam ser contestadas.
     As condições de vida dos "favelados" (o termo comunidade ainda não entrara em uso), combinadas ao discurso midiático que já os tratava, em regra, como criminosos em potencial ou, no mínimo, coniventes com ladrões e traficantes, reforçavam o asco e o isolamento entre pessoas que dividiam diariamente as calçadas tijucanas.  Durante quase toda a presidência de Ernesto Geisel, residi em um apartamento de fundos da Rua Conde de Bonfim, principal artéria do bairro. Espaço confortável portas adentro, de cujas janelas visualizava, a poucas dezenas de metros, um cortiço próximo ao poluído Rio Maracanã; pouco adiante, estavam as encostas do Borel.  Sendo precária a coleta de lixo fora das áreas urbanizadas, restos de todo gênero se acumulavam durante vários dias em grandes caçambas. Os pobres da época, quando escasseavam os biscates, frequentemente exibiam os sinais da desnutrição. Muitos andavam sujos, sem camisa ou com roupas rasgadas, e me recordo de ter visto, incontáveis vezes, sandálias Havaianas de cores diferentes em um mesmo par de pés.  Penso que seus netos que vivem hoje, mesmo os que permanecem nas classes D e E, se sentiriam privilegiados caso pudessem localizar seus avós em um fictício túnel do tempo.   
        Não havia, então, escola pública no Borel, que enviava boa parte de suas crianças à Escola Municipal Barão de Itacuruçá, onde também estudei da primeira à quarta série.  O colégio, situado na Rua Andrade Neves, ficava a cerca de um quilômetro e meio do morro.  Os que tinham a pretensão de concluir, pelo menos, o Primeiro Grau, precisavam enfrentar, além da disputa acirrada pelas vagas, o trajeto, que calculo em uns quatro quilômetros, até a Escola Orsina da Fonseca, quase na outra extremidade do bairro.  Posso afirmar com convicção que se qualquer daqueles meus contemporâneos proferir a conhecida frase "não tive chance de estudar", deve merecer crédito até forte prova em contrário.
        Conservador, sem dúvida, era o tijucano médio nas fases finais do período ditatorial.  Isto não quer dizer que a Tijuca constituía um terreno impermeável ao brizolismo e, mais tarde, ao petismo; se os comerciantes locais, diretores e gerentes da iniciativa privada e detentores de chefias no serviço público compunham um eleitorado sólido para a direita, muitos profissionais liberais e assalariados com empregos de alta qualificação tinham o comportamento oposto diante das urnas. Meus próprios pais votavam sistematicamente contra a ARENA (depois PDS), e sempre que possível em candidatos socialistas. Pelo que retive na memória, a experiência de viver numa ditadura desagradava à maioria dos tijucanos nos anos Geisel e Figueiredo, com a provável exceção da comunidade militar.                       
        Apesar do ambiente doméstico que favorecia a elaboração de valores mais à esquerda, não fui o típico adolescente politizado, embora me interessasse pelo noticiário político nacional e internacional.  Não participava de qualquer militância, e sequer me empolguei, nos primórdios da redemocratização, pela candidatura de Fernando Gabeira ao governo do estado do Rio, uma febre fugaz, porém intensa, que contagiou quase toda a "juventude conscientizada" carioca.  Escapei, bem mais por sorte do que por mérito, de um voto que depois preferiria esquecer.  
      Abriguei no pensamento, entre os quatorze e os vinte anos, numerosas contradições.  Rejeitava com fervor o conservadorismo dominante no ambiente ao meu redor, tanto pelas múltiplas discriminações que formavam sua base quanto pela hipocrisia generalizada que marcava sua prática.  Por outro lado, não fiquei imune às seduções do discurso neoliberal do início dos anos 80. Mais de uma vez acreditei, ou tentei acreditar, que com um punhado de boas ideias e uma dose extra de suor poderia saltar, no futuro próximo, para o mundo dos milionários.  Meu círculo de relações expressava estes conflitos: ao lado de vários amigos tidos como "socialmente inferiores", havia um número semelhante de filhos de famílias abonadas, mas indóceis aos padrões convencionais.  Eu era uma espécie de rebelde, porém ainda não um esquerdista.  Minha mãe precisou empregar vastos recursos persuasivos para me convencer a votar, nas eleições estaduais de 1986, em Darcy Ribeiro, do PDT. Esforço, aliás, mal recompensado: contra Darcy e Gabeira, prevaleceu o ex-pedessista Moreira Franco, do PMDB, apoiado pelo governo Sarney. 
           O ingresso no mercado de trabalho, por volta dos vinte anos, dissipou com rapidez a maior parte das minhas ilusões de adolescente.  Não conhecia a expressão "moinhos de gastar gente", do mencionado Darcy Ribeiro, mas talvez pudesse descrever com tais palavras o capitalismo real que surgiu diante de meus olhos durante os quinze meses em que, atuando como funcionário de um departamento de pessoal, lidei com trabalhadores de todas as idades e níveis de escolaridade. Longe de parecer um largo trampolim para o sucesso, o "sistema" se apresentava agora como um jogo de cartas marcadas que dependia, para continuar funcionando, da adesão da maioria dos homens ao conjunto de preconceitos dos grupos dirigentes e, é claro, de seus múltiplos medos. 
            Faltava apenas, para me fixar à esquerda, um suporte ideológico, que se formou ao longo da graduação em História, realizada na UERJ.  O curso, noturno, reunia estudantes que, em sua maioria, vinham de longe e trabalhavam em horário integral.  Dedicava-me mais ao extinto Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ), no qual ingressei por concurso em 1989 e fui escriturário e caixa, do que aos textos das disciplinas.  A rotina dos alunos deixava pouco espaço para a militância.  Entre os professores, o único doutrinador característico era um direitista, que me deu aulas no primeiro período.  Fascinado pela obra de François Furet, ele tentava desqualificar o marxismo de todas as maneiras ao seu alcance, desde a colagem de rótulos como "positivismo de sinal trocado" até a repetição da falácia de que "Marx pretende explicar tudo através do fator econômico".  Não o fazia com grande assiduidade: gostava mais dos vinhos do que dos discentes proletários que, sem investir no confronto, pouco se interessavam em absorver suas ideias. Faltava com uma constância indecente, ou comparecia meio embriagado, e por fim acabou neutralizado pela nomeação para um cargo comissionado que exigia apenas a sobriedade necessária para carimbar e rubricar um punhado de documentos por semana.
           Não foi o comportamento do antigo mestre, entretanto, que me empurrou decisivamente para a esquerda, mas sim as incursões que fazia, nas horas vagas, na biblioteca do departamento. Ali, invariavelmente sozinho, buscava nas prateleiras destinadas às Ciências Humanas  o que me instigava, ao invés das leituras obrigatórias.  Livros como Ocidente Traído, de Jorge Boaventura, atiçavam minha ira de pós-adolescente contra as elites conservadoras às quais nunca quis, de fato, pertencer.  Naquele processo, digeri longamente uma obra clássica de Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil, que hoje consulto em pdf, a partir do site http://www.dominiopublico.gov.br/. Nela, encontrei a essência de tudo que desejava combater e antes não distinguia com clareza.        
        O intelectual fluminense celebrava, junto com o poder hereditário que se expressara através do regime monárquico, o imobilismo político que sempre beneficiou as classes dominantes. 
         
                  





           Também apontava como elemento benéfico a associação entre conservadorismo político e autoritarismo.  



          O complexo de colonizado que marcava o autor, partidário da importação de modelos civilizatórios, apesar de suas indiscutíveis qualidades literárias, conflitava com minhas posições favoráveis à autodeterminação dos povos.    









         O pior, contudo, se concentrava nas páginas gastas em considerações racistas. Vários anos antes da ascensão de Hitler, era exaltada uma suposta dominação do Brasil, no Império e na República, pelos "arianos" migrados do outro lado do Atlântico.  Não obstante sua condição de mulato, assinalada por muitos críticos, Oliveira Viana relacionava a mestiçagem brasileira a distúrbios morais e emocionais.    









           Da condenação  do mestiço, onipresente em Populações meridionais do Brasil, decorria um desprezo pelo pobres e subalternos, desprovidos, salvo casos excepcionais, do sangue ariano salvador.                   






         Com uma sinceridade notável para os "nossos" conservadores, Oliveira Viana enaltecia o próprio racismo, visto como instrumento essencial para a manutenção da ordem.  





         Como contraponto às monstruosidades que catalogava, comprei o livro A ideologia do colonialismo, de Nelson Werneck Sodré (Petrópolis: Vozes, 1984).  Vibrei, e me senti algo vingado, com as 76 páginas ácidas dedicadas por Sodré a Oliveira Viana, pontuadas por expressões como "delírio ariano", "deformação histórica" e "racismo colonialista". Ninguém, no plano da política convencional, se expressa atualmente nos termos de Oliveira Viana, a respeito de quem precisamos registrar que, na produção pós-Segunda Guerra, moderou de maneira sensível seu "elitismo selvagem".  Permaneço crendo, todavia, que as premissas básicas dos liberais conservadores, conservadores "puros", monarquistas e fascistas brasileiros ainda são, nos aspectos mais fundamentais, as de Populações meridionais do Brasil.  Contra elas, devo persistir nas lutas pela igualdade e pela democracia popular.       

terça-feira, 17 de junho de 2014

A bravata dos "orgulhosos"



          Muitos leitores, certamente, tomaram conhecimento da postagem anterior, na qual coloquei em destaque a continuidade dos procedimentos delituosos dos membros da comunidade do Facebook "Orgulho de ser Branco".  Um bom número de pessoas declarou ter feito, perante os administradores da rede, a necessária denúncia, fundamentada nos múltiplos artigos e comentários racistas que ali encontram espaço.
      Diante da morosidade, talvez omissão, dos responsáveis pela supressão deste tipo de conteúdo, um dos moderadores da "OSB" decidiu se vangloriar da suposta intocabilidade da página, com base numa interpretação complacente do que acredita ser o Código Penal.  



        Possivelmente alguém se lembrará de que no texto de ontem, na parte em que me referi à risível proposta de estabelecer um país só para brancos no Cone Sul, preferi não cogitar sobre o que os "orgulhosos" fariam, na hipótese de serem bem sucedidos, com os índios, negros e mestiços da região.  Pois bem: hoje procurei verificar, e constatei que, de saída, uns vinte milhões de chilenos e bolivianos se transformariam em refugiados!  



              Ainda no mesmo tópico, a moderação da comunidade explica que o estado de São Paulo ficou excluído do mapa da Brancolândia pela mera impossibilidade de expulsar todos os "indesejáveis". 






           Percorrendo a página com mais atenção, pude notar a extensão do filonazismo entre seus aderentes. O já mencionado Eduardo Fornaciari endossa sem meias palavras a teoria negacionista do Holocausto.




         A seu turno, Phelip Santos se empolga com o nacionalismo exaltado e com uma presumida "ordem ideal", existentes na Alemanha de Hitler. 




         O português João Silva, que mistura em suas intervenções tradicionalismo e racismo furioso, culpa ingleses e franceses (!) pelo desvirtuamento das propostas originais do nazismo. 





                  João Silva, em outra passagem, se volta contra os negros, que para ele possuem uma espécie de "racismo original".




             No calor de uma discussão sobre política imigratória, outros membros, como Gutierre de Almeida e  (mais uma vez) Phelip Santos destilam ódio contra diversas populações classificadas como não brancas.




          Estimulados pelo conhecido expediente dos líderes de comunidades racistas de postar vídeos sobre crimes comuns praticados por homens negros como se fossem ataques deliberados contra os brancos, Rafael Zanotti e Roberto Diniz incorrem no mais velho de todos os insultos "raciais".




          
      Alguns companheiros, inegavelmente comprometidos com os interesses dos setores populares,  desistem do recurso à denúncia ao se deparar com a má vontade da administração do Facebook. Compreendo esta atitude, apesar de saber que em tais situações a persistência costuma trazer bons resultados.  Porém, o protesto "interno" está longe de ser o único recurso contra o racismo na Internet.   Podemos deixar o caso dos "orgulhosos" a cargo da Polícia Federal (crime.internet@dpf.gov.br), do Safernet (http://www.safernet.org.br/site/denunciar) ou ainda da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (ouvidoria@seppir.gov.br; seppir.imprensa@seppir.gov.br).   
      Disponibilizarei, em vários lugares virtuais, os prints racistas para quem desejar tomar suas próprias providências.