terça-feira, 28 de outubro de 2014

Um pouco sobre as "culpas dos nordestinos"



        Tão logo o país tomou ciência da reeleição de Dilma Rousseff, começou a se repetir, em escala ampliada, um fato lamentável já verificado desde a divulgação das primeiras pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial: manifestações escancaradas de preconceito contra nordestinos e (secundariamente) nortistas.  Tanto nas ruas de cidades das demais regiões, quanto (principalmente) na Internet, pudemos assistir ao espetáculo de natureza fascistoide de milhares de criaturas enraivecidas que cuspiam (e permanecem cuspindo) impropérios contra os "atrasados", "ignorantes" e "parasitas" que teriam impedido a vitória de uma modernidade (para lá de duvidosa) representada pela candidatura do playboy tucano.  
       Os clichês negativos associados aos nordestinos são tão velhos, no mínimo, quanto a existência do Brasil como Estado nacional, quando todas as terras acima do Espírito Santo eram classificadas como "O Norte".  Eles incorporam, em boa parte, a discriminação de viés socioeconômico, na medida em que os naturais do Nordeste são identificados com segmentos da população que se dedicam, no Sudeste e no Sul, a serviços não especializados ou mesmo informais; por outro lado, há neste fenômeno uma inegável vertente racista.  O homem nordestino, conforme um lugar comum muito difundido, seria o "brasileiro típico", um "não branco genérico", descendente em proporções indistinguíveis de portugueses, africanos e índios, portador dos defeitos que outros lugares comuns, construídos ao longo de séculos, imputaram aos mestiços dos mais variados tipos.
       O preconceito contra o Nordeste, sem dúvida, é irmão gêmeo univitelino do espírito de colonizado.  Repudiar o nordestino, apontá-lo como inferior, querer segregá-lo em guetos ou "deportá-lo" para o lugar de onde veio, são formas mais ou menos conscientes de renegar a própria brasilidade, contrapondo a ela o sentimento de pertencer a um Primeiro Mundo idealizado.  Interrompo aqui, porém, minhas considerações sociológicas.  Mais importante do que isto é apresentar aos descerebrados que perdem seu tempo amaldiçoando as próximas dez gerações de "paraíbas" e "baianos" um conjunto de dados reais, resultante da apuração das urnas em 26 de outubro:                 


.Em Divinópolis (MG, 152.058 eleitores inscritos, 126.734 votos válidos), Dilma Rousseff teve 55,49% dos votos válidos.
.Em Betim (MG, 267.320 eleitores, 208.312 votos válidos), Dilma teve 56,21%.
.Em Juiz de Fora (MG, 392.216 eleitores, 294.485 votos válidos), Dilma teve 63,34%.
.Em Ribeirão das Neves (MG, 185.431 eleitores, 141.242 votos válidos), Dilma teve 54,97%.
.Em Montes Claros (MG, 254.845 eleitores, 200.043 votos válidos), Dilma teve 62,05%.
.Em Ibirité (MG, 104.659 eleitores, 81.157 votos válidos), Dilma teve 60,62%.
.Na cidade histórica de Ouro Preto (MG, 58.347 eleitores, 44.914 votos válidos), Dilma teve 60,62%. 
.Em Patos de Minas (MG, 105.064 eleitores, 79.403 votos válidos), Dilma teve 50,70%.  
.Em Uberaba (MG, 218.859 eleitores, 166.964 votos válidos), Dilma teve 57,60%.
.Em Barbacena (MG, 96.392 eleitores, 73.971 votos válidos), Dilma teve 64,13%. 
.Em Uberlândia (MG, 462.387 eleitores, 355.878 votos válidos), Dilma teve 56,49%.
.Em Teófilo Ottoni (MG, 102.769 eleitores, 71.168 votos válidos), Dilma teve 57,51%.
.Na cidade universitária de Viçosa (MG, 54.674 eleitores, 41.696 votos válidos), Dilma teve 66,77%.
.Em Diadema (SP, 324.890 eleitores, 244.095 votos válidos), Dilma teve 53,85%.
.Em Hortolândia (SP, 138.585 eleitores, 103.590 votos válidos), Dilma teve 56,69%.
.Em Ferraz de Vasconcelos (SP, 120.731 eleitores, 88.323 votos válidos), Dilma teve 51,13%.
.Em Francisco Morato (SP, 112.572 eleitores, 81.426 votos válidos), Dilma teve 59,35%. 
.Em Itapevi (SP, 143.098 eleitores, 106.043 votos válidos), Dilma teve 55,73%.
.Em Itaquaquecetuba (SP, 213.849 eleitores, 158.410 votos válidos), Dilma teve 52,81%.
.Em Cubatão (SP, 95.161 eleitores, 71.202 votos válidos), Dilma teve 55,45%. 
.Em Serra (ES, 288.867 eleitores, 212.821 votos válidos), Dilma teve 55,36%.
.Em Cariacica (ES, 250.818 eleitores, 189.309 votos válidos), Dilma teve 53,49%.  
.Em Campos dos Goytacazes (RJ, 354.630 eleitores, 237.048 votos válidos), Dilma teve 54,67%.
.Em Volta Redonda (RJ, 220.895 eleitores, 161.447 votos válidos), Dilma teve 55,81%. 
.Em Nova Iguaçu (RJ, 573.714 eleitores, 384.432 votos válidos), Dilma teve 63,87%.
.Em Duque de Caxias (RJ, 620.477 eleitores, 420.217 votos válidos), Dilma teve 69,06%.
.Em Barra Mansa (RJ, 132.298 eleitores, 96.692 votos válidos), Dilma teve 55,32%.
.Em Belford Roxo (RJ, 319.962 eleitores, 217.464 votos válidos), Dilma teve 74,82%.
.Em Itaboraí (RJ, 164.992 eleitores, 114.112 votos válidos), Dilma teve 72,61%.
.Em Macaé (RJ, 150.802 eleitores, 96.515 votos válidos), Dilma teve 57,21%.
.Em Magé (RJ, 172.917 eleitores, 116.164 votos válidos), Dilma teve 65,60%.
.No município do Rio de Janeiro (4.832.846 eleitores, 3.201.055 votos válidos), Dilma teve 50,79%.
.Em São Gonçalo (RJ, 678.229 eleitores, 454.760 votos válidos), Dilma teve 68,03%.
.Em São João de Meriti (RJ, 364.099 eleitores, 240.341 votos válidos), Dilma teve 65,99%. 
.Em Nilópolis (RJ, 129.561 eleitores, 92.321 votos válidos), Dilma teve 61,34%.
.Em Rio Grande (RS, 151.561 eleitores, 114.348 votos válidos), Dilma teve 65,52%.
.Em São Leopoldo (RS, 162.652 eleitores, 125.348 votos válidos), Dilma teve 51,68%.
.Em Alvorada (RS, 141.929 eleitores, 104.186 votos válidos), Dilma teve 50,67%.
.Em Canoas (RS, 238.835 eleitores, 189.769 votos válidos), Dilma teve 52,02%.
.Em Viamão (RS, 166.973 eleitores, 123.957 votos válidos), Dilma teve 52,69%.
.Em Sapucaia do Sul (RS, 102.964 eleitores, 79.972 votos válidos), Dilma teve 60,63%.
.Em Pelotas (RS, 253.200 eleitores, 190.192 votos válidos), Dilma teve 54,62%.
.Em Várzea Grande, segundo município mais populoso de Mato Grosso (180.173 eleitores, 136.414 votos válidos), Dilma teve 58,52%.
.Em Corumbá (MS, 69.936 eleitores, 49.022 votos válidos), Dilma teve 56,35%.
.Em Águas Lindas de Goiás (GO, 77.611 eleitores, 56.654 votos válidos), Dilma teve 59,17%.
.Em Valparaíso de Goiás (GO, 72.911 eleitores, 53.905 votos válidos), Dilma teve 53,30%. 


         Esta amostra, à qual ainda poderíamos acrescentar um número expressivo de cidades médias e centros prósperos e/ou dotados de universidades, deixa claro que o triunfo de Dilma não se explica pelo "voto de cabresto dos nordestinos dependentes do Bolsa-Família" ou coisa que o valha.  Assim como a candidatura derrotada do PSDB, a aliança governista comportou uma vasta coalizão de interesses e ideias, à qual aderiram, em regra, os eleitores que desejam menos desigualdade, mais inclusão social, em todas as partes do Brasil. Atrasados e ignorantes, digo sem usar aspas, são os que tentam descarregar suas frustrações realimentando preconceitos ancestrais.    

domingo, 26 de outubro de 2014

Dia de eleição presidencial, dia de esmagar coxinhas


      Segundo o velho ditado, uma imagem vale mil palavras.  Não precisaríamos, de fato, sequer de uma curta legenda para descrever meu estado de espírito após a exuberante vitória da presidentA Dilma sobre o netinho mimado de São Tancredo em 26 de outubro de 2014.
    Todavia, como se trata de uma vitória coletiva, e do coletivo por excelência, devo dizer algumas palavras de pura euforia.  Menos de mil, prometo!

.Viva o trabalhador organizado!
.Viva o sertanejo nordestino!
.Viva o ribeirinho do Amazonas!
.Viva o povo dos morros e favelas do Rio!
.Vivam os quilombolas!
.Viva o funcionalismo progressista!
.Vivam os povos indígenas que lutam contra a força do latifúndio!
.Vivam os militantes secundaristas!
.Viva a intelectualidade de esquerda!
.Viva o Chico Buarque!
.Viva o Emicida!  
.Viva a Socialista Morena!
.Viva a Carta Capital! 
.Viva o gerente do Bradesco que vota no PT escondido!
.Vivam os ativistas anti-homofobia!
.Vivam os pais das classes C e D que estão colocando os filhos nas universidades!

       Considerando as involuntárias, porém inevitáveis lacunas, estendo minhas congratulações a qualquer pessoa que venha a se julgar excluída.  Por fim, segue um breve recado para "o lado de lá", sem pretensão de originalidade: -Lobão, cumpra o que prometeu: vá embora do Brasil, e de preferência leve o Guilherme Fiúza, o Danilo Gentili, o Roger Moreira (sou contra o terrorismo, mas jogo um carro-bomba em quem inventar que é meu parente), o Merval Pereira e o Dado Dolabella.  Saiam pelo aeroporto de Cláudio!     

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre a importância de reeleger Dilma Rousseff



     
       Após o estouro da "onda Marina", poucas semanas antes do desafio das urnas, a candidatura de Aécio Neves, que até então patinava nas pesquisas eleitorais com índices em torno de 20%, ou mesmo abaixo, cresceu com rapidez.  Os 33,55% dos votos válidos alcançados por Aécio em 5 de outubro de 2014 representaram surpresa para muitos dos eleitores tucanos do tipo mais otimista. É certo que as imprecisões do discurso da candidata do PSB, a relativa fragilidade de suas bases políticas e seu despreparo para a batalha retórica que caracteriza todas as disputas para a Presidência da República contribuíram para aquela reviravolta.
      Entretanto, só podemos explicar a velocidade com que se deu o processo a partir da constatação de que, tendo no horizonte o inevitável naufrágio de Marina e a chance real de uma vitória de Dilma Rousseff já no primeiro turno, o poder econômico e as instituições de viés conservador, em sua quase totalidade, se articularam com eficiência no propósito de concentrar votos em Aécio.  Esta movimentação, algo discreta, não apenas levou o ex-governador de Minas Gerais ao segundo turno, com uma larga vantagem sobre a terceira colocada, como ainda logrou o sucesso, inédito desde pelo menos a eleição de Fernando Collor, de unificar a direita.
  Salvo raríssima exceção, liberais, anarcocapitalistas, liberais conservadores, conservadores autoritários, separatistas, monarquistas e fascistas declarados, com o reforço de um punhado de socialdemocratas verdadeiros, hoje cerram fileiras com o PSDB.  Seria ingenuidade ver nesta aglutinação apenas o objetivo comum de remover Dilma do Planalto, ou mesmo de interromper o "ciclo de governo" petista, expressão já utilizada em algumas edições do horário eleitoral. Organizada, sem dúvida, por forças cujo alcance se estende a todo o território nacional, a ascensão de Aécio obrigatoriamente se vinculou a um bom número de compromissos programáticos, procurando contemplar interesses variados e hierarquizados conforme o peso econômico e político de cada setor.
        Apesar do entusiasmo demonstrado por uma parte da extrema direita com as modificações ocorridas no Congresso, o fato é que tanto Dilma quanto Aécio conseguiriam, com facilidade, formar uma maioria parlamentar.  Não obstante os triunfos de reacionários boquirrotos como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, houve um significativo esvaziamento das legendas mais identificadas com a herança da ditadura civil-militar, o PP e o DEM, contradizendo os delírios dos saudosistas da era dos presidentes-generais, sempre prontos a se declararem porta-vozes de uma certa maioria silenciosa, de existência bastante discutível.
         Parece acontecer, no momento em que escrevo estas linhas, uma debandada parcial do eleitorado de Aécio, determinando, para o próximo domingo, tendência favorável à reeleição de Dilma.  Não é hora, entretanto, de euforia para a esquerda, mas sim de redobrar esforços para assegurar uma ampla vitória; ao inverso do que Aécio alega na televisão, o inimigo não é ele, mero playboy de meia idade, político profissional (no pior sentido do termo), senador sem causas, que deve a carreira, em sua maior parte, a um fenômeno bastante disseminado em nosso país: o nepotismo/filhotismo; é o conjunto das forças que se somaram ao PSDB.  
         Valendo-se do inevitável desgaste que se impõe ao PT pela circunstância de ocupar há doze anos a Presidência, a direita está preparada, em caso de vitória, para executar um vasto programa definido por retrocessos na área social. Um eventual governo Aécio não seria simples reedição dos anos FHC, mas uma reformulação daquelas políticas com o acréscimo de vários pontos da agenda de grupos de pressão ultraconservadores; em tal conjuntura, poderíamos esperar, além da compressão da massa salarial, pesados ataques aos movimentos sociais e ao sindicalismo, sustentados por um discurso oficial hipócrita repleto de chavões como "austeridade", "ordem" e "defesa da família".     
          Sob a perspectiva oposta, porém, a esperada reeleição, se confirmada no final de semana, deve causar enormes prejuízos à direita.  Caso seja batido pela quarta vez consecutiva, o PSDB verá a descrença em seu projeto de poder atingir até a militância mais entusiasmada.  Recém-derrotado, mesmo com tantos recursos à sua disposição, Aécio dificilmente obterá uma segunda chance em 2018, diante do tucanato paulista.  Este, por sua vez, tem contra si altos índices de rejeição na maioria dos estados. Atentemos para a quase ausência de FHC na campanha ora em curso,  enquanto Lula, mesmo aparentando saúde frágil, esteve com assiduidade ao lado de Dilma. Poucas coisas agradariam mais à esquerda brasileira do que ter como oponentes, daqui a quatro anos, as desgastadas figuras que atendem pelas alcunhas de Picolé de Chuchu e Zé Pedágio.  Restaria à direita, talvez, trabalhar desde já na construção de um novo Collor, ou de um novo Jânio.  
        Manter o PSDB fora do Planalto, contudo, não seria o principal benefício da vitória de Dilma. Negando nas urnas um mandato a Aécio, o eleitor brasileiro deixa uma mensagem nítida: a de que repele o status quo, as relações de exploração e dominação historicamente construídas; ao contrário, mais uma vez, do que pretendem os arautos do mito do "povo pacífico e ordeiro", sempre pronto a dar assentimento e celebrar a liderança dos seus algozes.  O  cidadão comum sabe que Aécio Neves tem sido ao longo de 2014 o candidato preferido dos banqueiros, dos industriais, dos latifundiários, dos magnatas do comércio varejista, dos donos das empresas de ônibus, das faculdades particulares e dos órgãos da grande imprensa; dos clubes, sociedades e federações em que se reúnem os representantes destes segmentos.  O voto em Dilma, se não for a própria negação do princípio da "necessidade de aristocracia", é, em hipótese mais modesta, um atestado do desprezo do brasileiro médio pelos aristocratas que temos, progressivamente incapazes até de vender ilusões.                         
      
                                        


          

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Treze motivos para votar 13


        

     São praticamente incontáveis as matérias que, no mundo virtual, enumeram as razões para que os brasileiros sensatos não votem em Aécio Neves e nos demais candidatos do PSDB presentes no segundo turno das eleições de 2014.  Eu mesmo, desde o ano passado, fiz contribuições esparsas à literatura deste gênero.  Hoje, contudo, devo ir além: não basta mostrar que os tucanos e seus aliados são elitistas, fisiológicos, entreguistas, mentirosos e falsos moralistas; apresento, assim, uma breve agenda positiva, com treze argumentos sucintos, entre muitos que poderiam ser listados, para justificar meu voto em Dilma Rousseff para a Presidência da República.     

1- A expansão da rede universitária federal terá prosseguimento, com a ampliação do número de matrículas e, muito provavelmente, com a criação de novas instituições de ensino.  

2- O ensino técnico também continuará a se expandir, beneficiando o setor industrial e até (curioso efeito colateral!) a própria coxinhada raivosa, que poderá recorrer a profissionais qualificados quando seus bens estiverem danificados, ao invés de pedir socorro, por falta de opção, à conhecida figura do "faço tudo, porém nada direito".

3- O ingresso de milhões de pessoas das classes C e D no ensino técnico e, principalmente, nas faculdades, fará diminuir a subserviência dos pobres ao tipo idealizado do "dotô" bem nascido. A senhora Cidadania agradece por antecipação.
    
4- Teremos mais quatro anos livres de economistas que gostariam de utilizar o Ministério da Fazenda para conter ou comprimir o crescimento real dos salários. 

5- A política externa brasileira tenderá a aprofundar suas diretrizes de independência, ao invés de retornar a um danoso alinhamento automático com os Estados Unidos. 

6- O campo das forças políticas progressistas receberá mais um impulso na América Latina, para desespero das minorias pró-oligárquicas que se apegam às relações tradicionais de poder.  

7- Com um pouco de sorte, assistiremos pela TV ao sepultamento do DEM ("Democratas"), que depois de funcionar durante décadas como a mais exuberante expressão do conservadorismo fisiológico no Brasil foi reduzido pelas urnas, em 2014, a 22 deputados federais.  Alijado do governo federal por mais um quadriênio, entrará em estado de inanição.

8- A revista Veja não será elevada ao posto de versão chula do Diário Oficial, e nem receberá auxílios oficiais quando sua crescente falta de credibilidade levá-la à situação de indigência. 

9- Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Coronel Telhada, bem como dúzias de seus imitadores com poucos ou nenhum voto, ficarão relegados à oposição, esvaziando as agendas da homofobia e da criminalização da pobreza.

10- Os direitos dos trabalhadores rurais sem terra, índios e quilombolas, mesmo que sujeitos a constantes enfrentamentos, não serão esmagados pelos lobbies dos que gostariam de transformar metade do país em plantação de soja e a outra metade em zona de pecuária extensiva. 

11- Os crimes cometidos pelos agentes da ditadura civil-militar inaugurada em 1964 continuarão vindo à tona, e nem mesmo a imprensa burguesa poderá impedir sua completa divulgação.

12- Manteremos na chefia do Estado uma mulher que não é nem filha, nem neta, nem mãe de políticos.  É um passo, mesmo que pequeno, contra o "filhotismo" e as "dinastias" eleitorais. 

13- Dilma Rousseff é apoiada por Chico Buarque de Holanda, Luís Fernando Verissimo, Ivan Lins, Paulo José, José Paulo Netto, Gilberto Gil, José de Abreu, Beth Carvalho, Marcelo Rubens Paiva, Osmar Prado, Leonardo Boff e Ivanir dos Santos, enquanto seu oponente conta com Lobão, Merval Pereira, Roger do Ultraje a Rigor, Luciano Huck, Rodrigo Constantino, Wanessa Camargo, Regina Duarte, Danilo Gentili, Augusto Nunes, Maitê Proença, Ronaldo Fenômeno e Silas Malafaia. Alguém precisa comentar? 

    



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Para não dizer que não falei de eleições

       

        Trabalhei por dez anos, precisamente entre agosto de 1989 e outubro de 1999, no antigo banco estatal do Rio de Janeiro, o BANERJ.  Calouro do último concurso público realizado para o preenchimento de vagas na instituição, tive lotação na agência Tijuca, situada na Praça Saenz Peña, onde fui escriturário do setor de compensação e, a partir de meados de 1991, caixa. Depois, passei pelas agências Visconde do Uruguai, em Niterói, e Maricá; estava emprestado à agência Itaboraí, sujeita a uma escassez transitória de pessoal, quando recebi um mais do que previsível bilhete azul.  Ganhava na ocasião mais do dobro do salário inicial de um garoto treinado para função idêntica na iniciativa privada.  
          Embora gostasse do que fazia, não entediarei o leitor com detalhes da rotina bancária.  O que pretendo recordar, objetivamente, é minha condição de testemunha e cobaia do processo que terminou, em setembro de 1997, com a venda do banco ao grupo Itaú, fruto de um leilão tão transparente que, no começo daquele ano, os jornais cariocas já anunciavam a presença de executivos ligados aos futuros gestores dentro da sede do BANERJ.
         Não me fixarei nos detalhes da privataria, expostos aos interessados em dezenas de links da Internet.  Quero destacar, mesmo que me acusem de usar um clichê surrado, que estamos diante do típico caso em que a vítima elege o próprio algoz.  Durante o período eleitoral de 1994 ouvi, com uma mistura de espanto e irritação, muitos colegas declararem seus votos para governador no tucano Marcello Alencar.  Gente em média bem mais velha do que eu, escaldada pelos ainda recentes ataques do governo Collor ao funcionalismo, mas crédula e sobretudo sensível ao movimento midiático que, após o rompimento de Alencar com Leonel Brizola, construiu para o primeiro a imagem de um administrador competente e responsável. Apesar da orientação de esquerda que predominava na representação sindical da categoria, não escasseavam entre os bancários os inevitáveis deslumbrados que se orientavam mais pelo orgulho de pertencer a uma presumida pequena burguesia do que pelas necessidades palpáveis de preservar poder aquisitivo e empregos.
          Tomado o Rio de Janeiro pela família Alencar, logo brotou em muitos banerjianos um arrependimento inútil.  Como braço direito de Marcello, despontava o sinistro almofadinha Sérgio Cabral, que dava mostras de extremo cinismo no comando da Assembleia Legislativa, enquanto preparava o terreno para sucessivas vitórias do poder econômico, entre elas a supressão do artigo da Constituição fluminense que estabelecia a obrigatoriedade da manutenção de um banco oficial. 
         Não me posicionarei como vítima.  Antes mesmo da demissão, comecei a trabalhar como professor da rede estadual de ensino, em matrícula no turno da noite.  Nos anos seguintes, consegui outros empregos e fiz o mestrado em História.  Sob diversos aspectos, minha vida melhorou, apesar do detestável embranquecimento da barba. Penso que o jornalista venezuelano de direita Carlos Rangel, se fosse vivo e de alguma forma pudesse ler esta crônica, diria que enfrentei um "estímulo traumático", expressão que empregava ao se referir às sociedades indígenas destroçadas pela colonização, porém contempladas (os sobreviventes, é óbvio) pelo privilégio de poderem se atirar de pernas e braços abertos no mundo dos vencedores. 
         O certo, porém, é que não faltaram vítimas, inclusive fatais, entre os banerjianos forçados a atravessar o quadriênio de Alencar e Cabral.  Quase diariamente corriam notícias sobre mais um bancário  internado com enfarte ou AVC.  Um colega de agência, que eu definiria como subchefe, sofreu uma isquemia em plena jornada de trabalho; por sorte, o sangue do coágulo jorrou inteiro pelo nariz, fazendo com que não tivesse sequelas aparentes.  Uma semana depois, ele estava de volta ao serviço, comendo torresmo no horário de almoço.  Lembro-me até hoje de suas palavras: -O banco comeu meu filé mignon, e agora terá que roer meus ossos! 
        Faltam-me, naturalmente, estatísticas sobre o tema, mas a experiência cotidiana nos deixava a impressão de que os mais atingidos pelos problemas cardiovasculares eram justamente os comissionados incumbidos das demissões, transferências e enquadramentos disciplinares.  Vi mais de um reacionário empedernido passar de uma situação de saúde invejável para a quase invalidez em curto espaço de tempo.    Uma coisa é fazer a apologia do chicote no plano retórico; outra é ser obrigado a empregá-lo sem intermediários contra seus companheiros de torcida, igreja, chope ou carteado. Enquanto tantos tombavam, de diversas maneiras, decidi vestir uma carapaça emocional e seguir resistindo, antes e depois da privatização, até encontrar uma alternativa eficaz de sustento. Embora com o espírito endurecido, admito que sentia muita raiva, talvez suficiente, se transformada em fluido e jogada no mar,  para interditar toda a orla da Barra da Tijuca. 
       Pelo menos uma vez, tentei afrontar a conjuntura desfavorável com ações concretas. Várias agências da cidade de Niterói haviam sido desativadas ou esvaziadas, e seus funcionários remanejados para a agência Visconde do Uruguai, na qual terminaram por se concentrar, se não me falha a memória, cento e vinte banerjianos.  O local era amplo, funcionava como uma grande pagadoria de empregados públicos, terceirizados e aposentados, além de captar um imenso volume de taxas e impostos, mas mesmo com a tecnologia da época não precisaria de mais de sessenta.  
         Vazara a informação, de uma forma que ignoro, de que ao final de determinada tarde 24 pessoas receberiam dispensa.  Embora adotasse uma atitude de distância das "cúpulas", eu julgava que pelo meu perfil avesso a intrigas e rixas domésticas ficaria a salvo.  Meus 28 ou 29 anos também ajudavam a manter frequência quase integral e uma excelente média de autenticações.  Sempre fui, ao longo da carreira, um caixa que os chefes de serviço apreciavam ter em suas equipes.  Mas, tendo em vista a situação dos demitidos (cujos nomes podíamos prever, com mínima margem de erro), me aproveitei de momentos estratégicos de esvaziamento da agência no horário de almoço para dar sumiço em todas as folhas de ponto.  A ideia era inviabilizar as demissões pela ausência de documentação. Não podendo fechar o ponto às cinco horas, os colegas tidos como integrantes da lista sairiam das dependências da Visconde, sem escalas, para o sindicato ou para consultórios médicos, dos quais retornariam todos, em passe de mágica, hipertensos ou surtados, sendo encaminhados para consecutivas licenças com vencimentos. Salvando 24 cabeças, ainda atrairia, sem dúvida, a fúria dos banqueiros contra seus "feitores" relapsos.   
         O plano individual e meio desastrado não funcionou: em menos de uma hora, a gerência deu por falta das folhas e interrompeu as tarefas de vários escriturários, que foram obrigados a datilografar segundas vias sob uma orquestra de impropérios.  Também tiveram início investigações para localizar "quem roubou as folhas de ponto".  A maioria dos encarregados da "repressão" especulava sobre quem, entre os notórios "condenados", seria o "terrorista", com exceção da mais inteligente, que me olhava fixamente e chegou a me pressionar no sentido de arrancar uma confissão.  Neguei tudo, é lógico, simulando susto e indignação.  Para minha surpresa real,  por volta das sete da noite, quando vagava pelo centro de Niterói ainda empregado e com incontáveis doses de cerveja no organismo, minha quase carrasca surgiu do nada e ao me cumprimentar beijou meus lábios, se afastando em seguida com expressão de criança travessa. Não precisamos resgatar os longínquos tempos da Conjuração Mineira para constatar que até os aparentemente mais convictos defensores da ordem podem ter seus instantes de rebeldia.
          Percorrendo os caminhos do Facebook, noto que várias figuras massacradas naquele tempo, submetidas ao desemprego ou obrigadas a se aposentar às pressas, em péssimas condições, curtem a revista Veja e fazem campanha para Aécio Neves.  Não me proponho a convencê-las de nada, até por senso de realidade, e nem as tratarei mal pessoalmente ou no mundo virtual.  Talvez hoje só lhes reste, para esconjurar a proximidade do proletariado tão temido, a recordação de que um dia estiveram na pequena burguesia.  Entretanto, também com base no citado senso de realidade, volto a indicar para todos os leitores, e em particular para os que vivem de salários, aposentadorias ou pensões, que

1-Os governos do PSDB, na era FHC, virtualmente congelaram os salários do funcionalismo.

2-A equipe econômica de Aécio Neves já deu indícios bastante consistentes de que pretende frear os aumentos reais do salário mínimo. As duas condições reunidas fatalmente pressionarão a massa salarial para baixo e o Índice de Gini para cima, quem sabe nos devolvendo aos tempos em que o Brasil disputava com Honduras, Serra Leoa e Botswana o troféu da pior distribuição de renda do planeta.

3-Apesar de Aécio prometer no horário eleitoral que corrigirá a tabela do Imposto de Renda pela inflação, vale recordar que o antigo secretário da Receita do tucanato, Everardo Maciel, constantemente se posicionava contra a correção e defendia a taxação de todos os proventos acima do salário médio, então irrisório.

4-Com a direita no comando do Planalto, governadores, prefeitos e empresários se sentiriam com as mãos mais livres para utilizar todo o aparato repressivo a seu dispor contra os trabalhadores, cujas margens de negociação, já ruins, seriam reduzidas a pó (com ou sem trocadilho, conforme o gosto de quem me honrou com a visita até aqui).


        Portanto, o que está em questão não é gostar ou não de Dilma Rousseff ou do petismo; eu mesmo só fui filiado ao PT durante dezoito meses, de 1994 a 1996, e me desliguei por não concordar com as atitudes personalistas de certas lideranças.  Estamos defronte da possibilidade de perder direitos básicos, sociais e trabalhistas, amargando também graves prejuízos financeiros.  Além disto, da indesejada combinação de Aécio na Presidência com um Congresso conservador e fisiológico, ambos beneficiados pela blindagem da mídia controlada pelas poucas famílias de sempre, derivaria um projeto de poder vigoroso, talvez mais difícil de desalojar do que a própria ditadura civil-militar iniciada em 1964.
         Salvem-se.  Votem 13.        

   
            
      
                     
             
            
           
           

                     
           
           
           
                             
               

terça-feira, 16 de setembro de 2014

História do Brasil a poucos cliques de distância


Dança do búzio dos Pankararu


       Há cerca de três anos, coube a mim atender, no Museu Nacional, um pesquisador vindo de Pernambuco, Lafaete José da Silva. Ele se apresentou, trazendo uma carta impressa, como "liderança do Povo Pankararu", etnia indígena que habita a parte pernambucana do sertão do São Francisco.  Sua missão, determinada pelo cacique, de cujo nome não me recordo, era levantar a maior quantidade possível de informações que existissem sobre os Pankararu no Rio de Janeiro.  Consultamos, então, trabalhos acerca dos índios do Nordeste que são custodiados pela Seção de Memória e Arquivo do Museu.  A busca não foi de todo infrutífera: cheguei a localizar uma monografia produzida a partir das expedições de antropólogos que visitaram diversas reservas pernambucanas nas décadas finais do século XX.  Lafaete identificou naquelas páginas vários amigos, reconheceu um dos colaboradores como seu primo, mas infelizmente nada havia de específico a respeito dos Pankararu, salvo uma ou outra nota isolada.
     Não me dei por vencido; decidi lançar mão, como habitualmente faço quando o acervo da Instituição é insuficiente para suprir as demandas dos usuários, de recursos externos.  Mostrei a Lafaete como poderia ler, na Internet, os antigos relatórios da presidência da província de Pernambuco.  Neles, enfim achamos a pista dos Pankararu, na época conhecidos como Pankaru, que já ocupavam a localidade denominada Brejo dos Padres, como vemos neste documento redigido pelo conde de Baependi, que governava a referida província em 1869:

http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/684/000036.html




Jovens e crianças da aldeia de Brejo dos Padres 


       Enquanto viajávamos pelo século XIX, meu interlocutor descrevia as dificuldades enfrentadas pelos Pankararu na luta pela preservação de suas terras e de sua identidade. Inteiramente familiarizado com as múltiplas facetas da violência contra os índios na contemporaneidade, Lafaete soube que no distante ano de 1872 o conselheiro João José de Oliveira Junqueira, presidente de Pernambuco, orientava a política local no sentido da supressão dos aldeamentos, únicos locais em que, apesar da subalternidade que lhes era imposta, os povos indígenas tinham assegurados certos direitos reais.

http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/687/000040.html
           

            
          Através do relatório de 1875, de autoria do desembargador Henrique Pereira de Lucena, descobrimos que o projeto de Oliveira Junqueira prosperava.  O Brejo dos Padres continuava a figurar como terra indígena, mas recomendava-se a sua extinção, junto com as aldeias restantes.  A argumentação empregada era semelhante à que levou, por exemplo, ao fim do aldeamento fluminense de São Lourenço, absorvido pela municipalidade de Niterói: se os índios não conservavam mais os costumes pré-cabralinos (como se fosse possível para qualquer sociedade viver da mesma forma durante quatrocentos anos!) ou tinham deixado de ser "de sangue puro", suas comunidades deveriam perder o status diferenciado previsto pela legislação.    


http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/690/000146.html


      


    
         Compreensivelmente, a esta altura Lafaete já manifestava fúria diante do cinismo da "civilização imperial"; esmurrou a mesa em frente à tela do computador e não conteve os palavrões que lhe vieram à mente.  Afinal, Brejo dos Padres estava longe de ser São Lourenço, e ele me revelou algo bastante previsível:
-Naquele tempo, nossa gente ainda andava pelada!!!
         Por fim, passados os minutos de cólera, Lafaete foi embora, mas satisfeito, pelo menos conforme a minha avaliação, com a incorporação de novas fontes de pesquisa, sob fáceis condições de acesso.
         Resgato o episódio para colocar em destaque um aspecto da descrição deste blog.  Quando defino o História & Política como veículo de informação a serviço das classes populares, não estou fazendo poesia ou jogo retórico, e sim exercitando, dentro de inevitáveis limites, o que considero um soberbo privilégio ao alcance dos historiadores, o de expor ao "homem comum" os segredos do Estado e das classes dominantes. 
         Percebo, entretanto, que preciso ir além do papel, acusado por alguns leitores, de uma espécie de "iniciado" que percorre misteriosos canais de um passado recente ou remoto para desnudar as intenções dos "de cima".  Isto ficou mais nítido para mim no começo deste ano, quando, em situação hilariante para quem observava de fora, um militante monarquista ensandecido me acusou de ter falsificado, em debate no Facebook, páginas de relatórios do Ministério da Marinha que demonstravam as severas deficiências da Armada imperial, que para ele talvez fosse capaz de afugentar do Atlântico Sul até as belonaves de Sua Majestade Britânica. Por estas e muitas outras, devo salientar que, com ou sem o auxílio dos "iniciados", o "homem comum", ainda que pouco instruído, pode vasculhar rápida e gratuitamente grande parte da documentação oficial acerca de assuntos que lhe dizem respeito ou despertam seu interesse.  
         Sendo impossível, no curto espaço de uma postagem, apontar todos os atalhos que fui aprendendo a duras penas, em centenas de horas de embate com a falecida (e nada saudosa) Internet discada, indico a princípio o programa de digitalização de documentos brasileiros da Universidade de Chicago.  Nele estão incluídos milhões de páginas microfilmadas nas dependências do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e exibidas a partir do link http://www.crl.edu/brazil.
           Os relatórios das administrações regionais do Império, sucedidos pelos republicanos até 1930, estão disponíveis em http://www.crl.edu/brazil/provincial.  Os pesquisadores, após a escolha inicial de um estado ou província, vislumbram uma sequência cronológica; escolhendo também o ano, na maioria dos casos contam com um índice que os levará, em segundos, ao tema investigado.  
          As mensagens dos presidentes da República, de Deodoro da Fonseca a Itamar Franco, podem ser lidas desde o link http://www.crl.edu/brazil/presidential, e os relatórios ministeriais a partir de http://www.crl.edu/brazil/ministerial.  Finalmente, os usuários  mais interessados no Rio de Janeiro localizarão em http://www.crl.edu/brazil/almanak as edições do Almanak Laemmert de 1844 a 1889.  A publicação, que foi impressa até os primeiros anos da Era Vargas, traz em suas páginas dados tão diversificados quanto as relações, por setor, de quase todos os estabelecimentos comerciais da antiga Corte, os nomes dos detentores dos cargos públicos (dos ministros aos serventes dos ministérios), o obituário dos "notáveis", as listagens dos homens aptos ao exercício da Medicina e do Direito, dos deputados gerais e provinciais, senadores e vereadores das vilas fluminenses.  Para orientar a busca neste "oceano", quase todas as edições possuem índice alfabético por assunto e guia onomástico. 
             Com o perdão da má paródia, informem-se, isto é glorioso!
                    
             
                                            

  

terça-feira, 9 de setembro de 2014

"ReGOERGENtando" mentiras ruralistas




      Lendo sobre as últimas proezas das bancadas conservadoras do Congresso Nacional, cheguei ao site do deputado federal Jerônimo Goergen, ruralista do Rio Grande do Sul.  Ele é candidato à reeleição (gaúchos, registrem em suas "agendas negativas"!) sob a legenda do Partido Progressista, que como bom herdeiro da extinta ARENA congrega uma parte expressiva dos representantes dos latifundiários. 
      Logo minha atenção se fixou em uma nota das mais demagógicas, publicada há cerca de um mês e meio.  Goergen "denunciava", então, a adesão do governo brasileiro à Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho, que estabelece direitos básicos para os povos indígenas de todos os continentes, como uma espécie de crime de lesa-pátria.  Segundo o pepista, a ratificação do documento implica na aceitação prévia da eventual emancipação política destes povos; em termos literais, "a criação de nações indígenas independentes".  





      Antes de consultar a Convenção, cujo texto integral podemos acessar no link  http://portal.iphan.gov.br/baixaFcdAnexo.do?id=3764, já sabia que estava diante de uma mentira grosseira.  Só pessoas incapacitadas de refletir, sob a provável influência das seguidas campanhas de estímulo ao pavor que costumam partir dos ideólogos da direita brasileira, conseguiriam acreditar que tantos chefes de governo concordaram simultaneamente com o cancelamento parcial da soberania dos Estados que dirigem. 
           Não existe no texto qualquer menção a declarações unilaterais de independência.  Mesmo que fizéssemos uso de uma dose cavalar de  malabarismo interpretativo, nada sustentaria a sentença "O documento legitima os povos indígenas enquanto nações independentes".  Ao invés disto, a Convenção reafirma, em vários artigos, a autoridade dos respectivos Estados sobre os índios que vivem em seus territórios.  Ao contrário do que declara Jerônimo Goergen, o "tratamento penal" aplicado pelas comunidades indígenas aos indivíduos infratores, e também suas "instituições" tradicionais, devem se adequar ao sistema jurídico nacional.        





         Longe de determinar a formação de países autônomos, a Convenção nº 169 prevê apenas a proteção aos "direitos de propriedade e posse", os quais ficam igualmente vinculados ao sistema jurídico nacional.



              O controle dos índios sobre os recursos naturais existentes em suas terras, apontado de maneira desonesta como afronta à soberania do país, constitui outra alegação falsa. O documento da OIT recomenda apenas que os governos consultem os povos indígenas antes de explorar aqueles recursos.  Percebe-se, logo em seguida, que sequer se firma uma obrigatoriedade completa quanto ao usufruto dos benefícios derivados da exploração.      





                 O tom do documento se torna visivelmente integracionista, na parte que estabelece, ao lado do aprendizado da língua materna, o direito dos índios à fluência na "língua nacional".  



                 
           As diretrizes educacionais da Convenção preveem, desmentindo o pressuposto do isolamento, a ampliação das oportunidades oferecidas aos índios de participarem de uma comunidade nacional que, a seu turno, estaria muito mais receptiva à diversidade cultural.        








            Não creio, entretanto, que a preocupação essencial de Jerônimo Goergen e afins quanto às populações indígenas gire em torno da língua que se fala nas aldeias e reservas, ou dos métodos de castigo impostos a índios acusados de furto ou tráfico.  O que lhes inquieta, de fato, é a possibilidade de recusa das prioridades do agronegócio contidas nos artigos da Parte II da Convenção, cujo título é TERRA:            






    
            Quase quinhentos anos após a construção dos primeiros engenhos de cana da América Portuguesa, os ruralistas brasileiros ainda parecem clamar pelo "direito" à intrusão, à subordinação de quaisquer outros interesses à necessidade de lucro rápido da lavoura comercial.  Não deveriam encontrar, fora de suas associações reacionárias, nenhuma solidariedade político-eleitoral.