quinta-feira, 16 de junho de 2016

Quem banca quem? Algumas linhas sobre financiamentos de campanha

       
                                                           Imagem: blog de Wadson Ribeiro

        Pouco antes das eleições nacionais de 2010, tive uma longa e agradável conversa com o antropólogo e babalorixá José Flávio Pessoa de Barros (1943-2011), em seu gabinete de trabalho na Universidade Cândido Mendes (UCAM).  José Flávio, que fora meu professor de Antropologia Brasileira II nos tempos da graduação em História na UERJ, veio a me orientar, quase vinte anos depois, na elaboração de um trabalho de conclusão de disciplina do Doutorado, em que realizei breve estudo comparativo entre certos aspectos das sociedades brasileira e haitiana no século XIX.  O antigo mestre, que concorria então ao cargo de deputado federal pelo PSB do Rio de Janeiro, a certa altura expôs dados sobre financiamentos eleitorais. Ele me disse que uma campanha vitoriosa para a Câmara estava custando, em média, cerca de R$ 4,5 milhões, com muito pouca variação de estado para estado. Sem contar sequer com uma pequena fração deste valor, José Flávio se empenhava na construção de métodos alternativos para a divulgação de suas propostas, que não funcionaram.  Ele teve pouco mais de mil votos.
           Não disponho de uma atualização daquela cifra, mas pouco me surpreenderia descobrir que, por efeito combinado da inflação, da radicalização de interesses e da concentração das chances reais nos indivíduos com maior "poder de fogo", tenhamos atingido o dobro.  Desta maneira, basta recorrer à aritmética simples para saber que o capital indispensável para a eleição de um deputado federal, com as possíveis exceções de algumas figuras notáveis do esporte ou do entretenimento, excede em muito os valores que os vencedores perceberão em salários e vantagens durante quatro anos.
           Serei muito pouco original, mesmo que não venha a sofrer contestação, ao afirmar que o sistema representativo brasileiro está podre, é fundado sobre níveis intoleráveis de corrupção e se apresenta em condições de completa falência no que diz respeito à representatividade efetiva do eleitorado.  Também não tenho um projeto viável para expulsar do mundo da política o dinheiro das empreiteiras, dos bancos, das empresas de ônibus ou da indústria de armamentos, sem falar em criminosos comuns do tipo mais abastado.  Posso, entretanto, apontar para providências simples, ao alcance de qualquer eleitor com um mínimo conhecimento da Internet, no sentido de verificar se os seus interesses são compatíveis com os dos patrocinadores a quem seu candidato deverá, infalivelmente, prestar satisfações.         
        Indico no site do TSE o link pelo qual até uma criança, sem precisar criar perfil de usuário ou mesmo fornecer dados de identificação, obtém acesso ao resumo das contas de todos os candidatos a cargos eletivos nas eleições mais recentes para presidente da República, governador, deputado federal, distrital e estadual.  O material, sem dúvida, contém limitações: não fornece pistas sobre caixa dois ou remessas ilegais.  Mesmo assim, na maioria dos casos é bastante esclarecedor, e na maioria dos demais a escassez de informações também quer dizer muita coisa.   

http://www.tse.jus.br/eleicoes/contas-eleitorais/candidatos-e-comites

          Após a entrada na página inicial, selecionamos a eleição que desejamos consultar.  




          Em seguida, o site abre fichas, que permitem investigar quanto cada político recebeu, de quais doadores, e como gastou.  Caso o pesquisador queira saber em quem determinada firma (ou um particular) "investiu", é suficiente levantar seu CPF ou CNPJ.  






                
           Seria inviável reproduzir neste espaço, ou em um volume com menos de mil páginas, as contas de todos os 513 deputados federais e 81 senadores eleitos.  Todavia, posso publicar uma pequena quantidade de amostras, que talvez estimulem os leitores a empreender suas próprias buscas.  Recorro aos números de alguns federais eleitos pelo estado do Rio, que de longe, e por razões óbvias, estão entre os mais capazes de me irritar.
           Percebo de imediato que a campanha do peemedebista Eduardo Cosentino da Cunha, mais tarde elevado pelo baixo clero, pelo novo Centrão e pela Frente Parlamentar Evangélica à condição de presidente da Câmara, dispôs das contribuições de várias instituições financeiras. Em um único trecho, nota-se que em poucos dias ocorreram entradas que totalizaram R$ 600.000,00,  vindas de empresas dos grupos Safra, Santander e Bradesco.    




           Neste segundo bloco, logo acima dos registros de doação do Banco Pactual e (mais uma vez) do Bradesco, vemos que Cunha recebeu R$ 700.000,00 de uma mineradora sediada ... no estado de Mato Grosso do Sul!!!  





           Diante deste quadro, fica evidente a ingenuidade de quem venha a acreditar que tal tipo de parlamentar representará em Brasília fiéis pobres da Assembleia de Deus que pagam dízimos sobre o salário mínimo.  A favor de Cunha, eu alegaria somente que ele teve a coragem despudorada de admitir gastos superiores a R$ 6,8 milhões, ao contrário de "colegas" que, embora tivessem os rostos photoshopados expostos em todos os cantos do estado, e em todas as mídias, declararam ao tribunal apenas verbas de fundo partidário e contribuições irrisórias de parentes e amigos.    
               



          Passo agora às contas de Cristiane Brasil, do PTB.  Ela contou com um generoso apoio do grupo JBS/Friboi, que nos meses de julho e agosto de 2014 injetou quase R$ 2 milhões em sua campanha.   




          Entre os demais colaboradores da filha e sucessora "com méritos" do conhecido paladino da moral pequeno burguesa Roberto Jefferson, sobressai uma empresa de ônibus da Zona Oeste da cidade do Rio, que fez quatro doações oficiais no começo de outubro daquele ano.  As receitas de Cristiane ultrapassaram a barreira dos cinco milhões, o que me faz duvidar da fidelidade do clã à pequena burguesia, sobretudo nos campos em que os interesses desta se chocam com os da alta.      





         
       Rodrigo Maia, uma das figuras de proa do anêmico DEM fluminense, ganhou R$ 180.000,00 de Antônio José de Almeida Carneiro, por alcunha o Bode, conselheiro da empresa João Fortes Engenharia e ex-sócio do banqueiro Ronaldo Cezar Coelho.  Uma parte das peripécias de Almeida Carneiro é descrita nesta página:





       Entre as demais verbas de campanha do filho de César Maia, estiveram os donativos de duas imobiliárias.  Além da firma Austrália, que forneceu R$ 75.000,00, a Ribeira "investiu" R$ 138.000,00.  Pouco acima, consta também um "discreto incentivo" do banco Itaú. 



           
      O angelical "defensor da família" Arolde de Oliveira, por sua vez, parece ser um dos queridinhos das empreiteiras.  As empresas Carvalho Hosken e Christiani Nielsen favoreceram sua reeleição com quase meio milhão de reais.   




          Arolde, porém, foi superado no mesmo quesito por Índio da Costa, o deputado que, nos seus próprios termos, "não tem rabo preso com ninguém".  Os gestores da Queiroz Galvão, da Carvalho Hosken e da Christiani Nielsen acreditaram tanto em seu discurso que robusteceram o caixa eleitoral, em julho e agosto de 2014, com um total de R$ 694.000,00.  




Í



           Talvez algum leitor mais assíduo se espante por eu ter chegado até aqui sem falar de direitas ou de reacionarismo.  A razão é simples: muitos dos eleitos pelas legendas classificadas como de esquerda ostentam o mesmo padrão de financiamento de tucanos, peemedebistas, demos e pepistas.  São os "socialistas" e "trabalhistas", se é que ainda pretendem se enquadrar em tais categorias, das linhas de François Hollande, Felipe González ou Tony/Tory Blair; sem, é óbvio, a projeção dos originais.  Progressistas meramente retóricos que, por força dos compromissos com o empresariado, jamais assumirão posturas que possam arranhar de leve a ordem macroeconômica. 
          Isto não deve ser motivo para desânimo.  Os processos de cooptação, sejam quais forem os nomes que receberam ao longo da História, já eram velhos na época em que três aliados do chefe lusitano Viriato entregaram sua cabeça aos oficiais do exército romano.  Precisamos, ao contrário, reconstituir a representação parlamentar da esquerda em outras bases, concentrando votos, apoios e recursos nos militantes mais comprometidos e varrendo para a vala comum do fisiologismo, onde se entenderão às mil maravilhas com os donos das legendas de aluguel, os que já tomaram gosto pelas mordomias e pelos jabaculês.  Aliás, eles nem precisam ser varridos: ao impulso dos primeiros reveses completam espontaneamente suas "conversões" ao deus Mercado e ao conservadorismo.              
                        












quinta-feira, 9 de junho de 2016

Dom Mouro e outras histórias


                                         Centro de Estudos Luso-Árabes, em Silves, no Algarve


   Viajo durante alguns minutos por um de meus endereços virtuais favoritos, http://geneall.net/pt/home/, antes conhecido como Genea Portugal, site para o qual contribuo com informações cartoriais e paroquiais desde o ano 2000.  Meu fascínio pela Genealogia é inato.  Desde a infância criei o hábito de perturbar meus avós com perguntas sobre quem tinham sido os pais e avós deles, onde moraram, o que faziam, etc.
        Esta curiosidade foi se aguçando ao longo do tempo, com outras questões e comentários que estranhos me dirigiam. Para meu espanto, certa vez um professor do primeiro ano do Segundo Grau achou que eu era judeu.  A veterana funcionária do extinto Banerj que me treinou para trabalhar como caixa, em 1991, dizia que se me conhecesse só de vista julgaria estar diante de um sírio ou libanês. Ciganos calons do município de Maricá, que participavam de uma festa no bairro de Itaipuaçu há cerca de dez anos, indagaram quando lá entrei se eu me admitia na vida social como "primo" deles. Em outra ocasião, quando dava aulas na cidade de Duque de Caxias (RJ) e dormia pesadamente na sala dos professores em horário vago, virei objeto de uma espécie de aposta.  Todos os funcionários da equipe de apoio da escola eram negros, e um deles comentou algo como "Gustavo tem toda pinta de português", dando início a uma curiosa polêmica.  Uma colega mais velha, de seus sessenta anos, retrucou afirmando que "sim, ele parece muito com essa gente, mas naqueles traços também vejo gente nossa". Quando acordei, todos estavam ansiosos para ouvir uma resposta definitiva.    
         Voltemos, por enquanto, ao Geneall.  A esplêndida base de dados lusitana conta hoje com os registros (ou registos, como se escreve em Lisboa) de 2.516.715 pessoas. Meu perfil recebe o número 27.755 (http://geneall.net/pt/nome/27755/gustavo-alves-cardoso-moreira/), denunciando uma condição de "quase fundador", digamos assim. Infelizmente, os leitores que decidirem prosseguir não conseguirão navegar pelo site, a não ser que nele se inscrevam pela quantia de 20 euros semestrais, 35 anuais ou 60 bianuais.  Tentarei, contudo, remediar a situação fazendo um punhado de prints explicativos.
       Entre as informações reproduzidas dos livros de linhagem da Idade Média, consta que Fortun Garcés (http://geneall.net/pt/nome/8429/fortun-garces-rei-de-pamplona/), que viveu entre o século IX e começos do X, superando a marca de oitenta anos, era rei de Pamplona, no norte da Península Ibérica. Ele se casou com uma mulher mestiça, Auria Ibn Lope Ibn Musa (http://geneall.net/pt/nome/10934/auria-ibn-lope-ibn-musa/), que tinha inscritas no nome raízes hispanas e muçulmanas (Musa, ou Mussa, é a versão árabe para Moisés).  O pai dela, Lope Ibn Musa, era filho do muçulmano Musa Ibn Musa al Qasaw (http://geneall.net/pt/nome/14687/musa-ibn-musa-al-qasaw/), casado com uma mulher de provável estirpe basca, Assona Iñiguez (http://geneall.net/pt/nome/10861/assona-iniguez/).  Sobre a mãe, temos no geneall apenas o nome Ayab al-Bilatiyya (http://geneall.net/pt/nome/43401/ayab-al-bilatiyya/).
         Uma das filhas de Fortun e Auria, Onega Fortunes (http://geneall.net/pt/nome/42203/onega-fortunes/), teve primeiro um marido muçulmano, Abd Allah Ibn Muhammad, sétimo emir de Córdoba (http://geneall.net/pt/nome/42190/abd-allah-ibn-muhammad-7-emir-de-cordoba/), e depois desposou o cristão Aznar Sanchez, senhor de Larraun (http://geneall.net/pt/nome/1399244/aznar-sanchez-senhor-de-larraun/). 





      Neto de Abd Allah Ibn Muhammad e Onega Fortunes através do filho destes Zayd Ibn Abdallah (http://geneall.net/pt/nome/42189/zayd-ibn-abdallah/), Zaydan Ibn Zayd (http://geneall.net/pt/nome/42188/zaydan-ibn-zayd/) recebeu como esposa, ao que tudo indica, uma cristã, Aragunte Fromariques (http://geneall.net/pt/nome/569122/aragunte-fromariques/) .  Deste casal nasceu Zayra Ibn Zaida (http://geneall.net/pt/nome/42187/zayra-ibn-zayda/), que casaria, a seu turno, com Lovesendo Ramires (http://geneall.net/pt/nome/42186/lovesendo-ramires/) , filho do rei Ramiro II de Leão (http://geneall.net/pt/nome/8191/ramiro-ii-rei-de-leao/). 


    


     
   Filho de Lovesendo e Zayra, Aboazar Lovesendes (http://geneall.net/pt/nome/42185/aboazar-lovesendes/), fundador do Mosteiro de Santo Tirso (ver, por exemplo, http://genealogiafb.blogspot.com.br/2014/11/prazos-do-mosteiro-de-s-bento-em-santo.html), trazia indícios da ascendência muçulmana no prenome, corruptela do árabe Abu Nazr.  Entre seus trinetos esteve Dom Soeiro Pais, dito o Mouro (http://geneall.net/pt/nome/35245/d-soeiro-pais-mouro/), figura legendária da Idade Média portuguesa.








     
       Benquisto por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, Soeiro Pais enriqueceu ao se tornar usufrutuário das rendas de diversos moinhos (ver, por exemplo, http://www.marcodecanaveses.pt/rosem/index.php?op=conteudo&lang=pt&id=152). Tornou-se mais célebre, entretanto, pelo relacionamento que manteve com uma mulher casada, Urraca Mendes de Bragança (http://geneall.net/pt/nome/35243/d-urraca-mendes-de-braganca/), bem assinalado pela literatura da época. O marido de Dona Urraca, Diogo Gonçalves de Urrô (http://geneall.net/pt/nome/35244/diogo-goncalves-de-urro/), se meteria na batalha de Ourique, no Alentejo, empreitada levada a cabo por D. Afonso com a finalidade de prear escravos, ouro e gado. Talvez tivesse em mente exterminar todos os homens de turbante do mundo, ou pelo menos os que lembrassem as feições de seu rival, mas acabou por morrer naquele lugar, bem além das fronteiras do então diminuto reino português.  O Dom Mouro, desta forma, teve caminho livre para se casar com a amante, fazendo legítima sua prole. Nascido de Soeiro Pais Mouro e Urraca Mendes de Bragança, João Soares de Paiva (http://geneall.net/pt/nome/232247/d-joao-soares-de-paiva/), conhecido igualmente como João Soares, o Trovador, terminou por ampliar a fama de seus pais.



        O mouro "aposto", se concedermos crédito total aos livros antigos, foi meu antepassado na vigésima geração, não por meio do Trovador, mas de outro filho, Paio Soares "Romeu" (http://geneall.net/pt/nome/256259/d-paio-soares-romeu/). Minha árvore, por outros caminhos, também inclui as duas irmãs de Soeiro Pais, como se o sangue Abu-Nazr pudesse se buscar e reconhecer no correr dos séculos.  A linhagem receberia mais tarde novos mouriscos, ou moçárabes, descendentes da filha que o rei Dom Afonso III (http://geneall.net/pt/nome/221/d-afonso-iii-rei-de-portugal/) gerou em meados do século XIII com Mourana Gil ou Madragana (http://geneall.net/pt/nome/65678/madragana-depois-mor-afonso/), filha de Aloandro Ben Bekar (http://geneall.net/pt/nome/334363/aloandro-ben-bekar-alcaide-de-faro/), alcaide de Faro, no Algarve, e último governante muçulmano em território português.  No século XVI, ingressaram na trama os judeus sefarditas da família de Abraham Seneor, último rabino-mor de Castela, obrigado a simular conversão, após a qual adotou o nome de Fernão Pérez Coronel (http://geneall.net/pt/nome/199493/fernao-perez-coronel/).  Já no Brasil setecentista, os afidalgados Carneiros da Fontoura, netos distantes de todos estes cristãos, mouros e judeus, se juntaram em matrimônio a ciganos calons vindos do Ribatejo que tentavam enriquecer nas Minas Gerais; nos Oitocentos, negros do Rio de Janeiro tiveram descendência comum com os Cardosos da vila de Itaguaí, netos dos Carneiros da Fontoura. Todos meus antigos interlocutores, então, tinham sua dose de razão. 
          Interrompo por aqui estas anotações, antes que se tornem uma introdução à autobiografia que nunca pretendo escrever.  Penso que toda biografia deve ser obra de terceiros, e de preferência distantes do biografado.  Também não pretendo "provar" a intensa troca de elementos entre as três "nações" da Península Ibérica, processo que a historiografia há muito já constatou, e autores clássicos como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre comentaram em páginas inspiradas.  
       Utilizo esta sequência de exemplos para demonstrar na prática o quanto eram porosas as fronteiras étnico-religiosas, inclusive entre os nobres e a realeza.  Califas, emires e reis das taifas se casaram seguidamente com mulheres cristãs, bascas, navarras, francesas, do que ocasionalmente resultavam filhos louros que se vestiam à moda oriental.  Reis cristãos também escolheram esposas de origem muçulmana, permitindo que membros da corte afonsina, a exemplo de Soeiro Mouro, pudessem ser confundidos com norte-africanos.  Imaginemos então, por um minuto, o que deveria acontecer entre a plebe das regiões de fronteira, alheia aos escrúpulos aristocráticos e muitas vezes obrigada a conviver, alternadamente, com mandatários dos dois grupos, ora beligerantes, ora amigos ao ponto de fundir os sangues.
          Feito este breve exercício, não tenho como deixar de me irritar com certos demagogos que, copiando  discursos da extrema direita europeia, começam a difundir no Brasil a ideia de que cristãos e muçulmanos são inimigos eternos, desde a época de Maomé, sendo a aniquilação ou a subjugação de uns pelos outros a única proposta realista de "convivência".  A genealogia e a pesquisa genética, quando não a simples observação do entorno, já nos dão pleno direito de chamá-los de idiotas.  Um olheiro atento que passasse uma tarde percorrendo a pé os subúrbios da Zona Norte do Rio de Janeiro encontraria, com rapidez, bons sósias de Saddam Hussein, Anwar Sadat e Muammar Kadhafi.  Os islamitas do Oriente Médio são sem dúvida primos dos brasileiros, não apenas através dos mestiços portugueses e espanhóis da Idade Média, e da numerosa colônia árabe existente em nosso país, como também de outros parentes comuns, os negros da África Subsaariana que entraram em Portugal e suas dependências a partir da década de 1440.  
        Pior do que isto é sabermos que os "lepenistas" brasileiros, orgulhosos de integrar uma presumida vanguarda do Ocidente, ignoram em sua maioria o fato de não passarem de uma massa de manobra bastante obtusa.  Mostram enorme e justificável indignação a cada bomba ou rajada de metralhadora ouvida em Paris, mas se esquecem de que o presidente "socialista" François Hollande, em seu sétimo mês de mandato, empregou os mais modernos armamentos da OTAN para decidir a guerra civil da República do Mali em favor de quem mais convinha ao empresariado francês.  Fazem eco à propaganda racista sobre a imaginária "invasão" afro-asiática que escurece e islamiza a Europa, mas pouco se importam com o o fato muito mais palpável de que as invasões propriamente ditas das potências ocidentais contra o Afeganistão, o Iraque e a Líbia destruíram as economias e as infraestruturas urbanas destes países, provocando centenas de milhares de mortes e criando milhões de refugiados.
            Expliquem a estas bestas, de uma vez por todas, que se a burguesia europeia quisesse de fato ver pelas costas árabes, turcos, paquistaneses e africanos poderia ter aceitado como residentes definitivos, desde as primeiras fases da integração econômica pós-Segunda Guerra, massas gigantescas de brasileiros, argentinos, uruguaios, colombianos, mexicanos e outros que, tendo pais ou avós naturais da Espanha, Itália ou Alemanha, preencheriam os pré-requisitos para uma rápida naturalização.  Bem antes disto, o Estado francês, para fortalecer seu domínio colonial sobre a Argélia, já havia incorporado colonos italianos e espanhóis que jamais pisaram na França como cidadãos franceses; chegou mesmo ao extremo de atribuir plenos direitos aos judeus argelinos de língua árabe para isolar os muçulmanos.                    
           O problema, na verdade, é que o argentino filho de pai italiano, o uruguaio neto de espanhol e o brasileiro das áreas de povoamento alemão de Santa Catarina, uma vez admitidos na Comunidade Europeia, não aceitariam, na maior parte dos casos, trabalhar por salários de perfil latino-americano, muito menos africano, nem morar em conjuntos habitacionais e vilas de lata.  Exigiriam, e seus filhos mais ainda, condições de vida similares às da classe média do continente, e se não atendidos engrossariam as fileiras de partidos anticapitalistas.
          A burguesia europeia precisa, e muito, dos imigrantes "inassimiláveis" que usam outras roupas, frequentam outros templos, têm outras cores de pele e realizam quase sozinhos, há décadas e sendo mal pagos, trabalhos "sujos e perigosos".  Ela precisa também mantê-los na subalternidade, e, neste propósito, o racismo fomentado pela extrema direita, já em processo de institucionalização em alguns países, tem sido um instrumento formidável, servindo de quebra para esvaziar o que sobrou da esquerda continental.  Neste jogo de águias, porém, de nada servem os papagaios brasileiros loucos para aderir. Valem tanto quando o partido nazista recentemente fundado na Mongólia. Que se calem.        
                              
                  


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Mais Rousseau, menos Rachel



          Eu folheava um livro no sofá, há duas ou três semanas, quando na TV à minha frente teve início o horário obrigatório de um dos principais partidos de direita do país.  O programa me distraiu por alguns minutos, e a princípio ri ao ver veteranos políticos profissionais, inteiramente desacreditados entre a população em geral e acusados nos tribunais de violar metade do Código Penal, entoando cantilenas moralistas.
           Parei de achar graça, e experimentei até um certo choque, no momento em que surgiu na tela um tipo do terceiro ou quarto escalão na hierarquia partidária, ignorado por completo fora do estado do Rio de Janeiro, de cujas façanhas já sabia desde a década de 90 por gente que o conhece de perto.  Não é, se considerarmos o cenário nacional, uma figurinha avulsa.  Médico do gênero açougueiro, dono de clínica de aborto em bairro miserável, mas populoso, da região metropolitana do Rio, por diversas vezes correu longas distâncias a notícia de que tinha esquecido gazes e instrumentos cirúrgicos dentro dos corpos de suas "pacientes".  
           Muitas mulheres saíam de lá com hemorragias graves para baixar nos hospitais vizinhos, em regra sucateados. Ele mantinha no local um substituto, com a atribuição estratégica de impedir que suas barbeiragens se transformassem em processos de homicídio culposo.  Apesar de tudo, o carniceiro diplomado encontrou lugar na política fluminense, sempre ingressando em legendas que se achavam em ascensão para depois largá-las no primeiro revés, investindo em práticas assistencialistas, assumindo posturas semelhantes às de um antigo "coronel" em suas bases. Chegou a perder eleições, mas conseguiu, mais de uma vez, ser vereador e deputado.
           O médico-monstro, com a hipocrisia que nele parece congênita, estava à vontade na TV, no papel do moralista burguês.  Não destoava em nada de seus correligionários famosos, dos quais só se distingue de fato em um detalhe: a posição inferior na hierarquia convida à prática de crimes mais brutais, mais "porcos", sem a assepsia e o silêncio necessários a quem se credencia a voos mais altos. 
        O médico-monstro jamais exerceria um cargo eletivo se vivesse entre cidadãos cultos, politizados e atendidos em suas necessidades materiais básicas.  Estaria, ao invés disto, cumprindo pena equivalente à prisão perpétua por centenas de episódios de lesão corporal, sem falar nos delitos políticos. Seria candidato, no máximo, à prisão domiciliar, tendo em vista uma idade já avançada.  
       Diante de casos como este, me recordo de antigos ensaios que falavam sobre a incompletude da tarefa do Iluminismo.  Não deixa de ser verdade que, de tempos em tempos, "a razão engendra monstros", mas, por outro lado, o abandono da razão e a cultura que se baseia no lugar comum e na repetição irrefletida geram pogroms, Carandirus, Massacres da Candelária e estupros coletivos diariamente, só variando o endereço; permitem também que criaturas do baixo clero parlamentar, no pior sentido que se pode dar à expressão, atinjam posições de proa no Poder Legislativo, se aproveitando da segurança que transmitem a centenas de colegas de que seus crimes terão menos entraves e menores possibilidades de punição.        
           Pessoas que se dedicam à aquisição de saberes humanísticos e científicos, e que se guiam preferencialmente pela razão, mesmo que seus resultados sejam sofríveis, não elegem aborteiros compradores de voto; não se julgam mais próximas de um paraíso material ou imaterial por lotarem o Congresso Nacional de Cunhas e Crivellas; não tomam parte em estupros coletivos; não xingam refugiados cristãos sírios de terroristas muçulmanos, nem imigrantes haitianos de africanos vagabundos; não incentivam o espancamento e a tortura de presos "comuns" ou políticos; não brigam por espaço na mídia para dizer que o Estado nada deve fazer pela Cultura; não criam fantasias de superioridade em consequência de seu sexo, cor de pele ou origem de classe; não invocam golpes militares para proteger as mesmas fantasias; Pessoas assim precisam se multiplicar em escala nunca antes vista. Mais Jean-Jacques Rousseau, menos Rachel Sheherazade.             

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Agora é a minha vez!



Uma sirene me acordou (em estado desesperador)
Me levantei, lavei o rosto, quase morro de desgosto
Pois foi um sonho e se acabou
(Seu Nélson Motta deu a nota que hoje o som é rock and roll.
A Tabajara é muito cara e o velho tempo já passou!)

João Nogueira (1941-2000).  Baile no Elite.

       O cantor e compositor Ed Motta, quando bem jovem, gostava de demonstrar em entrevistas seus conhecimentos sobre enologia.  Certa vez, com muita irreverência, o sobrinho de Tim Maia disse, a respeito de um produto carregado de açúcar e anilina, porém engarrafado em vidro bonito, que "o vinho da garrafa azul é xarope". Entendo menos sobre o assunto do que Ed Motta, talvez apenas o suficiente para fugir sempre da dupla mortífera açúcar/anilina. Não posso escapar de todo, entretanto, de lidar com os "vinhos da garrafa azul" da História, que atendem pelo nome de bibliografia politicamente incorreta.              
          Antes que o leitor me pergunte o que, afinal, os versos de João Nogueira colocados no alto da página têm a ver com isto, me apresso em explicar: foi através de uma coluna assinada por Nélson Motta, n'O Globo, há alguns anos, que vim a saber da existência do cidadão Leandro Narloch. Para ser exato, não sei se posso chamar tal gênero de texto de coluna: são notas curtas, de um terço de lauda ou meia lauda, no máximo, em que o veterano crítico musical ocasionalmente despeja sua fúria contra tudo que dê a impressão de ameaçar o conservadorismo rançoso que abraçou na Terceira Idade.  Ou, ao invés disto, se compraz em festejar como descobridor da pólvora ou inventor da roda qualquer Danilo Gentili que ganhe, ou precise ganhar, espaço na mídia.
          Naquele dia, então, Nélson Motta decidiu apresentar a Coxinhópolis como gênio o desconhecido (ou quase) Narloch, um jovem que supostamente embasado em pesquisas exaustivas estava prestes a desmontar no atacado as balelas da Historiografia "tradicional", publicando um livro bombástico.  Não me recordo, para falar a verdade, se o termo usado foi mesmo "tradicional". Creio que até os inimigos entenderão minha preguiça em recuperar o original.  Para efeitos práticos, digo que Nélson Motta estava torcendo para que um garoto do Paraná derrubasse a casa na cabeça dos malvados historiadores vermelhos.  Já o autor, ao ser premiado com seus primeiros minutos televisivos, afirmaria que o objetivo da coisa era somente "irritar o maior número possível de pessoas".    
           O resto, creio que todos sabem: logo chegou às bancas e livrarias o primeiro Guia Politicamente Incorreto.  Nélson Motta, é claro, não "fez" Leandro Narloch.  Foi, como Augusto Nunes, Miguel Nagib e outros, apenas um dos agentes da campanha propagandística de proporções gigantescas que teve sucesso, e bastante, na tarefa de convencer milhares de homens e mulheres de que aquela era a verdadeira História, e não a dos professores emproados que pretendem "levar o Brasil para o comunismo".
             Narloch não descobriu a pólvora nem inventou a roda, mas teve a esperteza necessária para surfar mais alto do que os demais em uma onda que já subia há tempos. Desde o início do milênio, alguns escritores, em sua maioria jornalistas, mas sem excluir um ou dois historiadores graduados, sob o pretexto de "popularizar a História" se dedicavam a publicar obras repletas de diálogos imaginários entre personalidades ilustres, enxertadas também com enredos bem hipotéticos que serviam para fechar as inevitáveis lacunas, as questões não solucionadas que desafiam qualquer pesquisa histórica, por mais demorada e minuciosa que seja.
          O resultado, na totalidade dos casos, irritava de fato inúmeros historiadores, mas a estrutura romanceada atraía fãs como as mais populares novelas pós-Jornal Nacional.  A Geração 2000 dos romances históricos não se caracterizava obrigatoriamente por discursos reacionários. Porém, movida acima de tudo pela necessidade de vender, acabava por se assemelhar, no que diz respeito à glamourização dos "grandes vultos", aos manuais escolares da primeira metade do século XX e do início da última ditadura.  Bem menos ingênua, a literatura politicamente incorreta recorre de maneira superficial à bibliografia especializada para construir generalizações destinadas a desacreditar e esvaziar os movimentos populares e devolver ao papel tradicional de vilões as lideranças que, no decorrer dos séculos, se opuseram aos objetivos de classe dos ditos "grandes vultos".               
            Minha proposta para hoje não é brigar com Leandro Narloch e seus sucessores. Estes, a julgar pelo que tenho visto ultimamente, vêm exercitando na Internet a sutileza intelectual de um Alexandre Frota, e se prosperarem transformarão o precursor em forte candidato à Academia Brasileira de Letras. Como gosto de fazer experimentos, sobretudo os que me permitem continuar na parte ventilada da crosta terrestre, tentarei nesta postagem me comportar como um deles; com sinal trocado, é lógico, e, como bom vermelho, sem pretensões quanto ao mercado editorial. 
          Atiro ao mundo virtual as dez composições abaixo, com uma simples recomendação: usem-nas como quiserem.  Seu Nélson Motta não vai dar a nota.  Olavo de Carvalho adorou trazer 1.300 olavetes para visitar o meu blog, mas duvido muito que o agora rabugento empregado da família Marinho queira investir em algo parecido.  No final das contas, o espírito da coisa é mesmo só irritar!                     
                                                                                    




  






















segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os Tupacs



"O sistema da mita para as minas, manufaturas e obras públicas e as condições de trabalho dizimaram a população da colônia.  De cada cinco mitayos apenas um sobrevivia a esse serviço.  Crespo nos diz que ao trabalho das minas iam, em média, quarenta mil índios por ano.  Desses, não regressava senão a quinta parte.  Assim, a mita, em 250 anos, causou a perda de oito milhões de índios que pereceram vítimas do trabalho e da intempérie¹".   


            Durante o período da colonização espanhola, as populações indígenas andinas foram continuamente oprimidas pela mita, um sistema de trabalhos forçados que se organizou a partir de diversos decretos de Francisco de Toledo (1515-1582), vice-rei do Peru.  A mita consistia na obrigação, imposta a um sétimo dos índios adultos de cada vez, de cumprir ao longo de dez meses as tarefas determinadas pelo governo colonial.  Os índios mitayos deveriam receber um salário, que na época da criação do sistema equivalia a algo entre a metade e um terço do que cabia a um trabalhador livre.  Entretanto, a quantia já ínfima não teve reajustes nas gestões dos sucessores de Toledo, de maneira que seu poder aquisitivo desmoronou de vez². 
          Não havia legislação sobre jornada de trabalho nas minas dos Andes, o que permitia ao dono de cada uma delas explorar ao extremo a mão de obra ofertada pelas autoridades. Depois de passar a semana toda no local de trabalho, o mitayo podia, na maioria dos casos, sair somente aos domingos.  Mesmo dispondo apenas do salário miserável, era forçado a pagar tributos e comprar suas próprias ferramentas, o que resultava, inevitavelmente, em dívidas que impediam seu afastamento da mina.  Estas condições contribuíam para que sua expectativa de vida diminuísse ainda mais³.     
           Além da mita, os índios também estiveram sujeitos à encomienda indiana, regime pelo qual um proprietário de origem espanhola, intitulado encomendero, era encarregado pela Coroa da administração de uma certa quantidade de nativos "tributários", os quais se viam obrigados a lhe prestar serviços na mineração, na agricultura ou artesanato. Em contrapartida, o encomendero ficava responsável pela conversão de seus dependentes ao Catolicismo, o que favorecia a submissão dos conquistados 4, beneficiando diretamente a metrópole.
          Por volta de 1780, o vice-rei instalado em Lima governava o Peru e o norte do Chile, enquanto o território que na contemporaneidade forma a Bolívia estava subordinado ao vice-reinado do Prata, cuja capital era Buenos Aires. Existia em Chuquisaca (hoje Sucre) uma Audiência (Corte Suprema), denominada Audiência de Charcas, com autoridade para fiscalizar a atuação do vice-rei e, em caso de graves divergências, recorrer ao Conselho das Índias, sediado em Madri 5.  
      Os vice-reinados hispano-americanos se dividiam em províncias ou corregedorias, geridas por corregedores que compravam da Coroa sua nomeação para o cargo.  Como, nos termos de Marcelo Grondin, "queriam recuperar todos os gastos e acumular uma fortuna", inevitavelmente cometiam enormes abusos contra as populações administradas, fato que desembocou nas rebeliões iniciadas em 1780 [6]. 
           Durante a década de 1770, o peruano José Gabriel Condorcanqui manteve contatos com lideranças indígenas de várias partes dos Andes, tendo em perspectiva uma insurreição geral. Condorcanqui era, a princípio, um mestiço excepcionalmente bem colocado na sociedade colonial.  Detinha o cargo de cacique dos índios da localidade de Tinta, na província de Cuzco, posição que lhe permitia influir na política local, apoiando o bispo Moscoso em suas rusgas com o corregedor Arriaga. Entretanto, se tornaria célebre ao abandonar a face pública de "zeloso súdito de Carlos III" para assumir a identidade de Tupac Amaru II. O nome reverenciava um remoto ancestral, que conduziu entre 1570 e 1572 a última resistência dos incas contra a conquista espanhola. Tupac Amaru II coordenou um levante que, apesar de certa dificuldade de encontrar adeptos entre os criollos (brancos nascidos na América) e mesmo entre as castas (mestiços), entusiasmou um imenso séquito indígena 7.   
       Quando o cacique Tomás Katari, da província de Chayanta (atualmente em solo boliviano), iniciou uma revolta em 26 de agosto de 1780, Tupac Amaru foi forçado a adiantar seus planos. A 4 de novembro, se declarou em armas, inflamando povos distribuídos por um território que se estendia desde Cuzco, no Peru, até o norte da Argentina, e, na direção oposta, até o Equador 8. Os espanhóis conseguiram derrotá-lo e prendê-lo em abril de 1781, o que não significou, em absoluto, a retomada imediata do controle sobre os Andes. Em Puno, às margens do Lago Titicaca, a resistência se prolongou por todo aquele ano, ocorrendo o mesmo no Alto Peru, nome pelo qual era conhecida a área boliviana 9.                             



                                       Cédula peruana com a efígie de Tupac Amaru


             Ao contrário de Tupac Amaru, o índio aimará Julián Apaza, nascido na localidade de Sullcavi ou Ayo-Ayo, entre La Paz e Oruro, não era de origem nobre.  Citado por alguns como filho natural do sacristão de Ayo-Ayo, desempenhou a mesma função na casa do pároco de Sicasica, sede de sua província natal.  Trabalhou, em seguida, na mina de Oruro, não sendo certo se passou pela condição de mitayo ou se para lá seguiu como peão voluntário.  Mas tomou ciência, desta maneira, do sofrimento de seus companheiros, e, sobrevivendo ao tempo de serviço, voltou a Sicasica, onde foi padeiro e comerciante.  Viajava, então, entre a região dos Yungas e La Paz.  Acumulou numerosas relações em tais deslocamentos, que foram úteis quando decidiu empreender sua própria rebelião.  Após conhecer Tupac Amaru e Tomás Katari, adotou o nome de guerra Tupac Katari, que significa Serpente Soberana 10.





                      Selo boliviano que homenageia Tupac Katari e sua mulher Bartolina Sisa


         Embora seja muito menos conhecido pelo público em geral, e pelos próprios historiadores não especializados no tema, Tupac Katari expôs as autoridades espanholas do altiplano boliviano a perigos bem maiores do que os oferecidos por Tupac Amaru na zona peruana. Dando seu grito de guerra nos primeiros dias de março de 1781, ele assumiu a liderança sobre os índios das províncias de Pacajes, Omasuyos, Larecaja, Chucuito, Carangas e Yungas, que se reuniram e impuseram, em 13 de março, um primeiro cerco à cidade de La Paz, na época habitada por 20 mil pessoas.  O sítio durou 184 dias.  Desprovidos de armas de fogo, os índios usavam fundas para atirar por cima dos muros, em chamas, pedras e bolinhas de lã banhadas em óleo e pólvora.  Os rebeldes chegaram a derrotar em Sicasica, no mês de maio, uma tropa chefiada pelo capitão Ayerza, que pretendia desafogar La Paz.  Tomaram dos espanhóis fuzis e dois canhões, mas não sabiam como manejá-los.  A cidade sitiada estava prestes a cair, vitimada por dentro pela fome e por epidemias, quando um exército colonial de 2.700 soldados, tendo à frente o comandante Flores, venceu Tupac Katari em Sicasica.  As forças indígenas recuaram na direção de La Paz, mas não puderam impedir que os espanhóis rompessem o cerco 11.
           Todavia, muitos dos homens de Flores, cansados de lutar e satisfeitos com os saques que tinham realizado nos arredores da capital, desertaram.  O comandante precisou deixar La Paz para reorganizar seu exército, recrutando novos soldados em Oruro, Chuquisaca e Cochabamba. Disto se valeu Tupac Katari para promover um novo cerco, que se prolongou por 75 dias.  O líder aimará contava agora com reforços trazidos por outro chefe indígena, Andrés Tupac Amaru, que apresentou um plano para a tomada da capital: os atacantes represariam as águas do rio Choqueyapu, que banha a cidade, para depois soltá-las abruptamente, derrubando as fortificações.  Antes, porém, que a represa ficasse pronta, Tupac Katari recebeu a notícia do retorno de Flores, que vinha desta vez com 5 mil homens.  Os índios liberaram às pressas o fluxo das águas do rio, que inundou uma parte de La Paz e destruiu parcialmente suas defesas, mas não a ponto de permitir a entrada do exército rebelde 12.
          O comandante Flores salvou La Paz pela segunda vez em 17 de outubro de 1781.  Tupac Katari se retirou para a região de Peñas, disposto a persistir na luta com os 5 mil guerreiros ainda sob seu comando.  Vendo rejeitadas as ofertas de paz, e sabendo da impossibilidade de vencer por completo a rebelião dos índios em seu próprio meio, as altas montanhas bolivianas, o novo comandante espanhol, Reseguín, resolveu empregar um artifício.  Contratou os serviços de um traidor, Inca Lipe, conhecido como amigo pessoal de Tupac Katari, mas que facilitou sua prisão em uma cilada, a 18 de novembro.  O líder aimará foi executado por esquartejamento no dia seguinte. As autoridades metropolitanas, ao que parece, decidiram exterminar sua família: em 5 de dezembro de 1782 eram condenadas à morte Gregoria Apaza e Bartolina Sisa, respectivamente irmã e esposa de Tupac Katari.  Acredita-se que o filho de dez anos do casal, capturado em abril de 1783, também tenha sido morto 13. 
         A grande insurreição boliviana de 1781 não foi uma explosão desordenada de violência. Havia nela um nítido programa social, que pode ser reconstituído a partir da correspondência de Tupac Katari. Os rebeldes pretendiam estabelecer um governo dirigido por índios, obter a restituição das terras usurpadas pelos colonizadores, expulsar todos os espanhóis natos e instituir a língua aimará como obrigatória.  A Igreja Católica seria reformada, deixando de funcionar como braço auxiliar da opressão colonial para assumir uma posição de defesa das reivindicações indígenas 14. Embora soubessem muito bem o que queriam, Tupac Katari e seus seguidores não chegaram a governar de fato, exceto em uma parte do Alto Peru e por um curto período de tempo.  Assim como Tupac Amaru, não obtiveram sucesso na tentativa de agregar ao movimento todos os potenciais interessados em um virtual processo de independência. Como aponta Julio Cotler,


" (...) em um primeiro momento, Tupac Amaru representou a aglutinação de todos os setores provinciais dominados pelo sistema metropolitano: índios, forasteiros, mestiços e criollos.  Na medida em que a rebelião foi se convertendo em uma revolta popular anticolonial, os criollos e seus aliados foram abandonando-a" 15.


        A revolta aimará enfrentou obstáculos ainda maiores para atrair os segmentos não índios. Segundo o historiador argentino Halperin Donghi, ali houve apenas um episódio de "alianza estable entre elementos de castas distintas", quando mineiros criollos de Oruro, que passavam por dificuldades econômicas, iniciaram seu próprio levante contra os espanhóis. Além de recrutar nativos para a causa, passaram a adotar trajes indígenas em seu cotidiano 16. 
           Mais de duzentos anos após a morte dos dois Tupacs, exatamente em 22 de janeiro de 2006, o aimará Evo Morales chegou à Presidência da Bolívia, onde se mantém até hoje.  Seu partido, o MAS (Movimento para o Socialismo), tomou La Paz pelo voto e derrotou, com apoio popular, diversas tentativas de desestabilização política, incluindo iniciativas espúrias de separatismo.  No segundo mandato de Morales, para ódio e desespero das oligarquias e de seus adeptos elitistas e racistas, a Bolívia se transformou em República Plurinacional, concedendo às dezenas de etnias que formam a maioria indígena do país uma boa dose de autonomia interna, além da valorização efetiva de suas culturas.
           Como todos os regimes políticos fatalmente se desgastam, não é impossível que daqui a cinco ou dez anos a direita boliviana ganhe uma eleição e ponha na cadeira de Evo Morales um Aécio Neves, um Mauricio Macri, ou coisa ainda pior.  Mas é certo que as regras do jogo mudaram para sempre: o socialismo deixou de ser palavrão, as organizações populares avançaram em todas as direções, e a hierarquia étnica herdada da colonização e das administrações neocoloniais foi esgarçada de maneira a não poder mais se recompor, a não ser, talvez, com o emprego de violência letal em escala hitleriana. 
         Julgo que não me arrisco demais ao afirmar que o mesmo processo, em proporções variadas e, é claro, com muitas peculiaridades locais, já avançou significativamente em países como Equador, Nicarágua e El Salvador.  É bem possível que o sucessor do venezuelano Nicolás Maduro Moros seja um tecnocrata de Harvard ou um emergente de discurso neoliberal afiado, mas muito pouco provável que o operariado chavista e as populações de baixa renda beneficiadas pelos programas sociais do governo central aceitem retornar às posições que ocupavam na década de 1990.  Mesmo no aparentemente tranquilo Uruguai, o eleitorado não dá mostras de que pretende voltar à antiga polarização entre conservadores agrários e conservadores representantes do grande comércio e das finanças.  Talvez ainda nos deparemos, na próxima década, com a revista-panfleto do grupo Naspers saudando inesperadas glórias do capitalismo em Cuba; não creio, contudo, que os dirigentes anticastristas de Miami sejam carregados nas ruas de Havana como salvadores da pátria, ou que os filhos das classes trabalhadoras desistam de frequentar os bancos universitários em prol de uma nova burguesia, ou dos rebentos tardios da velha.   
          A direita latino-americana vibra, sem dúvida, com a queda do kirchnerismo e do governo Dilma, com a resignação de Maduro ao modesto propósito de se manter no posto até o final do mandato.  Até sinto uma espécie de alívio, nesta conjuntura, por não estar alistado entre os "historiadores do tempo presente".  Seria obrigado a tentar localizar, com enorme chance de erro, os protagonistas da vasta coalizão internacional que faz de tudo para instituir, em todo o continente, uma espécie de "Restauração", bem como seus métodos.  Confesso que, até agora, consigo ver apenas alguns de seus capatazes, além, é óbvio, de uma legião de bobos da corte que tentam se exibir como figuras de proa.  Figuro, assim, nas fileiras de uma tal "esquerda perplexa", conforme tem dito o "cristão novo" do neoliberalismo Cristovam Buarque.
        Ironias à parte, porém, no longo prazo "eles" tendem a perder.  Cada milímetro de desgaste que os milhões de pequenos e grandes Tupacs, notáveis ou anônimos, provocam no paredão do status quo ao longo dos anos, décadas e séculos, é um resultado que em geral se consolida e amplia.  Não por intervenção miraculosa do Santo Ernesto Guevara ou do Santo Antônio da Sardenha, mas por um motivo bem evidente: o conservadorismo só sobrevive, em qualquer latitude, com a ingestão de doses generosas de comodismo intelectual, de recusa à investigação profunda dos fenômenos, com a propagação intencional de um temor infantil da perda de referências sociais, mesmo que estas sejam as piores possíveis. 
          Cada indivíduo ou organização que questiona a subalternidade e a opressão dos pobres, das mulheres, dos homossexuais, dos negros, dos índios, do operariado ou do campesinato nas sociedades latino-americanas, ou que se insurge, seja de maneira hábil ou desastrada, contra as ordens oligárquicas, dá sua contribuição, maior ou menor, para o formidável tombo que a direita continental ainda há de levar de um Salto Ángel [17].  Espero presenciar o grandioso evento, que por si só constituiria razão para chegar à idade de um Oscar Niemeyer.                 


.Dedico este texto a meu amigo Alexandre Soares, biólogo que cada vez mais vem se interessando por antigos entreveros.                             
  

Notas:

1-Marcelo Grondin.  A rebelião camponesa na Bolívia.  São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 39-40.
2- Cf. Julio Cotler.  Peru; Classes, Estado e Nação.  Brasília: Funag, 2006, p. 24.
3- Cf. Grondin.  Op. cit., p. 37-38.
4- Ver Cotler.  Op. cit., p. 23.
5- Grondin.  Op. cit., p. 43-44.
6- Idem, p. 45-46
7- Ver Tulio Halperin Donghi.  Historia de América Latina, 3 (Reforma y disolución de los imperios ibéricos, 1750-1850).  Madrid, Alianza Editorial, 1985, p. 66-68.
8- Ver Grondin, p. 74.
9- Donghi, p. 69.
10- Grondin, 66-67.
11- Idem, 76-78.
12- Ibidem, p. 78-79.
13- Ibidem, p. 79-80.
14- Ibidem, p. 70-73.
15- Cotler, p. 49.
16- Donghi. p. 69.
17- Catarata mais alta do mundo,situada no estado de Bolívar, na Venezuela.




terça-feira, 24 de maio de 2016

Nordestinos construindo São Paulo (como sempre)


Busto de Quintino de Lacerda (1839-1898), ex-escravo natural de Sergipe, líder do quilombo do Jabaquara, em Santos (SP)

"Por volta de 1850, Robert Slenes calcula que uma proporção de até 90% de africanos bantos não era incomum nas plantações cafeeiras, em rápida expansão no Rio e em São Paulo, e que suas identidades culturais e linguísticas eram bem maiores do que a pluralidade de nações africanas de origem parecia sugerir. [...] Os cafezais continuaram, no entanto, a se expandir para leste e para oeste, após 1850, e para isto precisavam adquirir escravos.  De há muito é sabido que o tráfico interno, antes que o crescimento natural, respondeu por esta continuada expansão¹".


          O deslocamento de grandes contingentes de cativos ocorrido a partir da metade do século XIX, que ficou conhecido como tráfico interno ou interprovincial, resultou na concentração da população escrava do Brasil nas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.  As zonas cafeeiras da região que hoje conhecemos como Sudeste receberam ao longo de décadas um fluxo contínuo de mão de obra de partes do Império cuja economia se mostrava menos dinâmica. Nestas, em regra, outros sistemas de exploração do trabalho substituíam gradativamente a escravidão propriamente dita, enquanto se constituíam novas modalidades de relações de dependência pessoal entre os segmentos proprietários e não proprietários.  
          Segundo Boris Fausto, no decênio "entre 1864 e 1874, o número de escravos no Nordeste declinou de 774 mil (45% do total de escravos existentes no Brasil) para 435.687 (28% do total). No mesmo período, nas regiões cafeeiras, a população escrava aumentou de 645 mil (43% do total de escravos) para 809.575 (56% do total) e só na Província de São Paulo o número de cativos dobrou, passando de 80 mil a 174.622²". Apoiando-se nos estudos do mesmo Robert Slenes que embasam a citação inicial deste texto, Sidney Chaloub aponta que cerca de 200 mil pessoas escravizadas chegaram às províncias cafeeiras a partir de 1850 por meio do tráfico interprovincial.  Somente entre 1873 e 1881 foram quase 90 mil, funcionando os portos do Rio de Janeiro e Santos como principais centros distribuidores³. 
       Ao contrário do que acontecia nas áreas de ponta da cafeicultura, boa parte dos escravos trazidos do Norte (termo que então designava todas as províncias acima de Minas Gerais) para o Sul (que se estendia de Minas até o Rio Grande do Sul) havia nascido no Brasil, em alguns casos contando com várias gerações de antepassados no país.  Isto se dava porque desde as primeiras décadas do século XIX o tráfico negreiro rumo à primeira região passara por variações significativas para baixo, ainda que tivesse ocorrido uma certa "recuperação" na fase que se sucedeu ao acordo firmado entre o Império e a Inglaterra, em 1827, no sentido de suprimir o "comércio de carne humana". Enquanto as importações totais de africanos em direção ao Norte oscilaram, entre 1817 e 1823, na faixa entre 10 e 15 mil por ano, o porto do Rio recebeu uma média anual de 18.895 escravos novos de 1811 a 1820, cifra que se elevou a 30.189 no período 1821-1830 [4].
        Em certas províncias nortistas, como o Maranhão, atingido  pela queda dos preços do algodão no mercado internacional em 1819 [5], a situação de enfraquecimento da lavoura desencorajava a compra de mais cativos.  Mesmo em Pernambuco, em cujo território entraram 1.100 africanos novos por ano entre 1839 e 1850, o percentual de escravos crioulos (expressão utilizada para nomear os negros naturais do Brasil) era elevado: o censo local de 1842 demonstrou que 54% dos cativos da província tinham nascido na África, o que nos permite presumir, em relação às décadas seguintes, uma maioria cada vez mais ampla de crioulos 6.    
          Verificando tabelas construídas a partir dos números do Censo Nacional de 1872, noto que naquele ano Minas Gerais contava oficialmente com 370.459 escravos, e assim superava o Rio de Janeiro (341.576) e São Paulo (156.612).  Além das províncias grandes produtoras de café, apenas a Bahia (167.824) ultrapassava a cifra de cem mil cativos.  Todavia, no que diz respeito às porcentagens de escravos na população total, as posições se alteravam, cabendo ao Rio uma macabra liderança (32,3%), seguido pelo Espírito Santo (27.6%), Maranhão (20,9%), São Paulo (18,7%), Minas Gerais (18,2%), Rio Grande do Sul (15,6%), Sergipe (12,8%) e, em um surpreendente oitavo lugar, a Bahia (12,2%)7.               
         Porém, muito mais do que dados estatísticos, aqui me interessam algumas questões de conteúdo. A organização das redes do tráfico interprovincial em benefício da classe senhorial do Império foi altamente danosa, se pensarmos que, sem dúvida, deu ao escravismo brasileiro vários anos de sobrevida.  Por outro lado, foram trabalhadores escravos vindos da Bahia, de Pernambuco, do Maranhão, da Paraíba, do Ceará (também do Rio Grande do Sul, fato bem menos conhecido do público em geral) os homens e mulheres que, com a progressiva redução da quantidade de africanos nas senzalas, deram uma contribuição decisiva para o crescimento da produção brasileira de café no terceiro quarto do século XIX, e mesmo depois.  
          Apesar de uma idealização construída ao longo de gerações, muitas vezes refletida nos livros didáticos, acerca dos "fazendeiros modernos" do Oeste Paulista que teriam optado pelo trabalho livre dos imigrantes europeus em detrimento da escravidão desumana, a verdade é que o mito está longe de se sustentar.  Podemos recordar, com o recurso ao historiador carioca João Fragoso, que "até as vésperas da abolição, os porta-vozes do Oeste paulista no Parlamento e nos ministérios nacionais não abandonaram a defesa do trabalho cativo 8".  Relendo em seguida o paulista Boris Fausto, constatamos que "os fazendeiros paulistas não se voltaram para o imigrante porque acreditavam nas virtudes ou na maior rentabilidade do trabalho livre, mas porque a alternativa do trabalho escravo desaparecia e era preciso dar uma resposta para o problema 9". 
          Detesto o bairrismo, e além disto precisaria ser cego e surdo para não identificar, na cidade e no estado do Rio de Janeiro, uma forte carga de preconceito imposta aos nordestinos de modo geral.  Mais do que isto, porém, têm me irritado as manifestações, que parecem crescer, pelo menos conforme o que vejo em vários espaços da Internet, provenientes de anônimos que usando nicks patéticos como "Nação São Paulo", lançam milhões de impropérios contra "invasores" do Nordeste  ou "cangaceiros". Segundo esta perspectiva obtusa, os migrantes atravessam duas ou mais divisas estaduais só para parasitar o estado "locomotiva da nação" vivendo à custa de bolsas e, é claro, eleger prefeitos "petralhas".
         Há algum tempo, assistindo a um documentário sobre genética, me diverti quando o cientista norte-americano que dirigia certo laboratório disse qualquer coisa como "rio bastante dos racistas quando imagino o que eles falariam se vissem o que eu descubro aqui dentro".  Ele se referia, entre outros casos, à trajetória de sua própria família.  Ruivo, de pele muito branca e olhos azuis, encontrou ao fazer a análise de seu DNA uma dose considerável de genes ligados às populações indígenas dos Estados Unidos.  Intrigado, consultou parentes idosos e teve conhecimento de ancestrais cherokees propositalmente esquecidos por seus avós.  
          Penso o quanto seria engraçado ver mussolinistas de quinta como "Nação São Paulo" achando entre seus trisavós quilombolas baianos do Jabaquara.  Eles merecem, e eu não lhes negaria o privilégio.                 
                      
         

Notas:

1- Hebe Maria Mattos.  Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista, Brasil Século XIX.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 108. 
2- História do Brasil.  São Paulo: Edusp, 1998, p. 204. 
3- Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte.  São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 43.
4- Ver Manolo Florentino.  Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro.  São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 65-66.
5- Ver Maria Januária Vilela Santos.  A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão.  São Paulo: Ática, 1983, p. 41.
6- Cf. João Luís Fragoso.  O Império Escravista e a República dos Plantadores.  In: História Geral do Brasil/org. Maria Yedda Linhares.  Rio de Janeiro: Campus, 1990, p. 171. 
7- Ver História da Vida Privada no Brasil 2/org. Luiz Felipe de Alencastro.  São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 478-479. 
8- Ver Fragoso, op. cit., p. 165.
9- Fausto, op. cit., p. 203.