segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bancando o próprio algoz?




         A afirmativa de que Fábio Luís Lula da Silva é proprietário ou sócio majoritário da Friboi foi uma das mais bem-sucedidas falácias midiáticas dos últimos anos. Difundida por incontáveis blogs, canais do Youtube e tabloides impressos, a "notícia" levou o grupo JBS (Friboi é um "nome fantasia") a contratar a agência 4Buzz para tentar desmenti-la (ver, por exemplo, https://br.noticias.yahoo.com/dona-da-friboi-contrata-empresa-para-limpar-sua-imagem-na-web-203922229.html), ao que parece sem resultados.  Cotidianamente ouvimos, inclusive das bocas de pessoas cultas e com amplo acesso a todo tipo de informação, que "Lulinha é o dono da Friboi".  Pesquisa recente, feita entre os participantes de uma manifestação anti-Dilma ocorrida em abril, demonstra o quanto uma mentira bem plantada pode prosperar:            
               

"A conclusão foi que 71% concordam com a afirmação que 'Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, é sócio da Friboi', o que levantaria a suspeita de uma ligação não muito clara do ex-presidente Lula com a empresa."

          Sendo verdade, estaríamos diante de um caso ímpar de insanidade política.  Dados disponíveis no site oficial do TSE comprovam que a JBS S/A, sob o CNPJ 02.916.265/001/60 ¹ , destinou em julho de 2014 R$ 200.000,00 à campanha do deputado federal Jair Bolsonaro, na época filiado ao PP (Partido Progressista).  Teríamos assim, para efeitos práticos, o ex-presidente Lula investindo na reeleição de um de seus maiores inimigos.  Aquela contribuição, aliás, foi a única receita provinda de empresas admitida nas contas de Bolsonaro (http://inter01.tse.jus.br/spceweb.consulta.receitasdespesas2014/abrirTelaReceitasCandidato.action ²).
        




        Aproveitemos, enquanto é possível, o pouco de transparência que ainda resta nas instituições governamentais.  Escrevi nesta página, há quase três anos, notas sobre trabalho escravo no Brasil baseadas em dados oficiais do Ministério do Trabalho (http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2013/08/parem-o-moinho-prendam-os-moleiros.html).   Pelas regras vigentes, eu não conseguiria reprisar este modesto feito.  Diversos artifícios jurídicos têm impedido que as atualizações da chamada "Lista Suja do Trabalho Escravo" sejam publicadas.  Ficaremos, eventualmente até a morte da maioria dos envolvidos, impossibilitados de saber que parlamentares da legislatura 2015-2018 representam os interesses escravagistas do século XXI.  
         Enfrentamos uma guerra das mais assimétricas. Enquanto a gestão Temer anuncia a suspensão das verbas de patrocínio de Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim, entre outros, como medida moralizante, utiliza, no melhor estilo dos antigos governos ditatoriais, as Organizações Globo como "agência oficiosa".  Mantém, além disto, fora da agenda política nacional qualquer discussão a respeito dos privilégios das seis famílias que, em conjunto, controlam a maior parte de tudo que se produz no país no campo da informação.  Mas sigamos lutando: nossa rendição significaria o triunfo integral do projeto "deles".  


Notas:

1- O CNPJ  da JBS S/A, companhia aberta de capital autorizado, pode ser conferido em http://jbss.infoinvest.com.br/ptb/239/Esclarecimento_Noticias_UniaoEuropeia_17122007.pdf .

2- Para acessar os dados, basta clicar na opção "Selecionar Candidato", introduzir o cargo (deputado federal), a unidade da federação (Rio de Janeiro) e buscar na listagem alfabética o nome Jair Messias Bolsonaro, cujo número de campanha foi 1120.  

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Quem banca quem? Algumas linhas sobre financiamentos de campanha

       
                                                           Imagem: blog de Wadson Ribeiro

        Pouco antes das eleições nacionais de 2010, tive uma longa e agradável conversa com o antropólogo e babalorixá José Flávio Pessoa de Barros (1943-2011), em seu gabinete de trabalho na Universidade Cândido Mendes (UCAM).  José Flávio, que fora meu professor de Antropologia Brasileira II nos tempos da graduação em História na UERJ, veio a me orientar, quase vinte anos depois, na elaboração de um trabalho de conclusão de disciplina do Doutorado, em que realizei breve estudo comparativo entre certos aspectos das sociedades brasileira e haitiana no século XIX.  O antigo mestre, que concorria então ao cargo de deputado federal pelo PSB do Rio de Janeiro, a certa altura expôs dados sobre financiamentos eleitorais. Ele me disse que uma campanha vitoriosa para a Câmara estava custando, em média, cerca de R$ 4,5 milhões, com muito pouca variação de estado para estado. Sem contar sequer com uma pequena fração deste valor, José Flávio se empenhava na construção de métodos alternativos para a divulgação de suas propostas, que não funcionaram.  Ele teve pouco mais de mil votos.
           Não disponho de uma atualização daquela cifra, mas pouco me surpreenderia descobrir que, por efeito combinado da inflação, da radicalização de interesses e da concentração das chances reais nos indivíduos com maior "poder de fogo", tenhamos atingido o dobro.  Desta maneira, basta recorrer à aritmética simples para saber que o capital indispensável para a eleição de um deputado federal, com as possíveis exceções de algumas figuras notáveis do esporte ou do entretenimento, excede em muito os valores que os vencedores perceberão em salários e vantagens durante quatro anos.
           Serei muito pouco original, mesmo que não venha a sofrer contestação, ao afirmar que o sistema representativo brasileiro está podre, é fundado sobre níveis intoleráveis de corrupção e se apresenta em condições de completa falência no que diz respeito à representatividade efetiva do eleitorado.  Também não tenho um projeto viável para expulsar do mundo da política o dinheiro das empreiteiras, dos bancos, das empresas de ônibus ou da indústria de armamentos, sem falar em criminosos comuns do tipo mais abastado.  Posso, entretanto, apontar para providências simples, ao alcance de qualquer eleitor com um mínimo conhecimento da Internet, no sentido de verificar se os seus interesses são compatíveis com os dos patrocinadores a quem seu candidato deverá, infalivelmente, prestar satisfações.         
        Indico no site do TSE o link pelo qual até uma criança, sem precisar criar perfil de usuário ou mesmo fornecer dados de identificação, obtém acesso ao resumo das contas de todos os candidatos a cargos eletivos nas eleições mais recentes para presidente da República, governador, deputado federal, distrital e estadual.  O material, sem dúvida, contém limitações: não fornece pistas sobre caixa dois ou remessas ilegais.  Mesmo assim, na maioria dos casos é bastante esclarecedor, e na maioria dos demais a escassez de informações também quer dizer muita coisa.   

http://www.tse.jus.br/eleicoes/contas-eleitorais/candidatos-e-comites

          Após a entrada na página inicial, selecionamos a eleição que desejamos consultar.  




          Em seguida, o site abre fichas, que permitem investigar quanto cada político recebeu, de quais doadores, e como gastou.  Caso o pesquisador queira saber em quem determinada firma (ou um particular) "investiu", é suficiente levantar seu CPF ou CNPJ.  






                
           Seria inviável reproduzir neste espaço, ou em um volume com menos de mil páginas, as contas de todos os 513 deputados federais e 81 senadores eleitos.  Todavia, posso publicar uma pequena quantidade de amostras, que talvez estimulem os leitores a empreender suas próprias buscas.  Recorro aos números de alguns federais eleitos pelo estado do Rio, que de longe, e por razões óbvias, estão entre os mais capazes de me irritar.
           Percebo de imediato que a campanha do peemedebista Eduardo Cosentino da Cunha, mais tarde elevado pelo baixo clero, pelo novo Centrão e pela Frente Parlamentar Evangélica à condição de presidente da Câmara, dispôs das contribuições de várias instituições financeiras. Em um único trecho, nota-se que em poucos dias ocorreram entradas que totalizaram R$ 600.000,00,  vindas de empresas dos grupos Safra, Santander e Bradesco.    




           Neste segundo bloco, logo acima dos registros de doação do Banco Pactual e (mais uma vez) do Bradesco, vemos que Cunha recebeu R$ 700.000,00 de uma mineradora sediada ... no estado de Mato Grosso do Sul!!!  





           Diante deste quadro, fica evidente a ingenuidade de quem venha a acreditar que tal tipo de parlamentar representará em Brasília fiéis pobres da Assembleia de Deus que pagam dízimos sobre o salário mínimo.  A favor de Cunha, eu alegaria somente que ele teve a coragem despudorada de admitir gastos superiores a R$ 6,8 milhões, ao contrário de "colegas" que, embora tivessem os rostos photoshopados expostos em todos os cantos do estado, e em todas as mídias, declararam ao tribunal apenas verbas de fundo partidário e contribuições irrisórias de parentes e amigos.    
               



          Passo agora às contas de Cristiane Brasil, do PTB.  Ela contou com um generoso apoio do grupo JBS/Friboi, que nos meses de julho e agosto de 2014 injetou quase R$ 2 milhões em sua campanha.   




          Entre os demais colaboradores da filha e sucessora "com méritos" do conhecido paladino da moral pequeno burguesa Roberto Jefferson, sobressai uma empresa de ônibus da Zona Oeste da cidade do Rio, que fez quatro doações oficiais no começo de outubro daquele ano.  As receitas de Cristiane ultrapassaram a barreira dos cinco milhões, o que me faz duvidar da fidelidade do clã à pequena burguesia, sobretudo nos campos em que os interesses desta se chocam com os da alta.      





         
       Rodrigo Maia, uma das figuras de proa do anêmico DEM fluminense, ganhou R$ 180.000,00 de Antônio José de Almeida Carneiro, por alcunha o Bode, conselheiro da empresa João Fortes Engenharia e ex-sócio do banqueiro Ronaldo Cezar Coelho.  Uma parte das peripécias de Almeida Carneiro é descrita nesta página:





       Entre as demais verbas de campanha do filho de César Maia, estiveram os donativos de duas imobiliárias.  Além da firma Austrália, que forneceu R$ 75.000,00, a Ribeira "investiu" R$ 138.000,00.  Pouco acima, consta também um "discreto incentivo" do banco Itaú. 



           
      O angelical "defensor da família" Arolde de Oliveira, por sua vez, parece ser um dos queridinhos das empreiteiras.  As empresas Carvalho Hosken e Christiani Nielsen favoreceram sua reeleição com quase meio milhão de reais.   




          Arolde, porém, foi superado no mesmo quesito por Índio da Costa, o deputado que, nos seus próprios termos, "não tem rabo preso com ninguém".  Os gestores da Queiroz Galvão, da Carvalho Hosken e da Christiani Nielsen acreditaram tanto em seu discurso que robusteceram o caixa eleitoral, em julho e agosto de 2014, com um total de R$ 694.000,00.  




Í



           Talvez algum leitor mais assíduo se espante por eu ter chegado até aqui sem falar de direitas ou de reacionarismo.  A razão é simples: muitos dos eleitos pelas legendas classificadas como de esquerda ostentam o mesmo padrão de financiamento de tucanos, peemedebistas, demos e pepistas.  São os "socialistas" e "trabalhistas", se é que ainda pretendem se enquadrar em tais categorias, das linhas de François Hollande, Felipe González ou Tony/Tory Blair; sem, é óbvio, a projeção dos originais.  Progressistas meramente retóricos que, por força dos compromissos com o empresariado, jamais assumirão posturas que possam arranhar de leve a ordem macroeconômica. 
          Isto não deve ser motivo para desânimo.  Os processos de cooptação, sejam quais forem os nomes que receberam ao longo da História, já eram velhos na época em que três aliados do chefe lusitano Viriato entregaram sua cabeça aos oficiais do exército romano.  Precisamos, ao contrário, reconstituir a representação parlamentar da esquerda em outras bases, concentrando votos, apoios e recursos nos militantes mais comprometidos e varrendo para a vala comum do fisiologismo, onde se entenderão às mil maravilhas com os donos das legendas de aluguel, os que já tomaram gosto pelas mordomias e pelos jabaculês.  Aliás, eles nem precisam ser varridos: ao impulso dos primeiros reveses completam espontaneamente suas "conversões" ao deus Mercado e ao conservadorismo.              
                        












quinta-feira, 9 de junho de 2016

Dom Mouro e outras histórias


                                         Centro de Estudos Luso-Árabes, em Silves, no Algarve


   Viajo durante alguns minutos por um de meus endereços virtuais favoritos, http://geneall.net/pt/home/, antes conhecido como Genea Portugal, site para o qual contribuo com informações cartoriais e paroquiais desde o ano 2000.  Meu fascínio pela Genealogia é inato.  Desde a infância criei o hábito de perturbar meus avós com perguntas sobre quem tinham sido os pais e avós deles, onde moraram, o que faziam, etc.
        Esta curiosidade foi se aguçando ao longo do tempo, com outras questões e comentários que estranhos me dirigiam. Para meu espanto, certa vez um professor do primeiro ano do Segundo Grau achou que eu era judeu.  A veterana funcionária do extinto Banerj que me treinou para trabalhar como caixa, em 1991, dizia que se me conhecesse só de vista julgaria estar diante de um sírio ou libanês. Ciganos calons do município de Maricá, que participavam de uma festa no bairro de Itaipuaçu há cerca de dez anos, indagaram quando lá entrei se eu me admitia na vida social como "primo" deles. Em outra ocasião, quando dava aulas na cidade de Duque de Caxias (RJ) e dormia pesadamente na sala dos professores em horário vago, virei objeto de uma espécie de aposta.  Todos os funcionários da equipe de apoio da escola eram negros, e um deles comentou algo como "Gustavo tem toda pinta de português", dando início a uma curiosa polêmica.  Uma colega mais velha, de seus sessenta anos, retrucou afirmando que "sim, ele parece muito com essa gente, mas naqueles traços também vejo gente nossa". Quando acordei, todos estavam ansiosos para ouvir uma resposta definitiva.    
         Voltemos, por enquanto, ao Geneall.  A esplêndida base de dados lusitana conta hoje com os registros (ou registos, como se escreve em Lisboa) de 2.516.715 pessoas. Meu perfil recebe o número 27.755 (http://geneall.net/pt/nome/27755/gustavo-alves-cardoso-moreira/), denunciando uma condição de "quase fundador", digamos assim. Infelizmente, os leitores que decidirem prosseguir não conseguirão navegar pelo site, a não ser que nele se inscrevam pela quantia de 20 euros semestrais, 35 anuais ou 60 bianuais.  Tentarei, contudo, remediar a situação fazendo um punhado de prints explicativos.
       Entre as informações reproduzidas dos livros de linhagem da Idade Média, consta que Fortun Garcés (http://geneall.net/pt/nome/8429/fortun-garces-rei-de-pamplona/), que viveu entre o século IX e começos do X, superando a marca de oitenta anos, era rei de Pamplona, no norte da Península Ibérica. Ele se casou com uma mulher mestiça, Auria Ibn Lope Ibn Musa (http://geneall.net/pt/nome/10934/auria-ibn-lope-ibn-musa/), que tinha inscritas no nome raízes hispanas e muçulmanas (Musa, ou Mussa, é a versão árabe para Moisés).  O pai dela, Lope Ibn Musa, era filho do muçulmano Musa Ibn Musa al Qasaw (http://geneall.net/pt/nome/14687/musa-ibn-musa-al-qasaw/), casado com uma mulher de provável estirpe basca, Assona Iñiguez (http://geneall.net/pt/nome/10861/assona-iniguez/).  Sobre a mãe, temos no geneall apenas o nome Ayab al-Bilatiyya (http://geneall.net/pt/nome/43401/ayab-al-bilatiyya/).
         Uma das filhas de Fortun e Auria, Onega Fortunes (http://geneall.net/pt/nome/42203/onega-fortunes/), teve primeiro um marido muçulmano, Abd Allah Ibn Muhammad, sétimo emir de Córdoba (http://geneall.net/pt/nome/42190/abd-allah-ibn-muhammad-7-emir-de-cordoba/), e depois desposou o cristão Aznar Sanchez, senhor de Larraun (http://geneall.net/pt/nome/1399244/aznar-sanchez-senhor-de-larraun/). 





      Neto de Abd Allah Ibn Muhammad e Onega Fortunes através do filho destes Zayd Ibn Abdallah (http://geneall.net/pt/nome/42189/zayd-ibn-abdallah/), Zaydan Ibn Zayd (http://geneall.net/pt/nome/42188/zaydan-ibn-zayd/) recebeu como esposa, ao que tudo indica, uma cristã, Aragunte Fromariques (http://geneall.net/pt/nome/569122/aragunte-fromariques/) .  Deste casal nasceu Zayra Ibn Zaida (http://geneall.net/pt/nome/42187/zayra-ibn-zayda/), que casaria, a seu turno, com Lovesendo Ramires (http://geneall.net/pt/nome/42186/lovesendo-ramires/) , filho do rei Ramiro II de Leão (http://geneall.net/pt/nome/8191/ramiro-ii-rei-de-leao/). 


    


     
   Filho de Lovesendo e Zayra, Aboazar Lovesendes (http://geneall.net/pt/nome/42185/aboazar-lovesendes/), fundador do Mosteiro de Santo Tirso (ver, por exemplo, http://genealogiafb.blogspot.com.br/2014/11/prazos-do-mosteiro-de-s-bento-em-santo.html), trazia indícios da ascendência muçulmana no prenome, corruptela do árabe Abu Nazr.  Entre seus trinetos esteve Dom Soeiro Pais, dito o Mouro (http://geneall.net/pt/nome/35245/d-soeiro-pais-mouro/), figura legendária da Idade Média portuguesa.








     
       Benquisto por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, Soeiro Pais enriqueceu ao se tornar usufrutuário das rendas de diversos moinhos (ver, por exemplo, http://www.marcodecanaveses.pt/rosem/index.php?op=conteudo&lang=pt&id=152). Tornou-se mais célebre, entretanto, pelo relacionamento que manteve com uma mulher casada, Urraca Mendes de Bragança (http://geneall.net/pt/nome/35243/d-urraca-mendes-de-braganca/), bem assinalado pela literatura da época. O marido de Dona Urraca, Diogo Gonçalves de Urrô (http://geneall.net/pt/nome/35244/diogo-goncalves-de-urro/), se meteria na batalha de Ourique, no Alentejo, empreitada levada a cabo por D. Afonso com a finalidade de prear escravos, ouro e gado. Talvez tivesse em mente exterminar todos os homens de turbante do mundo, ou pelo menos os que lembrassem as feições de seu rival, mas acabou por morrer naquele lugar, bem além das fronteiras do então diminuto reino português.  O Dom Mouro, desta forma, teve caminho livre para se casar com a amante, fazendo legítima sua prole. Nascido de Soeiro Pais Mouro e Urraca Mendes de Bragança, João Soares de Paiva (http://geneall.net/pt/nome/232247/d-joao-soares-de-paiva/), conhecido igualmente como João Soares, o Trovador, terminou por ampliar a fama de seus pais.



        O mouro "aposto", se concedermos crédito total aos livros antigos, foi meu antepassado na vigésima geração, não por meio do Trovador, mas de outro filho, Paio Soares "Romeu" (http://geneall.net/pt/nome/256259/d-paio-soares-romeu/). Minha árvore, por outros caminhos, também inclui as duas irmãs de Soeiro Pais, como se o sangue Abu-Nazr pudesse se buscar e reconhecer no correr dos séculos.  A linhagem receberia mais tarde novos mouriscos, ou moçárabes, descendentes da filha que o rei Dom Afonso III (http://geneall.net/pt/nome/221/d-afonso-iii-rei-de-portugal/) gerou em meados do século XIII com Mourana Gil ou Madragana (http://geneall.net/pt/nome/65678/madragana-depois-mor-afonso/), filha de Aloandro Ben Bekar (http://geneall.net/pt/nome/334363/aloandro-ben-bekar-alcaide-de-faro/), alcaide de Faro, no Algarve, e último governante muçulmano em território português.  No século XVI, ingressaram na trama os judeus sefarditas da família de Abraham Seneor, último rabino-mor de Castela, obrigado a simular conversão, após a qual adotou o nome de Fernão Pérez Coronel (http://geneall.net/pt/nome/199493/fernao-perez-coronel/).  Já no Brasil setecentista, os afidalgados Carneiros da Fontoura, netos distantes de todos estes cristãos, mouros e judeus, se juntaram em matrimônio a ciganos calons vindos do Ribatejo que tentavam enriquecer nas Minas Gerais; nos Oitocentos, negros do Rio de Janeiro tiveram descendência comum com os Cardosos da vila de Itaguaí, netos dos Carneiros da Fontoura. Todos meus antigos interlocutores, então, tinham sua dose de razão. 
          Interrompo por aqui estas anotações, antes que se tornem uma introdução à autobiografia que nunca pretendo escrever.  Penso que toda biografia deve ser obra de terceiros, e de preferência distantes do biografado.  Também não pretendo "provar" a intensa troca de elementos entre as três "nações" da Península Ibérica, processo que a historiografia há muito já constatou, e autores clássicos como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre comentaram em páginas inspiradas.  
       Utilizo esta sequência de exemplos para demonstrar na prática o quanto eram porosas as fronteiras étnico-religiosas, inclusive entre os nobres e a realeza.  Califas, emires e reis das taifas se casaram seguidamente com mulheres cristãs, bascas, navarras, francesas, do que ocasionalmente resultavam filhos louros que se vestiam à moda oriental.  Reis cristãos também escolheram esposas de origem muçulmana, permitindo que membros da corte afonsina, a exemplo de Soeiro Mouro, pudessem ser confundidos com norte-africanos.  Imaginemos então, por um minuto, o que deveria acontecer entre a plebe das regiões de fronteira, alheia aos escrúpulos aristocráticos e muitas vezes obrigada a conviver, alternadamente, com mandatários dos dois grupos, ora beligerantes, ora amigos ao ponto de fundir os sangues.
          Feito este breve exercício, não tenho como deixar de me irritar com certos demagogos que, copiando  discursos da extrema direita europeia, começam a difundir no Brasil a ideia de que cristãos e muçulmanos são inimigos eternos, desde a época de Maomé, sendo a aniquilação ou a subjugação de uns pelos outros a única proposta realista de "convivência".  A genealogia e a pesquisa genética, quando não a simples observação do entorno, já nos dão pleno direito de chamá-los de idiotas.  Um olheiro atento que passasse uma tarde percorrendo a pé os subúrbios da Zona Norte do Rio de Janeiro encontraria, com rapidez, bons sósias de Saddam Hussein, Anwar Sadat e Muammar Kadhafi.  Os islamitas do Oriente Médio são sem dúvida primos dos brasileiros, não apenas através dos mestiços portugueses e espanhóis da Idade Média, e da numerosa colônia árabe existente em nosso país, como também de outros parentes comuns, os negros da África Subsaariana que entraram em Portugal e suas dependências a partir da década de 1440.  
        Pior do que isto é sabermos que os "lepenistas" brasileiros, orgulhosos de integrar uma presumida vanguarda do Ocidente, ignoram em sua maioria o fato de não passarem de uma massa de manobra bastante obtusa.  Mostram enorme e justificável indignação a cada bomba ou rajada de metralhadora ouvida em Paris, mas se esquecem de que o presidente "socialista" François Hollande, em seu sétimo mês de mandato, empregou os mais modernos armamentos da OTAN para decidir a guerra civil da República do Mali em favor de quem mais convinha ao empresariado francês.  Fazem eco à propaganda racista sobre a imaginária "invasão" afro-asiática que escurece e islamiza a Europa, mas pouco se importam com o o fato muito mais palpável de que as invasões propriamente ditas das potências ocidentais contra o Afeganistão, o Iraque e a Líbia destruíram as economias e as infraestruturas urbanas destes países, provocando centenas de milhares de mortes e criando milhões de refugiados.
            Expliquem a estas bestas, de uma vez por todas, que se a burguesia europeia quisesse de fato ver pelas costas árabes, turcos, paquistaneses e africanos poderia ter aceitado como residentes definitivos, desde as primeiras fases da integração econômica pós-Segunda Guerra, massas gigantescas de brasileiros, argentinos, uruguaios, colombianos, mexicanos e outros que, tendo pais ou avós naturais da Espanha, Itália ou Alemanha, preencheriam os pré-requisitos para uma rápida naturalização.  Bem antes disto, o Estado francês, para fortalecer seu domínio colonial sobre a Argélia, já havia incorporado colonos italianos e espanhóis que jamais pisaram na França como cidadãos franceses; chegou mesmo ao extremo de atribuir plenos direitos aos judeus argelinos de língua árabe para isolar os muçulmanos.                    
           O problema, na verdade, é que o argentino filho de pai italiano, o uruguaio neto de espanhol e o brasileiro das áreas de povoamento alemão de Santa Catarina, uma vez admitidos na Comunidade Europeia, não aceitariam, na maior parte dos casos, trabalhar por salários de perfil latino-americano, muito menos africano, nem morar em conjuntos habitacionais e vilas de lata.  Exigiriam, e seus filhos mais ainda, condições de vida similares às da classe média do continente, e se não atendidos engrossariam as fileiras de partidos anticapitalistas.
          A burguesia europeia precisa, e muito, dos imigrantes "inassimiláveis" que usam outras roupas, frequentam outros templos, têm outras cores de pele e realizam quase sozinhos, há décadas e sendo mal pagos, trabalhos "sujos e perigosos".  Ela precisa também mantê-los na subalternidade, e, neste propósito, o racismo fomentado pela extrema direita, já em processo de institucionalização em alguns países, tem sido um instrumento formidável, servindo de quebra para esvaziar o que sobrou da esquerda continental.  Neste jogo de águias, porém, de nada servem os papagaios brasileiros loucos para aderir. Valem tanto quando o partido nazista recentemente fundado na Mongólia. Que se calem.        
                              
                  


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Mais Rousseau, menos Rachel



          Eu folheava um livro no sofá, há duas ou três semanas, quando na TV à minha frente teve início o horário obrigatório de um dos principais partidos de direita do país.  O programa me distraiu por alguns minutos, e a princípio ri ao ver veteranos políticos profissionais, inteiramente desacreditados entre a população em geral e acusados nos tribunais de violar metade do Código Penal, entoando cantilenas moralistas.
           Parei de achar graça, e experimentei até um certo choque, no momento em que surgiu na tela um tipo do terceiro ou quarto escalão na hierarquia partidária, ignorado por completo fora do estado do Rio de Janeiro, de cujas façanhas já sabia desde a década de 90 por gente que o conhece de perto.  Não é, se considerarmos o cenário nacional, uma figurinha avulsa.  Médico do gênero açougueiro, dono de clínica de aborto em bairro miserável, mas populoso, da região metropolitana do Rio, por diversas vezes correu longas distâncias a notícia de que tinha esquecido gazes e instrumentos cirúrgicos dentro dos corpos de suas "pacientes".  
           Muitas mulheres saíam de lá com hemorragias graves para baixar nos hospitais vizinhos, em regra sucateados. Ele mantinha no local um substituto, com a atribuição estratégica de impedir que suas barbeiragens se transformassem em processos de homicídio culposo.  Apesar de tudo, o carniceiro diplomado encontrou lugar na política fluminense, sempre ingressando em legendas que se achavam em ascensão para depois largá-las no primeiro revés, investindo em práticas assistencialistas, assumindo posturas semelhantes às de um antigo "coronel" em suas bases. Chegou a perder eleições, mas conseguiu, mais de uma vez, ser vereador e deputado.
           O médico-monstro, com a hipocrisia que nele parece congênita, estava à vontade na TV, no papel do moralista burguês.  Não destoava em nada de seus correligionários famosos, dos quais só se distingue de fato em um detalhe: a posição inferior na hierarquia convida à prática de crimes mais brutais, mais "porcos", sem a assepsia e o silêncio necessários a quem se credencia a voos mais altos. 
        O médico-monstro jamais exerceria um cargo eletivo se vivesse entre cidadãos cultos, politizados e atendidos em suas necessidades materiais básicas.  Estaria, ao invés disto, cumprindo pena equivalente à prisão perpétua por centenas de episódios de lesão corporal, sem falar nos delitos políticos. Seria candidato, no máximo, à prisão domiciliar, tendo em vista uma idade já avançada.  
       Diante de casos como este, me recordo de antigos ensaios que falavam sobre a incompletude da tarefa do Iluminismo.  Não deixa de ser verdade que, de tempos em tempos, "a razão engendra monstros", mas, por outro lado, o abandono da razão e a cultura que se baseia no lugar comum e na repetição irrefletida geram pogroms, Carandirus, Massacres da Candelária e estupros coletivos diariamente, só variando o endereço; permitem também que criaturas do baixo clero parlamentar, no pior sentido que se pode dar à expressão, atinjam posições de proa no Poder Legislativo, se aproveitando da segurança que transmitem a centenas de colegas de que seus crimes terão menos entraves e menores possibilidades de punição.        
           Pessoas que se dedicam à aquisição de saberes humanísticos e científicos, e que se guiam preferencialmente pela razão, mesmo que seus resultados sejam sofríveis, não elegem aborteiros compradores de voto; não se julgam mais próximas de um paraíso material ou imaterial por lotarem o Congresso Nacional de Cunhas e Crivellas; não tomam parte em estupros coletivos; não xingam refugiados cristãos sírios de terroristas muçulmanos, nem imigrantes haitianos de africanos vagabundos; não incentivam o espancamento e a tortura de presos "comuns" ou políticos; não brigam por espaço na mídia para dizer que o Estado nada deve fazer pela Cultura; não criam fantasias de superioridade em consequência de seu sexo, cor de pele ou origem de classe; não invocam golpes militares para proteger as mesmas fantasias; Pessoas assim precisam se multiplicar em escala nunca antes vista. Mais Jean-Jacques Rousseau, menos Rachel Sheherazade.             

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Agora é a minha vez!



Uma sirene me acordou (em estado desesperador)
Me levantei, lavei o rosto, quase morro de desgosto
Pois foi um sonho e se acabou
(Seu Nélson Motta deu a nota que hoje o som é rock and roll.
A Tabajara é muito cara e o velho tempo já passou!)

João Nogueira (1941-2000).  Baile no Elite.

       O cantor e compositor Ed Motta, quando bem jovem, gostava de demonstrar em entrevistas seus conhecimentos sobre enologia.  Certa vez, com muita irreverência, o sobrinho de Tim Maia disse, a respeito de um produto carregado de açúcar e anilina, porém engarrafado em vidro bonito, que "o vinho da garrafa azul é xarope". Entendo menos sobre o assunto do que Ed Motta, talvez apenas o suficiente para fugir sempre da dupla mortífera açúcar/anilina. Não posso escapar de todo, entretanto, de lidar com os "vinhos da garrafa azul" da História, que atendem pelo nome de bibliografia politicamente incorreta.              
          Antes que o leitor me pergunte o que, afinal, os versos de João Nogueira colocados no alto da página têm a ver com isto, me apresso em explicar: foi através de uma coluna assinada por Nélson Motta, n'O Globo, há alguns anos, que vim a saber da existência do cidadão Leandro Narloch. Para ser exato, não sei se posso chamar tal gênero de texto de coluna: são notas curtas, de um terço de lauda ou meia lauda, no máximo, em que o veterano crítico musical ocasionalmente despeja sua fúria contra tudo que dê a impressão de ameaçar o conservadorismo rançoso que abraçou na Terceira Idade.  Ou, ao invés disto, se compraz em festejar como descobridor da pólvora ou inventor da roda qualquer Danilo Gentili que ganhe, ou precise ganhar, espaço na mídia.
          Naquele dia, então, Nélson Motta decidiu apresentar a Coxinhópolis como gênio o desconhecido (ou quase) Narloch, um jovem que supostamente embasado em pesquisas exaustivas estava prestes a desmontar no atacado as balelas da Historiografia "tradicional", publicando um livro bombástico.  Não me recordo, para falar a verdade, se o termo usado foi mesmo "tradicional". Creio que até os inimigos entenderão minha preguiça em recuperar o original.  Para efeitos práticos, digo que Nélson Motta estava torcendo para que um garoto do Paraná derrubasse a casa na cabeça dos malvados historiadores vermelhos.  Já o autor, ao ser premiado com seus primeiros minutos televisivos, afirmaria que o objetivo da coisa era somente "irritar o maior número possível de pessoas".    
           O resto, creio que todos sabem: logo chegou às bancas e livrarias o primeiro Guia Politicamente Incorreto.  Nélson Motta, é claro, não "fez" Leandro Narloch.  Foi, como Augusto Nunes, Miguel Nagib e outros, apenas um dos agentes da campanha propagandística de proporções gigantescas que teve sucesso, e bastante, na tarefa de convencer milhares de homens e mulheres de que aquela era a verdadeira História, e não a dos professores emproados que pretendem "levar o Brasil para o comunismo".
             Narloch não descobriu a pólvora nem inventou a roda, mas teve a esperteza necessária para surfar mais alto do que os demais em uma onda que já subia há tempos. Desde o início do milênio, alguns escritores, em sua maioria jornalistas, mas sem excluir um ou dois historiadores graduados, sob o pretexto de "popularizar a História" se dedicavam a publicar obras repletas de diálogos imaginários entre personalidades ilustres, enxertadas também com enredos bem hipotéticos que serviam para fechar as inevitáveis lacunas, as questões não solucionadas que desafiam qualquer pesquisa histórica, por mais demorada e minuciosa que seja.
          O resultado, na totalidade dos casos, irritava de fato inúmeros historiadores, mas a estrutura romanceada atraía fãs como as mais populares novelas pós-Jornal Nacional.  A Geração 2000 dos romances históricos não se caracterizava obrigatoriamente por discursos reacionários. Porém, movida acima de tudo pela necessidade de vender, acabava por se assemelhar, no que diz respeito à glamourização dos "grandes vultos", aos manuais escolares da primeira metade do século XX e do início da última ditadura.  Bem menos ingênua, a literatura politicamente incorreta recorre de maneira superficial à bibliografia especializada para construir generalizações destinadas a desacreditar e esvaziar os movimentos populares e devolver ao papel tradicional de vilões as lideranças que, no decorrer dos séculos, se opuseram aos objetivos de classe dos ditos "grandes vultos".               
            Minha proposta para hoje não é brigar com Leandro Narloch e seus sucessores. Estes, a julgar pelo que tenho visto ultimamente, vêm exercitando na Internet a sutileza intelectual de um Alexandre Frota, e se prosperarem transformarão o precursor em forte candidato à Academia Brasileira de Letras. Como gosto de fazer experimentos, sobretudo os que me permitem continuar na parte ventilada da crosta terrestre, tentarei nesta postagem me comportar como um deles; com sinal trocado, é lógico, e, como bom vermelho, sem pretensões quanto ao mercado editorial. 
          Atiro ao mundo virtual as dez composições abaixo, com uma simples recomendação: usem-nas como quiserem.  Seu Nélson Motta não vai dar a nota.  Olavo de Carvalho adorou trazer 1.300 olavetes para visitar o meu blog, mas duvido muito que o agora rabugento empregado da família Marinho queira investir em algo parecido.  No final das contas, o espírito da coisa é mesmo só irritar!