sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre a importância de reeleger Dilma Rousseff



     
       Após o estouro da "onda Marina", poucas semanas antes do desafio das urnas, a candidatura de Aécio Neves, que até então patinava nas pesquisas eleitorais com índices em torno de 20%, ou mesmo abaixo, cresceu com rapidez.  Os 33,55% dos votos válidos alcançados por Aécio em 5 de outubro de 2014 representaram surpresa para muitos dos eleitores tucanos do tipo mais otimista. É certo que as imprecisões do discurso da candidata do PSB, a relativa fragilidade de suas bases políticas e seu despreparo para a batalha retórica que caracteriza todas as disputas para a Presidência da República contribuíram para aquela reviravolta.
      Entretanto, só podemos explicar a velocidade com que se deu o processo a partir da constatação de que, tendo no horizonte o inevitável naufrágio de Marina e a chance real de uma vitória de Dilma Rousseff já no primeiro turno, o poder econômico e as instituições de viés conservador, em sua quase totalidade, se articularam com eficiência no propósito de concentrar votos em Aécio.  Esta movimentação, algo discreta, não apenas levou o ex-governador de Minas Gerais ao segundo turno, com uma larga vantagem sobre a terceira colocada, como ainda logrou o sucesso, inédito desde pelo menos a eleição de Fernando Collor, de unificar a direita.
  Salvo raríssima exceção, liberais, anarcocapitalistas, liberais conservadores, conservadores autoritários, separatistas, monarquistas e fascistas declarados, com o reforço de um punhado de socialdemocratas verdadeiros, hoje cerram fileiras com o PSDB.  Seria ingenuidade ver nesta aglutinação apenas o objetivo comum de remover Dilma do Planalto, ou mesmo de interromper o "ciclo de governo" petista, expressão já utilizada em algumas edições do horário eleitoral. Organizada, sem dúvida, por forças cujo alcance se estende a todo o território nacional, a ascensão de Aécio obrigatoriamente se vinculou a um bom número de compromissos programáticos, procurando contemplar interesses variados e hierarquizados conforme o peso econômico e político de cada setor.
        Apesar do entusiasmo demonstrado por uma parte da extrema direita com as modificações ocorridas no Congresso, o fato é que tanto Dilma quanto Aécio conseguiriam, com facilidade, formar uma maioria parlamentar.  Não obstante os triunfos de reacionários boquirrotos como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, houve um significativo esvaziamento das legendas mais identificadas com a herança da ditadura civil-militar, o PP e o DEM, contradizendo os delírios dos saudosistas da era dos presidentes-generais, sempre prontos a se declararem porta-vozes de uma certa maioria silenciosa, de existência bastante discutível.
         Parece acontecer, no momento em que escrevo estas linhas, uma debandada parcial do eleitorado de Aécio, determinando, para o próximo domingo, tendência favorável à reeleição de Dilma.  Não é hora, entretanto, de euforia para a esquerda, mas sim de redobrar esforços para assegurar uma ampla vitória; ao inverso do que Aécio alega na televisão, o inimigo não é ele, mero playboy de meia idade, político profissional (no pior sentido do termo), senador sem causas, que deve a carreira, em sua maior parte, a um fenômeno bastante disseminado em nosso país: o nepotismo/filhotismo; é o conjunto das forças que se somaram ao PSDB.  
         Valendo-se do inevitável desgaste que se impõe ao PT pela circunstância de ocupar há doze anos a Presidência, a direita está preparada, em caso de vitória, para executar um vasto programa definido por retrocessos na área social. Um eventual governo Aécio não seria simples reedição dos anos FHC, mas uma reformulação daquelas políticas com o acréscimo de vários pontos da agenda de grupos de pressão ultraconservadores; em tal conjuntura, poderíamos esperar, além da compressão da massa salarial, pesados ataques aos movimentos sociais e ao sindicalismo, sustentados por um discurso oficial hipócrita repleto de chavões como "austeridade", "ordem" e "defesa da família".     
          Sob a perspectiva oposta, porém, a esperada reeleição, se confirmada no final de semana, deve causar enormes prejuízos à direita.  Caso seja batido pela quarta vez consecutiva, o PSDB verá a descrença em seu projeto de poder atingir até a militância mais entusiasmada.  Recém-derrotado, mesmo com tantos recursos à sua disposição, Aécio dificilmente obterá uma segunda chance em 2018, diante do tucanato paulista.  Este, por sua vez, tem contra si altos índices de rejeição na maioria dos estados. Atentemos para a quase ausência de FHC na campanha ora em curso,  enquanto Lula, mesmo aparentando saúde frágil, esteve com assiduidade ao lado de Dilma. Poucas coisas agradariam mais à esquerda brasileira do que ter como oponentes, daqui a quatro anos, as desgastadas figuras que atendem pelas alcunhas de Picolé de Chuchu e Zé Pedágio.  Restaria à direita, talvez, trabalhar desde já na construção de um novo Collor, ou de um novo Jânio.  
        Manter o PSDB fora do Planalto, contudo, não seria o principal benefício da vitória de Dilma. Negando nas urnas um mandato a Aécio, o eleitor brasileiro deixa uma mensagem nítida: a de que repele o status quo, as relações de exploração e dominação historicamente construídas; ao contrário, mais uma vez, do que pretendem os arautos do mito do "povo pacífico e ordeiro", sempre pronto a dar assentimento e celebrar a liderança dos seus algozes.  O  cidadão comum sabe que Aécio Neves tem sido ao longo de 2014 o candidato preferido dos banqueiros, dos industriais, dos latifundiários, dos magnatas do comércio varejista, dos donos das empresas de ônibus, das faculdades particulares e dos órgãos da grande imprensa; dos clubes, sociedades e federações em que se reúnem os representantes destes segmentos.  O voto em Dilma, se não for a própria negação do princípio da "necessidade de aristocracia", é, em hipótese mais modesta, um atestado do desprezo do brasileiro médio pelos aristocratas que temos, progressivamente incapazes até de vender ilusões.                         
      
                                        


          

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Treze motivos para votar 13


        

     São praticamente incontáveis as matérias que, no mundo virtual, enumeram as razões para que os brasileiros sensatos não votem em Aécio Neves e nos demais candidatos do PSDB presentes no segundo turno das eleições de 2014.  Eu mesmo, desde o ano passado, fiz contribuições esparsas à literatura deste gênero.  Hoje, contudo, devo ir além: não basta mostrar que os tucanos e seus aliados são elitistas, fisiológicos, entreguistas, mentirosos e falsos moralistas; apresento, assim, uma breve agenda positiva, com treze argumentos sucintos, entre muitos que poderiam ser listados, para justificar meu voto em Dilma Rousseff para a Presidência da República.     

1- A expansão da rede universitária federal terá prosseguimento, com a ampliação do número de matrículas e, muito provavelmente, com a criação de novas instituições de ensino.  

2- O ensino técnico também continuará a se expandir, beneficiando o setor industrial e até (curioso efeito colateral!) a própria coxinhada raivosa, que poderá recorrer a profissionais qualificados quando seus bens estiverem danificados, ao invés de pedir socorro, por falta de opção, à conhecida figura do "faço tudo, porém nada direito".

3- O ingresso de milhões de pessoas das classes C e D no ensino técnico e, principalmente, nas faculdades, fará diminuir a subserviência dos pobres ao tipo idealizado do "dotô" bem nascido. A senhora Cidadania agradece por antecipação.
    
4- Teremos mais quatro anos livres de economistas que gostariam de utilizar o Ministério da Fazenda para conter ou comprimir o crescimento real dos salários. 

5- A política externa brasileira tenderá a aprofundar suas diretrizes de independência, ao invés de retornar a um danoso alinhamento automático com os Estados Unidos. 

6- O campo das forças políticas progressistas receberá mais um impulso na América Latina, para desespero das minorias pró-oligárquicas que se apegam às relações tradicionais de poder.  

7- Com um pouco de sorte, assistiremos pela TV ao sepultamento do DEM ("Democratas"), que depois de funcionar durante décadas como a mais exuberante expressão do conservadorismo fisiológico no Brasil foi reduzido pelas urnas, em 2014, a 22 deputados federais.  Alijado do governo federal por mais um quadriênio, entrará em estado de inanição.

8- A revista Veja não será elevada ao posto de versão chula do Diário Oficial, e nem receberá auxílios oficiais quando sua crescente falta de credibilidade levá-la à situação de indigência. 

9- Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Coronel Telhada, bem como dúzias de seus imitadores com poucos ou nenhum voto, ficarão relegados à oposição, esvaziando as agendas da homofobia e da criminalização da pobreza.

10- Os direitos dos trabalhadores rurais sem terra, índios e quilombolas, mesmo que sujeitos a constantes enfrentamentos, não serão esmagados pelos lobbies dos que gostariam de transformar metade do país em plantação de soja e a outra metade em zona de pecuária extensiva. 

11- Os crimes cometidos pelos agentes da ditadura civil-militar inaugurada em 1964 continuarão vindo à tona, e nem mesmo a imprensa burguesa poderá impedir sua completa divulgação.

12- Manteremos na chefia do Estado uma mulher que não é nem filha, nem neta, nem mãe de políticos.  É um passo, mesmo que pequeno, contra o "filhotismo" e as "dinastias" eleitorais. 

13- Dilma Rousseff é apoiada por Chico Buarque de Holanda, Luís Fernando Verissimo, Ivan Lins, Paulo José, José Paulo Netto, Gilberto Gil, José de Abreu, Beth Carvalho, Marcelo Rubens Paiva, Osmar Prado, Leonardo Boff e Ivanir dos Santos, enquanto seu oponente conta com Lobão, Merval Pereira, Roger do Ultraje a Rigor, Luciano Huck, Rodrigo Constantino, Wanessa Camargo, Regina Duarte, Danilo Gentili, Augusto Nunes, Maitê Proença, Ronaldo Fenômeno e Silas Malafaia. Alguém precisa comentar? 

    



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Para não dizer que não falei de eleições

       

        Trabalhei por dez anos, precisamente entre agosto de 1989 e outubro de 1999, no antigo banco estatal do Rio de Janeiro, o BANERJ.  Calouro do último concurso público realizado para o preenchimento de vagas na instituição, tive lotação na agência Tijuca, situada na Praça Saenz Peña, onde fui escriturário do setor de compensação e, a partir de meados de 1991, caixa. Depois, passei pelas agências Visconde do Uruguai, em Niterói, e Maricá; estava emprestado à agência Itaboraí, sujeita a uma escassez transitória de pessoal, quando recebi um mais do que previsível bilhete azul.  Ganhava na ocasião mais do dobro do salário inicial de um garoto treinado para função idêntica na iniciativa privada.  
          Embora gostasse do que fazia, não entediarei o leitor com detalhes da rotina bancária.  O que pretendo recordar, objetivamente, é minha condição de testemunha e cobaia do processo que terminou, em setembro de 1997, com a venda do banco ao grupo Itaú, fruto de um leilão tão transparente que, no começo daquele ano, os jornais cariocas já anunciavam a presença de executivos ligados aos futuros gestores dentro da sede do BANERJ.
         Não me fixarei nos detalhes da privataria, expostos aos interessados em dezenas de links da Internet.  Quero destacar, mesmo que me acusem de usar um clichê surrado, que estamos diante do típico caso em que a vítima elege o próprio algoz.  Durante o período eleitoral de 1994 ouvi, com uma mistura de espanto e irritação, muitos colegas declararem seus votos para governador no tucano Marcello Alencar.  Gente em média bem mais velha do que eu, escaldada pelos ainda recentes ataques do governo Collor ao funcionalismo, mas crédula e sobretudo sensível ao movimento midiático que, após o rompimento de Alencar com Leonel Brizola, construiu para o primeiro a imagem de um administrador competente e responsável. Apesar da orientação de esquerda que predominava na representação sindical da categoria, não escasseavam entre os bancários os inevitáveis deslumbrados que se orientavam mais pelo orgulho de pertencer a uma presumida pequena burguesia do que pelas necessidades palpáveis de preservar poder aquisitivo e empregos.
          Tomado o Rio de Janeiro pela família Alencar, logo brotou em muitos banerjianos um arrependimento inútil.  Como braço direito de Marcello, despontava o sinistro almofadinha Sérgio Cabral, que dava mostras de extremo cinismo no comando da Assembleia Legislativa, enquanto preparava o terreno para sucessivas vitórias do poder econômico, entre elas a supressão do artigo da Constituição fluminense que estabelecia a obrigatoriedade da manutenção de um banco oficial. 
         Não me posicionarei como vítima.  Antes mesmo da demissão, comecei a trabalhar como professor da rede estadual de ensino, em matrícula no turno da noite.  Nos anos seguintes, consegui outros empregos e fiz o mestrado em História.  Sob diversos aspectos, minha vida melhorou, apesar do detestável embranquecimento da barba. Penso que o jornalista venezuelano de direita Carlos Rangel, se fosse vivo e de alguma forma pudesse ler esta crônica, diria que enfrentei um "estímulo traumático", expressão que empregava ao se referir às sociedades indígenas destroçadas pela colonização, porém contempladas (os sobreviventes, é óbvio) pelo privilégio de poderem se atirar de pernas e braços abertos no mundo dos vencedores. 
         O certo, porém, é que não faltaram vítimas, inclusive fatais, entre os banerjianos forçados a atravessar o quadriênio de Alencar e Cabral.  Quase diariamente corriam notícias sobre mais um bancário  internado com enfarte ou AVC.  Um colega de agência, que eu definiria como subchefe, sofreu uma isquemia em plena jornada de trabalho; por sorte, o sangue do coágulo jorrou inteiro pelo nariz, fazendo com que não tivesse sequelas aparentes.  Uma semana depois, ele estava de volta ao serviço, comendo torresmo no horário de almoço.  Lembro-me até hoje de suas palavras: -O banco comeu meu filé mignon, e agora terá que roer meus ossos! 
        Faltam-me, naturalmente, estatísticas sobre o tema, mas a experiência cotidiana nos deixava a impressão de que os mais atingidos pelos problemas cardiovasculares eram justamente os comissionados incumbidos das demissões, transferências e enquadramentos disciplinares.  Vi mais de um reacionário empedernido passar de uma situação de saúde invejável para a quase invalidez em curto espaço de tempo.    Uma coisa é fazer a apologia do chicote no plano retórico; outra é ser obrigado a empregá-lo sem intermediários contra seus companheiros de torcida, igreja, chope ou carteado. Enquanto tantos tombavam, de diversas maneiras, decidi vestir uma carapaça emocional e seguir resistindo, antes e depois da privatização, até encontrar uma alternativa eficaz de sustento. Embora com o espírito endurecido, admito que sentia muita raiva, talvez suficiente, se transformada em fluido e jogada no mar,  para interditar toda a orla da Barra da Tijuca. 
       Pelo menos uma vez, tentei afrontar a conjuntura desfavorável com ações concretas. Várias agências da cidade de Niterói haviam sido desativadas ou esvaziadas, e seus funcionários remanejados para a agência Visconde do Uruguai, na qual terminaram por se concentrar, se não me falha a memória, cento e vinte banerjianos.  O local era amplo, funcionava como uma grande pagadoria de empregados públicos, terceirizados e aposentados, além de captar um imenso volume de taxas e impostos, mas mesmo com a tecnologia da época não precisaria de mais de sessenta.  
         Vazara a informação, de uma forma que ignoro, de que ao final de determinada tarde 24 pessoas receberiam dispensa.  Embora adotasse uma atitude de distância das "cúpulas", eu julgava que pelo meu perfil avesso a intrigas e rixas domésticas ficaria a salvo.  Meus 28 ou 29 anos também ajudavam a manter frequência quase integral e uma excelente média de autenticações.  Sempre fui, ao longo da carreira, um caixa que os chefes de serviço apreciavam ter em suas equipes.  Mas, tendo em vista a situação dos demitidos (cujos nomes podíamos prever, com mínima margem de erro), me aproveitei de momentos estratégicos de esvaziamento da agência no horário de almoço para dar sumiço em todas as folhas de ponto.  A ideia era inviabilizar as demissões pela ausência de documentação. Não podendo fechar o ponto às cinco horas, os colegas tidos como integrantes da lista sairiam das dependências da Visconde, sem escalas, para o sindicato ou para consultórios médicos, dos quais retornariam todos, em passe de mágica, hipertensos ou surtados, sendo encaminhados para consecutivas licenças com vencimentos. Salvando 24 cabeças, ainda atrairia, sem dúvida, a fúria dos banqueiros contra seus "feitores" relapsos.   
         O plano individual e meio desastrado não funcionou: em menos de uma hora, a gerência deu por falta das folhas e interrompeu as tarefas de vários escriturários, que foram obrigados a datilografar segundas vias sob uma orquestra de impropérios.  Também tiveram início investigações para localizar "quem roubou as folhas de ponto".  A maioria dos encarregados da "repressão" especulava sobre quem, entre os notórios "condenados", seria o "terrorista", com exceção da mais inteligente, que me olhava fixamente e chegou a me pressionar no sentido de arrancar uma confissão.  Neguei tudo, é lógico, simulando susto e indignação.  Para minha surpresa real,  por volta das sete da noite, quando vagava pelo centro de Niterói ainda empregado e com incontáveis doses de cerveja no organismo, minha quase carrasca surgiu do nada e ao me cumprimentar beijou meus lábios, se afastando em seguida com expressão de criança travessa. Não precisamos resgatar os longínquos tempos da Conjuração Mineira para constatar que até os aparentemente mais convictos defensores da ordem podem ter seus instantes de rebeldia.
          Percorrendo os caminhos do Facebook, noto que várias figuras massacradas naquele tempo, submetidas ao desemprego ou obrigadas a se aposentar às pressas, em péssimas condições, curtem a revista Veja e fazem campanha para Aécio Neves.  Não me proponho a convencê-las de nada, até por senso de realidade, e nem as tratarei mal pessoalmente ou no mundo virtual.  Talvez hoje só lhes reste, para esconjurar a proximidade do proletariado tão temido, a recordação de que um dia estiveram na pequena burguesia.  Entretanto, também com base no citado senso de realidade, volto a indicar para todos os leitores, e em particular para os que vivem de salários, aposentadorias ou pensões, que

1-Os governos do PSDB, na era FHC, virtualmente congelaram os salários do funcionalismo.

2-A equipe econômica de Aécio Neves já deu indícios bastante consistentes de que pretende frear os aumentos reais do salário mínimo. As duas condições reunidas fatalmente pressionarão a massa salarial para baixo e o Índice de Gini para cima, quem sabe nos devolvendo aos tempos em que o Brasil disputava com Honduras, Serra Leoa e Botswana o troféu da pior distribuição de renda do planeta.

3-Apesar de Aécio prometer no horário eleitoral que corrigirá a tabela do Imposto de Renda pela inflação, vale recordar que o antigo secretário da Receita do tucanato, Everardo Maciel, constantemente se posicionava contra a correção e defendia a taxação de todos os proventos acima do salário médio, então irrisório.

4-Com a direita no comando do Planalto, governadores, prefeitos e empresários se sentiriam com as mãos mais livres para utilizar todo o aparato repressivo a seu dispor contra os trabalhadores, cujas margens de negociação, já ruins, seriam reduzidas a pó (com ou sem trocadilho, conforme o gosto de quem me honrou com a visita até aqui).


        Portanto, o que está em questão não é gostar ou não de Dilma Rousseff ou do petismo; eu mesmo só fui filiado ao PT durante dezoito meses, de 1994 a 1996, e me desliguei por não concordar com as atitudes personalistas de certas lideranças.  Estamos defronte da possibilidade de perder direitos básicos, sociais e trabalhistas, amargando também graves prejuízos financeiros.  Além disto, da indesejada combinação de Aécio na Presidência com um Congresso conservador e fisiológico, ambos beneficiados pela blindagem da mídia controlada pelas poucas famílias de sempre, derivaria um projeto de poder vigoroso, talvez mais difícil de desalojar do que a própria ditadura civil-militar iniciada em 1964.
         Salvem-se.  Votem 13.        

   
            
      
                     
             
            
           
           

                     
           
           
           
                             
               

terça-feira, 16 de setembro de 2014

História do Brasil a poucos cliques de distância


Dança do búzio dos Pankararu


       Há cerca de três anos, coube a mim atender, no Museu Nacional, um pesquisador vindo de Pernambuco, Lafaete José da Silva. Ele se apresentou, trazendo uma carta impressa, como "liderança do Povo Pankararu", etnia indígena que habita a parte pernambucana do sertão do São Francisco.  Sua missão, determinada pelo cacique, de cujo nome não me recordo, era levantar a maior quantidade possível de informações que existissem sobre os Pankararu no Rio de Janeiro.  Consultamos, então, trabalhos acerca dos índios do Nordeste que são custodiados pela Seção de Memória e Arquivo do Museu.  A busca não foi de todo infrutífera: cheguei a localizar uma monografia produzida a partir das expedições de antropólogos que visitaram diversas reservas pernambucanas nas décadas finais do século XX.  Lafaete identificou naquelas páginas vários amigos, reconheceu um dos colaboradores como seu primo, mas infelizmente nada havia de específico a respeito dos Pankararu, salvo uma ou outra nota isolada.
     Não me dei por vencido; decidi lançar mão, como habitualmente faço quando o acervo da Instituição é insuficiente para suprir as demandas dos usuários, de recursos externos.  Mostrei a Lafaete como poderia ler, na Internet, os antigos relatórios da presidência da província de Pernambuco.  Neles, enfim achamos a pista dos Pankararu, na época conhecidos como Pankaru, que já ocupavam a localidade denominada Brejo dos Padres, como vemos neste documento redigido pelo conde de Baependi, que governava a referida província em 1869:

http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/684/000036.html




Jovens e crianças da aldeia de Brejo dos Padres 


       Enquanto viajávamos pelo século XIX, meu interlocutor descrevia as dificuldades enfrentadas pelos Pankararu na luta pela preservação de suas terras e de sua identidade. Inteiramente familiarizado com as múltiplas facetas da violência contra os índios na contemporaneidade, Lafaete soube que no distante ano de 1872 o conselheiro João José de Oliveira Junqueira, presidente de Pernambuco, orientava a política local no sentido da supressão dos aldeamentos, únicos locais em que, apesar da subalternidade que lhes era imposta, os povos indígenas tinham assegurados certos direitos reais.

http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/687/000040.html
           

            
          Através do relatório de 1875, de autoria do desembargador Henrique Pereira de Lucena, descobrimos que o projeto de Oliveira Junqueira prosperava.  O Brejo dos Padres continuava a figurar como terra indígena, mas recomendava-se a sua extinção, junto com as aldeias restantes.  A argumentação empregada era semelhante à que levou, por exemplo, ao fim do aldeamento fluminense de São Lourenço, absorvido pela municipalidade de Niterói: se os índios não conservavam mais os costumes pré-cabralinos (como se fosse possível para qualquer sociedade viver da mesma forma durante quatrocentos anos!) ou tinham deixado de ser "de sangue puro", suas comunidades deveriam perder o status diferenciado previsto pela legislação.    


http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/690/000146.html


      


    
         Compreensivelmente, a esta altura Lafaete já manifestava fúria diante do cinismo da "civilização imperial"; esmurrou a mesa em frente à tela do computador e não conteve os palavrões que lhe vieram à mente.  Afinal, Brejo dos Padres estava longe de ser São Lourenço, e ele me revelou algo bastante previsível:
-Naquele tempo, nossa gente ainda andava pelada!!!
         Por fim, passados os minutos de cólera, Lafaete foi embora, mas satisfeito, pelo menos conforme a minha avaliação, com a incorporação de novas fontes de pesquisa, sob fáceis condições de acesso.
         Resgato o episódio para colocar em destaque um aspecto da descrição deste blog.  Quando defino o História & Política como veículo de informação a serviço das classes populares, não estou fazendo poesia ou jogo retórico, e sim exercitando, dentro de inevitáveis limites, o que considero um soberbo privilégio ao alcance dos historiadores, o de expor ao "homem comum" os segredos do Estado e das classes dominantes. 
         Percebo, entretanto, que preciso ir além do papel, acusado por alguns leitores, de uma espécie de "iniciado" que percorre misteriosos canais de um passado recente ou remoto para desnudar as intenções dos "de cima".  Isto ficou mais nítido para mim no começo deste ano, quando, em situação hilariante para quem observava de fora, um militante monarquista ensandecido me acusou de ter falsificado, em debate no Facebook, páginas de relatórios do Ministério da Marinha que demonstravam as severas deficiências da Armada imperial, que para ele talvez fosse capaz de afugentar do Atlântico Sul até as belonaves de Sua Majestade Britânica. Por estas e muitas outras, devo salientar que, com ou sem o auxílio dos "iniciados", o "homem comum", ainda que pouco instruído, pode vasculhar rápida e gratuitamente grande parte da documentação oficial acerca de assuntos que lhe dizem respeito ou despertam seu interesse.  
         Sendo impossível, no curto espaço de uma postagem, apontar todos os atalhos que fui aprendendo a duras penas, em centenas de horas de embate com a falecida (e nada saudosa) Internet discada, indico a princípio o programa de digitalização de documentos brasileiros da Universidade de Chicago.  Nele estão incluídos milhões de páginas microfilmadas nas dependências do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e exibidas a partir do link http://www.crl.edu/brazil.
           Os relatórios das administrações regionais do Império, sucedidos pelos republicanos até 1930, estão disponíveis em http://www.crl.edu/brazil/provincial.  Os pesquisadores, após a escolha inicial de um estado ou província, vislumbram uma sequência cronológica; escolhendo também o ano, na maioria dos casos contam com um índice que os levará, em segundos, ao tema investigado.  
          As mensagens dos presidentes da República, de Deodoro da Fonseca a Itamar Franco, podem ser lidas desde o link http://www.crl.edu/brazil/presidential, e os relatórios ministeriais a partir de http://www.crl.edu/brazil/ministerial.  Finalmente, os usuários  mais interessados no Rio de Janeiro localizarão em http://www.crl.edu/brazil/almanak as edições do Almanak Laemmert de 1844 a 1889.  A publicação, que foi impressa até os primeiros anos da Era Vargas, traz em suas páginas dados tão diversificados quanto as relações, por setor, de quase todos os estabelecimentos comerciais da antiga Corte, os nomes dos detentores dos cargos públicos (dos ministros aos serventes dos ministérios), o obituário dos "notáveis", as listagens dos homens aptos ao exercício da Medicina e do Direito, dos deputados gerais e provinciais, senadores e vereadores das vilas fluminenses.  Para orientar a busca neste "oceano", quase todas as edições possuem índice alfabético por assunto e guia onomástico. 
             Com o perdão da má paródia, informem-se, isto é glorioso!
                    
             
                                            

  

terça-feira, 9 de setembro de 2014

"ReGOERGENtando" mentiras ruralistas




      Lendo sobre as últimas proezas das bancadas conservadoras do Congresso Nacional, cheguei ao site do deputado federal Jerônimo Goergen, ruralista do Rio Grande do Sul.  Ele é candidato à reeleição (gaúchos, registrem em suas "agendas negativas"!) sob a legenda do Partido Progressista, que como bom herdeiro da extinta ARENA congrega uma parte expressiva dos representantes dos latifundiários. 
      Logo minha atenção se fixou em uma nota das mais demagógicas, publicada há cerca de um mês e meio.  Goergen "denunciava", então, a adesão do governo brasileiro à Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho, que estabelece direitos básicos para os povos indígenas de todos os continentes, como uma espécie de crime de lesa-pátria.  Segundo o pepista, a ratificação do documento implica na aceitação prévia da eventual emancipação política destes povos; em termos literais, "a criação de nações indígenas independentes".  





      Antes de consultar a Convenção, cujo texto integral podemos acessar no link  http://portal.iphan.gov.br/baixaFcdAnexo.do?id=3764, já sabia que estava diante de uma mentira grosseira.  Só pessoas incapacitadas de refletir, sob a provável influência das seguidas campanhas de estímulo ao pavor que costumam partir dos ideólogos da direita brasileira, conseguiriam acreditar que tantos chefes de governo concordaram simultaneamente com o cancelamento parcial da soberania dos Estados que dirigem. 
           Não existe no texto qualquer menção a declarações unilaterais de independência.  Mesmo que fizéssemos uso de uma dose cavalar de  malabarismo interpretativo, nada sustentaria a sentença "O documento legitima os povos indígenas enquanto nações independentes".  Ao invés disto, a Convenção reafirma, em vários artigos, a autoridade dos respectivos Estados sobre os índios que vivem em seus territórios.  Ao contrário do que declara Jerônimo Goergen, o "tratamento penal" aplicado pelas comunidades indígenas aos indivíduos infratores, e também suas "instituições" tradicionais, devem se adequar ao sistema jurídico nacional.        





         Longe de determinar a formação de países autônomos, a Convenção nº 169 prevê apenas a proteção aos "direitos de propriedade e posse", os quais ficam igualmente vinculados ao sistema jurídico nacional.



              O controle dos índios sobre os recursos naturais existentes em suas terras, apontado de maneira desonesta como afronta à soberania do país, constitui outra alegação falsa. O documento da OIT recomenda apenas que os governos consultem os povos indígenas antes de explorar aqueles recursos.  Percebe-se, logo em seguida, que sequer se firma uma obrigatoriedade completa quanto ao usufruto dos benefícios derivados da exploração.      





                 O tom do documento se torna visivelmente integracionista, na parte que estabelece, ao lado do aprendizado da língua materna, o direito dos índios à fluência na "língua nacional".  



                 
           As diretrizes educacionais da Convenção preveem, desmentindo o pressuposto do isolamento, a ampliação das oportunidades oferecidas aos índios de participarem de uma comunidade nacional que, a seu turno, estaria muito mais receptiva à diversidade cultural.        








            Não creio, entretanto, que a preocupação essencial de Jerônimo Goergen e afins quanto às populações indígenas gire em torno da língua que se fala nas aldeias e reservas, ou dos métodos de castigo impostos a índios acusados de furto ou tráfico.  O que lhes inquieta, de fato, é a possibilidade de recusa das prioridades do agronegócio contidas nos artigos da Parte II da Convenção, cujo título é TERRA:            






    
            Quase quinhentos anos após a construção dos primeiros engenhos de cana da América Portuguesa, os ruralistas brasileiros ainda parecem clamar pelo "direito" à intrusão, à subordinação de quaisquer outros interesses à necessidade de lucro rápido da lavoura comercial.  Não deveriam encontrar, fora de suas associações reacionárias, nenhuma solidariedade político-eleitoral.                          

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ainda sobre a Palestina: desconstruindo outras mentiras de Joseph Katz


 
         
         Retorno à crítica, iniciada ontem, de um texto de Joseph Katz, reproduzido no site de Matheus Zandona Guimarães, repleto de fraudes e distorções sobre a História da Palestina:

http://ensinandodesiao.org.br/artigos-e-estudos/historia-e-significado-de-palestina-e-palestinos/

          Fazendo uso de argumentos falaciosos, Katz pretende induzir o leitor a acreditar não apenas que toda a Palestina sob mandato britânico estaria destinada à construção de um Estado judeu, como também a vizinha Jordânia.  A instauração de um Israel ampliado, desta maneira, teria sido inviabilizada somente pela perversidade do colonialismo inglês.       

A Declaração Balfour, de 1917, confirmada pela Liga (ou Sociedade) das Nações, comprometeu o governo britânico aos princípios que “o governo de vossa majestade vê com favor o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional Judaico, e fará uso de seus melhores recursos para facilitar a materialização deste objeto (…)”. Ficou então determinado o controle britânico sobre toda a região e que a área seria aberta à criação de assentamentos judaicos. Também determinou-se que os direitos de todos os seus habitantes (já residentes na região) seriam preservados e protegidos. O Mandato Britânico na Palestina originalmente incluía tudo o que é hoje a Jordânia, bem como o que hoje é Israel e os territórios entre eles. No entanto, quando o “protégé” britânico Emir Abdullah foi forçado a abandonar seu domínio hashmaíta na Arábia, os britânicos criaram para ele uma região alternativa para seu reino, localizada ao leste do rio Jordão. Não havia nenhum nome árabe para a região, assim os ingleses a chamaram de “além do Jordão”, ou “Trans-Jordânia”; posteriormente apenas “Jordânia”. Com esta manobra política, que violava todas as regras estipuladas pela Declaração Balfour e pelo Mandato Britânico, os ingleses retiraram 75% da região destinada a ser o “Lar dos Judeus”, como havia declarado a rainha. Não foi permitido que nenhum judeu habitasse na região da Trans-Jordânia (ou Jordânia). Menos de 25% permaneceu da Palestina original do Mandato Britânico, destinado aos “assentamentos judaicos” prometidos pelos ingleses. Além disso, eles restringiram a imigração judaica na região e impuseram restrições quanto ao local onde os judeus poderiam trabalhar, viver, construir ou plantar. Na verdade, as regiões mais deploráveis da então Palestina britânica foram destinadas aos judeus, como os pântanos da Galiléia e as regiões infestadas de malária como Jafa e Tel-Aviv.
           Entretanto, Alan Palmer, em sua obra sobre a decadência do poderio turco, deixa evidente que  a ideia da unidade entre as terras situadas a leste e oeste do Jordão após a Primeira Guerra é falsa, visto que nem mesmo o controle inglês sobre ambas as partes foi determinado na mesma ocasião.   

Quando a Liga [das Nações] começou a funcionar, o Iraque, a Palestina e, mais tarde, a Transjordânia se tornaram mandatos ingleses, enquanto após renhida discussão entre Paris e Londres, a França recebeu o mandato da Síria e do Líbano¹. 

           Outro especialista na História do Oriente Médio, mencionado em meu artigo anterior, reforça a ideia de que a margem leste do Jordão não estava incluída no plano de criação do Estado judeu:
Ao sul da área do mandato francês, na Palestina e na terra a oeste dela, a Grã-Bretanha manteve o mandato.  Devido à obrigação assumida na Declaração Balfour e repetida no mandato, de facilitar a criação de um lar nacional judeu, os britânicos governavam a Palestina diretamente; mas a leste dela, estabeleceu-se um Principado da Transjordânia, governado por outro filho de Husayn, 'Abdullah (1921-51), sob mandato britânico mas sem obrigação em relação à criação do lar nacional judeu². 

        O repertório de balelas de Joseph Katz parece não conhecer limites: em um breve trecho, ele expõe duas teses no estilo que alguns reacionários gostam de rotular como "vitimismo":        
Em 1939, os ingleses decidem proibir toda imigração Judaica para a “Palestina”, algo que era constante desde o século XVIII na região. Esta proibição foi feita no momento em que os Judeus mais precisariam, uma vez que o Nazismo estava fortemente se estabelecendo na Europa e milhões de judeus estavam sendo perseguidos. Milhares que conseguiam escapar dos campos de concentração e tentaram ir para Israel, foram mandados de volta para o inferno, novamente para as câmaras de gás na Europa.
         A primeira sentença, tecnicamente falando, é  uma completa mentira: o rabino Dan Cohn-Sherbok, cuja obra também citei na matéria anterior, revela que, apesar da imposição de certas restrições, a administração britânica não suspendeu a imigração judaica para a Palestina; ao invés disto, foram estabelecidas cotas bastante significativas, se considerada a população total da região naquela época:    

Em 17 de março de 1939, dois dias depois de Hitler ocupar Praga, a conferência terminou sem que houvesse acordo entre as várias partes.  Em maio de 1939, um outro Documento Branco foi publicado, o qual designava as regras da separação e da criação de um Estado judaico.  Todavia, ele decretava que um Estado palestino seria criado em dez anos e que após cinco anos a imigração judaica não seria mais permitida, a não ser que os árabes palestinos aprovassem.  Apesar dessa tendência antijudaica, o Documento Branco permitia que mais 75 mil judeus se estabelecessem na Palestina durante o período de cinco anos e que a independência de um Estado palestino dependia de salvaguardas para a comunidade judaica³. 

            Mais deplorável ainda é o intuito de utilizar o Holocausto como apelo emocional para reforçar as razões que lhe faltam.  Os judeus perseguidos pelo nazismo em 1939 não poderiam ser devolvidos às câmaras de gás, simplesmente porque tais instalações não existiam.  Entraram em operação somente no segundo semestre de 1941, como notamos pela narrativa de Roderick Stackelberg (logo abaixo). É certo que, para qualquer observador europeu sensato que vivesse em 1939, um eventual genocídio dos judeus pelos nazistas seria uma possibilidade real, e até esperada.  Porém, carece de sentido insinuar que uma possível culpa das autoridades inglesas pelo extermínio de judeus praticado por alemães deveria ser reparada com a cessão de territórios habitados por árabes!     
Ao final do verão de 1941, experimentos com gás venenoso foram realizados pela SS em vários locais da Europa Oriental.  O monóxido de carbono já fora usado no programa clandestino de eutanásia, que tinha o codinome de T-14, dirigido por Philip Bouhler, da chancelaria do Führer, a partir de outubro de 1939.  Em diversas instituições para deficientes físicos e mentais, as mortes por gás ocorriam em câmaras especialmente construídas, com a aparência de chuveiros.  A experiência adquirida no programa de eutanásia foi aproveitada na guerra contra os judeus.  Câmaras de gás móveis, instaladas em caminhões fechados, foram usadas para matar as esposas e filhos de reféns judeus na Sérvia, em outubro de 1941.  No mesmo mês, começaram os preparativos para o uso de câmaras de gás móveis em Chelmno (que os nazistas chamavam e Kulmhof), 65 quilômetros a noroeste de Lodz, no território ocidental polonês, incorporado ao Reich como Warthegau.  Chelmno foi o primeiro dos seis centros nazistas de extermínio na Polônia a entrar em operação.  Mais de 150.000 judeus, a maioria do gueto de Lodz, foram mortos por gás em Chelmno, em 1942 4.  

         Adiante, Katz se queixa de que o rápido aumento da população árabe, por ele compreendida, sem dúvida, como intrusa, derivaria de uma suposta imigração ilegal.  Poderíamos, a princípio, contestar seus juízos de valor, quando tenta estabelecer o que seria imigração ilegal em uma área sujeita a relações de protetorado.  Por que, afinal, a vinda de judeus da Rússia, da Polônia e de outras partes da Europa para a Palestina seria mais justificável do que a simples mudança de árabes de um lado para o outro do Jordão?  Esta reflexão se torna mais oportuna na medida em que sabemos que para Katz a identidade palestina é um engodo!  Além disto, se projetássemos, talvez, uma taxa de crescimento demográfico em torno de 3% para os árabes palestinos ao longo da primeira metade do século XX, nada incompatível com sua alta natalidade, chegaríamos a um resultado final até superior ao do histriônico propagandista!     
Mas ao mesmo tempo em que os britânicos proíbem a imigração judaica, eles permitem ou ignoram a imigração ilegal de milhares de árabes da Jordânia (chamada de Palestina Oriental), Síria, Egito e de várias partes do norte da África. Em 1939, Winston Churchill declara que “…longe de serem perseguidos, os árabes invadiram a região e se multiplicaram…!” Estatísticas exatas da população da região na época são problemáticas, mas sabe-se que em 1947 o número de árabes ao oeste do Jordão triplicou em comparação a 1900.
         Calculo, em contrapartida, o que pensavam os palestinos já engajados na luta contra o sionismo desde os tempos do esfacelamento do Império Otomano, a respeito da possibilidade de se converterem numa minoria em consequência de um processo migratório deflagrado a partir da Europa e contra a sua vontade, conforme depreendemos destas informações de Albert Hourani:

Na Palestina, a aquisição de terra para imigrantes judeus europeus, que começara durante fins do século XIX, continuou dentro do novo sistema de administração estabelecido pela Grã-Bretanha como governo mandatário.  A imigração judia foi encorajada, dentro de limites determinados em parte pela estimativa governamental do número de imigrantes que o país podia absorver num dado momento, e em parte pelo volume de pressão que os sionistas ou árabes podiam aplicar sobre o governo em Londres.  A estrutura da população do país mudou muito nesse período.  Em 1922, os judeus contavam cerca de 11% de uma população total de três quartos de milhão, sendo o resto sobretudo muçulmanos e cristãos de língua árabe; em 1949, formavam mais de 30% de uma população que duplicara5. 
        Associando dados de Hourani e Dan Cohn-Sherbok, concluímos que os judeus, no curto intervalo de menos de uma geração, compreendido entre 1926 e 1948, quintuplicaram seus efetivos na Palestina.  Só nos resta, assim, formular a pergunta: que mal houve na multiplicação dos árabes por três, salvo a adoção de uma perspectiva francamente racista?    
Depois da imigração maciça da Polônia e da Rússia em 1925, relativamente poucos judeus chegaram à Palestina.  Entre 1926 e 1931, a população judaica aumentou apenas de 149.640 para 174.606.  Ao mesmo tempo, a população árabe saltou de 675.450 para 759.700  [6]. 
Contra isso [a diminuição do número de estrangeiros em países árabes], houve uma grande movimentação de judeus tanto da Europa quanto do Oriente Médio e Magreb para o novo Estado de Israel, cuja população judia aumentou de 750 mil em 1948 para 1,9 milhão em 1960  [7]. 
      Merece registro, igualmente, a tentativa desastrada de mostrar as nações árabes como irmãs desprovidas de solidariedade, explícita em um parágrafo que beira a estupidez: 
Após o término da Guerra [de 1948] e a vitória de Israel, os árabes que permaneceram se tornaram cidadãos de Israel, e os que abandonaram suas casas esperando a destruição dos judeus foram rejeitados pelos países árabes das fronteiras onde estavam refugiados. Egito, Jordânia, Síria e Líbano fecharam suas portas para seus irmãos árabes, dando início ao que conhecemos hoje como os “Refugiados Palestinos”.
     O naufrágio cognitivo é berrante: se todos os vizinhos tivessem fechado as fronteiras aos palestinos expulsos, como eles teriam se transformado em refugiados? Não importando o juízo que façamos da "inteligência" de Katz, o fato é que as estatísticas mais uma vez insistem em desmenti-lo.   Albert Hourani lembra que os palestinos se abrigaram na Jordânia em quantidade tão grande que suplantaram a própria população do país fronteiriço, o que, aliás, não representa novidade para os leitores e telespectadores de jornais que acompanham as notícias do Oriente Médio. Dan Cohn-Sherbok confirma que a Jordânia foi o refúgio principal dos palestinos desalojados.         

Na Jordânia, havia uma situação semelhante, de um regime ansioso por ajuda contra perigos externos- dos vizinhos árabes, e também de Israel- mas sob pressão da opinião pública nacionalista.  Depois de 1948, o país ficou com uma maioria de palestinos, que encaravam Israel como seu principal inimigo e vigiavam para ver algum sinal de que o país fazia concessões aos israelenses8. 
Quando a segunda trégua foi estabelecida [1948], mais de meio milhão de refugiados árabes tinha fugido do território israelense.  Embora alguns tivessem sido expulsos, um grande número, inclusive a liderança palestina árabe, partiu por conta própria.  A maioria dos refugiados foi para a Jordânia9.  Outros escaparam para a Faixa de Gaza. 

          Ainda por intermédio de Cohn-Sherbok, constatamos que havia mais de três milhões de palestinos na década de 1960, para frustração dos lunáticos que insistem em negar a existência de uma nação palestina.  Daquele contingente, quase a metade vivia, por efeito dos deslocamentos forçados em maior ou menor grau, em  outros países árabes. 
Depois da Guerra dos Seis Dias, havia quase o mesmo número de palestinos vivendo sob o domínio israelense (1,6 milhão), quanto os que viviam fora do Estado de Israel (1,5 milhão).  Desses que viviam fora de Israel, 644 mil residiam na Jordânia (Margem Oriental); 288 mil, no Líbano; 183 mil, na Síria; 39 mil, no Egito; 194 mil, no Kuwait; 59 mil, na Arábia Saudita; 35 mil no Iraque; e 67 mil, em outros países10. 

            Prosseguirei no tema, avaliando algumas de suas repercussões na política brasileira. 

Notas:

1- Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 247.
2- Albert Hourani. Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 321.  
3- Dan Cohn-Sherbok.  Uma perspectiva judaica.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender...  São Paulo: Editora Palíndromo, 2005, p. 54.  
4- Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 311.
5- Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 325.
6- Cohn-Sherbok, p. 54. 
7- Hourani, p. 377. 
8- Idem, p. 367  
9- Cohn-Sherbok, p. 66.
10- Idem, p. 79.






segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Falácias sobre a Palestina

O autor do blog, em foto de 2007, expressa seu apoio à causa palestina

       
       Eu começava a alinhar os argumentos que formariam este artigo, em minha sala de jantar, quando me deparei com a figura de Heraldo Pereira, do Jornal Nacional, repetindo em horário nobre frases visivelmente traduzidas do noticiário "metropolitano" sobre o "grupo radical Hamas". Não pude deixar de recordar, com certa dose de ironia e também de  irritação, que há cerca de duas décadas "nossa" mídia burguesa classificava o atual chefe de governo de Israel, Benjamin Netanyahu, como um político extremista, partidário da colonização israelense na Cisjordânia. Netanyahu mudou, desde então? Compreendi, naqueles instantes, a motivação dos arroubos retóricos de Paulo Henrique Amorim contra Pereira, em episódios relativamente recentes que tiveram desdobramentos na Justiça.
     Paremos, agora, de perder tempo com o entediante jornalista conservador, que na verdade apenas cumpre à risca o que lhe ordenam os Marinhos, com prováveis ajustes pontuais de autoria de Ali Kamel, para encontrar nosso foco na detestável orientação seguida por todos os grandes jornais impressos e televisivos do país no que diz respeito ao Oriente Médio.  Não obstante as atrocidades que venha a cometer, qualquer governo israelense é tratado como uma entidade responsável e respeitável que reage de pronto às agressões de "extremistas", "radicais" e "terroristas"; mesmo que propósitos segregacionistas ou genocidas embutidos nas ações militares israelenses sejam condenados por uma maioria esmagadora da comunidade diplomática internacional, milhões de salas de jantar de todos os municípios brasileiros são quase diariamente invadidas por versões em que prevalecem as cínicas desqualificações do governo norte-americano contra os protestos árabes, europeus, africanos, asiáticos e latino-americanos. Com frequência, tais matérias são encerradas com informações que remetem a uma mensagem bastante óbvia: não importando o mérito de suas políticas contra os palestinos, Israel contará com o apoio dos Estados Unidos e sempre vencerá.
          Levando em consideração a correlação de forças vigente, é válido perguntar o que pode um blogueiro de esquerda, ou ainda todo o conjunto dos blogueiros de esquerda, atuando de maneira coordenada, contra interesses tão claramente hegemônicos no hemisfério ocidental.  Um artigo no História & Política, diria um detrator ou um simples observador desinteressado, não tem contra os ecos do Jornal Nacional sequer o impacto de um míssil Qassam; é algo como uma pequena pedra atirada contra uma divisão de tanques.  Entretanto, digo eu que é uma pedra que merece ser atirada, mesmo que alerte somente algumas centenas de pessoas contra a desinformação predominante.               
       Partindo da percepção do caráter tendencioso da cobertura midiática, devo destacar que em diversos espaços da Internet o respaldo a Israel, muitas vezes associado a uma visão religiosa "guerreira", assume feições ainda mais selvagens. Estabeleço, em um primeiro momento, contraponto a um artigo que localizei no site de Matheus Zandona, cuja redação é atribuída a Joseph E. Katz, que combina uma série de balelas e distorções da realidade para convencer os leitores de que os israelenses são os legítimos donos de toda a Palestina, e até de outras regiões vizinhas, e os palestinos intrusos sem identidade:        
http://ensinandodesiao.org.br/artigos-e-estudos/historia-e-significado-de-palestina-e-palestinos/

       Katz e seu divulgador Zandona tentam, a princípio, difundir a noção de que após a Diáspora judaica a Palestina se transformou em uma espécie de "terra de ninguém", pronta a receber de volta, em lugar indeterminado do futuro, seu "povo escolhido":      
           
“Palestina” nunca foi o nome de uma nação ou estado. É na verdade um termo geográfico utilizado para designar uma região abandonada ao descaso desde o século II d.C. 

         Tamanha falácia provocaria, logo de entrada, a fúria de qualquer especialista no estudo dos impérios Romano e Bizantino.  A ideia de que uma região tão estratégica do Mediterrâneo Oriental, limítrofe com Egito e Síria e aproximada por mar da Grécia e da Ásia Menor, tenha ficado abandonada ou despovoada após a destruição da autonomia dos judeus por Roma é no mínimo ridícula.  Avançando um pouco mais na linha do tempo, percebemos através destas linhas de Albert Hourani que, ao ser conquistada pelos árabes, a Palestina cedo se converteu em uma área de enorme importância para o Islã:            

Os lugares santos dos judeus e cristãos ainda tinham poder sobre a imaginação dos novos governantes: 'Umar visitou Jerusalém depois que ela foi capturada, e Mu'awiya ali foi proclamado califa.  Então, na década de 690, ergueu-se a primeira grande edificação a afirmar que claramente que o Islã era distinto e ia perdurar.  Foi o Domo da Rocha, construído no local do Templo judeu em Jerusalém, agora transformado num haram muçulmano; seria o ambulatório para peregrinos em torno da rocha onde, segundo a tradição rabínica, Deus intimara Abraão a sacrificar Isaac¹.

         Pela narrativa do cristão árabe Amin Maalouf, pesquisador das Cruzadas, fica claro que, no início daquele processo histórico, o território palestino era regularmente povoado por comunidades muçulmanas que identificavam os europeus como invasores: 

Na Palestina, a maioria das cidades e das aldeias é evacuada pelos seus habitantes antes mesmo da chegada dos franj.  Em nenhum momento estes encontram uma verdadeira resistência, e na manhã de 7 de junho de 1099, os habitantes de Jerusalém já os podem ver aparecer ao longe, sobre a colina, perto da mesquita do profeta Samuel².

           Retornando a Hourani, somos informados de que no período sob domínio mameluco (após a expulsão dos cruzados) Jerusalém constituía um importante centro educacional do mundo islâmico: 

(...) a madrasa de Tankiziyya em Jerusalém, dotada durante o período mameluco, tinha quatro salões (iwan) que se abriam para um pátio central, um para o ensino do Hadith, outro da lei hanafita, outro do sufismo, enquanto o quarto era uma mesquita.  A dotação mantinha quinze estudantes da lei, vinte do Hadith e quinze do sufismo, e professores de cada assunto; os estudantes deviam dormir na madrasa, e havia também um asilo para doze viúvas³.

        Joseph Katz invoca, como se isto sustentasse o seu delírio, um parágrafo atribuído ao romancista Mark Twain, que aponta para a existência de uma Palestina quase desabitada em pleno século XIX:

“Não há sequer uma vila em toda a extensão do vale chamado Jezreel, nem mesmo em um raio de 50 Km. Viajamos quilômetros sem encontrar uma alma sequer. Nazaré está abandonada, Jericó é uma ruína que se desfaz; Belém e Betânia, na sua pobreza e humilhação, não é desejada por qualquer criação (…). Um país desolado cujo solo é bastante rico, mas é dado inteiramente a ervas inúteis (…) uma expansão silenciosa, pesarosa (…) uma desolação (…). Nunca vimos um ser humano durante todo o caminho. A Palestina encontra-se vestida em pano de saco e cinzas…”.
Mark Twain, “The Innocents Abroad”, 1867.

           Real ou fictícia, a narrativa de Twain não se mantém diante do quadro exposto por Alan Palmer, um dos maiores estudiosos do Império Otomano, a respeito da Palestina do século XIX, ainda sob controle turco: 


Em contraste com outras terras árabes no Levante e a despeito do perfil cosmopolita de Jerusalém, na virada do século [XX], a Palestina era invulgarmente homogênea, o povo com esmagadora maioria de fé sunita.  De modo geral, eram bons e e leais otomanos, e o sultão Abdulhamid se dispunha a ouvir seus representantes com especial simpatia, admitindo alguns árabes mais preparados em cargos de confiança em Yildiz.  Na Terra Santa, os árabes também eram um povo antigo, como os judeus.  Podiam alegar a descendência de comunidades que lá viviam por dez ou mais séculos, remontando, talvez, aos cananeus da Bíblia.  O governo otomano temia que, se milhares de aldeões judeus pobres da Rússia convergissem para aquela região tão sensível, provocariam um conflito permanente com os árabes e seriam um ônus para as colônias judias já existentes, algumas lá instaladas havia mais de trinta anos.  Portanto, quando, em 1891, Abdulhamid recebeu o primeiro pedido de notáveis árabes de Jerusalém para que acabasse com a imigração judia e a compra de terras, dispensou ao pedido atenta consideração4.  


          Ainda sobre o período otomano, é relevante esta nota de Albert Hourani a respeito de Solimão, O Magnífico, que reinou durante o século XVI: 

Também na cidade santa de Jerusalém, o sultão Suleiman deixou sua marca, nos azulejos das paredes externas do Domo da Rocha, e nos grandes muros que cercavam a cidade5.

           O mesmo autor fornece alguns dados sobre a inclusão da Palestina na administração formal dos territórios turcos:

As províncias sírias de Alepo, Damasco e Trípoli tinham de ser controladas diretamente, devido às suas receitas, ao lugar de Alepo no sistema internacional de comércio, ao de Damasco com um dos centros a partir dos quais se organizava a peregrinação, e ao de Jerusalém e Hebron como cidades santas (Jerusalém, lugar de onde se acreditava que o Profeta ascendera ao Céu em sua viagem noturna; Hebron, o túmulo do patriarca Abraão)6.

      O palestino Dawoud El-Alami nos revela o perfil demográfico da região em uma determinada altura do século XIX: o percentual de judeus, nativos e/ou emigrados, era inferior até ao dos cristãos de língua árabe: 

Por volta de 1888, a Palestina estava dividida em três Sanajek (distritos) principais.  O Sanjak de Jerusalém, que compreendia a metade sul do país e era, por causa de sua importância, governado diretamente por Constantinopla.  Os outros dois Sanajek, Nablos e Akka, eram parte da Vilayet de Beirute.  A Jordânia constituía uma parte da Vilayet da Síria, com Damasco como capital.  Nessa época, a população da Palestina nesses três distritos era de aproximadamente seiscentos mil habitantes, dos quais cerca de 10% eram cristãos, 4% judeus e a maioria era de muçulmanos sunitas7.


       Os números de El-Alami são compatíveis com as cifras indicadas por Alan Palmer para um período imediatamente posterior:

Na época em que o Kaiser Wilhelm II visitou os três vilayets [províncias] que geograficamente constituíam a Palestina, a população árabe superava a judia na proporção de dez para um8.

                                                                        (...)

Na Palestina, a população judia cresceu de apenas 24 mil em 1880 (quase metade do número de judeus em Londres) para 49 mil em 1903 e 90 mil na eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando, na mesma região, se admitia existirem 500 mil árabes.  Em 1882, tão logo começou a imigração em larga escala, as autoridades otomanas adotaram medidas para impedir a entrada de judeus vindos da Rússia e doutras partes da Europa pelos portos de Latakia, Beirut, Haifa e Jaffa9.


        Mesmo se expondo a fáceis desmentidos, Katz e seu papagaio brasileiro prosseguem no falseamento da História:   

O mito atual é que estes árabes há muitos séculos já estavam estabelecidos na Palestina, até que vieram os judeus e os “desalojaram” em 1948. Mas na verdade a imigração recente de árabes para a Palestina foi que “desalojou” os judeus. 

           Contra isto, basta o depoimento do rabino Dan Cohn-Sherbok, cujos argumentos em livro já referenciado nas notas formam um contraponto aos do palestino El-Alami: 


Simultaneamente, povoamentos judeus continuavam a ser criados na Palestina.  Em 1914, um grupo do Hovevei Zion da Rússia fundou Nahalat Yehuda (A Herança de Yeruda), ao norte de Rishon le-Zion. Nessa fase, havia aproximadamente noventa mil judeus vivendo na Terra Santa, dos quais 75 mil eram imigrantes. Nos anos que se seguiram à criação do Fundo Nacional Judeu no início do século, quarenta e três colônias tinham sido criadas com uma população de 120 mil.  A maioria dessas pessoas que tinha emigrado para a Palestina era da Rússia e da Romênia- eles trabalhavam a terra como fazendeiros ou como trabalhadores agrícolas ou eram empregados como lojistas, artesãos ou operários.  Em contraste, o número de árabes na Palestina era de cerca de meio milhão10.

         Honestamente, Cohn-Sherbok admite que as migrações impulsionadas pelo sionismo não apenas incomodavam o governo otomano, como provocavam a reação articulada, inclusive no plano institucional, dos árabes da Palestina: 

Ansiosa com o influxo de colonos judeus, a população árabe começou a se engajar em atividades políticas.  Dois árabes de Jerusalém foram eleitos para o parlamento otomano em Constantinopla como anti-sionistas.  No verão de 1914, o governo turco impôs medidas rígidas para impedir a imigração judaica11.


          Ainda segundo Cohn-Sherbok, apesar do forte fluxo migratório era este o panorama demográfico da Palestina em 1918:

Por causa da guerra [A Primeira Guerra Mundial], toda a população da Palestina, inclusive os judeus, muçulmanos e cristãos, sofreu consideravelmente.  A população total caiu de cerca de oitocentos mil, em 1914, para 640 mil, sendo constituída de aproximadamente 512 mil muçulmanos, 66 mil judeus e 61 mil cristãos12.

       As fantasias da dupla Katz/Zandona parecem chegar ao ápice neste trecho, em que a imigração dos judeus europeus é apresentada como um grande benefício aos próprios árabes: 

A restauração da terra “desolada” e “não desejada” começou na segunda metade do século XIX, com os primeiros pioneiros judeus. O trabalho realizado por estes pioneiros criou novas e melhores condições e oportunidades, o que acabou por atrair outros imigrantes de várias partes do Oriente Médio, tanto árabes quanto outros.
            A propaganda falaciosa não resiste a cinco linhas de Albert Hourani:


Apesar da oposição do governo otomano e da crescente ansiedade entre parte da população árabe local, em 1914 a população judia da Palestina tinha aumentado para aproximadamente 85 mil, ou 12% do total. Cerca de um quarto deles assentara-se na terra, parte dela comprada por um fundo nacional e declarada propriedade inalienável do povo judeu, em que não se podiam empregar não judeus13.

            Os limites do progressismo dos colonos judeus, aliás, são reconhecidos por Dan Cohn-Sherbok: 


Durante os anos de 1920-21, houve graves dúvidas sobre a possibilidade de se fundar uma Pátria judaica conforme proposta na Declaração Balfour.  Embora [Herbert] Samuel buscasse criar instituições representativas na Palestina, a população judaica temia essas instituições, uma  vez que os judeus constituíam apenas 11% da população palestina.  Além disso, a taxa de natalidade dos árabes era mais alta do que a dos judeus.  Nessas condições, parecia certo que os árabes seriam maioria em qualquer instituição que fosse criada- e essa situação inevitavelmente prejudicaria o programa sionista14.

          Retomarei, o mais breve possível, reflexões que não podem ser desenvolvidas por completo no espaço de uma só postagem.  Peço aos fãs do blog que continuem divulgando, nesta fase em que a visibilidade das páginas virtuais não pagas permanece bastante reduzida.            


Notas
1- Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 46.
2- Amin Maalouf. As Cruzadas vistas pelos árabes.  São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 54.
3- Hourani, p. 175. 
4- Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 194/195.
5- Hourani, p. 246. 
6- Idem, p. 234.
7- Dawoud El-Alami.  Uma perspectiva palestina.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender... /Dan Cohn Sherbok e Dawoud El-Alami. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005,  p. 122.
8- Palmer, p. 193.
9- Idem, p. 194.
10- Dan Cohn-Sherbok.  Uma perspectiva judaica.  In: O conflito Israel-Palestina: para começar a entender... /Dan Cohn Sherbok e Dawoud El-Alami. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005,  p. 37-38.
11- Idem, p. 38.
12- Ibidem, p. 40.
13- Hourani, p. 292-293.
14- Dan Cohn-Sherbok, p. 43.