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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Mitologia liberal: Mauá, o herói capitalista


             
                Desde que criei este blog, venho com uma certa frequência investindo na apresentação de fontes para desmentir discursos falaciosos.  Desta vez, farei praticamente o contrário: as fontes servirão para ratificar a desconstrução de uma mitologia antiga e ainda bastante viva.   A figura de Irineu Evangelista de Sousa, barão e visconde de Mauá (1813-1889), é uma das mais caras à intelectualidade liberal brasileira, pelas supostas qualidades de abolicionista e de empreendedor dinâmico e desatrelado do patrocínio de um Estado arcaico.
           Porém, em uma breve entrevista concedida no final de 2005, o historiador Carlos Gabriel Guimarães, professor da UFF, revelou muito sobre o verdadeiro Mauá, cujos laços com o escravismo, a partir do início de sua vida profissional, não podem ser desconsiderados.     

http://www.revistatemalivre.com/gabriel11.html

Falando no Irineu Evangelista de Souza, o futuro Barão e, depois, Visconde de Mauá, ele era caixeiro do João Rodrigues Pereira de Almeida, que o recrutou ainda muito garoto, em virtude do seu tio, que era o capitão de navio daquele negociante. O Irineu foi levado pelo seu tio porque perdeu o pai, e quando o Pereira de Almeida faliu, ele vai para a firma do Richard Carruthers.            


            Sendo caixeiro de João Rodrigues Pereira de Almeida, feito barão de Ubá em 1828, o jovem Irineu atuou na logística de uma firma dedicada ao tráfico negreiro, como se observa na listagem dos traficantes instalados na praça comercial do Rio de Janeiro, elaborada por Manolo Florentino¹:   


              Consultando a mesma obra, vemos que a família Pereira de Almeida se destacava naquela atividade: ao contabilizar os dados das expedições realizadas entre 1811 e 1830, Florentino atribuiu ao grupo a aquisição de 8.875 africanos escravizados².   
                    


             
             A mudança de patrão, para Irineu, não representou um rompimento dos vínculos com o tráfico.  Muito pelo contrário, como demonstra Carlos Gabriel:                       

O Mauá, como já chamei a atenção, com o retorno do Richard Carruhthers para a Inglaterra em 1837, ele vai ser o diretor da firma inglesa Carruthers & Company, e na década de 1840, a firma inglesa vai estar ligada ao tráfico negreiro, como destacam o Robert Conrad e o Luis Henrique Tavares, este último no livro “O comércio proibido de escravos”, quando estes trabalharam com a documentação inglesa do Public Record Office. Eles utilizam, principalmente, as correspondências consulares dos cônsules ingleses no Brasil. Lá estão os cônsules dizendo que várias firmas inglesas estão ligadas ao tráfico, jogando seus produtos para financiar o tráfico negreiro. A Carruthers & Company estava ligada ao grande negreiro Manuel Pinto da Fonseca. Eu achei o Manuel Pinto da Fonseca como sócio da Sociedade Bancária Mauá, MacGregor, e olha que ele foi expulso do Brasil em 1852 por causa do contrabando e, tinha como um dos testamenteiros um sócio e amigo pessoal do Mauá, o José Antonio de Figueiredo Júnior, pai do futuro Visconde de Figueiredo, que no final do Império, foi o organizador do Banco Nacional. O pai do Visconde de Figueiredo e o futuro Barão de Mauá estavam vinculados a um dos negócios mais lucrativos, que era o comércio de carne humana, como diziam os negreiros. E não só o Mauá estava ligado ao tráfico negreiro, mas várias firmas inglesas também, até mesmo os agentes dos Rothschilds no Brasil.

               Bem mais tarde, já como proprietário da fundição da Ponta da Areia, em Niterói, Mauá se comprometeria, de acordo com o depoimento de Luiz Pedreira do Couto Ferraz, presidente da província do Rio de Janeiro em 1849, a substituir gradativamente a mão de obra cativa existente naquele estabelecimento.  Este fato talvez tenha contribuído para alimentar uma imagem de crítico da escravidão³. 

                                                http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/779/000046.html



             Contudo, podemos atestar que a promessa não ultrapassou o campo da retórica.  Seis anos depois, o presidente Luiz Antônio Barbosa prestava alguns esclarecimentos sobre os trabalhadores da Ponta da Areia, dos quais 130 ainda eram escravos4:  

                                             http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u831/000050.html



         Vale a pena, igualmente, assinalar que Mauá foi proprietário de engenho de açúcar no município fluminense de Itaguaí, sendo difícil de crer que dispensasse, neste ramo, a força de trabalho de outros cativos5:

                                      http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/almanak/al1866/00000909.html



          A lenda do empresário que modificou a economia de um país contra a vontade de seus dirigentes retrógrados também não se sustenta.  Ministro do Império em 1850, o visconde de Monte Alegre apontou a fundição da Ponta da Areia como uma das "fábricas protegidas", "diretamente auxiliadas pelos cofres públicos"6.  


                                           http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1722/000020.html


       O próprio Mauá, em sua autobiografia, confirma estes dados, relatando ter recebido com  a concordância do Parlamento um empréstimo de trezentos contos de réis para viabilizar o funcionamento da fundição7, o que estava totalmente fora do alcance dos que não contassem com excelentes relações políticas com o governo.  Lembremos que o orçamento anual da Família Imperial era de oitocentos contos.    




Liquidando a mitologia, Carlos Gabriel traça um perfil realista de Mauá:


Outro grande problema do mito do Mauá é aquela associação dele como industrial, pois isto na verdade não aconteceu. O Mauá organizou algumas empresas, mas tiveram curta duração. O Estaleiro Mauá, por exemplo, que seria uma referência de estaleiro moderno, tem que ter cuidado. Era um conjunto de oficinas, tinha muitos escravos. Ora, cadê o maior abolicionista que os biógrafos e que o filme fala? Não tem nada de abolicionista! O Mauá industrial? Que indústrias ele teve? O Estaleiro Mauá, curta duração. A Luz Esteárica, curta duração. E mais, com muita subvenção do governo imperial. Mas o Mauá sempre foi, como esta lá no registro de matriculas do Tribunal do Comércio do Código Comercial, negociante de grosso, e depois, quando ele organizou os bancos, banqueiro. É o negócio dele, o negócio dele foi o comércio. Com o fim do tráfico negreiro, aqueles capitais de origem negreira vão ser direcionados para a atividade comercial do Rio de Janeiro.

              
            O capitalismo não tem heróis; se os tivesse, no mínimo deveriam ser plenamente capitalistas!            


Referências:

1- Manolo Florentino.  Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX).  São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 254. 
2- Idem, p. 242.
3- Relatório do presidente da província do Rio de Janeiro, 1849, p. 48.
4- Relatório do presidente da província do Rio de Janeiro, 1855, p. 48.
5- Almanak Laemmert, 1866, província, p. 233.
6- Relatório do Ministério do Império, 1850, p. 20.
7- Visconde de Mauá.  Autobiografia: Exposição aos credores e ao público seguida de O meio circulante no Brasil.  Rio de Janeiro: Topbooks, 1998, p. 102.