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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Para que mesmo estudar História?



            O jornal Folha de São Paulo, em 20 de dezembro de 2011, anunciou que o governo Alckmin reduziria as cargas horárias de História e Geografia, para os alunos do Ensino Médio, em 25% e 14%, respectivamente.  Seriam também extintas as aulas de aprofundamento, destinadas à preparação dos interessados em fazer exames vestibulares. (Ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/15993-sp-reforca-sociologia-filosofia-e-artes-mas-corta-aula-tradicional.shtml)  A notícia, que provocou forte indignação entre o professorado, não deve ter surpreendido em grande proporção os bons conhecedores de um político cuja característica mais saliente é o conservadorismo rançoso.  Só não me atrevo a rotulá-lo como o pior quase-presidente que o país já possuiu pelo risco de cometer injustiça contra os demais candidatos de peso a este título, a exemplo de Júlio Prestes e Juarez Távora. 
           Atitudes como a do atual governo paulista prosperaram em outras fases de nossa era republicana.  A reestruturação do ensino implantada pelo ditador Médici, através da Lei nº 5692 de 1971, fundiu as matérias escolares História e Geografia em uma nova, os Estudos Sociais, cuja ênfase na memorização de dados factuais ocasionou um severo esvaziamento dos conteúdos.  Lembro-me bem, ainda que não tenha localizado referências na Internet, que Fernando Collor, no início de sua gestão, lamentou a preferência, entre os estudantes brasileiros, pelas Ciências Humanas, declarando algo como "a universidade no Brasil não produz riqueza".  
           Não devo me restringir à acusação tão velha quanto verídica de que a direita tende a desvalorizar as disciplinas que favorecem a crítica do status quo, ou a desconstrução de seus valores.  As declarações dos dirigentes citados, e de muitos outros, além, é claro, de suas diretrizes para o setor educacional, formaram e continuam a formar opinião. Com notável frequência, encontramos pessoas completamente apartidárias e desinteressadas pelo jogo eleitoral que veem historiadores, geógrafos, cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e filósofos como cultivadores de uma erudição vazia, sem qualquer efeito prático na vida cotidiana. É com aqueles "homens comuns", na verdade, que desejo dialogar sobre a utilidade da História, e não com os agentes intencionais da alienação.
           Evitarei o expediente de construir um texto retórico pontuado por termos-chave como conscientização, politização e cidadania.  Embora isto seja possível, provavelmente seria entediante ao extremo.  Prefiro, então, resgatar para os leitores três processos históricos repletos de diferenças, mas suscetíveis de gerar longas e importantes reflexões.  
                              
                                                                     (...)                         

           Entre julho e setembro de 1683, exércitos turcos que somavam 200 mil homens mantiveram sob cerco a cidade de Viena, capital do Império da Áustria, governado pela dinastia Habsburg.  Os atacantes eram comandados pelo grão-vizir Kara Mustafá, amigo pessoal do sultão Mehmed IV, credenciado por uma notável vitória sobre as tropas polonesas de Jan Sobieski, onze anos antes, em batalha às margens do Rio Dniester.


                          

          
         O imperador austríaco Leopoldo I, abrigado na localidade de Passau, pediu ajuda a outros governantes cristãos.  Recebeu auxílio financeiro do Papa, voluntários do norte da Itália e da Alemanha, soldados dos reinos germânicos da Baviera e da Saxônia.  Contava igualmente com a vinda de Jan Sobieski, agora rei da Polônia, que marchava para o sul a partir da região montanhosa dos Cárpatos.  
        As forças de resistência foram beneficiadas pela ambição de Kara Mustafá, que preferia esperar por uma rendição da cidade, para se apossar de seus tesouros, do que entrar numa Viena em ruínas que pouco teria a oferecer.  Somente no final de agosto, quando os poloneses já haviam chegado ao Danúbio, o grão-vizir ordenou o ataque geral.  A 12 de setembro, os turcos conseguiram explodir parte da muralha vienense, mas àquela altura precisavam lutar corpo a corpo com a infantaria germânica que fustigava seu acampamento.  Quando a cavalaria polonesa atingiu a "cidade de tendas" construída por ordem de Kara Mustafá, o grão-vizir teve que fugir às pressas em direção a Buda, na Hungria, e depois Belgrado, na Sérvia. 
       Para não arcar com o custo político de uma derrota desastrosa, Mehmed IV orientou seu braço direito a devolver os símbolos de sua autoridade civil e militar e, em seguida, "entregar a alma a Alá".  Em 25 de dezembro de 1683, Kara Mustafá foi executado por estrangulamento, com uma corda de arco e flecha, em Belgrado. Os austríacos, por sua vez, recuperaram a estratégica cidade de Esztergom, quebrando o controle turco sobre o médio Danúbio e lançando a base para futuros avanços territoriais¹.
          Decorridos mais de dois séculos e meio, o alemão Alfred Rosenberg, em novembro de 1941, foi promovido a ministro dos territórios orientais ocupados pelo III Reich.  Sua proposta de criar Estados independentes na região, para mobilizar seus povos contra o comunismo, não contou com a aprovação de Adolf Hitler.  O Führer, embora nascido em Braunau am Inn, na Áustria outrora salva por Jan Sobieski, considerava todos os eslavos como seres subumanos, cuja única utilidade seria a de servir às necessidades da raça superior. Assim, houve o fechamento das escolas da Polônia, pois o país deveria se limitar a fornecer trabalhadores braçais.  O Plano Geral do Leste, elaborado pelo comissário Himmler, previa que todos os poloneses, além dos habitantes das nações bálticas e da parte ocidental da União Soviética, sofreriam remoção, dando lugar a colonos germânicos ou "regermanizáveis"².  


                                                                          (...)

            O corsário David Jewett, comandante do navio Heroína, chegou às Ilhas Malvinas em 27 de outubro de 1820, a mando de Manuel de Sarratea, governador de Buenos Aires.  Jewett tomou posse do arquipélago, abandonado pelos espanhóis há nove anos, em nome da autoridade portenha.  Ali foi estabelecida uma pequena colônia argentina, que se dedicou à criação de ovinos. Nomeado comandante militar da localidade de Puerto Soledad em 1829, o comerciante franco-alemão Luis Vernet proibiu a caça da baleia nas Malvinas, medida que não funcionou, pela falta de homens e barcos para efetuar a repressão.  Dois anos depois, o presidente Rosas revogou a proibição, criando em seu lugar um imposto que deveria ser pago pelas embarcações pesqueiras. Os capitães dos baleeiros, porém, passavam ao largo de Puerto Soledad ignorando o fisco argentino. Confrontado com a ampliação das atividades ilegais, Luis Vernet apreendeu três navios norte-americanos que carregavam peles de foca.





             A revanche não tardou: em 28 de dezembro de 1831, a fragata Lexington, da marinha dos Estados Unidos, atacou Puerto Soledad, destruiu a artilharia e a munição da guarnição argentina e capturou seis de seus oficiais.  Rosas, através do ministro Maza, das Relações Exteriores, apresentou um protesto oficial e expulsou de Buenos Aires o cônsul norte-americano Slacum e seu compatriota Bayles, encarregado de negócios.  Antes de sair do país, a dupla alertou a representação britânica a respeito da vulnerabilidade das ilhas.  Um ano mais tarde, exatamente a 2 de janeiro de 1833, a corveta inglesa Clio, sob o comando do capitão John James Onslow, desembarcou nas Malvinas. Impossibilitado de resistir, o governador provisório Pinedo se curvou à ordem de expulsão e retornou a Buenos Aires.  Os britânicos simplesmente deixaram sem resposta as reclamações subsequentes de Rosas³. 
         Cento e cinquenta anos após o ataque norte-americano a Puerto Soledad, ascendeu à presidência da Argentina o general Leopoldo Fortunato Galtieri, homem afinado com as metas de Ronald Reagan a ponto de conseguir, no início de sua administração, o fim das sanções impostas a Buenos Aires pelas violações dos direitos humanos.  Galtieri ordenou a retomada das Malvinas, realizada em 2 de abril de 1982, sob os aplausos da comunidade latino-americana em geral, mas enfrentando a reprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que declarou a Argentina como "nação agressora".  Os militares argentinos tentaram em vão pressionar o governo Reagan, que adotou a princípio a posição de mediador do conflito, a ficar do seu lado, invocando o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca).  Quando uma força-tarefa britânica chegou à região das Malvinas, em fins de abril, o governo dos Estados Unidos abandonou a mediação.  O Senado de Washington votou novas sanções econômicas contra a Argentina e ofereceu apoio logístico à Grã-Bretanha.  As tropas argentinas se renderam incondicionalmente, em 14 de junho, e a renúncia de Galtieri foi exigida por seus próprios companheiros de generalato4.  Tal como no século XIX, os norte-americanos tomaram partido de sua ex-metrópole contra os portenhos.  

                                                                        (...)

         O sertanista baiano Fernão Carrilho, agindo sob as ordens do governador da capitania de Pernambuco, Dom Pedro de Almeida, comandou uma expedição que, entre setembro de 1677 e fevereiro de 1678, causou graves danos aos quilombolas de Palmares. As investidas contra vários mocambos possibilitaram a captura de mais de cem pessoas, entre elas vinte parentes do rei Ganga Zumba. Nesta conjuntura vantajosa para as autoridades coloniais, um novo governador, Aires de Souza de Castro, que assumiu a administração da capitania em abril de 1678, firmou um tratado de paz com Ganga Zumba.
         O chefe palmarino, com uma comitiva de quarenta pessoas, chegou a Recife em novembro, sendo nomeado "mestre de campo de toda a sua gente".  Dois de seus filhos foram adotados pelo governador.  Quatrocentos seguidores de Ganga Zumba rumaram para a área do Cucaú, situada a 32 quilômetros de Serinhaém, onde ficavam terras que lhes caberiam segundo o tratado. Embora os quilombolas tenham recebido a liberdade e o perdão da Coroa, este critério não se aplicava a todos: os fugitivos dos engenhos deveriam ser devolvidos aos proprietários.  Enquanto isso, a região da Serra da Barriga, na qual antes se concentravam os palmarinos, foi dividida entre soldados e senhores que tinham apoiado a expedição de Carrilho.
           O Conselho Ultramarino, instalado em Lisboa, aprovou as cláusulas do tratado em parecer datado de 26 de janeiro de 1680.  Contudo, Cucaú se revelou uma experiência política fracassada. Apesar de terem prestado auxílio a diversas expedições punitivas contra Zumbi, que colocara sob sua liderança os mocambos insubmissos, os ex-quilombolas eram alvo dos mesmos soldados e sertanistas que pouco antes tinham forçado sua rendição.  Eles entravam em Cucaú em busca de fugitivos, destruíam roças e, nos termos de Silvia Hunold Lara, "punham em risco as trocas comerciais com os moradores da vizinhança".  Como o acordo que "pacificou" os adeptos de Ganga Zumba não passara pelo crivo das câmaras municipais, certos proprietários se queixavam de que os negros haviam ficado com as melhores terras.
      As disputas internas ocorridas em Cucaú resultaram numa conspiração e no envenenamento de Ganga Zumba.  Um dos filhos do líder morto, que tomava parte nas negociações com Zumbi, atuou também na repressão das tropas coloniais aos amotinados.  Após três meses de combate, a resistência acabou sufocada: os quase 200 prisioneiros sofreram a pena de servidão perpétua, sendo repartidos entre grandes fazendeiros. Um alvará emitido em Lisboa no dia 10 de março de 1682, com o intuito de solucionar as pendências jurídicas geradas pelo processo de reescravização, sequer mencionava o nome Cucaú5. 
      Os episódios relacionados a Palmares e Cucaú são quase inteiramente ignorados pelos brasileiros, que em sua maioria retêm apenas a imagem construída no Ensino Fundamental de Zumbi como um guerreiro meio mítico que foi decapitado, ou, numa perspectiva inspirada por Luiz Mott e Leandro Narloch, um cruel homossexual escravagista que precipitou o fim do maior quilombo das Américas.  Não é de espantar, portanto, que a submissão completa aos interesses dos ricos e poderosos, dos quais se espera uma improvável benevolência, ou apenas um pouco de migalhas e de sossego, seja a opção política preferencial de milhões. 
          O estudo da História, além de bastante útil, é vital.      
                                          
                          
Notas
1-Ver Alan Palmer.  Declínio e queda do Império Otomano.  São Paulo: Globo, 2013, p. 8 a 14.  
2-Cf. Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 270.             
3- Ver Felipe Pigna. Los mitos de la historia argentina 2.  Buenos Aires, Planeta, 2004, p. 197 a 199. 
4- Ver Luis Alberto Romero.  História contemporânea da Argentina.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 217 a 223. 
5- Cf. Silvia Hunold Lara.  Marronage et pouvoir colonial.  Palmares, Cucaú et les frontières de la liberté au Pernambouc à la fin du XVIIe siècle.  Annales, 67 n. 3, p. 639-662.
           


sábado, 26 de maio de 2012

A direita "respeitável" e seu embaraçoso parentesco com o fascismo (IV)- Alemanha

Hitler com o político conservador Von Papen 
         

       Constatamos pelos textos de Stackelberg que o nazismo, desde os primórdios, esteve no campo conservador, apesar das táticas políticas pouco convencionais adotadas por sua militância.  Hoje, veremos que este alinhamento foi fundamental para a chegada de Adolf Hitler ao poder. Tal como os fascistas na década anterior, os nazistas, no início dos anos 30, buscaram adesão entre uma das parcelas mais conservadoras do eleitorado germânico: os proprietários rurais, cujos votos se concentravam, em sua maioria, nos nacionalistas de direita.    


           Mesmo que esta aliança tenha sido circunstancial, contribuiu bastante para que o partido nazi, antes débil nas urnas, se transformasse na maior força eleitoral da Alemanha¹.    


         Também como Mussolini, Hitler tratou, em sua marcha rumo ao governo, de enfraquecer as eventuais restrições que sofria da parte dos industriais.  Para isto, adotou um discurso mais nitidamente pró-capitalismo, além de se apresentar como um defensor da ordem².  


      Em julho de 1932, os nazistas obtiveram seu melhor resultado eleitoral durante a vigência do pluripartidarismo: 37,4% dos votos nacionais³.  É preciso atestarmos, portanto, a inconsistência de uma falácia bastante difundida pelos reacionários, a de que o "povo alemão", visto como uma horda de  bárbaros manipulados por uma espécie de louco talentoso, se atirou de maneira quase unânime nos braços dos nazistas.  Este mito serve, naturalmente, aos que pretendem deslegitimar ou minimizar a importância do voto popular.       


       Também previsivelmente, o crescimento dos nazistas se deu às custas da direita tradicional, desgastada pela péssima situação econômica do país.  É particularmente difícil acreditar que os votantes "da classe alta e da classe média superior", identificados por Stackelberg como um dos pilares da base de apoio do nazismo, tivessem em algum momento simpatias pelo comunismo.  Aliás, aqui fica descontruída uma outra fábula, a de que Hitler competia com os comunistas pelo mesmo tipo de eleitor.  Os trabalhadores aderentes ao nazismo estavam, em regra, fora dos sindicatos e das organizações políticas de esquerda.


       Após o fatídico pleito, os conservadores alemães perceberam que a antiga atitude de dirigir pelo alto, ignorando a crescente participação das massas na política, nunca mais funcionaria4.  Desta forma, ruíram suas últimas resistências a uma iminente administração nazista.    


       No início de 1933, Hitler chegou ao governo, por vias "legais", sem dúvida, mas com significativos impedimentos, decorrentes do fato de não possuir maioria absoluta no Parlamento.  Nesta altura, a minoria anticapitalista já fora removida do seu partido, o que tranquilizava o empresariado5.    


         Presos arbitrariamente os deputados comunistas, as demais forças parlamentares de direita deram ao Führer o que ele mais precisava: aprovada a Lei Capacitadora, Hitler poderia governar por decreto durante quatro anos, sem prestar contas ao Legislativo ou ao presidente.  Além dos nacionalistas órfãos do Império Alemão, os nazistas dispuseram do apoio da Igreja conservadora na votação de 24 de março de 1933 [6].        


        Coerentemente, Hitler, no mês anterior, proferira discurso de tom fortemente emocional no sentido de  congregar suas bases direitistas.  Notemos, além do chamado anticomunista, a negação das divisões e disputas entre classes7, postura muito cara a conservadores, liberais ... e fascistas.  


     Retornaremos ao tema em futuras postagens, que deixarão cada vez mais claro que as aproximações da direita "respeitável" com a direita selvagem e genocida não foram um mero acidente de percurso, restrito às primeiras décadas do século XX.  

Notas:
1-Robert O. Paxton.  A anatomia do fascismo.  São Paulo: Paz e Terra, 2007, pp. 115/116.
2- Idem, p. 175.
3- Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 137.
4- Idem, p. 138.
5- Ibidem, p. 140.
6- Paxton, p. 181.
7- Stackelberg, p. 144.





sexta-feira, 25 de maio de 2012

A direita "respeitável" e seu embaraçoso parentesco com o fascismo (III)- Alemanha

                                                                 Hitler e Hindenburg
                                                       
            Muitos direitistas se empenham, sistematicamente, na tarefa de dissociar o nazismo, bem como a figura satanizada de Adolf Hitler (1889-1945), do campo conservador.  Uma das táticas mais bisonhas utilizadas  com este propósito é a frequente repetição do mote "Hitler era o chefe do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães", dando-se ênfase, é claro, ao termo "Socialista".  Rótulo por rótulo, convém sempre lembrá-los de que a direita portuguesa se agrupa no Partido Social Democrata, e que a agremiação fascista russa organizada por Vladimir Jirinovski recebe a denominação de Partido Liberal-Democrático.  Mas levemos a discussão para um terreno mais consistente.      
           Vencido o Império Alemão na Primeira Guerra Mundial, o país assistiu à luta generalizada entre nacionalistas de direita e socialistas.  O Freikorps, força militar integrada por voluntários e criada por sugestão do Alto Comando, reprimia com mão pesada os movimentos esquerdistas, assim como as administrações regionais desta tendência.  A tentativa de parte da esquerda de estabelecer um governo revolucionário a partir da cidade de Munique foi sufocada com elevada dose de violência.   


                  O Partido Democrático Social (SPD), que encabeçava a coalizão governista formada em 1919, à qual aderiram o Partido do Centro Católico e o Partido Democrático Alemão (de tendência liberal), buscava instrumentalizar os anti-republicanos do Freikorps contra a esquerda revolucionária, embora na prática não tivesse o menor controle sobre os nacionalistas radicais, inteiramente avessos à democracia¹.  Este fato pouco surpreende, visto que o SPD, nos anos anteriores, apoiara a guerra no Parlamento, com exceção de sua ala mais à esquerda, que em abril de 1917 se afastou para compor um novo partido de oposição, o USPD (Democratas Sociais Independentes)².    


                  Todavia, em 1920, as mesmas unidades do Freikorps usadas contra os socialistas se voltaram contra o governo central, no episódio que ficou conhecido como putsch Kapp-Lüttwitz, em referência a seus líderes Wolfgang Kapp (1858-1922), funcionário público que fundara durante a guerra o Partido da Pátria, e Walther von Lüttwitz (1859-1942), general que comandava o Freikorps em Berlim.  A República de Weimar, então, foi salva pela resistência dos trabalhadores, associada a uma certa inoperância dos golpistas.     


               Ao contrário do que ocorrera com os participantes do levante de Munique, Kapp, Lüttwitz e quase todos os seus seguidores foram absolvidos.  O Judiciário alemão, bastante conservador, assumiu uma postura de proteção aos rebeldes da direita³.


               Já naqueles anos, Adolf Hitler, então um obscuro veterano condecorado na guerra, se alinhava com o governo monarquista da Baviera, onde residia.  A região funcionava como um celeiro para os movimentos direitistas que conspiravam contra Weimar4.  Nota-se, portanto, que ao contrário de Mussolini, a quem sempre admirou, Hitler construiu sua carreira política, de maneira ininterrupta, na extrema direita.  




                        Inspirado pelo êxito de Mussolini na Marcha sobre Roma, Hitler empreendeu, em fins de 1923, seu próprio golpe de Estado, no que fracassou.  Porém, os juízes trataram-no conforme os parâmetros usados com Kapp.  Apesar da extrema gravidade dos crimes cometidos, o futuro Führer recebeu uma sentença leve, dispondo ainda de facilidades para prosseguir em suas atividades de doutrinação5.  

 



                        As eleições de 1924 enfraqueceram o SPD, que embora continuasse a ser o partido com mais cadeiras no Parlamento, perdeu espaço à esquerda e à direita.  A direita nacionalista e anti-republicana, em particular, ampliou sua fatia do eleitorado.


                          Em fevereiro de 1925, quando o general Hindenburg chegou à presidência da Alemanha, Adolf Hitler foi um de seus partidários.  Mais uma vez, localizamos o líder supremo do nazismo ao lado de conservadores de tipo tradicional, que sonhavam com o retorno da monarquia6.


                                                                      [continua]

Notas:
1- Ver Roderick Stackelberg.  A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados.  Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 99. 
2- Idem, p. 88.
3- Ibidem, p. 105.
4- Ibidem, pp. 109/110.
5- Ibidem, p. 111.
6- Ibidem, p. 114.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Devassando o imperialismo

"Nós cremos que há raças, decadentes ou atrasadas, como se queira, em relação às quais perfilhamos o dever de chamá-las à civilização".

(António de Oliveira Salazar (1889-1970), ditador português, em entrevista ao jornal francês Le Figaro no ano de 1960- citado em Luís Reis Torgal. O Estado Novo, salazarismo, fascismo e Europa. In: História de Portugal/org. José Tengarrinha. Bauru: Edusc; São Paulo: UNESP; Portugal: Instituto Camões, 2001, p. 402)

              A citação que abre esta matéria é um eco bastante tardio do apelo ao ideal civilizatório como justificativa para o imperialismo, que acompanhou, especialmente, o expansionismo europeu nos continentes africano e asiático na segunda metade do século XIX.
              Os colonialistas britânicos, em particular, difundiram a noção do "fardo do homem branco", cuja dominação sobre os povos ultramarinos implicaria na missão de encaminhá-los na direção de uma cultura superior.  Este processo "educativo", no entanto, não presumia uma integração plena à sociedade dos colonizadores.  Mesmo progredindo através do contato com a ciência e a técnica da Europa, os colonizados permaneceriam à distância, em posição de subalternidade.  Compartilhavam desta visão, em geral, os formadores de opinião nos demais países que possuíram colônias, ainda que, no caso francês, a fidelidade ao pensamento republicano tenha impedido certos homens de exprimir em público sua crença na inferioridade das populações nativas¹. 
                 As alegadas boas intenções não se sustentam após uma breve investigação focada nas regiões em que a expansão encontrou resistência militar.  Uma geração após a invasão da Argélia, percebe-se que a minoria francesa tinha se apossado do controle da economia, ocupando as melhores áreas de cultivo e as principais cidades.  Enquanto isso, os árabes e berberes nativos do país, submetidos a pesadas baixas pela guerra de conquista e por epidemias, eram também as principais vítimas das eventuais quebras de safra. Seu número havia diminuído entre as décadas de 1830 e 1860².         



             O estabelecimento do controle holandês sobre as ilhas que hoje compõem a Indonésia foi, igualmente, um processo caracterizado por extrema brutalidade.  Somente na região de Atjeh (Aceh segundo a grafia moderna), combates que se estenderam até o início do século XX resultaram em cerca de oitenta mil mortes, em sua esmagadora maioria entre os habitantes de Sumatra.  Em outras áreas da ilha, que resistiram aos invasores até 1907, ocorreram massacres indiscriminados de civis, nos quais a atuação dos militares holandeses faz lembrar a postura dos torturadores americanos da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, quase cem anos mais tarde³.





                   No imenso Congo, transformado no final do século XIX em propriedade do rei da Bélgica Leopoldo II, nem a instalação de missões religiosas impediu que a mão de obra local fosse submetida a regimes de trabalho análogos à escravidão.  Os congoleses, obrigados a pagar impostos à metrópole, sofriam também confisco de terras.  Quando a situação se tornou conhecida na Europa, o Parlamento belga se viu na contingência de "estatizar" a colônia, apesar da ira do monarca escravagista4.   



             Os territórios que atualmente formam a Namíbia, por sua vez, sentiram o impacto do imperialismo na primeira década do século XX.  Os alemães virtualmente dizimaram a população local, primeiro se valendo dos hotentotes (nama) para ajudá-los a chacinar os bantos (herero), depois movendo uma campanha de extermínio contra os próprios hotentotes5.     


            Na África do Sul, os ingleses, depois de esmagar a decidida resistência zulu, generalizaram seu domínio na virada do XIX.  A guerra contra os bôeres, descendentes de holandeses que praticamente mobilizaram todos os homens válidos para a luta, levou os prepostos da Coroa britânica a construir campos de concentração, nos quais morreram mais de 40 mil pessoas, entre bôeres e negros6.     


[continua]
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1 Cf. Marc Ferro.  História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII ao XX.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 39.  
2 Cf. Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 276. 
3 Ver Thomas Beaufils.  O colonialismo nas Índias holandesas.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 283/284. 
4 Ver João Carlos Rodrigues.  Pequena história da África Negra.   São Paulo: Globo; Brasília: Secretaria de Cultura da Presidência da República: Biblioteca Nacional, 1990, p. 163. 
5 Idem, p. 175. 
6 Ver H. L. Wesseling.  Dividir para dominar: a partilha da África (1880-1914).  Rio de Janeiro: UFRJ; Revan, 2008, p. 358.