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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Mandela, Fidel e seus detratores mentecaptos


 
         Empenhado numa aproximação com o Ocidente, em 1987, o governo Gorbachev se afastava de antigos aliados dos soviéticos, como o MPLA, de Angola.  Aproveitando-se da conjuntura, os Estados Unidos de Ronald Reagan e a África do Sul (sob o apartheid) intensificavam seu apoio aos guerrilheiros direitistas da Unita, chefiados por Jonas Savimbi, que assim ampliaram seu controle sobre vastas áreas ao sul do território angolano.  Reunindo tropas no norte da Namíbia, os sul-africanos realizaram uma pesada ofensiva contra o MPLA em novembro do mesmo ano.  As forças governistas de Angola recuaram para a cidade de Cuito Cuanavale, situada em área de florestas.  A eventual queda daquela localidade deixaria todo o sul do país debaixo da ocupação sul-africana.  
           Sem contar com o auxílio soviético, o presidente angolano José Eduardo dos Santos pediu ajuda a Fidel Castro.  O dirigente cubano atendeu-o prontamente, enviando para Angola um general de sua confiança, Leopoldo Cintra Frías, que recebeu o comando na região meridional, e nove mil soldados, que desembarcaram no início de 1988.  O contingente cubano na África atingiu, então, a cifra de 50 mil homens.  Uma parte avançou para o norte, até as fronteiras com o Congo e Zâmbia, e outra tomou o rumo de Cuito Cuanavale.  


                                  Vemos Cuito Cuanavale na província de Cuando Cubango. 
          
            O ataque sul-africano àquele posto avançado, reforçado pela ação da Unita, ocorreu a partir de 14 de fevereiro de 1988.  Entretanto, após várias semanas de combates, as até então invictas forças armadas do apartheid foram batidas e retrocederam, abandonando Angola.  O enfraquecimento dos agressores teve desdobramento nas negociações que resultaram na independência da Namíbia, onde ascendeu ao poder a Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO), grupo guerrilheiro que antes fustigava a dominação racista¹.  Assumindo a presidência da África do Sul em setembro de 1989, Frederik de Klerk se viu obrigado a admitir a desmoralização interna e externa do regime e a afrouxar seus fundamentos, até promover, em 1994, o pleito que terminou com a eleição de Nelson Mandela. 


                                                        Soldados cubanos em Cuito Cuanavale 

                 

             Falecido Mandela, nos deparamos com uma intensa campanha de depreciação da sua imagem, efetuada por organizações muito bem articuladas, a julgar pela rapidez com que difundem "informação".  Mandela  é demonizado por não ter combatido com flores uma das ditaduras mais truculentas e irracionais que já existiram, e virtualmente por qualquer outra coisa, inclusive os atuais índices de contaminação por HIV da população sul-africana!  Esta orquestração desprezível dispõe do entusiasmo gratuito não só dos arautos de sempre, como também, no que diz respeito ao Brasil, de milhares de "pessoas comuns"; na maioria dos casos,  reacionários ressentidos que, lidando cada vez pior com as frequentes rejeições ao conservadorismo nas urnas, adotam uma postura de enaltecimento de tudo que vem da direita.  Inclusive o apartheid. 
            Um dos elementos centrais do "Dossiê Mandela" é a "denúncia" da amizade do ex-presidente da África do Sul com Fidel Castro.  Recuperando o contexto dos episódios que abrem esta postagem, tenho um gosto especial em transcrever as palavras que Mandela dirigiu a Fidel durante a visita oficial que fez a Havana, em julho de 1991:

"A derrota decisiva do exército racista em Cuito Cuanavale foi a vitória de toda a África... Possibilitou à África desfrutar a paz e estabelecer a sua própria soberania... [e] ao povo da Namíbia alcançar sua independência.  A derrota decisiva das forças agressivas do apartheid destruiu o mito da invencibilidade do opressor branco.  A derrota do exército do apartheid serviu como inspiração para o povo combativo da África do Sul"².
  
          Mandela, solto da prisão em fevereiro de 1990, na temporada seguinte voou até Havana para confraternizar com o povo que em boa parte foi responsável por sua liberdade, e com seus governantes.  Reconheceu, como em outras ocasiões, o papel de um exército popular e multirracial na derrocada do apartheid.  De quem "nossos" udenistas tardios gostariam que fosse amigo? Thatcher? Bush Senior? Carlos Menem? Não podem ser levados a sério.                   
1-Este processo é descrito com bom número  de detalhes em Richard Gott.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 311 a 314.   
2- Gott, p. 313.  

       

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A direita sob o fogo amigo: as "inconveniências" da revista Veja


           
        Hoje escrevo, ou antes transcrevo, uma série de obviedades.  Longe de recordar segredos de Estado há muito esquecidos, faço alusão a um conjunto de acontecimentos que referenciaríamos facilmente com o recurso a dois ou três manuais de História Contemporânea. Além disto, os episódios pertencem, na maioria dos casos, a eixos temáticos diferentes; no máximo, poderiam ser agrupados sob um título vago como "Crimes e incoerências da direita internacional".
         O nexo desta composição se relaciona, então, à consulta a uma fonte comum, a revista Veja.   O semanário da família Civita, e nisto sou óbvio outra vez, tem funcionado no país, pelo menos nos últimos vinte e cinco anos, como um dos principais órgãos formadores de opinião no campo do liberalismo conservador.  Ou à direita simplesmente, se assim exigir qualquer moralista tedioso que me argua sobre como uma publicação conservadora pode trazer fotos de mulheres de topless e recomendar shows e livros de artistas conhecidos como usuários de drogas.
     O fato relevante é que Veja, desde a ostensiva promoção que dedicou à candidatura presidencial de Fernando Collor de Mello, em 1989, passando pelo apoio sistemático a todas as gestões tucanas, em Brasília ou nos estados, tem sido o órgão de imprensa mais repudiado pela esquerda em geral, não apenas pela parcialidade deselegante como também pela abertura de espaço irrestrito a personalidades das mais reacionárias.  A montagem que transformo em capa deste texto é uma das inúmeras provas disponíveis de tal "reconhecimento". 
         Torna-se até divertido, portanto, verificar que a revista, apesar de sempre pró-capitalista, em outras épocas não adotava o notório tom pequeno burguês ultrajado que constitui sua marca atual.  Muitas das páginas antigas de Veja contém citações que constrangeriam ou enfureceriam, conforme a situação, a juventude "coxinha" de 2013.  Vamos a algumas delas, não descartando a futura confecção de uma segunda série, inclusive com contribuições dos leitores.       
        Durante a fase mais brutal da ditadura civil-militar, mais precisamente em 25 de setembro de 1968, Veja anunciou ao público brasileiro que o governo do Vietnã do Sul, sustentado pelas tropas norte-americanas, era corrupto no mais alto grau e não representava o povo daquele país.  


    Na edição de 19 de agosto de 1970 lemos que o governo francês, a partir de 1964 (na presidência do conservador Charles de Gaulle), não se furtou a equipar militarmente a África do Sul do apartheid, já então sujeita a um embargo determinado pela ONU. 



     Em 10 de março de 1972 Veja informou seus leitores sobre a proteção concedida pelo Estado norte-americano ao criminoso nazista Klaus Barbie, logo após a Segunda Guerra Mundial. 


      Em plena presidência do general Figueiredo,  a 7 de novembro de 1979, a revista se referiu ao abrigo concedido pelo ultradireitista ditador paraguaio Alfredo Stroessner a outro nazista, Josef Mengele.



    O noticiário internacional da edição de 12 de março de 1975 não apenas rememora o apoio ocidental ao golpe que depôs na década de 50 o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, de tendências nacionalistas, como também mostra que, na época, a Casa Branca não se importava com a possibilidade de o Irã vir a contar com várias usinas nucleares.



      Segundo a Veja de 5 de maio de 1976, o celebrado secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, no começo da década, sugerira a seu governo uma atitude pragmática nas relações com os regimes segregacionistas da África do Sul e da Rodésia, talvez preferíveis aos "movimentos rebeldes negros".

  
     Doze anos mais tarde, uma associação entre os Estados Unidos da administração Reagan e o desgastado apartheid sul-africano permanece exposta, na aliança de ambos com o chefe direitista angolano Jonas Savimbi.



Continuem compartilhando, e de preferência nos fóruns dos "coxinhas".
   



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mais sobre o apartheid e a geopolítica ocidental

       

     A Assembleia Geral das Nações Unidas, em sessão de plenário ocorrida no dia 12 de novembro de 1974, praticamente transformou a África do Sul do apartheid em um país pária sob o ponto de vista diplomático.  Por ampla maioria, foi aprovada a seguinte decisão:

"Baseado na consistência com que a Assembleia Geral tem regularmente recusado aceitar as credenciais da delegação da África do Sul, pode-se legitimamente concluir que a Assembleia Geral iria, do mesmo modo, rejeitar as credenciais de qualquer outra delegação autorizada pelo Governo  da República Sul-Africana a representá-lo, o que testemunha dizer-se, em termos explícitos, que a Assembleia Geral se recusa a permitir que a delegação da África do Sul participe em seu trabalho".

Os votos se distribuíram da seguinte forma:

Sim
Afeganistão, Albânia, Argélia, Argentina, Bahrein, Bangladesh, Barbados, Butão, Botswana, Bulgária, Burma, Burundi, Bielorrúsia, República Centro-Africana, Chade, China, Congo, Cuba, Chipre, Checoslováquia, Daomé, Iêmen Democrático, Egito, Guiné Equatorial, Etiópia, Gabão, Gâmbia, República Democrática Alemã, Gana, Granada, Guiana, Guiné Bissau, Haiti, Hungria, Índia, Indonésia, Iraque, Costa do Marfim, Jamaica, Jordânia, Quênia, República Khmer, Kuwait, Laos, Líbano, Libéria, República Líbia Árabe, Madagascar, Malásia, Mali, Malta, Mauritânia, Ilhas Maurício, Mongólia, Marrocos, Nepal, Nigéria, Níger, Omã, Paquistão, Panamá, Peru, Filipinas, Polônia, Qatar, Romênia, Ruanda, Senegal, Serra Leoa, Cingapura, Somália, Sri Lanka, Sudão, Suazilândia, República Síria Árabe, Tailândia, Togo, Trinidad Tobago, Tunísia, Uganda, Ucrânia, União Soviética, Emiratos Árabes, República Unida dos Camarões, República Unida da Tanzânia, Alto Volta, Iêmen, Iugoslávia, Zaire, Zâmbia.

Abstenções
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, República Dominicana, Equador, Fiji, Grécia, Guatemala, Irã, Japão, Lesoto, Malawi, México, Paraguai, Portugal, Espanha, Turquia, Venezuela.

Não
Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Costa Rica, Dinamarca, El Salvador, Finlândia, França, República Federal Alemã, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, Nicarágua, Noruega, Suécia, Reino Unido, Estados Unidos.

Nota: Os dados factuais sobre as votações na ONU citadas nesta postagem e na anterior constam do livro Israel-África do Sul: a marcha de um relacionamento, organizado em 1976 por Richard P. Stevens e Abdelwahab M. Elmessiri, publicado originalmente por New World Press sob o título Israel-South Africa: The Progression of a Relationship. 


     Temos neste episódio mais uma comprovação do cinismo e das contradições do autodenominado "Mundo Livre", disposto a conceder sobrevida ao apartheid.  Colocando-se contra a decisão, Estados Unidos e Reino Unido arrastaram consigo todos os demais fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): França, Itália, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Islândia e Canadá.  Mesmo Portugal, que no decorrer da Revolução dos Cravos acabara de reconhecer o direito das colônias à autodeterminação e a independência da Guiné Bissau, cedeu ao compromisso com o poderoso bloco militar, assim como a Alemanha Federal, que ingressou na OTAN em 1955.  Os dois membros restantes da organização, Grécia e Turquia, se abstiveram.
            Em contraste, notamos que virtualmente todos os países socialistas, filossocialistas e não alinhados voltaram a condenar inequivocamente o regime racista sul-africano.  Entre os votos "sim", visualizamos as repúblicas soviéticas, acompanhadas por seus aliados do Pacto de Varsóvia (Polônia, Alemanha Oriental, Romênia, Hungria, Bulgária e Checoslováquia) e pelos outros países europeus cujos governos possuíam orientação marxista, a Albânia e a Iugoslávia.  Encontramos igualmente na lista do "sim" China, Cuba, Mongólia, nações africanas e asiáticas cuja independência decorreu de revoluções nacionalistas ou de esquerda (Argélia, República Popular do Congo, Daomé, Iêmen do Sul, Etiópia), a Índia e a Líbia de Muammar Kadhafi (1942-2011).  
          O mundo muçulmano, com as exceções do Irã do xá e da Turquia, também cerrou fileiras contra o apartheid: além de países já citados, Afeganistão, Bahrein, Bangladesh, Egito, Iraque, Indonésia, Jordânia, Kuwait, Líbano, Malásia, Mauritânia, Marrocos, Omã, Paquistão, Qatar, Somália, Sudão, Síria, Tunísia, Emiratos Árabes e Iêmen votaram "sim".  O mesmo ocorreu com a África Subsaariana, excluindo o Malawi, ao qual já nos referimos na postagem de ontem, e o Lesoto, incrustado na África do Sul, de que dependia por completo em termos econômicos; Botswana, Burundi, República Centro-Africana, Chade, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné Bissau, Costa do Marfim, Quênia, Libéria, Madagascar, Mali, Ilhas Maurício, Nigéria, Níger, Ruanda, Senegal, Serra Leoa, Suazilândia, Togo, Uganda, Camarões, Tanzânia, Zaire e Zâmbia reprovaram mais uma vez o segregacionismo.
        Apreciando os votos latino-americanos, é fácil perceber que as nações então sujeitas às ditaduras de direita implantadas sob o pretexto do anticomunismo se viram empurradas para uma covarde abstenção, a começar pelo Brasil de Ernesto Geisel (1907-1996).  A mesma postura foi adotada pela Bolívia de Hugo Banzer (1926-2002), pelo Chile de Augusto Pinochet (1915-2006), pelo Paraguai de Alfredo Stroessner (1912-2006), pela República Dominicana de Joaquín Balaguer (1906-2002) e pelo Equador de Guillermo Rodríguez.  A Nicarágua de Anastasio Somoza Debayle (1925-1980) voltou a optar pelo "não".  Países com sistemas representativos frágeis, como a Guatemala e El Salvador, sob forte pressão de militares adeptos da doutrina da contrainsurgência, também se esquivaram de votar contra a África do Sul.  Entre os regimes conservadores ditatoriais e semiditatoriais da região, somente o Haiti da família Duvalier se posicionou pelo "sim", diante da inviabilidade de justificar perante seu povo a subjugação da maioria negra sul-africana.  Mesmo entre os governos plenamente constitucionais, Colômbia, Venezuela, México e Costa Rica não ousaram desafiar os interesses norte-americanos e europeus ocidentais.  Votaram "sim' apenas a Argentina, o Peru e pequenas repúblicas caribenhas de expressiva população negra, como Granada, Guiana, Jamaica, Panamá, Barbados e Trinidad Tobago.    
        A despeito da vasta propaganda que atribui à democracia liberal um protagonismo na destruição do apartheid, a verdade é que as potências capitalistas contribuíram em muito para a  permanência das aberrantes relações segregacionistas até a primeira metade da década de 1990.          
                             
   






  




domingo, 28 de outubro de 2012

A direita e o apartheid: algumas notas esclarecedoras

        

     Excetuando-se uns poucos neonazistas raivosos, possivelmente ninguém fora da África do Sul ousa proferir ou redigir, nos dias atuais, uma apologia ao apartheid.  Este fato é bastante compreensível, se recordarmos que o sistema caído em 1994, com a ascensão de Nelson Mandela à presidência, obteve níveis de reprovação perante a opinião pública mundial que talvez tenham se igualado aos do hitlerismo na década de 1940. 
       Embora o tema esteja hoje relegado a um segundo plano, os políticos e diplomatas de todos os continentes, se confrontados com a memória do apartheid, sem dúvida colocariam em relevo a condenação formal de seus respectivos países, passando inclusive pelo terreno das sanções econômicas, às práticas de segregação racial adotadas na África do Sul ao longo de grande parte do século XX.
     Caiu em conveniente esquecimento uma obviedade: o apartheid jamais teria alcançado tamanha longevidade se não contasse com suportes de peso nos campos diplomático, econômico e militar, por vezes velados, mas nem por isto menos decisivos.  Podemos confirmar esta tese, entre inúmeras possibilidades, pela observação do posicionamento dos governos da época frente aos documentos produzidos pela ONU no sentido de censurar ou pressionar o regime sul-africano.  Transcrevo abaixo um deles:

Resolução nº 3.207 de 30 de setembro de 1974 da Assembleia Geral da ONU (XXIX)

A Assembleia Geral,
Considerando suas resoluções nºs 2.636 A (XXV), de 13 de novembro de 1970, 2.862 (XXVI), de 20 de dezembro de 1971 e 2.948 (XXVII), de 8 de dezembro de 1972 e sua decisão de 5 de outubro de 1973, pela qual decidiu rejeitar as credenciais sul-africanas,
Recordando que a África do Sul não acatou nenhuma das decisões anteriormente mencionadas e continua a praticar a sua política de "apartheid" e discriminação racial contra a maioria da população da África do Sul,
Reafirmando, uma vez mais, que a política do "apartheid" e discriminação racial do Governo da África do Sul é uma flagrante violação dos princípios da Carta das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
Observando a persistente recusa por parte da África do Sul, de abandonar sua política de "apartheid" e discriminação racial, em obediência às relevantes resoluções e decisões da Assembleia Geral,
Apela ao Conselho de Segurança para rever o relacionamento entre as Nações Unidas e a África do Sul, à luz da constante violação dos princípios da Carta e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, por parte da África do Sul.

Sim

Afeganistão, Albânia, Argélia, Argentina, Austrália, Bahamas, Bahrein, Bangladesh, Barbados, Bélgica, Butão, Bolívia, Botswana, Brasil, Bulgária, Burma, Burundi, Bielorrússia, Canadá, República Centro-Africana, Chade, Chile, China, Colômbia, Congo, Costa Rica, Cuba, Chipre, Checoslováquia, Daomé, Iêmen Democrático, Dinamarca, República Dominicana, Equador, Egito, El Salvador, Etiópia, Fiji, Finlândia, Gabão, Gâmbia, República Democrática Alemã, República Federal Alemã, Gana, Grécia, Granada, Guatemala, Guiné Bissau, Guiana, Haiti, Honduras, Hungria, Islândia, Índia, Indonésia, Iraque, Irlanda, Itália, Costa do Marfim, Jamaica, Japão, Quênia, República Khmer, Kuwait, Laos, Líbano, Lesoto, Libéria, República Árabe, Líbia, Luxemburgo, Madagascar, Malásia, Mali, Malta, Mauritânia, Ilhas Maurício, México, Mongólia, Marrocos, Nepal, Holanda, Nova Zelândia, Níger, Nigéria, Noruega, Omã, Paquistão, Panamá, Peru, Filipinas, Polônia, Portugal, Qatar, Romênia, Ruanda, Arábia Saudita, Senegal, Serra Leoa, Cingapura, Somália, Sri Lanka, Sudão, Suécia, República Síria Árabe, Tailândia, Togo, Trinidad Tobago, Tunísia, Turquia, Uganda, Ucrânia, União Soviética, Emirados Árabes, Camarões, Tanzânia, Alto Volta, Uruguai, Venezuela, Iêmen, Iugoslávia, Zaire, Zâmbia.

Abstenções

França, Irã, Israel, Malawi, Nicarágua, Paraguai, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos.

Não 

África do Sul


     Ninguém com um mínimo de senso de realidade esperaria que o governo sul-africano apoiasse sua própria condenação.  Porém, podemos identificar através das poucas abstenções a solidariedade de importantes forças conservadoras a um governo com o qual compartilhavam a visão anticomunista e a intenção de barrar o avanço dos movimentos populares no chamado Terceiro Mundo:      

.A França tinha como primeiro-ministro o direitista Giscard d'Estaing, notório defensor do imperialismo.
.O Irã permanecia sob a ditadura do xá Reza Pahlavi (1919-1980), que esmagava os opositores comunistas, islâmicos e mesmo os meros adeptos das eleições livres, contando com amplo respaldo anglo-americano.
.Israel figurava como um dos principais aliados da África do Sul, tema que merece texto à parte.
.O ditador do Malawi, Hastings Kamuzu Banda (1898-1997), simpatizava com o apartheid, chegando a receber, alguns anos antes, o primeiro-ministro sul-africano Balthazar Johannes Vorster (1915-1983) em visita oficial a seu país.
.A Nicarágua, sob Anastasio Somoza (1925-1980), se alinhava com a corrupção e com o reacionarismo, o que também pode ser dito do Paraguai de Alfredo Stroessner (1912-2006).
.A Espanha, no final do franquismo, ainda dispunha do duvidoso privilégio de possuir um dos governos mais direitistas do planeta, patrocinado em suas origens pelo nazifascismo.
.O premier Harold Wilson (1916-1995), apesar de eleito pelo Partido Trabalhista, estava inteiramente abandonado pela esquerda do Reino Unido, em consequência de suas posições a respeito da Guerra do Vietnã. 
.Os Estados Unidos ingressavam na presidência de Gerald Ford (1913-2006), um membro do partido imperialista por excelência, o Republicano.

Retornarei ao assunto na próxima postagem.       






    

 

sábado, 11 de agosto de 2012

Desconstruindo uma "celebridade" (IV)

http://les.traitesnegrieres.free.fr/38_esclavage_code_noir_fr.html

Article 38. - L'esclave fugitif qui aura été en fuite pendant un mois à compter du jour que son maître l'aura dénoncé en justice, aura les oreilles coupées et sera marqué d'une fleur de lis sur une épaule ; et s'il récidive une autre fois à compter pareillement du jour de la dénonciation, aura le jarret coupé 
et il sera marqué d'une fleur de lis sur l'autre épaule ; et la troisième fois il sera puni de mort.

           As linhas que reproduzo acima fazem parte do Code noir (Código Negro), nome pelo qual ficou conhecido um edito real de 1685 que tinha como finalidade padronizar as regras da escravidão nas colônias francesas.  Inicio desta forma a postagem de hoje para indicar que a fabricação de hierarquias de crueldade entre sistemas escravistas constitui em regra um exercício de etnocentrismo.  Ninguém contestaria que castrar um menino núbio de nove anos e treiná-lo para ser guarda do harém de um paxá do Cairo é um abominável crime contra a humanidade.  Porém, é necessário muito contorcionismo para enxergar benevolência numa sociedade da mesma época que estabelecia em seu ordenamento jurídico o corte das orelhas de um escravo em sua primeira tentativa de fuga (além da marcação a ferro quente no ombro), a amputação de uma perna na altura do joelho após a segunda e a execução na terceira. 
             Feitas estas observações, retorno ao link que expus ontem para analisar mais algumas balelas do doutrinador eurocêntrico e americanófilo Olavo de Carvalho:

                 
1-Ora, a simples prioridade temporal e ampla disseminação social do racismo antinegro nos países islâmicos já bastaria para demonstrar, mesmo sem os dados suplementares aqui fornecidos, que “o Islam foi a cultura mais escravagista dos últimos dois milênios”.

         A afirmativa carece tanto de lógica que até surpreende o fato de vir de alguém que se julga um grande conhecedor da Filosofia.  Ninguém diria, por exemplo, que os antigos romanos foram mais escravagistas do que os fazendeiros do Sul dos Estados Unidos porque escravizaram primeiro e durante mais tempo.  Além disto, a vinculação forçada entre racismo antinegro e escravidão não faz sentido.  O cativeiro no mundo muçulmano foi incomparavelmente menos racializado do que o da América colonial.  Nos mercados de Istambul tanto poderiam ser encontrados negros africanos quanto russos e poloneses alvíssimos.  Não há como comparar, por fim, as hierarquias étnicas do Islã com o racismo institucionalizado e consagrado socialmente que existiu na África do Sul do apartheid e nos Estados Unidos das leis segregacionistas da primeira metade do século XX, quando obviamente não havia mais escravidão.  
        Mas já que se falou de dados suplementares, retornemos às tabelas de Lovejoy, não mais com os cálculos da década de 1970, e sim com as suas (ligeiras) atualizações dos anos 1990.  Percebe-se que no período entre 1500 e 1800, no qual o comércio de escravos era bastante ativo tanto no mundo islâmico quanto nas Américas, mais de 72% dos cativos reconhecidamente traficados haviam feito a travessia do Atlântico, e não a viagem rumo ao Império Otomano e demais Estados islâmicos.  Voltaremos aos números, pois estimativas são aperfeiçoadas e novos registros são descobertos, mas é evidente que apenas a propaganda islamófoba poderia, num passe de mágica, inverter as proporções.       

(Lovejoy, A escravidão na África, p. 90)

2-A pesquisa mais recente reconstituiu com bastante minúcia as trilhas por onde os mercadores islâmicos conduziam escravos, e dizer que elas atravessavam o continente não é de maneira alguma uma figura de expressão.

                 Estamos diante de mais um truque barato.  Olavo de Carvalho, sempre jogando para a plateia, tenta deixar a impressão de que todos os escravos encaminhados para terras muçulmanas realizavam uma travessia completa do Saara, talvez até pela parte mais larga do deserto.  Não satisfeito em "se esquecer" de que uma parte nada desprezível deste tráfico incidia contra as populações costeiras do litoral índico e do Mar Vermelho, também deixa de lado a existência de rotas terrestres mais curtas que, sempre que possível, deviam ser as escolhidas pelos traficantes.  Afinal, não interessava a homens cujo objetivo era o lucro submeter sua mercadoria humana a um maior risco de perda.    
                 Vemos, por exemplo, que regiões sudanesas abasteciam de escravos o vizinho Egito:
O escravo era o primeiro produto de exportação do Darfur.  Do Cairo, a crer-se num testemunho de 1663, saíam frequentes caravanas para o sultanato, com o fim precípuo de adquirir cativos.  Traziam de volta plumas de avestruz, presas de elefante e tamarindo (possivelmente em forma de passas), mas a principal mercadoria era gente- mulheres, crianças pequenas e também homens, que eram em parte reexportados pelos portos de Alexandria e Damietta para o resto do Mediterrâneo.
(Alberto da Costa e Silva.  A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 564) 


  

                      Mais ao sul, o grande entreposto escravista de Zanzibar, o maior do Oceano Índico, recebia cativos do lago Malawi e de áreas situadas nos atuais territórios da Tanzânia e de Moçambique.  Voltando o olhar para a costa atlântica, percebemos que estes trajetos seriam comparáveis ou até menores do que as travessias forçadas dos sertões angolanos promovidas ou encomendadas pelos portugueses:

A maioria dos escravos que terminava em Zanzibar e Pemba vinha de Quíloa, que era o principal ponto de recebimento de caravanas do lago Maláui e de outros portos mais abaixo da costa.  Escravos vindos do interior de Quíloa constituíam uma parcela significativa do comércio até 1811.  Na década de 1840, a importância dessa fonte tinha aumentado ainda mais; em 1860, 75 por cento dos escravos de Zanzibar chegaram através de Quiloa.
(Lovejoy, A escravidão na África, p. 236)




3-Um de seus dogmas principais é justamente a acusação de racismo, atirada genericamente ao rosto de toda a cristandade por incontáveis exércitos de intelectuais ativistas e, nas últimas décadas, por todos os porta-vozes do radicalismo islâmico. Imbuído da crença na inferioridade congênita dos negros, o homem branco europeu teria sido, segundo essa doutrina, o escravagista por excelência, dizimando a população africana e financiando, com a desgraça do continente negro, a Revolução Industrial que enriqueceu o Ocidente.

                    
             Olavo cai em lamúrias injustificáveis.  Para não nos perdermos nas inúmeras provas que podem ser exibidas de que o racismo nas sociedades ocidentais é um elemento estrutural, o que não significa dizer, evidentemente, que todo ocidental é um linchador de negros incubado, relembremos dois processos de domínio público, ao alcance de qualquer criança que tenha em casa um manual de oitavo ano do Ensino Fundamental.

I- A escravidão e o tráfico sob direção inglesa forneceram uma parte considerável do capital que tornou possível a Revolução Industrial:   

O uso de escravos africanos permitira à Grã-Bretanha alcançar a primeira posição como potência colonial americana e desenvolver suas possessões na América até que suas exportações ultrapassaram as da América Espanhola.  Na década de 1770, as colônias escravistas das Antilhas Francesas lutavam para superar as Índias Ocidentais britânicas.  O valor anual da exportação colonial do início da década chegou a 5,6 milhões de libras nas colônias britânicas, 5,2 milhões nas colônias francesas, 1,8 milhão no Brasil e 4,9 milhões em toda a América Espanhola.

(Robin Blackburn.  A queda do escravismo colonial: 1776-1848.  Rio de Janeiro: Record, 2002, pp. 17/18)   

II- Os sistemas escravistas montados no sul dos Estados Unidos e em outras partes do continente americano forneceram uma parte indispensável das matérias primas que possibilitaram a expansão da economia industrial:

O número de escravos nos Estados Unidos crescia rapidamente.  Em 1790 eles eram 698.000, e no final do século este número chegava a 893.000.  Em data tão tardia ainda existiam 35.900 escravos no Norte, porque em geral as Leis de Emancipação libertaram os filhos de escravos em vez dos escravos propriamente ditos.  Enquanto a escravidão declinava suavemente no Norte, no Sul apresentava novo vigor, e não apenas demográfico.  Os donos das plantations do Sul começavam a reagir à demanda crescente de algodão.  No primeiro momento a maior parte do algodão era cultivada no litoral do Sul, mas a invenção da descaroçadeira de algodão de Whitney em 1793 permitiu que o produto fosse plantado e processado também no interior.  A exportação de algodão bruto dos Estados Unidos cresceu de meio milhão de libras (226 toneladas) em 1793 a 18 milhões de libras (8.100 toneladas) em 1800 e 83 milhões de libras (38.000 toneladas) em 1815.  Entre 1801 e 1805, 40% da importação britânica de algodão vinham dos Estados Unidos.
(Blackburn, p. 296)

                 
           Como também tenho direito a chutar cifras, tal qual Olavo, eu diria que os europeus se beneficiaram quatrocentas e oitenta e sete vezes mais destes eventos do que seus contemporâneos da África.  Em suma, a expressão "desgraça do continente negro" é apelativa, mas não mentirosa.  

4-Mesmo atentando só para o aspecto quantitativo da coisa (há outros aspectos até mais graves, que veremos adiante), não há como refutar a conclusão de Tidiene N’Diaye:
“Podemos sustentar, sem risco de erro, que o comércio negreiro arábico-muçulmano e as jihads provocadas por esses impiedosos predadores para obter cativos foram, para a África negra, bem mais devastadores que o tráfico transatlântico.”


                  Juízo de valor por juízo de valor, alguém poderia repetir compulsivamente o de Jean-Suret Canale.  Afinal, a obra de N'Diaye (ou pelo menos o seu uso) não é menos propagandística do que O livro negro do capitalismo: 

Nenhum investigador, nos nossos dias, procura minimizar a extensão da catástrofe que foi para a África o seu encontro com o capitalismo balbuciante das metrópoles da Europa que só conseguiu atingir a maturidade graças aos extraordinários lucros gerados pela invasão de um continente- a América- e proporcionados por populações arrancadas a um outro, a África.  Em números redondos, dez milhões de deportados africanos atingiram o Novo Mundo entre 1510 e 1860.  Mais de dois milhões pereceram durante a travessia.  Oito milhões desapareceram entre o local da sua captura na África e os entrepostos costeiros, onde os sobreviventes destes ataques foram embarcados.  Chegamos, pois, a um mínimo de vinte milhões de pessoas retiradas da população africana.
(Jean-Suret Canale.  As origens do capitalismo (séculos XV a XIX).  In: O livro negro do capitalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000, pp. 50/51) 
Apesar dos historiadores tendenciosos que atribuem ao feudalismo africano a iniciativa do tráfico, ou acusam os reis árabes de o terem perpetuado, apesar dos bajuladores do liberalismo que se recusam a contabilizar os lucros da economia servil e associá-los ao salvamento e depois ao crescimento das economias europeias, é preciso dizê-lo e não ter medo de repetir: um conjunto de fatos incontestáveis mostra que o capitalismo nascente não sangrou apenas os povos da Europa (este cálculo pode ser feito por outra via).  Ele baseou sua expansão sobre um ossário humano como a História, apesar de já sangrenta, jamais tinha visto: vinte milhões de ameríndios exterminados em três séculos e doze milhões de africanos mortos de empreitada no mesmo período.
(Canale, pp. 57/58) 

                    Para encerrar, retorno ao tema das comparações morais temerárias, quando tanto muçulmanos quanto europeus podem se acusar reciprocamente de atos da mais pura barbárie, dentro e fora da África.  Dentro dela, podemos observar alguns episódios ligados à instalação dos portugueses em Moçambique:   

A água, péssima, barrenta e turva, que [os portugueses] bebiam em Sena, estava possivelmente contaminada.  Além disso, pareciam não ter fim, à beira-rio, os mosquitos e as moscas, entre as quais a tsé-tsé.  Mas os padres jesuítas puseram a culpa nos muçulmanos que lá mercadejavam e viviam.  Acusados de por veneno nas cacimbas e nos pastos, sobre eles se desatou a raiva portuguesa.  Barreto mandou capturar todos os mouros, que foram mortos "com estranhas invenções"- repito as palavras do padre Monclaro-, uns empalados, outros despedaçados na boca das bombardas, "outros abertos pelas costas com machados", "outros entregues aos soldados que se desenfadavam neles às arcabuzadas.  Foi grande o lucro da matança: fora os panos, a contaria e as peças de ferro e cobre, a soldadesca arrancou dos depósitos dos islamitas muito ouro, do qual lhe coube a maior parte, ficando a Coroa com 15 mil miticais (cerca de 64 kg), mais do dobro, portanto, do que o feitor régio de Sofala conseguira adquirir em menos de oito meses, em 1513.  De um só desses comerciantes, tido por muito rico, levaram-se mais de 500 escravos.   
(A manilha e o libambo, pp. 629/630)

                               
           Por milhares de mentiras e distorções como as que estão sendo apresentadas, Olavo de Carvalho já foi definido como o Walter Mercado da política.  Depois teremos mais.



sábado, 30 de junho de 2012

O apartheid e suas articulações com o sistema capitalista


       Há dezoito anos, em abril de 1994, Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul.  Entretanto, quando se fala naquele país, muitos, talvez a maioria, ainda se recordam imediatamente do regime segregacionista denominado apartheid.  Também habitualmente, o racismo dos sucessivos governos da minoria branca é relacionado à herança colonial holandesa e inglesa, partindo-se do princípio de que os povos do norte da Europa, em regra protestantes de raízes germânicas, seriam menos tolerantes do que os latinos no trato com as "populações de cor". 
    Constituiria um equívoco, sem dúvida, subestimar o peso, no que se refere à formação do apartheid, da doutrinação racista imposta às comunidades de origem europeia desde os primórdios da colonização.  Ensinados na infância a crer no mito camítico, segundo o qual os negros descendem de Cam, filho amaldiçoado de Noé, os afrikaners, majoritários entre os brancos sul-africanos, consideravam justo o estabelecimento de um domínio político absoluto sobre seus antecessores na região do Cabo da Boa Esperança, fossem eles bantos ou hotentotes, bem como os sistemas de trabalho compulsório.  O próprio Daniel François Malan (1874-1959), governante que instituiu oficialmente o apartheid em 1948, foi pastor da Igreja Reformada Holandesa, difusora da ideia da inferioridade dos negros.   
       Todavia, quando se faz a justa e necessária condenação da segregação racial, frequentemente é deixado de lado o fato de que, sob a ideologia do apartheid, funcionava uma economia capitalista tida como moderna sob diversos aspectos.  Mais esquecidas ainda são as evidências de que tanto as primeiras leis segregacionistas, datadas do início do século XX, quanto as vastas expropriações territoriais impostas aos negros no século XIX, decorreram das conveniências do capitalismo que se consolidava na África do Sul.
            Elikia M'Bokolo esclarece que a expulsão dos negros das áreas que tradicionalmente ocupavam, promovida pelos afrikaners, descendentes de holandeses, atendia às necessidades do capitalismo agrário implantado pelos últimos.  Os negros desprovidos de terras, por sua vez, não raro se viam obrigados, para sobreviver, a trabalhar nas minas e nas indústrias controladas pelos britânicos.  Sua presença nas fábricas  servia como fator de controle ideológico sobre os operários brancos.      
                 

M'Bokolo 543/544

               A atuação de Cecil Rhodes (1853-1902), uma das figuras mais emblemáticas do imperialismo europeu do século XIX, demonstra que a expansão capitalista poderia conviver, sem problemas, com práticas típicas do escravismo, como os castigos físicos aplicados contra os trabalhadores.  Marc Ferro esclarece que Rhodes, ao se apoderar pela força de grandes extensões de terra, se preocupava em construir mecanismos destinados a assegurar o fornecimento de mão de obra barata para as minas sob domínio inglês.   


Ferro 107/108

             Meio século mais tarde, a sólida burguesia sul-africana continuava a dispor, sem conflitos ideológicos, de operários constrangidos a aceitar salários mais baixos segundo uma classificação de matriz étnica. 

Lopes 50/51

             Além da conivência dos capitalistas locais, o apartheid se beneficiou igualmente do apoio logístico de empresas multinacionais e, sobretudo, da tolerância dos países da OTAN, interessados na manutenção de um forte poder anticomunista na África Austral.


Arzalier 285/286

         É importante notar que somente após a instauração, na União Soviética, das diretrizes da glasnost, que reduziram as tensões decorrentes da Guerra Fria, as multinacionais instaladas na África do Sul  começaram a protestar contra as normas do regime que prejudicavam os seus negócios. 


Lopes 53/54
           
         Também vale nos lembrarmos de que a derrota das armas sul-africanas diante das tropas cubanas sediadas em Angola foi um fator de alta relevância na erosão do apartheid.  A África do Sul deixava de ser o bastião invencível do capitalismo regional, capaz de intimidar facilmente os governos marxistas estabelecidos em sua periferia.            
      

Gott 313

              Como os demais derivados do nazifascismo, para além das questões "raciais" o apartheid sustentou interesses de classe.  Burgueses, essencialmente. 

Referências:

ARZALIER, Francis.  A África das independências e o "comunismo".  In: O livro negro do capitalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000.
FERRO, Marc.  História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
GOTT, Richard.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
LOPES, Marta Maria.  Apartheid: a ideologia do apartheid, as lideranças negras, as perspectivas da África do Sul.  São Paulo: Atual, 1990.  
M'BOKOLO, Elikia.  As práticas do apartheid.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Devassando o imperialismo

"Nós cremos que há raças, decadentes ou atrasadas, como se queira, em relação às quais perfilhamos o dever de chamá-las à civilização".

(António de Oliveira Salazar (1889-1970), ditador português, em entrevista ao jornal francês Le Figaro no ano de 1960- citado em Luís Reis Torgal. O Estado Novo, salazarismo, fascismo e Europa. In: História de Portugal/org. José Tengarrinha. Bauru: Edusc; São Paulo: UNESP; Portugal: Instituto Camões, 2001, p. 402)

              A citação que abre esta matéria é um eco bastante tardio do apelo ao ideal civilizatório como justificativa para o imperialismo, que acompanhou, especialmente, o expansionismo europeu nos continentes africano e asiático na segunda metade do século XIX.
              Os colonialistas britânicos, em particular, difundiram a noção do "fardo do homem branco", cuja dominação sobre os povos ultramarinos implicaria na missão de encaminhá-los na direção de uma cultura superior.  Este processo "educativo", no entanto, não presumia uma integração plena à sociedade dos colonizadores.  Mesmo progredindo através do contato com a ciência e a técnica da Europa, os colonizados permaneceriam à distância, em posição de subalternidade.  Compartilhavam desta visão, em geral, os formadores de opinião nos demais países que possuíram colônias, ainda que, no caso francês, a fidelidade ao pensamento republicano tenha impedido certos homens de exprimir em público sua crença na inferioridade das populações nativas¹. 
                 As alegadas boas intenções não se sustentam após uma breve investigação focada nas regiões em que a expansão encontrou resistência militar.  Uma geração após a invasão da Argélia, percebe-se que a minoria francesa tinha se apossado do controle da economia, ocupando as melhores áreas de cultivo e as principais cidades.  Enquanto isso, os árabes e berberes nativos do país, submetidos a pesadas baixas pela guerra de conquista e por epidemias, eram também as principais vítimas das eventuais quebras de safra. Seu número havia diminuído entre as décadas de 1830 e 1860².         



             O estabelecimento do controle holandês sobre as ilhas que hoje compõem a Indonésia foi, igualmente, um processo caracterizado por extrema brutalidade.  Somente na região de Atjeh (Aceh segundo a grafia moderna), combates que se estenderam até o início do século XX resultaram em cerca de oitenta mil mortes, em sua esmagadora maioria entre os habitantes de Sumatra.  Em outras áreas da ilha, que resistiram aos invasores até 1907, ocorreram massacres indiscriminados de civis, nos quais a atuação dos militares holandeses faz lembrar a postura dos torturadores americanos da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, quase cem anos mais tarde³.





                   No imenso Congo, transformado no final do século XIX em propriedade do rei da Bélgica Leopoldo II, nem a instalação de missões religiosas impediu que a mão de obra local fosse submetida a regimes de trabalho análogos à escravidão.  Os congoleses, obrigados a pagar impostos à metrópole, sofriam também confisco de terras.  Quando a situação se tornou conhecida na Europa, o Parlamento belga se viu na contingência de "estatizar" a colônia, apesar da ira do monarca escravagista4.   



             Os territórios que atualmente formam a Namíbia, por sua vez, sentiram o impacto do imperialismo na primeira década do século XX.  Os alemães virtualmente dizimaram a população local, primeiro se valendo dos hotentotes (nama) para ajudá-los a chacinar os bantos (herero), depois movendo uma campanha de extermínio contra os próprios hotentotes5.     


            Na África do Sul, os ingleses, depois de esmagar a decidida resistência zulu, generalizaram seu domínio na virada do XIX.  A guerra contra os bôeres, descendentes de holandeses que praticamente mobilizaram todos os homens válidos para a luta, levou os prepostos da Coroa britânica a construir campos de concentração, nos quais morreram mais de 40 mil pessoas, entre bôeres e negros6.     


[continua]
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1 Cf. Marc Ferro.  História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII ao XX.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 39.  
2 Cf. Albert Hourani.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 276. 
3 Ver Thomas Beaufils.  O colonialismo nas Índias holandesas.  In: O livro negro do colonialismo/org. Marc Ferro.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 283/284. 
4 Ver João Carlos Rodrigues.  Pequena história da África Negra.   São Paulo: Globo; Brasília: Secretaria de Cultura da Presidência da República: Biblioteca Nacional, 1990, p. 163. 
5 Idem, p. 175. 
6 Ver H. L. Wesseling.  Dividir para dominar: a partilha da África (1880-1914).  Rio de Janeiro: UFRJ; Revan, 2008, p. 358.