Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os Tupacs



"O sistema da mita para as minas, manufaturas e obras públicas e as condições de trabalho dizimaram a população da colônia.  De cada cinco mitayos apenas um sobrevivia a esse serviço.  Crespo nos diz que ao trabalho das minas iam, em média, quarenta mil índios por ano.  Desses, não regressava senão a quinta parte.  Assim, a mita, em 250 anos, causou a perda de oito milhões de índios que pereceram vítimas do trabalho e da intempérie¹".   


            Durante o período da colonização espanhola, as populações indígenas andinas foram continuamente oprimidas pela mita, um sistema de trabalhos forçados que se organizou a partir de diversos decretos de Francisco de Toledo (1515-1582), vice-rei do Peru.  A mita consistia na obrigação, imposta a um sétimo dos índios adultos de cada vez, de cumprir ao longo de dez meses as tarefas determinadas pelo governo colonial.  Os índios mitayos deveriam receber um salário, que na época da criação do sistema equivalia a algo entre a metade e um terço do que cabia a um trabalhador livre.  Entretanto, a quantia já ínfima não teve reajustes nas gestões dos sucessores de Toledo, de maneira que seu poder aquisitivo desmoronou de vez². 
          Não havia legislação sobre jornada de trabalho nas minas dos Andes, o que permitia ao dono de cada uma delas explorar ao extremo a mão de obra ofertada pelas autoridades. Depois de passar a semana toda no local de trabalho, o mitayo podia, na maioria dos casos, sair somente aos domingos.  Mesmo dispondo apenas do salário miserável, era forçado a pagar tributos e comprar suas próprias ferramentas, o que resultava, inevitavelmente, em dívidas que impediam seu afastamento da mina.  Estas condições contribuíam para que sua expectativa de vida diminuísse ainda mais³.     
           Além da mita, os índios também estiveram sujeitos à encomienda indiana, regime pelo qual um proprietário de origem espanhola, intitulado encomendero, era encarregado pela Coroa da administração de uma certa quantidade de nativos "tributários", os quais se viam obrigados a lhe prestar serviços na mineração, na agricultura ou artesanato. Em contrapartida, o encomendero ficava responsável pela conversão de seus dependentes ao Catolicismo, o que favorecia a submissão dos conquistados 4, beneficiando diretamente a metrópole.
          Por volta de 1780, o vice-rei instalado em Lima governava o Peru e o norte do Chile, enquanto o território que na contemporaneidade forma a Bolívia estava subordinado ao vice-reinado do Prata, cuja capital era Buenos Aires. Existia em Chuquisaca (hoje Sucre) uma Audiência (Corte Suprema), denominada Audiência de Charcas, com autoridade para fiscalizar a atuação do vice-rei e, em caso de graves divergências, recorrer ao Conselho das Índias, sediado em Madri 5.  
      Os vice-reinados hispano-americanos se dividiam em províncias ou corregedorias, geridas por corregedores que compravam da Coroa sua nomeação para o cargo.  Como, nos termos de Marcelo Grondin, "queriam recuperar todos os gastos e acumular uma fortuna", inevitavelmente cometiam enormes abusos contra as populações administradas, fato que desembocou nas rebeliões iniciadas em 1780 [6]. 
           Durante a década de 1770, o peruano José Gabriel Condorcanqui manteve contatos com lideranças indígenas de várias partes dos Andes, tendo em perspectiva uma insurreição geral. Condorcanqui era, a princípio, um mestiço excepcionalmente bem colocado na sociedade colonial.  Detinha o cargo de cacique dos índios da localidade de Tinta, na província de Cuzco, posição que lhe permitia influir na política local, apoiando o bispo Moscoso em suas rusgas com o corregedor Arriaga. Entretanto, se tornaria célebre ao abandonar a face pública de "zeloso súdito de Carlos III" para assumir a identidade de Tupac Amaru II. O nome reverenciava um remoto ancestral, que conduziu entre 1570 e 1572 a última resistência dos incas contra a conquista espanhola. Tupac Amaru II coordenou um levante que, apesar de certa dificuldade de encontrar adeptos entre os criollos (brancos nascidos na América) e mesmo entre as castas (mestiços), entusiasmou um imenso séquito indígena 7.   
       Quando o cacique Tomás Katari, da província de Chayanta (atualmente em solo boliviano), iniciou uma revolta em 26 de agosto de 1780, Tupac Amaru foi forçado a adiantar seus planos. A 4 de novembro, se declarou em armas, inflamando povos distribuídos por um território que se estendia desde Cuzco, no Peru, até o norte da Argentina, e, na direção oposta, até o Equador 8. Os espanhóis conseguiram derrotá-lo e prendê-lo em abril de 1781, o que não significou, em absoluto, a retomada imediata do controle sobre os Andes. Em Puno, às margens do Lago Titicaca, a resistência se prolongou por todo aquele ano, ocorrendo o mesmo no Alto Peru, nome pelo qual era conhecida a área boliviana 9.                             



                                       Cédula peruana com a efígie de Tupac Amaru


             Ao contrário de Tupac Amaru, o índio aimará Julián Apaza, nascido na localidade de Sullcavi ou Ayo-Ayo, entre La Paz e Oruro, não era de origem nobre.  Citado por alguns como filho natural do sacristão de Ayo-Ayo, desempenhou a mesma função na casa do pároco de Sicasica, sede de sua província natal.  Trabalhou, em seguida, na mina de Oruro, não sendo certo se passou pela condição de mitayo ou se para lá seguiu como peão voluntário.  Mas tomou ciência, desta maneira, do sofrimento de seus companheiros, e, sobrevivendo ao tempo de serviço, voltou a Sicasica, onde foi padeiro e comerciante.  Viajava, então, entre a região dos Yungas e La Paz.  Acumulou numerosas relações em tais deslocamentos, que foram úteis quando decidiu empreender sua própria rebelião.  Após conhecer Tupac Amaru e Tomás Katari, adotou o nome de guerra Tupac Katari, que significa Serpente Soberana 10.





                      Selo boliviano que homenageia Tupac Katari e sua mulher Bartolina Sisa


         Embora seja muito menos conhecido pelo público em geral, e pelos próprios historiadores não especializados no tema, Tupac Katari expôs as autoridades espanholas do altiplano boliviano a perigos bem maiores do que os oferecidos por Tupac Amaru na zona peruana. Dando seu grito de guerra nos primeiros dias de março de 1781, ele assumiu a liderança sobre os índios das províncias de Pacajes, Omasuyos, Larecaja, Chucuito, Carangas e Yungas, que se reuniram e impuseram, em 13 de março, um primeiro cerco à cidade de La Paz, na época habitada por 20 mil pessoas.  O sítio durou 184 dias.  Desprovidos de armas de fogo, os índios usavam fundas para atirar por cima dos muros, em chamas, pedras e bolinhas de lã banhadas em óleo e pólvora.  Os rebeldes chegaram a derrotar em Sicasica, no mês de maio, uma tropa chefiada pelo capitão Ayerza, que pretendia desafogar La Paz.  Tomaram dos espanhóis fuzis e dois canhões, mas não sabiam como manejá-los.  A cidade sitiada estava prestes a cair, vitimada por dentro pela fome e por epidemias, quando um exército colonial de 2.700 soldados, tendo à frente o comandante Flores, venceu Tupac Katari em Sicasica.  As forças indígenas recuaram na direção de La Paz, mas não puderam impedir que os espanhóis rompessem o cerco 11.
           Todavia, muitos dos homens de Flores, cansados de lutar e satisfeitos com os saques que tinham realizado nos arredores da capital, desertaram.  O comandante precisou deixar La Paz para reorganizar seu exército, recrutando novos soldados em Oruro, Chuquisaca e Cochabamba. Disto se valeu Tupac Katari para promover um novo cerco, que se prolongou por 75 dias.  O líder aimará contava agora com reforços trazidos por outro chefe indígena, Andrés Tupac Amaru, que apresentou um plano para a tomada da capital: os atacantes represariam as águas do rio Choqueyapu, que banha a cidade, para depois soltá-las abruptamente, derrubando as fortificações.  Antes, porém, que a represa ficasse pronta, Tupac Katari recebeu a notícia do retorno de Flores, que vinha desta vez com 5 mil homens.  Os índios liberaram às pressas o fluxo das águas do rio, que inundou uma parte de La Paz e destruiu parcialmente suas defesas, mas não a ponto de permitir a entrada do exército rebelde 12.
          O comandante Flores salvou La Paz pela segunda vez em 17 de outubro de 1781.  Tupac Katari se retirou para a região de Peñas, disposto a persistir na luta com os 5 mil guerreiros ainda sob seu comando.  Vendo rejeitadas as ofertas de paz, e sabendo da impossibilidade de vencer por completo a rebelião dos índios em seu próprio meio, as altas montanhas bolivianas, o novo comandante espanhol, Reseguín, resolveu empregar um artifício.  Contratou os serviços de um traidor, Inca Lipe, conhecido como amigo pessoal de Tupac Katari, mas que facilitou sua prisão em uma cilada, a 18 de novembro.  O líder aimará foi executado por esquartejamento no dia seguinte. As autoridades metropolitanas, ao que parece, decidiram exterminar sua família: em 5 de dezembro de 1782 eram condenadas à morte Gregoria Apaza e Bartolina Sisa, respectivamente irmã e esposa de Tupac Katari.  Acredita-se que o filho de dez anos do casal, capturado em abril de 1783, também tenha sido morto 13. 
         A grande insurreição boliviana de 1781 não foi uma explosão desordenada de violência. Havia nela um nítido programa social, que pode ser reconstituído a partir da correspondência de Tupac Katari. Os rebeldes pretendiam estabelecer um governo dirigido por índios, obter a restituição das terras usurpadas pelos colonizadores, expulsar todos os espanhóis natos e instituir a língua aimará como obrigatória.  A Igreja Católica seria reformada, deixando de funcionar como braço auxiliar da opressão colonial para assumir uma posição de defesa das reivindicações indígenas 14. Embora soubessem muito bem o que queriam, Tupac Katari e seus seguidores não chegaram a governar de fato, exceto em uma parte do Alto Peru e por um curto período de tempo.  Assim como Tupac Amaru, não obtiveram sucesso na tentativa de agregar ao movimento todos os potenciais interessados em um virtual processo de independência. Como aponta Julio Cotler,


" (...) em um primeiro momento, Tupac Amaru representou a aglutinação de todos os setores provinciais dominados pelo sistema metropolitano: índios, forasteiros, mestiços e criollos.  Na medida em que a rebelião foi se convertendo em uma revolta popular anticolonial, os criollos e seus aliados foram abandonando-a" 15.


        A revolta aimará enfrentou obstáculos ainda maiores para atrair os segmentos não índios. Segundo o historiador argentino Halperin Donghi, ali houve apenas um episódio de "alianza estable entre elementos de castas distintas", quando mineiros criollos de Oruro, que passavam por dificuldades econômicas, iniciaram seu próprio levante contra os espanhóis. Além de recrutar nativos para a causa, passaram a adotar trajes indígenas em seu cotidiano 16. 
           Mais de duzentos anos após a morte dos dois Tupacs, exatamente em 22 de janeiro de 2006, o aimará Evo Morales chegou à Presidência da Bolívia, onde se mantém até hoje.  Seu partido, o MAS (Movimento para o Socialismo), tomou La Paz pelo voto e derrotou, com apoio popular, diversas tentativas de desestabilização política, incluindo iniciativas espúrias de separatismo.  No segundo mandato de Morales, para ódio e desespero das oligarquias e de seus adeptos elitistas e racistas, a Bolívia se transformou em República Plurinacional, concedendo às dezenas de etnias que formam a maioria indígena do país uma boa dose de autonomia interna, além da valorização efetiva de suas culturas.
           Como todos os regimes políticos fatalmente se desgastam, não é impossível que daqui a cinco ou dez anos a direita boliviana ganhe uma eleição e ponha na cadeira de Evo Morales um Aécio Neves, um Mauricio Macri, ou coisa ainda pior.  Mas é certo que as regras do jogo mudaram para sempre: o socialismo deixou de ser palavrão, as organizações populares avançaram em todas as direções, e a hierarquia étnica herdada da colonização e das administrações neocoloniais foi esgarçada de maneira a não poder mais se recompor, a não ser, talvez, com o emprego de violência letal em escala hitleriana. 
         Julgo que não me arrisco demais ao afirmar que o mesmo processo, em proporções variadas e, é claro, com muitas peculiaridades locais, já avançou significativamente em países como Equador, Nicarágua e El Salvador.  É bem possível que o sucessor do venezuelano Nicolás Maduro Moros seja um tecnocrata de Harvard ou um emergente de discurso neoliberal afiado, mas muito pouco provável que o operariado chavista e as populações de baixa renda beneficiadas pelos programas sociais do governo central aceitem retornar às posições que ocupavam na década de 1990.  Mesmo no aparentemente tranquilo Uruguai, o eleitorado não dá mostras de que pretende voltar à antiga polarização entre conservadores agrários e conservadores representantes do grande comércio e das finanças.  Talvez ainda nos deparemos, na próxima década, com a revista-panfleto do grupo Naspers saudando inesperadas glórias do capitalismo em Cuba; não creio, contudo, que os dirigentes anticastristas de Miami sejam carregados nas ruas de Havana como salvadores da pátria, ou que os filhos das classes trabalhadoras desistam de frequentar os bancos universitários em prol de uma nova burguesia, ou dos rebentos tardios da velha.   
          A direita latino-americana vibra, sem dúvida, com a queda do kirchnerismo e do governo Dilma, com a resignação de Maduro ao modesto propósito de se manter no posto até o final do mandato.  Até sinto uma espécie de alívio, nesta conjuntura, por não estar alistado entre os "historiadores do tempo presente".  Seria obrigado a tentar localizar, com enorme chance de erro, os protagonistas da vasta coalizão internacional que faz de tudo para instituir, em todo o continente, uma espécie de "Restauração", bem como seus métodos.  Confesso que, até agora, consigo ver apenas alguns de seus capatazes, além, é óbvio, de uma legião de bobos da corte que tentam se exibir como figuras de proa.  Figuro, assim, nas fileiras de uma tal "esquerda perplexa", conforme tem dito o "cristão novo" do neoliberalismo Cristovam Buarque.
        Ironias à parte, porém, no longo prazo "eles" tendem a perder.  Cada milímetro de desgaste que os milhões de pequenos e grandes Tupacs, notáveis ou anônimos, provocam no paredão do status quo ao longo dos anos, décadas e séculos, é um resultado que em geral se consolida e amplia.  Não por intervenção miraculosa do Santo Ernesto Guevara ou do Santo Antônio da Sardenha, mas por um motivo bem evidente: o conservadorismo só sobrevive, em qualquer latitude, com a ingestão de doses generosas de comodismo intelectual, de recusa à investigação profunda dos fenômenos, com a propagação intencional de um temor infantil da perda de referências sociais, mesmo que estas sejam as piores possíveis. 
          Cada indivíduo ou organização que questiona a subalternidade e a opressão dos pobres, das mulheres, dos homossexuais, dos negros, dos índios, do operariado ou do campesinato nas sociedades latino-americanas, ou que se insurge, seja de maneira hábil ou desastrada, contra as ordens oligárquicas, dá sua contribuição, maior ou menor, para o formidável tombo que a direita continental ainda há de levar de um Salto Ángel [17].  Espero presenciar o grandioso evento, que por si só constituiria razão para chegar à idade de um Oscar Niemeyer.                 


.Dedico este texto a meu amigo Alexandre Soares, biólogo que cada vez mais vem se interessando por antigos entreveros.                             
  

Notas:

1-Marcelo Grondin.  A rebelião camponesa na Bolívia.  São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 39-40.
2- Cf. Julio Cotler.  Peru; Classes, Estado e Nação.  Brasília: Funag, 2006, p. 24.
3- Cf. Grondin.  Op. cit., p. 37-38.
4- Ver Cotler.  Op. cit., p. 23.
5- Grondin.  Op. cit., p. 43-44.
6- Idem, p. 45-46
7- Ver Tulio Halperin Donghi.  Historia de América Latina, 3 (Reforma y disolución de los imperios ibéricos, 1750-1850).  Madrid, Alianza Editorial, 1985, p. 66-68.
8- Ver Grondin, p. 74.
9- Donghi, p. 69.
10- Grondin, 66-67.
11- Idem, 76-78.
12- Ibidem, p. 78-79.
13- Ibidem, p. 79-80.
14- Ibidem, p. 70-73.
15- Cotler, p. 49.
16- Donghi. p. 69.
17- Catarata mais alta do mundo,situada no estado de Bolívar, na Venezuela.




sexta-feira, 20 de maio de 2016

El Zorro: uma leitura coxinha



        Retornei ontem, enquanto era obrigado a esperar pela assistência técnica da Oi, ao meu arquivo morto de Maricá, que cada vez mais mostra o quanto está vivo.  Aliás, na semana passada fiquei sabendo pelo amigo Jorge Dias, arquivista do Museu Nacional, que a expressão "arquivo morto" é uma impropriedade.  Devemos dizer arquivo permanente!
         Resgatei das velhas estantes El Zorro, em versão paradidática da Editora Scipione para alunos de curso de espanhol.  Não me lembro a razão da compra, visto que jamais fiz matrícula em qualquer curso de espanhol.  Mas continua lá, em excelente estado, apesar da impressão datada de 2000.  Vários dos diálogos do livreto me recordaram as sátiras virtuais que mostram Cristo, depois de emitir algumas de suas mais célebres máximas, sendo atacado pelos ouvintes com falas do tipo "subversivo, vai pra Cuba!" ou "não adianta dar o peixe, tem que ensinar o pobre a pescar".
      Imaginei então como poderia ser a leitura simultânea e comentada de El Zorro por dois conservadores irados, um deles mais velho, com seus sessenta e cinco anos talvez, a quem dei o nome de Canrobert da Matta e Motta, o outro bem mais novo, um discípulo trintão chamado Leandro Fiúza. Pensei de início em produzir uma sequência de memes, mas isto me prenderia por muitas horas no Photoshop.  Assim, decidi apenas escanear parte de treze páginas, contrapondo a cada trecho os "comentários" da dupla coxinha.   
         Adaptações inspiradas, talvez eu nem precise dizer, são bem-vindas.         







Canrobert da Matta e Motta- Eu te digo outra vez que quem rouba é sempre bandido, não importa de quem roube!  Esse papo de justiça social é coisa de invejoso e preguiçoso! 

Leandro Fiúza- Também acho: o pior tipo de ladrão é esse, que não rouba pra si mesmo, pra trocar de carro, pra mandar a filha pra Disney, pra comprar tênis, que seja, mas pro Foro de São Paulo!





LF- Essa história da esquerda de dar terra pra índio, quilombola e sem-terra desgraça cada vez mais a vida de quem só quer produzir! 

CMM- E tem sempre uns padrecos vermelhos junto!  Por isso que de uns tempos pra cá o Malafaia é meu segundo ídolo, abaixo só do capitão Bolsonaro!




CMM- Tá vendo? O Don Diego é mais um desses caras da esquerda caviar, como já dizia aquele garoto que a Veja mandou embora, acho que se chama Rodolfo Constantino.

LF- O safado deve tomar só vinho caro, comer escargot e tirar férias em Paris, no meio das sedas e dos frufrus, enquanto diz que defende os miseráveis!  O único Diogo bom é o Mainardi, que não aguentou o avanço da comunização e saltou fora do Brasil!





LF- Os comunas não respeitam nada, pra mim quem ataca um homem de farda no exercício da função tem que sofrer a pena de morte na mesma semana!

CMM- Note que são três as coisas que eles mais odeiam: a Família, a Igreja e as Forças Armadas!  Senta a borracha nele, González!







CMM- Veja só: é por isso que a esquerda quer o desarmamento, desde a época do psicopata carequinha, o Vladimir Lênin!

LF- Exatamente: o cidadão de bem sem sua arma de fogo fica à mercê da bandidagem!  O delinquente que mata e estupra como quem pega Coca-Cola na geladeira deita e rola!







LF- O tempo todo eles atacam a família, o casamento tradicional!  O cara vai casar só pra poder herdar o dinheiro do pai e entregar pra subversão continental!

CMM- Enquanto isso, vão incentivando a tal da ideologia de gênero, o casamento gay e outras aberrações!  Daqui a pouco só vai ter chinês, hindu, africano e turco nesse mundo, pois ninguém mais quer ter filho do lado de cá!



LF- Novelinha sem vergonha de comunista que exalta a criminalidade, ao invés do trabalho! A mocinha esquerdista de família rica apaixonada pelo marginal!  O nome disso é Síndrome de Estocolmo.

CMM- É rapaz, o Avancini e o Dias Gomes foram pro colo do capeta, porém deixaram os secretários! Mas foi por isso que o México perdeu aquelas terras todas pros americanos.  Enquanto os governantes mexicanos deixavam os bandoleiros soltos, fazendo o que queriam, os americanos eram sérios, mandavam essa ralé toda pra forca!





LF- Comuna não respeita mesmo nada! Chutar a bunda de um jovem oficial!  Tem mais é que morrer!

CMM- Eles sabem, em todos os países, que o Exército é a reserva moral da Nação, que guarda os verdadeiros valores da Pátria, então ficam cheios de ódio, querem destruir e desmoralizar a qualquer custo!








CMM- Quem sabia da vida desses defensores de bandido de batina era o Nelson Rodrigues, que há sessenta anos atrás já descia a lenha nos padres de passeata brasileiros, que eram ainda mais vermelhos do que esse frei.

LF- Isso, e enquanto a Teologia da Libertação ajuda transformar o país numa Cuba gigante a Igreja Católica vai perdendo milhões de fiéis e as catedrais viram museus! 






CMM- Que maneira peculiar é essa?  O Don Diego é uma bichona, um queima rosca, faz meinha com o criado índio que não pode contar os podres dele depois!

LF- É por isso que ele acha o casamento “aburrido”!  A não ser o casamento entre pessoas do mesmo sexo!!!





CMM- Era assim que faziam o Che Guevara, o Lamarca e o Marighella: justiça sumária contra as pessoas distintas!  A alma de um comuna é sempre assassina!

LF- Onde os comunas tomam o poder todo homem de bem está praticamente condenado ao Gulag ou ao paredón!  Depois da matança e do açoite, eles botam qualquer um pra ser juiz, reitor de universidade, diretor de hospital! Isso quando não botam motorista de ônibus e torneiro mecânico na presidência da República!  






LF- É por essas e outras que eu digo que a esquerdalha é hipócrita.  Eles sempre se lembram da meia dúzia de terroristas que o Brilhante Ustra e o Fleury esfolaram, o que foi muito pouco...

CMM- É o que eu falo! Mas sempre se esquecem dos bons cidadãos que os amiguinhos deles executaram a sangue frio, até em fila de banco!  Se eles fizessem a revolução matavam setenta milhões de brasileiros, igualzinho à União Soviética do Stalin!




CMM- Rapaz, o governador fingia que era do lado da ordem, mas soltou o bandido e confraterniza com ele na mansão!

LF- Mais um bolivariano de bosta, e foi desse jeito que uns vinte países da América Latrina caíram nas garras do comunismo!  Isso enquanto os Estados Unidos continuam com aquele muçulmano comunista na Casa Branca, o senador mais à esquerda que o Congresso de lá já teve, um cara que nem nasceu no país!       

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Santo Domingo, 1965: crônica sobre uma derrota honrosa


         Estive a passeio, de 25 de dezembro a 1 de janeiro, na República Dominicana, nação de pequenas dimensões (pouco mais de 48 mil km², ligeiramente maior do que o estado do Espírito Santo), que divide o espaço territorial da ilha de São Domingos com o Haiti.  País de gente bastante hospitaleira, dotado de um patrimônio histórico único, resultante do fato de ter sido a primeira região das Américas a cair sob domínio europeu.  Fiquei hospedado na Zona Colonial de Santo Domingo, um bairro turístico no qual podemos visitar e fotografar, ao longo de poucas horas de caminhada, dezenas de construções, em regra bem cuidadas, erguidas no século XVI. São fortificações, igrejas, casas de antigos nobres e das autoridades metropolitanas, por vezes transformadas em hotéis que conservam muito das características originais.
        Esperava encontrar uma terra castigada por cinco séculos de economia de plantation. Felizmente, estava enganado por completo: ao cruzar as estradas dominicanas em várias direções, observei uma natureza exuberante, bosques por toda parte, parques nacionais exibidos com orgulho pelos taxistas e guias turísticos.  Há muito tempo a renda do turismo e as remessas de dinheiro feitas pelos dominicanos que vivem no exterior superam as divisas geradas pela produção de charutos e de derivados da cana. Não realizei, contudo, o desejo relativamente simples de comprar sementes de plantas típicas do Caribe e levá-las para meu quintal de Maricá (RJ). Pelo contrário: ali predominam as mesmas árvores que vejo aos milhares na Região dos Lagos fluminense, como mangueiras, cajazeiras e amendoeiras, estas últimas com a denominação local de almendras de la playa.  Para beber suco de acerola, é preciso pedir cereza, e o maracujá costuma atender por chinola, mas julguei tais particularidades insuficientes para colocar em prática uma operação de "contrabando". 
       A população, em sua maior parte, é visivelmente pobre e suporta graves problemas de infraestrutura; nos locais afastados dos circuitos turísticos, tive a sensação de andar pelos bairros da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense mais abandonados pelo poder público.  A música nacional desfruta de um prestígio admirável: das casas e lojas, os CDs de salsa, merengue e bachata promovem uma ambientação ininterrupta dos visitantes aos sons caribenhos. Pelas ruas de Santo Domingo, ouve-se de alguns carros tunados funk no volume máximo; mesmo assim, canta-se em espanhol, e as temáticas são locais. 
            O dominicano típico, em sua aparência física, é indistinguível do brasileiro, e do carioca em especial. Declarei com sinceridade ao taxista Ramón, e a outras pessoas que me prestaram bons serviços, que "no me siento extranjero en tu país".  Ouvi também, mais de uma vez, que somente o acento portugués denuncia aos dominicanos a presença de um brasileiro. Um sorveteiro chegou a me perguntar se minha mulher, que estava a uns quinze metros de distância, era sua patrícia.
             Diversões à parte, o historiador participou da viagem.  Visitei, perto da virada do ano, a Fortaleza Ozama, imponente castelo espanhol que o tirano Rafael Leónidas Trujillo Molina (1891-1961) utilizou como cárcere de presos políticos e criminosos comuns.  Ainda se mantém a haste metálica em que os torturadores trujillistas, como se fossem agentes da Inquisição ressuscitados, encaixavam o garrote vil empregado para estrangular suas vítimas.  Hoje ela sustenta apenas uma bandeira nacional. 

  

Fortaleza Ozama


         Um veterano guia, Antonio Mejías, narrava com segurança e muitos detalhes histórias relacionadas a cada cômodo da fortaleza.  Ao término da exposição, confidenciei a ele que apenas uma coisa não havia me agradado em Santo Domingo: a virtual ausência de livrarias e bancas de jornal, que me impedira, até aquele momento, de investigar a História dominicana. Mejías, então, afirmou que eu estava no lugar certo, e me convidou a comparecer à recepção, onde guardava meio escondidas diversas publicações, cobrindo temas que se estendiam desde as eras pré-colombianas até a contemporaneidade.  Tudo era muito interessante, mas como as verbas reservadas para a excursão já se aproximavam do fim, optei por um livro editado em 2009: La guerra de locutores, de José Antonio Núñez Fernández. 



       Não é uma obra acadêmica.  O octogenário Núñez, nascido em 1928 e retratado em primeiro plano na capa, se destacou entre dezenas de locutores das rádios dominicanas, principal instrumento de formação de opinião no país, que conclamaram a população civil e os militares nacionalistas à resistência contra a invasão ordenada por Lyndon Johnson em 1965. Entre numerosas experiências pessoais, ele se reporta a elementos de um contexto histórico que não é de todo estranho aos nossos manuais de Ensino Médio, onde por vezes figura brevemente como ilustração do período da Guerra Fria. 
         As eleições que se seguiram à morte do ditador Trujillo foram vencidas pelo intelectual reformista Juan Bosch, cuja posse na presidência, em 27 de fevereiro de 1963, contou com a presença do próprio Lyndon Johnson, vice de John Kennedy.  Classificado pela CIA como aliado dos Estados Unidos, Bosch tomou, porém, iniciativas que desagradaram trujillistas e representantes das multinacionais: nacionalizou terras da família Trujillo (nas quais promoveu assentamentos de camponeses), estatizou parte dos lucros da produção açucareira, cancelou um contrato com a Standard Oil e tentou combater a corrupção existente nas Forças Armadas. 
       Antes de completar sete meses de governo, precisamente em 25 de setembro de 1963, Juan Bosch foi derrubado por um golpe de Estado a que Núñez se refere depreciativamente como Madrugonazo, empreendido por oficiais militares que contavam com o apoio das forças políticas derrotadas no pleito do ano anterior e de algumas empresas norte-americanas.  O Triunvirato golpista (outra expressão do autor), entretanto, não conseguiu se legitimar no poder, e sua crescente impopularidade desembocou, no mês de abril de 1965, em uma Revolução cuja proposta era promover a volta de Bosch, a quem caberia concluir o mandato obtido nas urnas. Os autoproclamados constitucionalistas bateram o Exército regular em três dias. Logo em seguida, após convocação extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), 42 mil soldados, em sua maioria infantes da Marinha dos Estados Unidos, mas também brasileiros, hondurenhos e paraguaios, invadiram a República Dominicana e esmagaram o constitucionalismo.    
         Podemos dizer, com margem integral de acerto, que uma ampla maioria dos brasileiros ignora por inteiro a memória deste desastre.  Para grande parte dos demais, os que dele tomaram conhecimento pelos livros didáticos, o processo que desembocou na invasão de 1965 talvez pareça um episódio monótono, parte indiferenciada de um esquema geral:

1- O eleitorado de um país latino-americano conduz à presidência um político de tendências reformistas, acusado demagogicamente por seus inimigos de ser pró-soviético.
2- Militares de direita, estimulados por conspiradores civis, depõem o presidente, com apoio tácito ou aberto do governo norte-americano e dos dirigentes das multinacionais ali instaladas.
3- O povo se submete, em parte por estar habituado ao domínio oligárquico, em parte por saber que os generais conservadores não pouparão sangue na defesa do status quo.
4- As eventuais resistências são sufocadas "no berço", com o auxílio de assessores norte-americanos ou, no limite, com o apelo aos marines.

          Certa vez, um professor de Sociologia afirmou, ao me orientar para uma prova, que "todo esquema é empobrecedor", mesmo que útil em ocasiões específicas. Uma descrição factual da crise dominicana de 1965, ainda que tecnicamente exata, constitui exemplo perfeito desta regra.  Implica, entre outros males, no esquecimento de que muitos dos militares da República Dominicana, ao invés de cumprirem o papel de reprimir seu próprio povo, a ele se juntaram numa resistência cujas chances de sucesso eram inversamente proporcionais à sua coragem. Núñez Fernández cita em trechos do livro um bom número de constitucionalistas fardados, entre eles dois de seus parentes, o coronel Emilio Ludovino Fernández e o tenente-coronel José Mauricio Fernández.  O líder mais destacado do movimento, coronel  Francisco Alberto Caamaño Denó (1932-1973), chegou a ser eleito presidente constitucional pelos revolucionários. Atualmente é reverenciado como herói pelos segmentos populares de seu país e homenageado com uma estátua metálica de mais de três metros de altura na cidade de Santo Domingo.  




                                                                    Caamaño Denó
                

                 
                     
          Não encontraremos, nas fontes tradicionais, qualquer menção à intrepidez dos locutores dominicanos, alguns dos quais chegaram a ser presos pelos golpistas em 24 de abril, tiveram como certo, por algumas horas, que enfrentariam o pelotão de fuzilamento, mas, recuperando a liberdade no dia seguinte, mantiveram seu apoio ativo ao constitucionalismo. A narrativa tradicional oculta a adesão de uma imensa parcela da população, desprovida de qualquer treinamento militar, à luta pela soberania.  Revelá-la, com riqueza de imagens e depoimentos, é o maior mérito da obra de Núñez Fernández.  Mais de quatro mil dominicanos morreram na guerra.  Eu havia caminhado, antes da leitura, por um cenário de intensos tiroteios, a charmosa calle El Conde, sem imaginar por um segundo o que ali acontecera cinquenta anos atrás.  La guerra de locutores, se bem traduzida e disponibilizada ao chamado grande público, seria ótima opção, numa quadra em que Veja, O Globo e veículos menos votados pregam, como solução para as mazelas do Brasil, um salto no colo do Tio Sam.   


  
                                              
                         

sábado, 31 de agosto de 2013

Médicos cubanos: por que, de fato, eles incomodam a direita

     

        A rejeição à presença dos médicos cubanos que estão ingressando no Brasil através do programa Mais Médicos, do governo federal, uniu nas últimas semanas parlamentares de partidos conservadores e diversas entidades de classe, cujas declarações e manifestos desfrutaram de boa repercussão na mídia.  As vulgarizações livres do tema difundidas na Internet, entretanto, alcançam um volume muito maior.  A cada minuto, notícias das mais estapafúrdias são criadas ou distorcidas no sentido de predispor os potenciais usuários e o público em geral contra os cubanos.  Os participantes da campanha, em certos casos, não ocultam sua intenção de criar uma atmosfera de intimidação contra aqueles profissionais. 
         Uma viagem completa por esta gigantesca fábrica de boatos consumiria meses.  Seleciono, então, exemplos das "teses" mais recorrentes, o suficiente para caracterizar a má fé e a irracionalidade de uma direita virtual em grande parte formada por verdadeiros papagaios de pirata do tipo mais ignorante. 
              
1-Os médicos vão receber uma ínfima parcela das verbas pagas pelo governo.

A “importação” dos médicos cubanos é o único caso em que a remuneração de R$ 10 mil não será paga diretamente ao profissional, mas à ditadura, com a intermediação da Organização Panamericana de Saúde. O médico cubano só receberá uma pequena parcela do salário, cerca de 7%.

A simples menção aos locais em que os médicos trabalharão já é suficiente para desqualificar tamanha insanidade.  A suposta remuneração de 7% corresponde, a grosso modo, ao salário mínimo vigente.  Mesmo contando com a moradia gratuita fornecida pelas prefeituras, os cubanos simplesmente não teriam, em povoações onde praticamente tudo é mais caro, como suprir necessidades mínimas de alimentação, vestuário e higiene.




2-Os cubanos não entenderão seus pacientes pelo desconhecimento do português. 
Como será a comunicação entre os médicos cubanos, que não falam Português, com seus pacientes, que em sua imensa maioria não entendem Espanhol?

A apresentação do programa deixa claro que todos os estrangeiros terão aulas da língua nacional.  Certamente, algumas dezenas de horas de estudo não transformarão nenhum deles em candidato à Academia Brasileira de Letras, mas ninguém diria que há barreiras linguísticas intransponíveis entre falantes de português e de espanhol.  É difícil imaginar que diante da instrução de "poner gotas en la nariz" os pacientes pensem que chegou o momento do supositório.  Além disto, os demais profissionais existentes nos hospitais e postos de saúde são brasileiros e poderão facilmente esclarecer os termos mal compreendidos por ambas as partes.

  
3-Os cubanos serão submetidos a trabalho escravo.

A vaia na verdade foi para aquelas pessoas que tiveram a ideia absurda de trazer esses médicos para cá, inclusive com trabalho escravo sem nenhum compromisso a não ser com o compromisso ideológico do partido dos trabalhadores.

Estamos diante de uma baboseira panfletária, contra a qual basta atentar para uma definição básica de trabalho escravo. 

O conceito de trabalho escravo utilizado pela OIT é o seguinte : toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o recíproco nem sempre é verdadeiro. O que diferencia um conceito do outro é a liberdade. Quando falamos de trabalho escravo, falamos de um crime que cerceia a liberdade dos trabalhadores. Essa falta de liberdade se dá por meio de quatro fatores: apreensão de documentos, presença de guardas armados e “gatos” de comportamento ameaçador, por dívidas ilegalmente impostas ou pelas características geográficas do local, que impedem a fuga. 


Todo malabarismo retórico do mundo é insuficiente para caracterizar como escravagista um programa cujas regras de adesão e desligamento são formais e estão expostas à população na Internet. 




4-O dinheiro do programa servirá para sustentar o governo cubano, aliado do PT.

Os cálculos mais extremistas já calculam que esses 6 mil médicos custarão 1,84 bilhão de reais ano para o povo brasileiro. Claramente, a maior parte desse dinheiro não seria dada aos médicos, mas destinada para sustentar o governo cubano.

Segundo as estatísticas disponíveis, Cuba tem pouco mais de 11 milhões de habitantes e um PIB em torno de 60 bilhões de dólares.  Mesmo que os 40 milhões de reais mensais destinados aos 4 mil médicos entrassem diretamente nos cofres do governo da ilha, nem de longe bastariam para salvar um regime que, segundo as versões de tipo macarthista, está moribundo há vinte anos.  Contudo, "articulistas" para os quais "os cálculos calculam" oferecem tais surpresas!     

5-Os médicos não terão o direito de se sindicalizar. 
Os cubanos não têm diploma brasileiro, são pagos pelo governo cubano e virarão uma categoria à parte. Terão direito a se sindicalizar?


Embora a proposição não seja tecnicamente mentirosa, é cretina na melhor das hipóteses, e desonesta na pior.  Não haverá sindicalização porque o programa não gera vínculo empregatício.  Um sindicato de médicos estrangeiros bolsistas faz tanto sentido quanto um sindicato de alunos graduandos de História estagiários em colégios de aplicação das universidades federais.


6-Os cubanos são na verdade espiões a serviço do movimento comunista internacional.

Antes de tudo, os médicos cubanos são agentes de Fidel Castro, espiões a serviço do PT, para implantação do socialismo no Brasil, que é o objetivo final do Foro de São Paulo, criado por Lula e Fidel em 1990.

Os editais do governo, evidentemente, nada dizem sobre a proibição do alistamento de agentes secretos.  Mas só a mente de um escritor de Mídia sem Máscara, como Felix Maier, o autor da pérola, é capaz de conceber que milhares de espiões entrarão no país com seus nomes verdadeiros, tendo paradeiros conhecidos e cumprindo cargas horárias fixas em locais onde todos poderão vê-los e monitorar seus passos, com o agravante de serem estrangeiros, fato que tende a despertar ainda mais a curiosidade de moradores de cidades pequenas.    

           É desnecessário apontar as motivações para a histeria provocada pela chegada de milhares de cubanos ao Brasil entre as numerosas seitas neoconservadoras ou fascistófilas que se multiplicam na Internet. Entretanto, vemos o mesmo estado de espírito se apossar de organizações e indivíduos capazes de cálculo político bem mais fundado na realidade.  
          Possivelmente, algumas pessoas de mentalidade elitista já pensaram mais ou menos nestes termos: "Os cubanos, familiarizados com uma Medicina de caráter preventivo, vão condicionar pobres a sempre lavarem as mãos antes de comer, a não construir poços ao lado de fossas e a tomar outras providências que reduzirão a mortalidade infantil.  Com isto, além de contribuir para a reeleição de Dilma, farão com que um contingente extra de nortistas, nordestinos e sertanejos alcance a idade adulta, aumentando a pressão demográfica sobre a classe média e os ricos dos grandes centros".  
       Não menosprezo o impacto psicológico de ponderações deste gênero, mas julgo que, em particular no caso das entidades médicas que se insurgem, os temores vão muito além.  O sucesso, ainda que localizado, de um programa como o Mais Médicos, pode levantar sérios questionamentos sobre a função da Medicina na sociedade brasileira. Embora, diante dos inúmeros exemplos de compromisso verdadeiro com a saúde pública que encontramos entre os médicos do país, não possamos generalizar, é igualmente certo que muitos jovens ingressam na profissão tendo em vista o enriquecimento rápido, seja pelo atendimento exclusivo a uma clientela de alto poder aquisitivo, seja pelo acesso à propriedade de clínicas e hospitais onde pagarão o mínimo possível aos "colegas" e cobrarão o máximo possível aos planos de saúde, que por sua vez repassarão a conta para os usuários. O estabelecimento de relações não capitalistas no setor, mesmo que limitadas a regiões pobres e pouco povoadas do território, em nada interessa a estes segmentos.  Tudo o que eles não desejam é uma Medicina que, sem fins lucrativos, diminua em grande proporção o número das mortes ditas evitáveis e prolongue a expectativa de vida dos que definitivamente não têm dinheiro para pagar.                            
     




domingo, 17 de março de 2013

Estados Unidos e América Latina: os múltiplos desastres de uma relação desigual


                                                             Augusto César Sandino

Creen [los Estados Unidos] en la necesitad, en el derecho bárbaro, como único derecho: ‘esto será nuestro, porque lo necesitamos’.  Creen en la superioridade incontrastable de ‘la raza anglosajona contra la raza latina’.  Creen en la bajeza de la raza negra que esclavizaron y vejan hoy, y de la india, que exterminan.  Creen que los pueblos de Hispanoamérica están formados, principalmente, de indios e negros.  Mientras no sepan más de Hispanoamérica los Estados Unidos y la respeten más, - como con la explicación incesante, urgente, múltiple, sagaz, de nuestros elementos y recursos, podrían llegar a respetarla, - ¿pueden los Estados Unidos convidar a Hispanoamérica a uma unión sincera y útil para Hispanoamérica? ¿Conviene a Hispanoamérica la unión política y económica com los Estados Unidos?”

José Martí (1853-1895), em artigo de maio de 1891 sobre a Conferência Monetária Internacional ocorrida naquele ano em Nova York. 

         Esta postagem tem relação direta com o texto "Quem são os verdadeiros idiotas latino-americanos" que publiquei em 30 de julho do ano passado.
(http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/2012/07/quem-sao-os-verdadeiros-idiotas-latino.html) 
          Nestes últimos sete meses e meio, não parece ter arrefecido o ânimo dos milhões de liberais e conservadores latino-americanos que sonham com o alinhamento automático, na economia e na política externa, de seus respectivos países com os Estados Unidos, preferencialmente sob as teses do Partido Republicano.  Pelo contrário: muitos deles se mostraram eufóricos com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez Frias (1954-2013); alguns já se arriscam a prever as datas em que desmoronarão os governos de tendência nacionalista ou esquerdista existentes na região.
          Não tenho a pretensão, que seria bastante tola, de fazê-los virar as costas à sua Meca particular.  Apenas trago, para apreciação de um público mais amplo, outros episódios de um relacionamento cujos resultados, em regra, têm prejudicado desde o século XIX a parte que casualmente integramos.          
       
                                                                     (...)

       A Guerra de Secessão norte-americana (1861-1865) repercutiu expressivamente na vizinha Cuba, ainda sob domínio da Espanha.  Cubanos como os irmãos Federico e Adolfo Cavada, engajados  no exército nortista, adquiriram a experiência militar que depois utilizariam na luta pela independência da ilha.  Outro veterano, o americano Henry Reeve, conhecido como "El Inglesito", alcançaria a patente de general entre os rebeldes cubanos, mesmo após perder a força das pernas logo que desembarcou em Cuba, em um choque armado no qual foi baleado por soldados espanhóis.
        Durante a Guerra de Secessão, as autoridades espanholas, que mantinham a escravidão na colônia caribenha, reconheceram os estados escravagistas do Sul como potência beligerante.  Baseando-se nesta circunstância recente, o fazendeiro Carlos Manuel de Céspedes (1819-1874), líder que comandou os autonomistas cubanos no início da Guerra dos Dez Anos (1868-1878), solicitou ao presidente americano Ulysses Grant (1822-1885) que também reconhecesse a beligerância de suas forças.
       O governo dos Estados Unidos não reconheceu a beligerância do exército de Céspedes.  Pelo contrário: vendeu à Espanha canhões e outros armamentos empregados na repressão ao movimento independentista.  Exilados chegaram em grande número a cidades como Tampa, Key West, Baltimore, Nova York e Filadélfia, onde pouco podiam fazer além de sensibilizar a opinião pública norte-americana em favor de Cuba. 
       Na mesma época, ocorreram negociações secretas no sentido de efetivar a venda da ilha aos Estados Unidos pela cifra de cem milhões de dólares.  Um dos possíveis envolvidos era Moses Taylor, fundador do National City Bank de Nova York, cuja fortuna derivava principalmente de seus negócios cubanos.  A descoberta da tramoia causou enorme escândalo em Madrid.  Uma de suas consequências foi o assassinato do general Joan Prim (1814-1870), ex-presidente do Conselho de Ministros de Espanha.     

                                                                       (...)

        A intervenção norte-americana foi um elemento constante na História da Nicarágua.  Logo em 1854, o aventureiro sulista William Walker (1824-1860), chefiando tropas mercenárias, se valeu de uma situação de guerra civil para tomar o poder.  Os nicaraguenses só recuperaram sua autonomia três anos mais tarde.  Após a queda de Walker, presidentes conservadores se sucederam em Manágua até 1893, quando uma revolução liberal levou ao governo o general José Santos Zelaya (1853-1919).
          Zelaya adotou políticas modernizantes e incentivou o desenvolvimento da cafeicultura, mas se afastou politicamente dos Estados Unidos quando, na escolha da área que deveria dar lugar a um canal entre o Atlântico e o Pacífico, seu país foi preterido em prol do Panamá.  Em 1909, tropas norte-americanas desembarcaram na Nicarágua, depuseram Zelaya e devolveram o poder aos conservadores.  Com a eclosão de revoltas contra o presidente conservador Adolfo Díaz (1875-1964), houve uma nova ocupação a partir de 1912.  Em 1914, os Estados Unidos impuseram à Nicarágua o tratado Bryan-Chamorro, pelo qual o primeiro país adquiria o direito perpétuo de construir um canal no segundo. 
           Saindo os marines em 1925, recomeçou a guerra civil; no ano seguinte, voltaram os norte-americanos, desta vez obrigados a enfrentar uma guerrilha popular cujo nome mais importante foi o de Augusto César Sandino (1895-1934).  A potência ocupante organizou e equipou uma Guarda Nacional que, além de promover o assassinato de Sandino e sustentar por mais de quatro décadas a ditadura da família Somoza, participou da derrubada de Jacobo Árbenz (1913-1971) na Guatemala (1954) e das invasões da Baía dos Porcos em Cuba (1961) e da República Dominicana em 1965.
            Em 1977, às vésperas da Revolução Sandinista, 65% dos nicaraguenses eram analfabetos, a expectativa média de vida não passava de 35 anos e a mortalidade infantil atingia o espantoso índice de 200 por mil.            

                                                                       (...)     

        Adoecendo o general Roberto Eduardo Viola (1924-1994) no final de 1981, os grupos militares que lhe eram contrários instalaram na presidência da Argentina o comandante em chefe do Exército, Leopoldo Fortunato Galtieri (1926-2003).  Integrante da linha-dura do regime, Galtieri visitara recentemente os Estados Unidos, sendo bem recebido pelos funcionários do governo Reagan, que buscavam novos aliados para sua política externa então em fase de implementação.  O militar argentino, em troca do aval ao seu projeto de poder, prometeu um alinhamento incondicional com os norte-americanos, inclusive nos conflitos da América Central.   Contribuindo com armamentos e assessores para a guerra suja naquela parte do continente, o governo argentino conseguiu dos republicanos o fim das sanções impostas pela administração Carter diante das sucessivas violações dos direitos humanos na Argentina. 
           No começo de abril de 1982, forças argentinas ocuparam as ilhas Malvinas, invadidas pela Inglaterra em 1833.  O governo Galtieri calculou erroneamente que diante do fato consumado só restaria a definição de um novo status quo por meio de negociações.  Os Estados Unidos, a princípio, buscaram apaziguar os dois aliados.  O secretário de Estado Alexander Haig (1924-2010) propôs a retirada militar argentina e o estabelecimento de uma gestão tripartite no arquipélago (incluindo os próprios americanos) como condições para o início do diálogo.  
        Galtieri tentou pressionar os Estados Unidos acionando a Organização dos Estados Americanos (OEA), onde a Argentina contava com a solidariedade dos demais países latino-americanos.  Invocou também o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), antes utilizado pelos norte-americanos para mobilizar seus vizinhos contra o Eixo e contra Cuba.  A definição se deu no sentido oposto.  Iniciado o ataque britânico contra as ilhas, o governo Reagan abandonou a mediação, enquanto o Senado dos Estados Unidos aprovava sanções contra a Argentina e oferecia apoio logístico à Grã-Bretanha.  Em 14 de junho de 1982 a ditadura argentina se viu forçada a apresentar sua rendição, contabilizando mais de 700 mortos e desaparecidos e quase 1.300 feridos.  
      
Referências:

José A. Benítez.  El pensamiento revolucionario de hombres de nuestra América.  La Habana: Editora Política, 1986.
Manuel Moreno Fraginals.  Cuba/Espanha, Espanha/Cuba: uma história comum.  São Paulo: Edusc, 2005, p. 300 a 306.
Jean Sellier.  Atlas des peuples d'Amérique.  Paris: La Découverte, 2006, p. 154.
Héctor H. Bruit.  Revoluções na América Latina.  São Paulo: Atual, 1988, p. 92 a 94.
Luis Alberto Romero.  História contemporânea da Argentina.  Rio de Janeiro; Zahar, 2006, p. 217 a 223.       

sábado, 23 de junho de 2012

A direita e a conquista: mistificação ao extremo

Monumento a Hatuey, em Cuba

         Uma das bandeiras da direita contemporânea, sobretudo das correntes que dão mais ênfase ao fator religioso do que à política formal, mas não exclusivamente destas, é a reabilitação das colonizações.  Podemos localizar na Internet, com muita facilidade, trabalhos cujos autores minimizam a destruição imposta, entre os séculos XV e XX, às sociedades americanas, africanas, asiáticas e australianas pelas respectivas metrópoles europeias.  Nesta produção, sobressaem os textos e vídeos que enaltecem a conquista espanhola na América, não raro apresentada enquanto libertação de povos indígenas oprimidos por governantes e sacerdotes sanguinários.  Mesmo que tenham perdido o autogoverno e sofrido com os excessos de alguns indivíduos cruéis, os índios poderiam considerar o estabelecimento da administração colonial como um processo benéfico, visto que passaram a dispor de leis mais justas e do ingresso na "verdadeira fé".
          Dentro dos limites aceitáveis para uma postagem de blog, copio três parágrafos sobre a tomada do México pelos espanhóis, breve trecho que representa com perfeição a tendência acima descrita. A autora, Márcia Helena Alvim, dá a entender que, com exceção dos astecas batidos na guerra, os índios mesoamericanos desejaram a dominação espanhola, facilitando sua difusão por toda a área mexicana.  Desta aliança, teria surgido uma "sociedade mestiça", cuja hierarquia étnica, convenientemente, não é mencionada.              

                    
           Para expor o caráter falacioso deste tipo de discurso, não recorro, por ora, ao exemplo do México, mas sim à crônica da região em que se verificaram os primeiros contatos entre europeus e índios. As Antilhas, no final do século XV, não eram tão densamente ocupadas quanto o planalto mexicano.  Mesmo assim, abrigavam uma população considerável, da qual os taínos constituíam o grupo mais numeroso.  Este panorama mudou bruscamente em poucas décadas.  Apesar da imagem de humanista à frente de seu tempo que de hábito é associada à figura de Cristóvão Colombo, suas viagens às ilhas foram um prenúncio do caráter predatório da colonização que se iniciava.  Percebendo a inviabilidade do projeto de construir uma economia centrada na mineração, Colombo não apenas enviou índios como escravos para a Espanha, como inaugurou, no âmbito local, um sistema de trabalhos forçados.


Elliott 149


Elliott 151

          Sucedendo o genovês no comando das forças espanholas, o frei Nicolás de Ovando consolidou o domínio colonial sobre a Hispaniola, ilha atualmente compartilhada por haitianos e dominicanos.  Praticamente indefesos ante doenças infecciosas banais entre os europeus, os taínos sofreram um intenso morticínio.  Os que não eram massacrados diretamente na repressão às inevitáveis revoltas contra a servidão pereciam sob condições desumanas de trabalho ou em epidemias.

                                                 
                                                                   Elliott 153

                    Desapareceram enquanto etnia em pouco mais de um século de colonização.

Grondin 24
Grondin 26

            Uma parte dos taínos da Hispaniola se refugiou em Cuba, habitada por gente da mesma origem.  Entretanto, a experiência acumuladas nos combates anteriores foi insuficiente para deter os invasores.  O cacique Hatuey, que tomara para si o comando da resistência, sofreu o suplício reservado aos hereges.

Gott 28
Gott 29

        Contra a determinação dos índios cubanos de não se submeterem, os espanhóis empregavam seus cavalos e suas armas superiores.  Com muito sangue, a ilha inteira era conquistada.  

Gott 29
Gott 30

      Em pouco mais de vinte anos, os índios que tinham sobrevivido à guerra e às caçadas humanas promovidas pelos espanhóis estavam submetidos ao trabalho servil ou refugiados nas partes menos acessíveis do território.  Seu número, a exemplo do ocorrido na Hispaniola, declinou vertiginosamente.


Gott 30

             Pressionados pela escassez de mão de obra, os colonizadores traziam prisioneiros de outras partes da América, que também morriam pelas mesmas causas.

                                                                          Elliott153

Gott32
Gott33

             As estatísticas disponíveis sobre os indígenas de Cuba comprovam a sua quase extinção ao longo do século XVI.  A população autóctone da década de 1540, já muito reduzida em consequências dos processos mencionados, em duas gerações perdeu quatro quintos do seu quantitativo.

Gott 35
 Fraginals 67

        A mestiçagem entre europeus e índias não foi estranha à colonização espanhola das Antilhas.  Todavia, com exceção de poucos indivíduos privilegiados que lograram ser reconhecidos como brancos, os mestiços se viram relegados aos espaços mais subalternos da sociedade colonial.       

Fraginals65
Fraginals 66

               Prosseguiremos, em muitas outras oportunidades, na constatação de que nenhuma dominação é boa para os dominados.  Fato que todos os entusiastas do colonialismo, do neocolonialismo e do imperialismo se esforçam em encobrir. 


Referências:

ELLIOTT, J. H.  A conquista espanhola e a colonização da América.  In: História da América Latina: A América Latina Colonial, volume 1.  São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 1998.
FRAGINALS, Manuel Moreno.  Cuba/Espanha, Espanha/Cuba: uma história comum.  Bauru: Edusc, 2005.  
GOTT, Richard.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
GRONDIN, Marcelo.  Haiti: cultura, poder, desenvolvimento.  São Paulo: Brasiliense, 1985.